quarta-feira, 19 de março de 2014

Uma questão de perspectiva

O futebol é tramado. É maldoso, é caprichoso, tem coisas inexplicavelmente apaixonantes. O futebol, como em tudo na vida, depende da perspectiva. No início da época eu era uma pessoa desfeita, amarga e cínica. Depois de Maio de 2013, eu só tinha cinzas e luto por dentro. Não percebia como é que alguém podia sorrir. Era capaz de jurar que não houve Verão em 2013 (e dizem-me que pelos vistos foi nessa altura que nos casámos)  e que choveu de Junho a Novembro.
Deixei por escrito o meu veredicto, esta época seria para esquecer. A pré-época foi penosa e, apesar de parecer que foi há muitos, muitos anos, Bruno Cortez foi nosso defesa-esquerdo. A cada esquina havia um minuto 92. Era como se nenhum adepto benfiquista estivesse a ver os jogos do Benfica 2013/14 porque ainda estávamos todos com a cabeça (e que cabeça) em Maio de 2013, a tentar fazer falta sobre o Kelvin ou a não deixar o Ivanovic saltar. Eu, como é óbvio, não era diferente. Noites mal dormidas, humor depressivo e uma raiva em relação a todos os sonhos que o futebol pode dar que sempre que via a bola a rolar parecia que me estavam a dar facadas.

A C. andava nas nuvens, como é normal. Vingou-se, durante meses, dos benfiquistas que lhe lixaram a cabeça em Abril. O Porto não lhe tinha falhado e agora até tinha jogadores interessantes como Quintero, Carlos Eduardo e, claro, Licá. Com o Benfica a tomar Xanax, o tetra parecia uma mera burocracia (e digo-o como benfiquista). A fazer todas as piadas possíveis com o número 92, a C. divertiu-se e foi mais feliz do que eu posso imaginar (a única comparação possível é mesmo pensar na minha tristeza e tentar medi-la em felicidade, mas acho que o fosso onde eu estava não tem um correspondente em alegria). 

O futebol, dizia-vos, é uma coisa lixada e acho que nos apanhou aos dois desprevenidos. Eu, quando vi o Setúbal-Porto na primeira jornada e vi a loucura em que se tinha tornado o Porto, fui tomado como um portista (Eusébio me guarde!) saudosista de Vítor Pereira - logo eu, que quero que o homem fique na Arábia Saudita para sempre (vejam aqui). A C. acordou entretanto e em Novembro já não se podiam dizer palavras começadas por pê de Paulo nem por éfe de Fonseca sem ela ficar à beira de um ataque de nervos. Para mim, era impossível sair da cave escura onde me tinha enfiado e nem o mês de Novembro, em que o Porto conseguiu dar mais tiros no pé do que nos três anos anteriores, me conseguiu fazer acreditar. 
É tudo uma questão de expectativas: a C. vivia num mundo maravilhoso, mas o duplo-pivot arruinou tudo. Eu ainda estava em Maio de 2013 e os adeptos do Sporting viviam (vivem) em festa permanente. A verdade é que, para os adeptos do Sporting, depois do ano passado, tudo são vitórias. Se os jogadores entram em campo sem tropeçarem uns nos outros, isso é motivo de festejo porque já encerra em si uma melhoria em relação ao ano passado. Cá em casa, a C. passou do vale dos sonhos para uma confusão táctica maior do que Berlim em 1945 e eu só saí da posição fetal quando ganhámos 2-0 ao Porto e eu percebi que talvez fosse possível.

Chegados a esta fase do ano, as expectativas e as perspectivas cá em casa mantêm a sua distância paralela de quem sofre de maneira igual por clubes diferentes: para a C., Maio de 2013 parece ter sido há uma eternidade e o silêncio dela às vezes preocupa-me. O silêncio, na C., encerra uma violência contida que me dá vontade de evacuar a vizinhança. Ontem cruzámo-nos na rua com o Rui Gomes da Silva e enquanto a C. sussurrava "Olha-me este grande boi" sem se preocupar se ele ouvia ou não, imaginei a capa d`"A Bola" com a C. a dar-lhe um rotativo no ar "SUPER DRAGÕES AGRIDEM BARBARAMENTE DIRIGENTE DO BENFICA". Pelo menos o livro ia vender de caraças.
Já para mim, Maio de 2013 foi ontem. O Benfica vai à frente, tem uma vantagem confortável e joga bem. E, por muito confiante que uma pessoa se torne, não há benfiquista que não tenha um calafrio sempre que pensa "E se...". 

Cá em casa é sempre assim, em futebol. O que a um parece longe para o outro foi há pouco tempo. A alegria de um é a tristeza de outro, a vontade de ler notícias e falar sobre futebol é-nos sempre inversamente proporcional. A C. vê penalty no lance da Choupana e eu achei aquilo um escândalo que devia ter proporções maiores do que a crise na Crimeia. Eu apercebi-me do sol a chegar e a anunciar a Primavera e suponho que aos olhos da C. esteja uma chuva torrencial. Neste momento, o Benfica já está suficientemente bem para eu me lembrar que casei no Verão passado e a C. anda com um ar de descontrolo tal que às vezes parece que não me reconhece. 

5 comentários:

  1. Amigo M., basta-me ver um portista em estado de descontrolo para perceber que o que se está a passar neste momento é muito mais que apenas "um titulo a cada cinco anos"...
    Mas vamos aguardar pela proxima epoca para confirmacoes.
    Alem disso, deixem-me sorrir pois cada dia de manha basta-me olhar para a vossa cara para que o dia me corra logo muito melhor! eheh

    ResponderEliminar
  2. De facto, depois do trágico fim de época passada e do tumultuoso início desta, era totalmente improvável ver o que está a acontecer. O Porto não contratou um treinador, foi Paulo Fonseca que se vendeu ao clube. [É só ver o que se passou no último jogo do campeonato da temporada passada]. Talvez resida aqui a explicação da crise portista aliado à emancipação subserviente do Sporting.
    A arbitragem da Choupana mostrou à saciedade que o resto do caminho que o Benfica vai trilhar está cheio de perigos dissimulados.

    ResponderEliminar
  3. Ontem já houve cheirinho a Maio. Só naquela.

    ResponderEliminar
  4. Nunca mais vai haver um Maio de 2013! Mesmo que o calendário avança, não é!?!?
    Frango do Artur a remate do Kelvin.
    Golo do tipo Sérvio do Chelsea, que não sei o nome.
    Nasceu o meu primeiro filho.
    Perdemos a Taça com os gajos que eu até gosto.
    Estão a imaginar aquelas conversas de família nos aniversários da criança, tipo: sabes lá tu o que nos aconteceu há dez anos atrás?
    Este ano, como se diz por estas bandas, "há-de ser diferente!"!

    ResponderEliminar
  5. É foi um começo de época atribulado ainda na ressaca de Maio 2013 :) tudo indicava que iria ser um ano penoso, agora voltámos a sonhar... mas por outro lado os últimos 10 minutos com o "Toten" foram um pesadelo a lembrar.....
    2014 vai ser memorável !!!!

    ResponderEliminar