sábado, 1 de março de 2014

Ele avisou

Todo o adepto deve ter a sua referência. Não falo de um jogador, de um treinador ou de um dirigente. Uma referência como adepto. Alguém que saiba mais do que nós, de quem podemos esperar uma previsão  acertada ou uma análise correcta e, sobretudo, alguém que no calor do momento seja mais inteligente do que nós. A minha referência é o meu pai. E nem sequer acredito que seja pelo simples facto de ser meu pai, porque admirarei muito os filhos do M., por exemplo, quando estes o contrariarem futebolísticamente em tudo. Só que o meu pai é o adepto que eu gostava de ser: calmo e ponderado quando os outros estão todos aos gritos e aos gritos quando todos estão calmos e ponderados.

O meu pai é daqueles adeptos que não liga muito a vendas ou contratações de jogadores, a dinheiro a entrar ou a sair. O meu pai está sempre atento é ao treinador. É exactamente o contrário de mim, que vou feita parola para o YouTube ver vídeos dos novos craques, mas à partida aceito qualquer um para os treinar. Criou-se o mito até de que o meu pai gostaria de qualquer treinador que viesse para o Porto. É que desde Octávio Machado que o meu pai se tornou um defensor acérrimo de todos os treinadores do FCP. Foi ele que me explicou o que Co Adriaanse queria fazer, foi ele que me avisou que Jesualdo podia ser campeão muitas vezes connosco, foi ele que logo sublinhou que com Fernandez até ao fim podíamos ter sido campeões em 2005. Mas foi ele, sobretudo, que admirou Vítor Pereira.

Acho que não é possível explicar-vos o quanto o meu pai gostava de Vítor Pereira. Desde o início, quando nós adormecíamos a ver o FCPorto, quando nós criticávamos a falta de fulgor, quando nós estávamos convencidos, admitam lá, que era impossível ganharmos alguma coisa com ele. O meu pai não precisou de nenhuma vitória contra o benfica ou de apenas uma derrota para o campeonato em duas épocas. O meu pai ria-se dos adversários que o desvalorizavam e durante meses deixou de perder tempo comigo, porque eu não o conseguia perceber. De vez em quando, lá me mostrava uma opinião, uma análise que lhe dava razão (honra seja feita ao blog Lateral Esquerdo, que penso ter sido o único a acompanhar a loucura do meu pai pelo homem), mas sem nunca se preocupar muito com a minha burrice.

Quando todos estávamos aos gritos, que a posse de bola não entusiasmava, que tínhamos de marcar mais golos, que não jogávamos bem, que, que, que, o meu pai estava calmo e ponderado. Ele sabia que íamos ganhar. Daí que, esta época, eu devesse ter percebido logo que algo ia correr mal. Pela primeira vez desde Octávio, o meu pai não gostou da escolha do treinador. Sim, leram bem. Quando a única coisa que sabíamos de Paulo Fonseca é que tinha qualificado um paços de ferreira sem estrelas para a Champions, ele torceu o nariz. Ele, o adepto que aplaudia Co Adriaanse quando ele experimentava o Pepe como único central, que era capaz de elogiar Jesualdo quando este mudava a equipa para jogar contra os rivais, que não compreendeu os adeptos que exigiram a cabeça de Fernandez. Quando todos estávamos calmos e ponderados, porque afinal de contas até um canguru a treinador é capaz de ganhar no FCP, o meu pai começou aos gritos.

Faltam 10 jornadas para o campeonato acabar e poucos acreditarão que o meu pai não tinha razao. Faltam 10 jornadas para o campeonato acabar e poucos, como o meu pai, continuarão a ir apoiar o FCPorto até ao fim. Porque o meu pai é o adepto que consegue ver à primeira que o duplo-pivot defensivo não resulta, mas também é o adepto que vai todo contente a cantar no cortejo para a luz, mesmo quando não espera vir de lá feliz. O meu pai anda triste, chateado por não terem mandado o homem embora quando ainda podíamos ser campeões com o tal canguru a treinar, mas nem imaginam a alegria que foi, para mim e para o meu pai, mesmo separados por milhares de quilómetros, durante uma chamada skype virada para a televisão, quando o Ghilas empurrou a bola lá para dentro. Porque quando o Porto ganha (ou passa uma eliminatória, no caso), gritamos todos.

1 comentário:

  1. Os 4 do Nacional já foram com o Couceiro, o Fernandez foi despachado depois de perder com o Braga em casa.

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