quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vão ver o jogo juntos?

Percebo a tentação da pergunta. Para este filme de um casal de clubes diferentes ficar completo, são necessários aqueles planos de nós os dois, juntos na bancada, cada um com o seu cachecol e muito sorridentes porque gostamos muito um do outro e isso supera tudo. Estou quase a vomitar. Porque, felizmente ou infelizmente, não sei, esse casal não somos nós.

Não consigo sequer imaginar o que seria ver este jogo ao lado do M.. E nem seria só por ele, que nestas alturas diz coisas completamente absurdas que me dariam a justa causa para pedir o divórcio abaixo da cláusula de rescisão, mas sobretudo pelo que estaria à volta.

O futebol, para mim, não é uma experiência pessoal. Eu não quero que o meu clube ganhe só para eu ficar feliz. Não me basta olhar para o relvado e absorver internamente o que se está a passar. Não sou capaz de viver um benfica-Porto sozinha. E era isso que aconteceria se um dia eu cometesse o erro de ir ver um jogo destes ao lado do M..

Mas então, C., estarias com o teu marido, que te ama muito e te iria proteger daqueles malucos que gritam de alegria quando vêem passar uma águia. Sim, acredito que sim, a não ser que o Porto marcasse primeiro e o M. começasse aos berros a denunciar o meu ódio ao benfica e a dizer que eu merecia ser comida pelo tal milhafre. Podia acontecer. E o pior é que, só de imaginar esse cenário, comigo a correr e a fugir de milhares de lampiões enfurecidos, eu sorrio, porque o Porto pelo menos estava a ganhar.

Mesmo admitindo esse risco, eu teria de tornar-me cega, surda e muda. Não poderia gritar penalty de cada vez que o Garay atirava ao chão um jogador meu e teria de não bater no gajo do lado (o meu marido, possivelmente) quando ele aplaudisse o amarelo e consequente vermelho por simulação. O M., que adora quando o Porto é roubado porque sabe que me irrita mais, iria provocar-me ao apontar para o adepto que diria um lamentável “É muito difícil para o árbitro” e eu não aguentaria mais. Imagino-me a entrar no relvado, dar um cachaço ao árbitro e voltar mais aliviada. Esperem... Isto já aconteceu, não já?

Voltemos ao cenário em que eu estou numa bancada rodeada de lampiões. O Jackson vai isolado para a baliza, eu levanto-me e incentivo-o, mas o f%#& da p!$#$ do árbitro interrompe a jogada. O que seria aceitável eu fazer? Chamar-lhe ladrão penso que não me causaria problemas, porque há uma espécie de acordo universal entre adeptos em que ninguém defende o árbitro seja em que condições for, mas eu não iria ficar por ali. Porque o benfica é sempre beneficiado, e isto está tudo feito para estes c#amp;#&$ serem campeões porque o ano passado nós conseguimos destruí-los, e de repente sai-me o nome do Kelvin ou o número 92, e lá estou a ser perseguida por milhares de lampiões pela bancada fora. Na minha mente, isto acaba quase sempre assim.

Por outro lado, se o M. estivesse ao meu lado naquele momento, eu iria gritar-lhe: “E AGORA? DIZ LÁ QUE NÃO ESTAMOS A SER ROUBADOS!”. Porque eu gosto muito dele e quero que ele veja o mundo tal como eu. Seria um momento tão bonito, nós a partilharmos a mesma visão sobre um lance de um jogo entre os nossos clubes. Mas ele negaria tudo, inventaria uma nova regra para justificar a estupidez do Soares Dias e começaria a passar um atestado para eu ser internada numa unidade de psiquiatria. Ele tem esse poder sobre mim.

E eu desabafaria que nós não estamos a jogar um c”#$#$34 e que o nosso extremo não tem lugar nem no Ramaldense. E eles ficariam confusos, porque o Gaitán, aparentemente, tem todas as condições para fazer uma bela carreira no Ramaldense. E eu continuaria, que o nosso treinador é teimoso e burro, que estou farta disto, que não aguento mais. E um deles iria tocar-me no ombro, em jeito de compreensão, enquanto me contaria que desde os 5-0 no Dragão que também acha o Jesus um incompetente. E agora, só por este momento, talvez valesse mesmo a pena ver um jogo do outro lado.

Do outro lado. Porque eu e o M. somos um casal, mas somos de lados diferentes. E eu não me sinto bem do lado dele. O lado dele é vermelho e eu não gosto, o lado dele estava em maioria mas calado, o lado dele está tão habituado a perder com o meu lado que parece que nem estava a contar com a enorme quantidade de ofertas que o meu lado lhes deu. É verdade, se víssemos este jogo juntos podíamos dar a mão, aparecer na televisão com um ar fofinho e dar um grande exemplo de civismo. Mas não é assim que entendemos o futebol. Sobretudo, não é assim que vivemos os nossos clubes.

O futebol não é uma experiência pessoal, é para ser vivido com os outros, os que estão do meu lado, os meus. Eu quero que o meu clube ganhe para nós, os bons, ficarmos todos felizes. Eu olho para o relvado, a partir de uma bancada azul, e canto, e grito, e salto, quando os meus cantam, e gritam, e saltam. Não sou capaz de viver um benfica-Porto sozinha, mas ali somos um só. E, nessa parte - só mesmo nessa parte, porque tudo o resto já sabemos que não está a funcionar, e notem que consegui escrever um texto sobre o clássico disfarçando a minha revolta -, foi mesmo bom.

3 comentários:

  1. Espectacular texto!!!
    - "pedir o divórcio abaixo da cláusula de rescisão";
    - " dar um cachaço ao árbitro (...) Isto já aconteceu, não já? ";

    Muito bom!!! Parabéns!!!!

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  2. parabéns!
    mais um enorme texto para ser publicado no livro homónimo do blogue :D

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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  3. Só para que conste, o Milhafre é de facto uma águia.

    Bom texto.

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