quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Diz-me com quem andas

Eu nasci, cresci e infelizmente não vivi para sempre no Porto. Reparei até no outro dia que estou há cinco anos em Lisboa. O sotaque já não é o mesmo, mas há coisas que não mudam. É “à beira” e nunca “ao pé”, “sapatilhas” não são, evidentemente, “ténis”, são “3 menos um quarto” e não me habituo ao “um quarto para as 3”. Continuo a dizer “cá” para me referir ao Porto quando estou a 300 quilómetros de distância e “vou a casa” significa sempre subir a A1. O Porto é a minha casa.

Aprendi, no entanto, a gostar de Lisboa. A luz é realmente única, há mais sol do que nevoeiro e a calçada portuguesa torna os dias mais sorridentes do que o granito. Sim, admito que não ter de passar na Segunda Circular todos os dias tenha ajudado à minha integração. Lisboa não é o benfica e o sportem, Lisboa é Lisboa, uma mistura de portugueses de todas as regiões e de estrangeiros de todos os continentes. E eu gosto de me sentir numa cidade do mundo, de ouvir línguas diferentes, de olhar para rostos mais negros ou mais asiáticos, de nem reparar na roupa do punk ou do homossexual.

Lisboa é isto, mas Lisboa também é o vizinho que não me cumprimenta ou a pressa que não deixa ajudar a idosa a carregar os sacos. Em Lisboa chamam-me “senhora”, e não “menina”, e isso eu não posso perdoar. Em Lisboa, e mesmo com o sotaque a falhar, eu sou sempre “do Norte”, e não do Porto, porque Norte é tudo acima de Lisboa e Sul é o Algarve. Em cinco anos, detectei facilmente o problema de Lisboa: é que, em Lisboa, quase ninguém é de Lisboa. Lisboa não tem o bairrismo, não tem o encontrar-se sempre alguém conhecido na rua, não tem um só sotaque, não tem uma espécie de “carago” no início, no fim ou em qualquer meio de uma frase, não tem uma identidade. Lisboa é grande e diferente demais para ser uma só Lisboa.

E Lisboa não tem, ainda por cima, um clube. É claro que o Porto não tem só o FCPorto e que a cidade tem lampiões e lagartos (são os piores, aliás), mas, se viesse aí um meteorito que ia acabar com o planeta e fosse dado a escolher a um portuense que clube é que ia lá acabar com ele, parece-me que a escolha seria óbvia. Em Lisboa há dois clubes grandes, mais os que são de outros clubes ou só da selecção (até viver aqui nem sabia que esta espécie existia), mais os que não gostam de futebol (nunca conheci tanta gente que não gosta de futebol como em Lisboa, acho que é um fenómeno que merecia ser estudado). Tudo junto, não há uma só voz e ia ser uma grande confusão se um lisboeta tivesse de escolher quem ia lá acabar com o meteorito.

Feita a introdução geográfico-social, vamos mesmo à bola. O FCPorto dos últimos 30 anos cresceu também à custa da rivalidade com Lisboa. O discurso pegou e, infelizmente, continua a ser uma mensagem fácil de passar: a capital é sempre favorecida. Lisboa são os mouros, só queremos Lisboa a arder e cheira a merda, cheira a Lisboa. É esta rivalidade, este ódio, que motiva o FCPorto para ganhar mais do que os clubes de Lisboa. O FCPorto ganha muito porque sabe escolher treinadores (cof cof), sabe comprar jogadores (cof cof cof), mas sabe, sobretudo, unir-se contra os ataques de fora, de lá de baixo, daqui de Lisboa.

O FCPorto não precisa de aliados. Pelo contrário, o FCPorto precisa de estar sozinho para querer ganhar sempre. Contra tudo e contra todos, de preferência. Não só vivemos bem com o ódio dos outros, como nos motivamos com ele. Se é uma atitude de guerrilha, que não ajuda a que os casais de clubes diferentes vão de mão dada ao Dragão? Sim, admito que sim, mas eu não gosto sequer de andar de mão dada com o M. em dias de clássico, por isso não sou um bom exemplo.

Já os clubes de Lisboa andam às voltas a tentar derrotar o domínio “do Norte”, mas não têm conseguido. Já tentaram várias estratégias, mas falharam. A nova, bem notória neste derby, é juntarem-se. Não sei se fui só eu - que nestes jogos estou sempre excitadíssima com a hipótese de haver porrada, expulsões, polémicas de arbitragem e placas do estádio a voar – que notei, mas este benfica-sportem mais pareceu um amigável. E, mesmo nos amigáveis, já vi um capitão vermelho a mandar um árbitro ao chão, por isso não estava mesmo nada à espera de tanta calma.

Talvez seja eu que sou doente, mas façam lá o exercício de imaginar que uma daquelas equipas era o FCPorto. Um estádio a desfazer-se, um jogo adiado, adeptos visitantes a ficarem mais tempo perto do perigo do que os outros, uma vistoria suspeita. Seria uma festa, certo? Podem alegar, ainda assim, que, confrontado com uma situação destas, também o FCPorto não seria tão tolerante. Certo, certíssimo. Iríamos tentar expor todas as falhas dos outros, com certeza. Mas, se isto acontecesse no Dragão, temos a certeza que não seria nomeada uma equipa especial do Ministério Público para investigar tanta incompetência?

O derby, o maior derby do país, já não é o mesmo. E não é só pela diferença das equipas (tens de começar a dar mais luta, Bruno). Os dirigentes dos dois clubes de Lisboa estão a unir-se à frente de todos com um objectivo comum. E é engraçado ver que, na linha da frente, não está, como é habitual, o clube e o presidente traumatizados com o FCPorto. Estão estes, que tão felizes eram connosco ainda há uns meses:



Mal agradecidos.

Só espero que, no meio de tanta incompetência, más escolhas e falta de vontade, o meu clube use isto para ficar mais forte. Afinal de contas, é tão inesperado este FCPorto ainda estar na luta como um clube qualquer ter de ir salvar o planeta de um meteorito.

3 comentários:

  1. O que me preocupa é mesmo isso só temos mais 4 pontos e contas feitas isso dá....pois :) Por isso só espero que não voltemos a ser incompetentes ainda faltam 36 pontos para sermos campeões.

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  2. O pior Porto desde do tempo do Octávio, a nível de qualidade de jogo, ainda consegue estar em 2º e causar pesadelos ao que vai em 1º(que tem o melhor plantel dos últimos 30 anos).
    Ao scp está-lhe a acabar a tesão do mijo. Não nos conseguiu ganhar em campo e foi reclamar à secretaria. Quando foi jogar a um estádio com as telhas a cair e com os seus adeptos em perigo, não soube evocar o artigo 94. Perdeu o jogo de repetição para ver se aprende(não me acredito que tenha aprendido).

    Mais uma vez, o texto está muito bom!! Parabéns!!

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  3. Se isto acontecesse no Dragão, a equipa especial do Ministério Publico seria a mesma que investigou o "suicídio" do Mesquita Alves nas instalações do Estádio do Dragão......

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