quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Stress pós-traumático

Tenho saudades de amar o Benfica. Amar. Amar desenfreada e loucamente, sorrir e sentir os meus olhos a brilhar quando se fala do Benfica. Saudades da comunhão, de me sentir capaz de confiar cegamente (se bem que, honestamente, eu nunca confiei assim no Benfica e duvido que alguma vez o consiga vir a fazer).

Eu sei, ganhámos. Ganhámos 2-0 e até pareceu simples. Eu devia estar contente e, confesso, estou algo surpreendido. Espero que vocês compreendam a bordoada que eu vou mandar agora: Eu compreenderia se, depois de Maio de 2013, os jogadores do Benfica se tivessem suicidado todos. (Ainda estão cá? Vão continuar a ler?). Era uma morte digna, um hara-kiri à japonesa, numa tentativa de salvar a honra (semelhante ao que a C. praticamente faz quando um carro que não tem prioridade consegue meter-se primeiro no cruzamento do que ela. A C. sente que isso é um vexame que envergonhará os nossos bisnetos). Sinceramente, para alguns deles, seria até uma maneira de, finalmente, serem apreciados por mim, ao sentir que pelo menos tinham sentido aquela perda como eu. No entanto, e passados uns meses do pior período da história do humanidade, eis que o Benfica ganha aos seus rivais e passa para a frente do campeonato. Eu devia estar feliz com isso - e estou, na medida em que isso é melhor do que um plantel ter-se suicidado, mas não estou convencido. Não sei se é stress pós-traumático, se é só feitio. 


 Não estou convencido por dois tipos de razões: as primeiras são irracionais e fazem parte da minha loucura, ou seja, eu parto do princípio que tudo nos vai correr mal. Tudo. Eu assumo sempre, mas sempre, que o rival naquele dia se vai matar em campo e que o nosso guarda-redes anda a ser chantageado por um polícia. Isto, com toda a probabilidade, vai-me retirar anos de vida, quase tantos como aqueles que a C. perde quando um carro lhe ganha um cruzamento (a sério, C., não é preciso ficar com o olhar Paulinho-Santos-quando-via-o-JVP sempre que isso acontece. É só um cruzamento e a seguir passamos nós, querida).
O segundo tipo de razões é mais racional: perdemos Matic e Salvio e Cardozo estão de baixa há mais tempo do que é normal (em milhões de benfiquistas não havia ninguém que desse um ligamento ao Salvio?), o que é equivalente a dizer que estamos numa guerra sem as nossas metralhadoras e que agora vamos tentar combater o inimigo não tendo generais. E, além disso, pusémos à venda metade do regimento. Para o observador externo, mais parece que andamos a dar tiros no pé do que a tentar ganhar a guerra. Ora, isto, aos olhos de quem, aos 90 minutos, face a um livre indirecto do Porto, pensou "pronto, eles vão marcar agora e ainda empatam e eu vou ter aqui uma coisa má", é só a pior coisa do mundo. Não há nada mais lixado para um paranóico do que ser efectivamente perseguido. 

Eu sei que já escrevi isto mil vezes e a C. goza-me a dizer que eu tenho que deixar de acreditar que vou ser presidente do Benfica e que posso parar com a campanha. Eu sei que devia. Em primeiro lugar porque vou ser jogador ("não joga o Matic, joga o Manel"), mas em segundo lugar porque até para mim mesmo me torno cansativo, com este género de benfiquismo circular, sempre a lamuriar-se. E a verdade é que, face ao duplo-pivot de Paulo Fonseca, quase todos os problemas parecem piores. Pelo menos para a C., aos olhos de quem aquela linha de dois trincos a atrapalharem-se parece pior que a II Guerra Mundial para os polacos. Mas poderei eu animar-me e ceder aos olhos (lindíssimos) de quem, além de ser do Porto, não deixa ninguém passar num cruzamento? Não será mesmo isso que ela quer, que eu baixe as defesas? 


É disso que eu tenho saudades, de me animar. De me entregar sem medo. De ter um bocadinho de fé sem me sentir logo ridículo. Eu nem sei se alguma vez fui assim ou poderei vir a ser, mas gostava, juro que gostava. O problema é que eu tenho de aturar um presidente que vende o craque da equipa por metade da cláusula, tenho um treinador que, com uma só frase, arrasou toda a formação. E um plantel valioso, mas insuficiente para, 11 contra 10 do Porto, ao menos ter a bola nos pés. E como é que uma pessoa acredita em alguma coisa depois de Maio do ano passado? 

Eu sei, eu sei. Era suposto, depois de um clássico e vivendo com a C., vir para aqui cantar vitória. Mas isso era o mesmo que a C. começar a ser uma cordeirinha ao volante. Eu já vi o Benfica levar muita porrada. De dentro e de fora. Desde a morte na praia até ao assassinato do seu património. Não sei quantas vezes o Benfica vai ter de ultrapassar todas as coisas que se parecem mover contra ele. Não sei quantas vezes vou ter de esperar que o Benfica nasça outra vez. O que te prometo, Benfica, é que de todas as vezes, vou esperar pacientemente e ao teu lado. Vou contigo até ao fim, sem as melhores metralhadoras, com o general vendido a meio da batalha. Domingo após domingo, clássico após clássico, ano após ano. Posso não dar berros em cada parto, pode não me cair uma lágrima cada vez que entras em campo, posso não gritar o "NINGUÉM PÁRA O BENFICA!" sem temer que isso dê azar. Mas eu estou aqui, a escrever este texto repetidamente, da minha maneira traumatizada, perturbada e ansiosa, ao teu lado. 

Vou ver-te nascer as vezes que for preciso até, finalmente, me animar. 

6 comentários:

  1. Bom texto!! Gostei de ler.

    Se fosse do teu clube também era provável que me sentisse assim. Ou pior, com um treinador e um presidente dessa categoria...

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  2. se um dia fores presidente candidato-me já aqui ao lugar de Barbas. Primeiros!

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  3. Parabéns pelo texto. Mas tenho que discordar do que diz. O caro M. não é paranóico, simplesmente tem uma noção correcta da realidade. Imagino que ser adepto do seu clube é estar em constante sobressalto quando o adversário que se aproxima é o colosso FCPorto. Uma equipa que tem poderes sobrenaturais, que consegue apagar a luz do estádio da luz e ligar os aspersores da rega, apenas com a força da mente. Enfim como não sentir-se perseguido quando o adversário tem tamanha grandiosidade e poder? Eu sei que me sentiria, não fora dar-se o feliz acaso de ter nascido portista. Um abraço solidário.

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  4. pois pá, acho que todos os benfiquistas desta geração são assim. triste sina a nossa.
    não assumas, presume, parte do princípio.
    bom texto.

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  5. Típico português! Sempre com o espírito pessimista. Fiquei incomodado com este texto.

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  6. Eu também sou Português... e Benfiquista, por isso...

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