sexta-feira, 14 de março de 2014

A bazófia

Entramos naquela fase da época em que todos os jogos, além de serem o habitual sofrimento, podem mesmo decidir tudo. É normalmente nesta altura que nos imaginam com problemas conjugais relacionados com o facto de eu ser do melhor clube do mundo e do M. ser de um dos dois piores. Admito que isto cá em casa teria mais piada se andássemos constantemente a dizer ao outro "o meu clube é melhor do que o teu e vai ganhar ao teu por 5-0 e vocês vão ficar a cheirar mal". Essas coisas normais. Só que nós não somos assim.

Não sei se por amor ou apenas por instinto de sobrevivência, mas nós aprendemos a respeitar-nos mutuamente, mesmo sendo de dois clubes que dificilmente poderiam odiar-se mais e mesmo estando casados, sendo que não sei qual deles é o maior desafio (a rivalidade clubística chega a parecer pouco quando se vive com alguém que não sabe ligar a máquina de lavar louça).

Mas não é só pelo facto de sermos um casal do Porto e do benfica. A verdade é que nós não somos daqueles adeptos que gostam de andar a massacrar os do outro
lado com previsões de grandes atrocidades. Não que o façamos por civismo ou boa educação, nada disso, que horror, mas antes por uma mistura entre consciência de que no futebol tudo muda em pouco tempo e um medo aterrador de que isso dê azar.

O problema, o que nos afecta mesmo, é que nem assim estamos protegidos deles. E a partir daqui vou ter de passar a falar na primeira pessoa do singular, porque o M. sofre bem menos do que eu. Não só porque não contacta com muitos portistas diariamente, mas sobretudo porque contacta com uns extraordinários, tipo eu e a minha família. Admito que isto desvirtue um bocadinho a amostra para a grande conclusão científica que estou prestes a revelar-vos: os adeptos do benfica têm a maior concentração de níveis de bazófia.

A principal prova que eu recolhi após todos estes anos de estudo é que a palavra "bazófia" nem sequer ser é utilizada no Porto. Há alguns sinónimos, como "ter a mania" ou, o mais comum, "estás a precisar de levar um estalo nessas trombas", mas "bazófia" nem por isso. Depois, claro, ajuda o facto de o FCPorto ganhar muito. Parecendo que não, uma pessoa habitua-se a isso e não precisa de andar a bater no ceguinho para que os outros sofram.

Há, no entanto, aquelas épocas em que o benfica lá consegue ganhar alguma coisa. Ou pelo menos parece muito que vai ganhar. E, portanto, a bazófia dispara. Porque ninguém os pára, e são o maior clube do mundo, e a onda vermelha e não sei o quê. O ambiente mediático ajuda, o sol está de volta e estão reunidas então as condições para vários meses não só de Primavera e Verão, como também, infelizmente, de bazófia benfiquista.

Para quem não sabe muito bem como isto funciona, confesso que me é difícil explicar o que é a bazófia benfiquista. Não são só as coisas que dizem, que cantam, que escrevem. É um sentimento, mesmo. Eles convencem-se que são imparáveis, que são super-heróis que vão salvar o mundo, que não vai haver pobreza quando o benfica ganhar (é o PIB, certo?). Na cabeça deles, o benfica ir à frente é a cura do cancro, a descoberta de vida extraterrestre e o fim do aquecimento global, tudo junto.

E não me entendam mal: eu não confundo bazófia com um orgulho imenso no seu clube. Eu também tenho muito no meu (quando vai ou não à frente), eu também estou convencida que o meu é o melhor (com a diferença que o meu é mesmo). O M., cujos níveis de bazófia são tão poucos que às vezes desconfio que ele devia ser adepto, sei lá, do alverca, adora o benfica, vive para aquela porcaria, e no entanto é capaz de perceber que, ainda que muito bem encaminhado para tal, o clube dele ainda não ganhou nada esta época.

Escrever isto tem ainda mais piada tendo em conta as últimas duas épocas. Não sei se se lembram, mas fez agora dois anos que o Porto foi jogar à luz com os níveis de bazófia do outro lado no máximo. E há um ano, enfim, escusado será recordar outra vez o que se passou há um ano, até para evitar que o M. leia isto e acabe rapidamente com aquela coisa do "oh pra nós tão fofinhos cá em casa".

Ainda assim, parece-me que o efeito Kelvin tem tido algumas repercussões nos níveis de bazófia. Se o melhor minuto 92 de sempre não tivesse acontecido, imaginem o circo que isto não andaria nesta altura. Se o Cardozo não tivesse personificado a vontade dos lampiões em relação ao Jesus na final da taça, imaginem as coisas que o homem já teria feito (do género bater em polícias ou fazer um sinal com os dedos a um treinador adversário quando ainda falta jogar a segunda mão).

E chegamos ao ponto essencial da questão. Os adeptos da bazófia parece que não percebem que o que Jorge Jesus fez ontem não é um "mind game" à Mourinho, nem sequer um "tomem lá bifes que o benfica é o maior e vai ganhar tudo e isso". Vocês já deviam ter aprendido que naquela pequenina cabeça só cabe um pensamento: "eu sou o maior". E se até nos podemos rir do sinal com os dedos, vejam bem o que ele faz ao Raul José e ao Sheu. Ao Sheu, por amor de deus. Um homem que trata assim um homem da casa está-se bem a cagar para a casa, para o benfica.

O problema (vosso, não meu) é que aquilo que Jesus fez não é só o acto de loucura de um inimputável. Jesus não é só o treinador que não consegue conter o ego quando o benfica vai à frente e joga bem. Porque ele é o mesmo treinador que levou 5 do Porto, que nos deixou ser campeões no estádio deles, que perdeu vantagens com os mesmos erros contra Vitor Pereira, que deixou escapar três troféus em poucos dias. Aquilo que Jesus fez é o exemplo perfeito do que vos quero mostrar: a bazófia, no benfica, não aprende.

19 comentários:

  1. Cara C.,

    Ontem, ouvi o relato do Spurs-Benfica enquanto fazia a minha deslocação diária entre Philadelphia e Newark (Delaware). Senti uma felicidade imensa com a prestação da equipa, cerrei o punho quando marcamos dois dos três golos, mas acima de tudo, sinto a "chama imensa" ao ouvir o apoio incessante de milhares de benfiquistas presentes em White Heart Lane. E é precisamente pela C. não saber o que é a chama imensa e por também não a sentir, que confunde paixão e bazófia.

    Saudações,
    Nuno Martins

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    1. Olá Nuno e obrigada por nos ler de tão longe. Acho o seu relato muito bonito, emocionante mesmo, só peça numa coisa: tudo isso que escreve é exactamente igual a qualquer outro clube. Isso é o que nos define como adeptos, a tal paixão. Não é disso que escrevo aqui.

      Saudações!

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    2. Era "só peca numa coisa", maldito corrector :)

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  2. mas já têm o Marquês reservado outra vez?? (-;

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  3. até o Sol brilha alto! :D
    a Primavera chegou mais cedo ao Dragão. será que o "vale e azevedo verde" também se vai queixar por este nosso momento?

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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  4. O texto está muito bom, como sempre, mas tenho isto a dizer:

    90% da bazófia que nos atribuem nos últimos anos é relacionada ou culpa do JJ... um sportinguista.

    Quando o Mourinho, que muito admiro, rasgou a camisola do Rui Jorge ou meteu um dedo no olho do Tito Villanova estava só a ser um perfeito anormal. Nada de mind games, só estava a ser uma besta naquele momento. Felizmente retratou-se da segunda.

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    1. 1)
      não ficou provado que, em Fevereiro de 2004, José Mourinho, enquanto treinador do FC Porto, tivesse rasgado a "tal" camisola como o sr. eduardo pretendia que tivesse acontecido - episódio que motivou um comunicado posterior.
      2)
      já 'el especial', em Agosto de 2011, ao serviço do Real Madrid, foi com o dedo ao olho de Tito Vilanova. e como eu sou adepto do FC Porto, quero mais é que o Real Madrid se lixe com um F bem maiúsculo.

      portanto, aferir que só por ser "o" José Mourinho todos os portistas se irão prostrar aos pés do "cool one" só pode ser bazófia mesmo...

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    2. já eu, pessoalmente, não infiro nada quanto a portistas, e nem sequer lhes tento aferir a bazófia. bazófia, para mim, é ter a presunção de formular regras aplicáveis a grupos heterogéneos de gente que têm como característica comum o apoio a um determinado clube. ou, por outras palavras, bazófia é dizer "nós somos mais fixes, temos menos bazófia".
      já agora, eu sou do benfica e também acho que o anormal do nosso treinador (mais 1 vez, um sportinguista, só naquela) é o príncipe da bazófia e um merdas que faz peito ao shéu, que levou 5 do clube da fruta, que lhe permitiu festejar o título na nossa casa and so on.

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  5. faz posts do teu clubinho, faz querida, e não vivas ,nem respires BENFICA tantas vezes ao dia.....preocupa te com a tua equipa, porque com o BENFICA estamos cá nós para postar, falar, apoiar, gritar e dizer bem alto, que ORGULHO eu tenho em ser bazof.

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    1. Depois queixe-se que o País está da forma que está... Há que ter orgulho em ser o pior tipo possível...

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  6. Basta perderem um jogo que os tipos começam a pensar no minuto 92...

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  7. A bazófia de JJ rebenta qqr escala, SL.

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  8. Shhhhiu! deixai-os estar... deixai-os acreditar... deixai-os basofiar... deixai-os pousar...

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  9. Quando fizerem um jogo como o de Londres podem ter bazófia. Até lá falem do Benfica que vos persegue nas vitórias e derrotas.

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    1. [...]

      ia relevar, mas não vou. bazófia depois de um jogo como o de Londres é o treinador da equipa principal da vossa agremiação ter aquelas atitudes de mau vencedor. isso, sim, é que é bazófia. e essa bazófia, pázinho, tu nunca nos irás ver a fazer.
      quanto ao jogo em si, bateram num grupo de jogadores que actualmente é tudo menos uma equipa. e não "o ver", sequer reconhecer, isso sim, também é indiscutível e evidentemente ter bazófia de lampião.

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  10. os bazofes a 12 pontos???? ehehehehh. quero um post para este fim de semana , vamos la C. inspira te ;)

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  11. Tinha tudo para ser um bom texto, mas perde-se no costumeiro anti-benfiquismo subliminar.
    Os benfiquistas sabem quem têm a treinar a equipa, não precisam quem lhes lembre o que é a bazófia, que aliás, existe em todos os clubes. De qualquer maneira, penso que o Jesus tem refreado a sua maneira de ser, nomeadamente na questão do palavreado.
    Mas não restam dúvidas que o campeão da bazófia transferiu-se para o norte, o ex-treinador da sua equipa que tinha "uma confiança cega" de ser campeão na última jornada, pois recebia o Benfica. Olhe, era um belo assunto para fazer um post...

    P.S - A tentativa de achincalhar o Benfica utilizando minúsculas só revela pequenez.

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  12. Há quem seja de um clube basófias.
    Há outros que vivem o clube na perspectiva de invejar o alheio. Esverdeados de inveja.
    E finalmente há quem prefira ser de um clube assumidamente corrupto!

    Eu acho que serei sempre um basófias. Durmo mais descansado.

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  13. O último parágrafo é à Benfica, C.!

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