terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eusébio (o lado azul)

O telefone nunca toca ao domingo de manhã. É uma regra sagrada para um casal sem filhos: domingo de manhã é para dormir, sempre. No entanto, este domingo o telefone tocou. Era o pai do M..

- O Eusébio deve ter morrido - disse ele, antes de atender.

Porque só uma coisa assim tão grave quebraria a regra.

O Eusébio morreu mesmo. Eu virei-me para o lado cheia de sono. Ele não dormiu mais.

Eusébio, para ser sincera, não me dizia nada. Conhecia-o apenas pelos golos que passavam na televisão em datas marcantes. Não me era indiferente a sua qualidade, claro, mas era uma espécie de personagem dos livros de História, com defeitos e virtudes que me eram distantes. Cresci numa família portista que nunca o idolatrou. Contaram-me, ainda por cima, as histórias do rapaz negro que se tornou um grande exemplo do colonialismo do Estado Novo.

Eusébio, para mim, uma portuense, portista, de 27 anos, era um benfica e um país de outros tempos. Quando o meu sogro falava dele, eu conseguia ver nos seus olhos um benfica que eu nunca vi. Um benfica que ganhava, um benfica que metia medo, um benfica que era o símbolo máximo de um povo calado pela ditadura.

Mas o benfica e o país dos meus tempos não são assim, felizmente. Daí que Eusébio nunca me tenha motivado nenhuma rivalidade, sequer. Dizem que era bom homem e não me lembro de o ouvir dizer mal do meu FCPorto. Isso também terá ajudado, claro. Mas eu não sou do tempo do Eusébio. O tempo traz-nos diferentes olhares, diferentes opiniões. Maradona será sempre o melhor para o meu pai, Messi dificilmente perderá o primeiro lugar nos meus escolhidos. Messi é o meu Maradona, Maradona é o Messi do meu pai.

Para uma jornalista, a notícia de uma morte é quase sempre um conjunto de caracteres, uns telefonemas, umas manchetes. Escrevo sobre acidentes mortais todos os dias, as catástrofes naturais quase nunca me surpreendem e é raro parar para pensar sobre o que se está a passar. Fi-lo, por exemplo, quando escrevia sobre os seis miúdos que o mar levou no Meco. Fiquei genuinamente aterrorizada com o que estava a contar. A morte é mais fácil de encarar quando chega na altura certa, de uma maneira suave, sem sobressaltos e dor. Mas a morte de um ídolo nunca faz sentido, muito menos para um adepto. Eusébio não o era para mim, mas era-o para o M.. E, embora futebolisticamente espere que o benfica de Eusébio continue enterrado, não consegui deixar de ficar triste por ele. Pelo meu sogro. Pelas pessoas de quem gosto e que gostavam dele.

No domingo, no entanto, voltaremos ao relvado. E aí não há tempo para choradeira. A não ser quando eu penso no duplo pivot (PORQUÊ??? PORQUÊ QUE NÃO MUDAS ESSA MERDA?? Estou tão cansada disto...). Eusébio era futebol e é disso que todos nós gostamos. Por isso tenho pena que as atenções se possam virar para os adeptos portistas (muitos ou poucos) que não respeitarem a sua memória. Porque isso vai acontecer, preparem-se. A geração que irá à luz não se identifica com Eusébio, o grande jogador português, mas ouviu falar do benfica que os nossos avós nos ensinaram a odiar depois de tantos anos a sofrerem com o nosso, na altura, pequeno Porto. E quem vive em estádios, como eu, sabe que não é a morte de um ser humano que está em causa, mas uma rivalidade. Nós dizemos isto a brincar, claro, mas o M. ficaria mais afectado e eu, confesso, talvez visse uma vantagem se fosse o Matic que morresse esta semana.

Não estou a tentar desculpar quem eventualmente o faça, mas quem assobiar Eusébio estará, na verdade, a sentir que está a assobiar o benfica. Eu não o farei (nem sei assobiar, tenho a tarefa facilitadíssima!), mas também não vou gostar de ver os moralistas do costume a dizer que aquela gente do Norte é sempre a mesma coisa. É que, além de ser cientificamente improvável que uma pessoa, por ser de um clube diferente, se torne mais mal educada, uma rápida pesquisa mostrar-lhes-á que a rivalidade (e, por vezes, a estupidez) é transversal no mundo do futebol (um dia talvez o M. vos conte o dia em que, no estádio do Betis, se festejou com confetis a morte de um ex-presidente do Sevilha. É bonito? Se levarmos muito a sério, não. Tem piada? Se formos inteligentes, alguma).

O futebol é um jogo em que um dia eu estou bem e no outro está o M., mas não é o futebol que nos define enquanto pessoas. Há de tudo em todo o lado. Há adeptos do benfica que aplaudiram a equipa quando fomos campeões em pleno estádio da luz e, se houver destes no Porto, não me identifico nada com eles. Incomoda-me que alguém deseje a morte do meu presidente, mas não sou moralista. Prefiro sentir esse desejo como uma manifestação de rivalidade, um reconhecimento do tanto que essa pessoa me deu de bem e lhes deu de mal. Porque o Porto e o benfica, nos tempos de Eusébio ou agora, são dois rivais. É mesmo isso que tanto gozo nos dá.

- O Eusébio morreu mesmo? - perguntei eu, quando finalmente acordei.
- Sim - respondeu ele, já de olhos tristes.
- Porra. Isso vai ser uma vantagem para vocês no domingo.

21 comentários:

  1. A escrita é muito boa. A utilização da palavra Benfica com letra minúscula é triste e tacanho. Lamento. Afinal a escrita é tacanha. Boa sorte.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Meu caro, não percebeu nada do texto. É lógico que essa palavra só poderia estar escrita com letra pequena. Tal qual eu ensino aos meus filhos que não se dizem palavrões e que benfica é um palavrão.

      Eliminar
  2. Escrever Benfica com letra pequena mostra mentalidade pacovia...saloia e provinciana...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já cá faltavam os moralistas. Olhem mas é para os vossos adeptos que andam a vandalizar cachecois de outros clubes e nem respeitam a memória do Eusébio

      Eliminar

  3. «mas também não vou gostar de ver os moralistas do costume a dizer que aquela gente do Norte é sempre a mesma coisa.»
    (a propósito dos dois comentários acima... pena que os mesmos «moralistas do costume» não se importem, nem se insurjam quando o nosso clube é escrito amiúde por "fóculporto", por alguns com «mentalidade pacóvia, saloia e provinciana» que não do Norte... é, de facto, uma situação igualmente «triste e tacanha» que também lamento. só não desejo «boa sorte» pois espero vencer o encontro)

    ResponderEliminar
  4. "uma portuense, portista, de 27 anos, era um benfica e um país"-tudo MINÚSCULAS

    tacanhos saloios e pacóvios sao os srs com os vossos delírios despeitados

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. recomendo consulta às normas do uso de maiúsculas. o Ciberdúvidas é um local por onde pode principiar...
      (também recomendo a leitura do desacordo ortográfico em vigor, sobre o qual sou contra desde a sua concepção)

      Eliminar
    2. Penta 1975, sou Portista dos 4 costados e tb nasci em 1975
      Estava a referir me aos gomes da silva da blogosfera q se insurgiram contra um substantivo, entre tantos outros, com minúsculas
      Nao percebi a resposta, portanto..
      Essa cena do acordo n me assite e tb n sei pq foi chamada à colação..

      Jorge Mota

      Eliminar

    3. @ Jorge

      algo está em falta no teu comentário inicial.
      da forma como o apresentas, parece que és mais um dos «moralistas do costume».
      sinceramente não se percebe a sua mensagem, daí ter-me insurgido contra ti no "tom" cáustico que sei que tenho.
      porque te tomei por lampião, desde já te apresento as minhas desculpas. não foi minha intenção ofender-te e/ou insultar-te a esse ponto :D.

      a cena do acordo é só mais uma recomendação - a (i)legal portanto, não sei se me faço entender.

      abr@ço
      Miguel | Tomo II

      Eliminar
    4. Na boa Miguel

      A frase tem fifica em letras pequenas tal como porto, portuense e país.estava a mostrar aos meloeiros q n havia motivo para o ressabiamento do costume.

      Abraço

      Eliminar
    5. para quem tiver dois dedos de testa o comentário inicial é evidente. não lá falta nada.

      Eliminar
  5. Posso garantir que na bancada verde e branca do Estoril vou fazer todo o barulho que conseguir se decidirem homenagear esse senhor.
    Foi uma pessoa que nunca me mereceu qualquer respeito, nunca fez nada por mim, ou pelo meu clube, o qual nunca respeitou e várias vezes atacou, sem ter motivo para isso.
    Sinto-me tão representado por esse senhor em instâncias internacionais como pelo Tony Carreira em Paris, com a vantagem deste último ter nascido, de facto, em Portugal.
    Aliás a reacção dos adeptos vermelhos à sua morte mostra apenas a sua sobranceria que me faz não gostar deles, enquanto adeptos - há pessoas extraordinárias que são do benfica-, por ter sido símbolo deles e por eles se acharem os maiores tem de ter sido símbolo de toda a gente...
    Lamento, pelos meus amigos que se possam sentir ofendidos, mas a coerência não me permite não ter qualquer respeito por uma pessoa em vida e passar a gostar dela depois da morte, não tarda nada também querem minutos de silêncio pela maçã podre ou pelo nody, padrasto da Mariana, era só o que mais faltava.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se te mantivesses no teu sofá, cadeira, banco,.., whatever, sentado e caladinho e com os teus dedos ocupados em tudo menos em dar essa triste opinião, acho eu, que farias melhor. Mostraste espírito de desprezo a uma pessoa que ao lutar pelo seu sonho, orgulhou benfiquistas mas também portugueses, orgulhou Portugal na altura, e hoje faz-me orgulhar ser português e mostrar que nós, enquanto portugueses pequeninos para o mundo, lutando e trabalhando, nos conseguimos igualar aos demais. Eusébio, trabalhou por si(mas até isso fez pouco, pela ingenuidade), mas pelo clube e pelo país. Coisa que hoje quase nenhum futebolista o faz sem pensar só em si próprio. Por isto e pelo futebol de força, garra e ambição que praticou, até podias ter essa opinião, até a podes revelar também, mas não penses que estás certo porque não estás! Por ti, trabalhas tu e trabalham ou trabalharam os teus pais!

      Para acabar, já viste o que era se não homenagearmos os grandes? A cima de tudo é um obrigado, mas é quase obrigatório dizer este obrigado.

      Eliminar
  6. Sinceramente não vejo quem se possa sentir ofendido com este texto. É realmente preciso muita clubite aguda.
    Força C, mais um bom post, e também acho que a morte do Eusébio seja uma vantagem para eles.

    ResponderEliminar
  7. O texto nao tem nada de ofensivo

    ResponderEliminar
  8. "Benfica é Portugal" lembrou vieira no parlamento Europeu.
    "Benfica é um circo" Artur Jorge

    É preciso dizer mais alguma coisa, sobre o que se tem passado nos últimos dias em pt?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E tu és português! ------------------- PALHAÇO

      Eliminar
  9. C.

    O Porto só foi rival nos últimos 30 anos. Não te iludas.

    Também irei reagir mais ou menos como tu quando chegar a hora do PdC. Apesar de Eusébio ter sido um representante de todos nós, e PdC apenas de alguns de nós e mais alguns milhões de Gregos.

    Bom texto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Seguindo o mesmo raciocínio, o Benfica não foi rival nos últimos 20 anos? :) eu não sou um bom exemplo, porque não me sinto representada na selecção.

      Eliminar

    2. @ Germano

      bem sei que o comentário foi dirigido à C., mas há "coisas" que não consigo calar e que me revoltam as entranhas.

      até concedo que o nome de Eusébio possa significar união - no sentido em que congregou o respeito de muitos adeptos de cores rivais que não o da agremiação de Carnide.

      mas, só por tal (e, sim!, não foi pouco), não se pode inferir que o Eusébio foi «o representante de todos nós». certamente que não me revejo em algumas das suas atitudes menos próprias e das suas palavras menos desportivas - quer para portistas, quer para sportinguistas. e de como "apoiava" os clubes rivais em desafios para as provas da UEFA.

      no fundo, o seu comentário só reflecte um dos muitos mitos que renasceram ao longo desta semana.

      Eliminar
  10. "Benfica é Portugal" lembrou vieira no parlamento Europeu.
    "Benfica é um circo" Artur Jorge

    O Eusébio (com letra maiúscula pois foi assim que aprendi na escola), representa quem? Enquanto o quê? De referir que até os Moçambicanos nunca denotaram, grande simpatia pela figura, um tanto traidor à pátria dizem eles...
    Enquanto homem, de facto devia ser uma boa pessoa, afável presumo, pois nunca privei com tal personagem.
    Enquanto futebolista? Sim, morreu um dos melhores, mas também já morreram outros tantos do mesmo calibre. O Best, o Puskas, o Garrincha, o Leónidas (o tal que inventou o pontapé de bicicleta...) ...o Pinga...enfim uma miríade de talentos falecidos!
    Bom por esta altura já os mais empedernidos benfiquistas (com letra minúscula pois é nome que a mim nada me diz) se começam a espumar e, claro está, fruto do seu superior estatuto histórico-social, que advém do facto de serem, quase todos, provenientes da mais alta aristocracia do nosso burgo, irão apelidar, a mim e a todos os que não pertençam ao concelho de Lisboa, freguesia de benfica (e adeptos do dito), de pacóvios, saloios, provincianos...ah e tacanhos também, claro está.
    Eu por outro lado, sou da cidade que destronou tal hegemonia, passou-se a capital futebolística para Norte e "aqui d'el rei" que é tudo uma cambada de ladrões, pacóvios, saloios, provincianos...ah e tacanhos também, claro está. E isso meus caros é o que lhes dói, a saber:
    - 1 taça dos Campeões Europeus
    - 1 Liga dos Campeões
    - 1 Taça Uefa
    - 1 Liga Europa
    - 1 Supertaça Europeia
    - 2 taças Intercontinentais
    O resto não afecta muito, mais campeonato menos campeonato, mais taça de Portugal menos taça de Portugal, mais supertaça menos supertaça...o que lhes causa mossa é o facto de, muito do reconhecimento de Portugal no estrangeiro, passar pelo FCP, isso dói, então o benfica não é Portugal?
    - Não!
    O benfica é um circo!

    PS: Morreu o Eusébio. O melhor jogador que já actuou em Portugal ( é um facto). Paz à sua alma e deixem-no descansar em paz.

    PS 1: Não esperem é que quem seja afecto a outras cores esteja banhado em lágrimas e alinhem no coro da ida do falecido para o Panteão Nacional.

    PS 2: O Eusébio era do benfica por isso tratem dele, deixem é o resto do país de fora.

    PS 3: Quem se sentir muito incomodado com o que acabei de escrever parafraseio Maradona: "Que la chupen y sigan chupando".

    ResponderEliminar