quarta-feira, 9 de abril de 2014

Desliguem tudo, por favor

Uma das grandes vantagens que nós, fanáticos, temos sobre as pessoas normais é que dificilmente nos apanham a ver a festa de um rival. É verdade que sofremos mais, mas isso até pode ser usado a nosso favor. O M., por exemplo, o ano passado perdeu dois quilos com o golo do Kelvin e, se na altura me preocupou e pareceu até um bocado exagerado (não pela dimensão do sofrimento que, esse, era totalmente adequado, mas devido à condição física do M., que já não tem muitos quilos para perder), quantas pessoas não matariam por perder peso com esta "facilidade"? O mundo das dietas e dos sumos detox iria à ruína se descobrissem que basta perder três competições numa semana.

Dizia eu que há uma grande vantagem em levarmos isto muito a sério. Enquanto que uma pessoa normal é capaz de estar sentada no seu sofá, a fazer zapping, e a ver os festejos de um clube rival, como se isso não fosse pior que ser comido por um urso, nós temos o privilégio de desconhecer essa realidade. Não sei se sou só eu que tenho esta incrível virtude, mas eu nunca vi um clube que não o meu a fazer a festa. É certo que isso não acontece muitas vezes, mas não pode desvalorizar-se o trabalho que isto dá. Fanático que é fanático está convencido que só o seu clube é que sabe festejar e que nenhumas imagens, jornais, ou conversas de café valem a pena ou sequer fazem sentido quando é um rival a ganhar.

O M. garante que, durante o Penta, não via jogos nas Antas porque o FCPorto ganhava sempre. Já eu,  por exemplo, esta época não vejo um jogo do benfica desde a nossa derrota na luz. Quando o M. vai ao estádio, posso ficar sossegadinha a fazer coisas mais importantes como chorar em comédias românticas. De vez em quando, ligo a televisão ou a internet, confirmo que o resultado não me agrada e lá regresso eu ao mundo maravilhoso em que os protagonistas vão acabar por ficar juntos. Ai, a vida é tão simples quando não envolve futebol.

O problema, claro está, é quando o M. decide arruinar os meus planos. Logo a mim, que sou tão boa mulher que aceitei jantar fast-food no dia em que ele fazia 30 anos para chegarmos mais cedo e ele poder ver o jogo. Ninguém valoriza isto, não é? Se soubessem o que me custou estar enfiada num quarto, sem nada para fazer numa bonita cidade espanhola, enquanto ele sorria para o computador...

Mas uma mulher não é de ferro, certo? Estava 2-0, já ia nos 60 e tal minutos, via-se bem que ia dar goleada e eu tive que pedir-lhe para desligar. O meu lado de adepta fanática percebeu o olhar que ele me deitou, uma mistura entre "também não gosto mais de ti" e "quem é esta pessoa que ousa não querer ver o benfica?", mas o meu lado de portista fanática não aguentava mais. Aquela excitação a cada ataque, aquelas referências ao campeonato quase conquistado e o rio ave a dormir em vez de os matar a todos (DÁ-LHES UMA MOCADA NA CABEÇA E FOGE, NUNO, pensava eu)... De certeza que também já vos aconteceu, espero.

Como, além de fanáticos, somos um casal bastante fofinho, chegamos a um consenso e ele pelo menos tirou o som e desviou o ecrã para eu não ver mais. E eu não o valorizei muito na altura, porque ele continuou a sorrir para o computador e eu continuei a sentir que estava demasiado próxima de uma festa do benfica, mas a verdade é que, quando é ao contrário, eu bem sei o que custa ter de conter a nossa alegria. Por isso, obrigada M., e espero que também estejas na dúvida se foi mesmo boa ideia isto de nos apaixonarmos porque a vida seria bem mais fácil se não tivéssemos de aturar o clube do outro.

Não que me importasse de trocar, claro. Quando o M. perdeu dois quilos por causa do Kelvin, eu era a pessoa mais feliz do mundo e agora estou uma mistura entre "não ter vontade de viver" e "viver só para assegurar a extinção do benfica". Só que eu estou sempre do lado certo, quer seja a ganhar ou a perder: sou dos bons, dos melhores, dos azuis e brancos. E é nestas alturas que menos percebo o M. por ser de um clube tão horrível. Porra, das poucas vezes que ganham então é que são mesmo detestáveis. Não que eu saiba muito bem como é que isto agora funciona. Nunca vi.

7 comentários:

  1. Mesmo anti-Benfica, aprecio os teus textos. :)

    No entanto, reparo que ao contrário do M. não consegues escrever Luz (se bem que não é o real nome do estádio) nem Benfica da mesma forma que ele escreve Porto e Dragão.

    Comprar o vosso livro, minutos antes do clássico vai ter outro sabor.

    Há lançamento? Se sim, onde?

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    1. Porto e Lisboa, brevemente daremos mais informações :)

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  2. agrada-me constatar que esse fenómeno de alienação já vos está a corroer as entranhas.
    há muitos Benfiquistas que não sabem o que aconteceu no ano passado. tenho um amigo sortudo (gigante e Cativo do sector 25 da Luz) que nunca viu o golo dessa personagem de crista e jura que nunca aconteceu. e eu tenho que lhe dar razão, porque esse é um kapa que não existe. nem joga !

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  3. Foi com grande surpresa e satisfação que te vi, ferrenha azul e branca, numa notícia num jornal nortenho, e na defesa do nosso clube! Vim imediatamente ler o blog e adorei, de facto acho que és a melhor pessoa para defender o nosso Porto, principalmente contra os Benfiquistas..Desejo-te todo o sucesso do mundo. 1 bj mt grande Ana Linhas

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  4. Fantastico, escrevem os dois bem.. mas a C é de outro n+ivel:)

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  5. Minha senhora, a senhora so e dos bons pq teve a IMENSA sorte de um BENFIQUISTA gostar de si.Mais nada.

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  6. Olá C também sou dos bons e nunca vi. Confio que teremos de ver durante pouco tempo. Futebol este ano? Só o mundial :)

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