domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio

Nós, médicos, estamos treinados para ultrapassar isto da morte. Vivemo-la muitas vezes e o seu absolutismo, a sua inacreditável estupidez e tamanho obrigam-nos a certos mecanismos de defesa que nos permitam seguir em frente. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer.

Eu nunca vi Eusébio jogar. Quando nasci, em 1984, já se tinha retirado e a minha primeira memória do King é a banda-desenhada de Eugénio Silva "Eusébio, Pantera Negra". Eusébio é, para mim, o herói do Benfica de banda-desenhada. Foi a partir desse livro que o meu pai me contou as façanhas de Eusébio, os episódios que mais o marcaram, os golos que marcaram a sua meninice. É da estátua de Eusébio que me lembro na primeira vez que fui ao Estádio da Luz (1-1 com o Boavista). 

Para mim, sem o ter visto jogar, Eusébio era o divino. Era o Benfica que tinha sido invencível, era o Benfica europeu, dominador, fantástico. O Benfica que tinha conquistado aqueles campeonatos todos, que tinha marcado gerações e gerações e marcara o nome do meu clube na história do futebol mundial. Eusébio, que eu nunca tinha visto jogar, era, no fundo, a minha imaginação. O meu Benfica imaginário, que eu queria ter vivido, que eu gostava de voltar a ver. O Benfica do qual o meu pai falava com um brilho nos olhos. Eusébio era, mais coisa menos coisa, a razão pela qual o meu pai era do Benfica e eu, mesmo sem o ter conseguido verbalizar até hoje, talvez tenha percebido que, por via indirecta, era por causa dele que eu era do Benfica. 
Com 5 ou 6 anos, nas mais intrincadas discussões futebolísticas, lembro-me de gritar uma vez no infantário: "Mas se o Eusébio jogasse vocês não tinham hipóteses!". Ainda hoje me parece um argumento difícil de rebater.

A idade e este Benfica que me calhou em sorte tornou-me um cínico. Nunca achei graça ao aproveitamento político do King, nunca gostei que se desse a tantos excessos, e, mais grave, percebi que muito dificilmente vou viver esse seu Benfica. O Benfica das vitórias, da glória europeia, o "Ben-fica" com sotaque inglês de Bobby Charlton. O Benfica dos olhos do meu pai. O Benfica de camisolas vermelhas, golas brancas e número cosido nas costas. O Benfica do meu tempo, infelizmente, é o Benfica que apaga as luzes na hora da derrota e perde muito mais que ganha. Talvez por isso, e pelo treino de médico, não me tenha imediatamente emocionado com a morte da maior lenda do meu clube. Só ao longo do dia, vendo as inúmeras manifestações de todos os ilustres representantes do "beautiful game" percebi e senti o legado que Eusébio nos deixou. Muito dificilmente o nome do Benfica subirá tão alto como hoje no meu tempo de vida. 

As manifestações de respeito e carinho de figuras como Maradona, Pelé, Franz Beckenbauer, Bobby Charlton, Michel Platini ou de clubes como AC Milan, Manchester United, Real Madrid, Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal, AS Roma, além de destaque na Marca, As, L`Equipe, BBC, CNN, Guardian, Gazzetta Dello Sport devem fazer parar o coração de qualquer benfiquista. Devem fazer-nos, nem que seja por um momento, pensar que se o museu tem aqueles troféus, se o Estádio da Luz tem aquele tamanho, se somos assim tantos, se somos o que somos, muito se deve a Eusébio da Silva Ferreira.

Hoje não partiu a minha infância, mas partiu a de quem me passou o benfiquismo. 

O Benfica não morre com a partida de Eusébio. Mas o ressurgimento da sua memória colectiva, a sua grandeza, o rasto de vitórias e derrotas marcantes que deixou, marcando de forma supra-histórica o Mundial de 1966, é a mais fulgurante oportunidade que Benfiquistas como eu, que nunca viram Eusébio jogar, têm de sentir o seu clube e a sua maior glória, orgulhando-se e espantando-se com o sem número de línguas que dizem o nome Eusébio e, por consequência, o do Benfica. Se queremos que daqui a 50, 60 anos, outro Eusébio seja chorado, urge que o Benfica deixe de ser um clube que apaga as luzes na hora das derrotas, que se desculpa, que parece querer viver à margem dos seus sócios e  faça tudo para se transformar e voltar a ser o clube mítico que parece reluzir nos olhos do meu pai e nas palavras de Bobby Charlton.

Nós, médicos, estamos treinados para passar por cima disto da morte. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer. Mas hoje morreu o Eusébio. Não há treino que valha ao médico quando é o Benfiquista que chora por dentro.

3 comentários:

  1. Só o vi jogar uma vez mas essa não conta. Foi quando fez 50 anos e jogou contra as velhas glórias do Manchester United. Habituei-me desde criança a ver os treinos do Benfica nos campos 2 e 3 da velha Luz e inevitavelmente os meus olhos resvalavam para o King a dar toques, a rematar á baliza, a por as marcas no chão para as peladinhas, a rematar de meio-campo para acertar na barra (e acertava muitas vezes), etc. Era uma delicia para mim ver aquele toque de bola. Nunca vou esquecer Eusébio, cada vez que alguém fala na TV sobre ele, lá vem a lágrima ao olho. Já estive no Estádio ao pé da sua urna e foi difícil, muito difícil. Espero que no domingo se faça a merecida homenagem ao King. Viva, Viva o Eusébio!!!

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  2. @ M.

    ao único benfiquista que prezo, sobretudo pelo prazer da leitura do que tão bem escreve sobre Futebol, daqui envio o meu abr@ço virtual, solidário com a perda de uma lenda do seu clube do coração.

    Miguel | Tomo II

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  3. Eu foi como se tivesse estado num acidente. Dia duríssimo. Todo o tempo com ouvidos a zumbir.
    -
    http://noparalelo23.blogspot.pt/2014/01/eusebio-da-silva-ferreira.html

    Agora é ganhar aos odientos.

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