terça-feira, 11 de março de 2014

Pátria do futebol

Quando era miúdo vi uma cassete com um resumo do Itália 90 tantas, tantas vezes que fiquei a saber aquilo de cor. Começava com um grito (provavelmente referente ao México de 86) de Aaaaargentina (com o "g" mudo, como um "h") paaaaaaaatria queridaaaaa!!!! Não sei se o grito é de Victor Hugo Morales, famoso relatador argentino, mas tenho-o na cabeça, nítido. O futebol é uma memória estranha. Sempre que alguém diz Argentina, a primeira coisa que me vem sempre à cabeça é o grito desse relato. 

Em todas as minhas viagens, levei sempre comigo o benfiquismo e o futebol. Quando fui com o R. e o T. a Tallin, tivemos uma noite de copos brutal. Na primeira parte da noite estive com dois alemães horas e horas a falar do jogo. Um era um nómada da bola, trabalhava numa companhia aérea e andava a curtir grandes jogos, Europeus e Mundiais. O outro era do 1860 Munique e esteve a noite inteira a debitar coisas contra o Bayern, como eram odiosos e como só os queria ver na merda. Foi uma noite de partilha. Não me lembro do nome de nenhum dos dois, mas durante aquelas horas fomos, genuinamente, amigos de sempre. Eles ouviam, com sinceridade, a minha amargura em relação ao Benfica, atirando aqui e ali pormenores que se lembravam do meu clube. E aquele alemão (que era carpinteiro e estava na Estónia a aprender a fazer um tipo de casas em madeira) foi tão eloquente na sua verve anti-Bayern que ainda hoje é nele que penso quando vejo a equipa de Pep parecer não ter rival. Como estará ele?

El River en B de nuevo o una Libertadores? El descenso del River - o guia que foi connosco ao San Lorenzo-Rosario Central, adepto Xeneize.


A impressão mais brutal da Argentina é que em todo o lado parece dia de jogo. Camisolas do Boca, calças do River, polos do San Lorenzo. Uma tshirt a dizer "Dia del hincha del Racing", galhardetes do Independiente nos taxis. Tudo na rua, na boa. O preconceito de que todo o futebol argentino é violento é falso. Há violência e grave, sim. Mas o adepto normal, o hincha médio tem um orgulho nas suas cores desmesuradamente maior do o nosso. E ocupam as ruas, as paredes, tudo. Buenoa Aires é como um estádio gigante, e quem gosta de futebol sente que aterrou num planeta diferente, com uma paixão superlativa, nunca antes vista. Os ingleses podem ter o sentido de humor, os espanhóis podem ser campeões do mundo, mas há aqui uma visceralidade que não se explica. Vem de dentro, de um sítio que o adepto normal não conhece. Estamos a falar do povo de Maradona, Quino e Mafalda, Piazzolla e Che Guevara. Imaginem a capacidade mágica de sentir deste povo.



La bosta negra... Taxista de Buenos Aires

Quando entrámos no taxi em Buenos Aires e o taxista ouviu Bombonera, ouviu-se o seu sussurro, no meio do barulho do motor a ser ligado: la bosta negra... Era do Independiente, que está na segunda. Falou, indignado, de que quando o River esteve na segunda houve logo uma liguilha para o subir e ao contrário nada. "Muchos millones en el futbol". Bateu na FIFA ("hace mas dinero que Coca-cola!") e deixou-nos no estádio. Nem sei se lhe disse o meu clube, mas deliciei-me com aquele la bosta negra... Cheio de sarcasmo, quase a indicar-nos que íamos para o pior sítio do mundo e que devíamos mudar.
A piada constante, o tom leve e meio cantado das piadas reflectem uma ternura pelo jogo fabulosa. Na viagem nem sei por quantas camisolas passamos. Quando entramos na Bombonera e percebemos o pormenor arquitectónico delicioso do balneário rival ser em baixo da bancada da claque do Boca, percebemos que não há clássico português que possa enervar um argentino. Estes homens jogam no céu ou no inferno. Não há meio termo para os argentinos.


Eu levei o Benfica para Tallin, mas já levei o Benfica a muitos outros sítios. O que me fascinou na Argentina, sobretudo em  Buenos Aires, foi sentir que não precisava de levar para lá o que eu gosto de futebol. O futebol já lá estava. Pintado nas paredes ou numa simples banca de uma feira, nas camisolas que toda a gente usa, nos anúncios, nos jornais. Sente-se o futebol na rua. Na periferia ou na cidade, há sempre um campo com balizas com redes, com alguém a jogar. Reconheço algumas camisolas, mas só me apetece ficar a vê-los jogar. Eu sei, eu sei, há glaciares para ver e isto é só um romantismo estúpido, mas tenho a sensação que cheguei a casa.



In the stadium, we are San Lorenzo fans. If the other team scores the most beautiful goal of the football history... We don`t care - O nosso guia (sim, tivemos de ir para a bola de guia) a explicar aos americanos como se devem comportar num estádio.

O futebol argentino tem mil e um problemas: Don Julio é presidente da federação desde os tempos da ditadura. É também vice-presidente da FIFA. Nada é estruturado, os estádios são velhos, a violência é resolvida estupidamente com a proibição de adeptos visitantes em todos os estádios, sem que isso resolva nada. Como resultado, o futebol é miserável. Mas as bancadas dançam. E essa força visceral, esssa identidade, essa argentinidade, mantém o jogo vivo e fantástico. Não há guia argentino que não recomende uma ida à bola. É uma quinta-feira, o estádio nem enche. Mas a bancada dança, devagar, e as mãos agitam-se a um compasso certo. É impossível não entrar na onda, não cantarolar, não sentir aquele ritmo, aquela febre. Dá-me vontade de chamar toda a gente, de chamar a minha família, o meu serviço, os meus amigos que não gostam de bola e dizer-lhes: está aqui. É por isto que eu amo este jogo. Porque é de toda a gente, porque nos faz sentir coisas que mais nada nos pode fazer sentir. Porque é a alegria e tristeza máxima, porque é tão importante como a nossa identidade (e não há adepto do San Lorenzo que não queira para voltar para o bairro de Buedo, de onde a ditadura os tirou e construiu um supermercado no local do seu estádio). O futebol pode ser a alma de um povo, de um país. Pode ser o melhor guia, o melhor taxista, a melhor história, o melhor livro. O futebol pode ser a melhor metáfora de uma viagem. Para mim, a Argentina é o Perito Moreno, as cataratas do Iguazu e a imensidão de Buenos Aires. Mas a primeira recordação que terei será sempre a bancada do San Lorenzo aos saltos. É, até hoje, a minha pátria do futebol. Como aquele relato daquela cassete: Argentina, pátria querida. 

Si el fútbol nos importa tanto a los argentinos no es porque sí. Nos importa porque nos desnuda, nos representa, nos evidencia. Y el fútbol, hasta cierto punto, nos aproxima. Una de esas pocas cosas que los argentinos sentimos que hacemos bien. Una de esas pocas cosas que los argentinos, de vez en cuando, sentimos que hacemos juntos - La Argentinidad. Eduardo Sacheri, Panenka 25

1 comentário:

  1. Extraordinário texto M.
    Tu e o Ricardo do Ontem têm claramente o dom da escrita no que ao futebol e a sua envolvência diz respeito.
    Atrevo me a dizer que este post só não tem comentários para não estragar o brilhantismo do mesmo!

    (Não precisam de publicar isto, sinto me satisfeito por saber que leram)

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