quinta-feira, 15 de maio de 2014

Para sempre

Não sei quando é que tudo isto começou. Tenho uma óptima memória futebolística, mas falta-me o momento do meu nascimento para o benfiquismo. O primeiro jogo que me lembro, com definição, sabendo resultado e pormenores, foi um Nacional-Benfica em que ganhámos 1-4 (e lembro-me perfeitamente que o penalty contra o Benfica foi mal assinalado por esse ilustre ladrão que era o Rosa Santos). Consultando o zerozero, estamos a falar do dia 23 de Setembro de 1989, tinha este que vos escreve 5 anos. Quando eu destaco este jogo, não estou a falar do primeiro jogo que vi, nem da primeira vez que fui ao estádio, estou a falar do primeiro jogo que me lembro de ver, decorar, saber os marcadores dos golos, de falar do jogo no dia seguinte e de ver o resumo no dia seguinte, vendo com cada vez mais nitidez que o Veloso tinha tocado no adversário fora da área (lance na nossa esquerda). 

Vamos lá ver se explico a importância disto: eu não me lembro da cara da minha irmã quando eu tinha 5 anos. Nem dos meus pais. É certo que os vejo muitas vezes e que essas coisas às vezes são mais difíceis, mas eu lembro-me que ganhámos 1-4 ao Nacional a 23 de Setembro de 1989, e só espero que alguém encontre o resumo do jogo para eu ter a certeza que o penalty não era. Isto não é nada contra a minha família, que eu adoro muito, mas é para explicar que, apesar de eu não me lembrar do momento exacto em que nasceu o meu benfiquismo, ser do Benfica, ser do Benfica obsessiva e compulsivamente, é uma coisa que eu tenho desde que existo. Posso ter uma profissão, outros interesses extra-curriculares de forma a parecer uma pessoa minimamente interessante e com quem se pode jantar, mas não vos quero enganar: se há algo que me define, que é de mim do princípio ao fim, de manhã até à noite, todos os dias da semana, do mês e do ano, é ser do Benfica.

Não encontro uma razão para isto. Não há racionalidade, não comecei a gostar do Benfica porque as camisolas são vermelhas e eu gostava da cor. A ver se me explico: nunca, durante a minha existência, se colocou na minha cabeça e no meu corpo a hipótese de ser de outro clube que não o Benfica. Se eu não fosse do Benfica, não era eu. 
Contudo, apesar da consciência do absurdo disto tudo, dos sacrifícios que eu faço em nome do Benfica, das horas que já passei sem dormir (eu consigo dormir em qualquer situação, hábito ganho a fazer urgências, menos quando o Benfica não ganha), apesar de estar plenamente consciente que isto não faria qualquer sentido se eu fosse mesmo racional, também nunca coloquei a hipótese de não o fazer. Não vale a pena mentir: eu sempre soube que a minha felicidade dependia em muito do Benfica. Eu posso estar na profissão que quero, estar casado com a mulher perfeita e ter todos os amigos do mundo. Se o Benfica não estiver bem, eu, pelo menos a 100%, também não o estarei. 
Eu acho que isto é a maior declaração de amor que se pode fazer. Na verdade, quando a C. não está bem, quando ela está chateada com qualquer coisa (Porto aparte) ou quando está doente, eu também me sinto mal e faço tudo que esteja ao meu alcance para que a situação se resolva (reafirmo: derrotas do Porto aparte). O problema - e é, de facto, um dos maiores problemas da minha vida - é que eu pouco posso fazer para resolver os problemas do Benfica quando eles surgem. Quando a C. adoece eu posso ir à farmácia. Quando o Benfica joga não me resta nada senão uma entrega e um sofrimento profundos, maiores do que eu, mas não há nada palpável que eu possa mesmo fazer. Não posso rematar, passar, defender. Entrego o meu coração aos 11 rapazes que fazem isso por mim, mas julgo que isso pouca ajuda a que a bola entre ou não, mas é tudo o que eu tenho.
É um amor-refém. O Benfica não está apaixonado por mim como eu estou por ele. Seria um acaso muito grande que algum jogador do Benfica soubesse, sequer, quem eu sou, enquanto eu sei a posição, o pé preferido e as forças e fraquezas de todos, todos eles. Isto que vos descrevo, esta obsessão, persegue-me desde que eu tenho 5 anos. Vivo há 25 anos assim e, pasmem-se, em crescendo.

O que senti ontem, depois de perdermos com o Sevilla, é de uma força e brutalidade tais que eu tenho vergonha de escrever.  Há pessoas com problemas muito mais sérios no mundo, há problemas de saúde, há pessoas que vivem em países invadidos, eu sei isso tudo e luto contra isso todos os dias. Mas, aos 30 anos, nada disso me bate tão em cheio, tão profundamente e de uma maneira tão orgânica como uma grande derrota do Benfica. Fico com um frio cá dentro que parece que nunca vai passar, ganho um ódio visceral a todos os culpados (eu desejo coisas ao árbitro de ontem e ao Beto que me envergonho de escrever) e tenho uma sensação física terrível de irreversibilidade. Eu percebo, imediatamente, que não há regresso, que a bola já não vai mudar de trajectória e que tenho que viver com isto para sempre.

Já viram "A Residência Espanhola"? "A Residência Espanhola" é um dos meus filmes favoritos (calma, continuem a ler, não mudaram de texto por engano), muito por razões sentimentais. Vi-o com a minha irmã, aos 18 anos. Foi uma noite de irmãos espectacular, em que saímos de casa à chuva, contra todas as ordens familiares, apanhámos um lençol de água até ao cinema até descobrirmos que "O Senhor dos Anéis" estava esgotado. Enfiámo-nos no filme sem saber o que íamos ver e adorámos e rimos os dois em conjunto. "A Residência Espanhola" conta a história de Xavier, que vai fazer Erasmus em Barcelona. É uma comédia que faz com que qualquer pessoa minimamente inteligente queira, de imediato, ir viver em Barcelona numa casa onde há gente de todas as nacionalidades, onde há noite, amigos, amores e desamores. Quando Xavier volta a Paris, para o seu emprego de escritório, há uma cena terrível onde, com o "No Surprises" dos Radiohead atrás, Xavier caminha por Paris, chorando, confrontado com a sua nova realidade, com o facto dos seus amigos terem ficado para trás. Xavier ultrapassará isso e aprenderá que na vida, como nas residências espanholas, toda a gente contribui (e, logo, Xavier é a soma de toda aquela residência).
Eu sinto-me preso nessa cena em Paris. "No Surprises" como banda sonora. O que passou foi bom, foi extraordinário: somos campeões de Portugal. Mas, ao contrário de Xavier, não tenho direito a nenhum twist final que me faça feliz, completamente feliz. 
Quando a final de ontem acabou, eu percebi imediatamente a irreversibilidade disso, como se o ano de Erasmus de Xavier tivesse acabado, como acabaram os meus sonhos. Eu não sou adepto de acordar na manhã seguinte e pensar: "será que aconteceu mesmo?". Não, a mim atropela-me logo a certeza de que o sonho se esfumou, como se estivesse já atrasado para o emprego de merda do Xavier e soubesse que ia passar ali 50 anos até à reforma. Ser fanático é uma prisão. 

Nick Hornby dizia que os verdadeiros adeptos de futebol são amargos, não interessando o resultado final. Como adepto de um clube campeão nacional, mas finalista vencido de uma final europeia, vejo-me obrigado a concordar.
Isto, para mim, começou a sério dia 23 de Setembro de 1989. Foi crescendo, ganhando um peso inacreditável na minha vida. A minha família, a minha mulher, os filmes da minha vida, tudo gira em torno das camisolas vermelhas. Por causa disso, hoje estou amargo, dorido. Num dia como o de hoje, depois de uma derrota dura, injusta, filha da puta, fico preocupado. Preocupado com o facto de saber que a minha vida vai estar sempre, melhor ou pior, profundamente marcada pelo sucesso de um clube a quem jurei fidelidade provavelmente antes de nascer. Preocupado por perceber que desta prisão não saio.
O jogo de ontem não regressa. A minha vida também não volta atrás, para eu escolher não ser doente. Mas também não queria. Não sei viver de outra maneira. 
Eu nunca soube, nunca me lembrei como é que isto tudo começou. Mas sei - tenho a certeza - que é para sempre.


13 comentários:

  1. A minha reacção a este post é igual à reacção do meu irmão quando entrámos pela primeira vez no Estádio da Luz: pupilas dilatadas, braços cruzados, peito esmagado pela enormidade do espaço, pelo berrante daquele vermelho, boca meio aberta em suspenso e vários, vários sonoros: Foda-se!
    Foda-se, Manel!.. É tão, mas tão isto!!!

    http://cronicasslb.blogspot.com/2014/05/e-se.html

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  2. Momento nostalgia ou de recordações do baú, quando falaste no Xavier da Residência Espanhola. Muito bom filme! E essa cena em que ele sai disparado do trabalho, a correr...
    Quanto ao jogo, como tive oportunidade de o dizer, pró ano quero mais uma final europeia, a seguir à conquista do Campeonato. Se irei sofrer e ficar triste outra vez? Não sei, mas talvez um dia volte a ser como em 60/61 ou 61/62... E pronto, é só isto.
    Bom desabafo sobre tudo o que aconteceu ontem.

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  3. cervejas ilimitadas para este homem no Jamor, se faz favor

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  4. Partilho o teu estado de alma e compreendo-te muito bem.

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  5. Grande M.! Como descreves tão bem o que eu sinto! Também me sinto aprisionado ao Benfica, e noites como ontem fazem por breves segundos desejar que não estivesse nessa prisão, mas rapidamente passa e recordo-me que das melhores coisas que tenho na vida é mesmo o Benfiquismo.

    Já acompanhava o Diário de um Ultra e estive no outro dia na apresentação do livro na Fnac do Colombo e agora arrependo-me de não te ter abordado, simplesmente para dizer que sou um grande fã da tua escrita.

    Mas posso ajudar, quanto ao Nacional-Benfica (e posso ajudar porque a minha paixão pelo Benfica é tanta que posso orgulhosamente dizer que tenho os resumos de quase todos os jogos do Benfica desde 1982). O penalty é fora da área realmente, mas é o Aldair que o faz:

    http://uploaded.net/file/h2z1rzr7

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  6. Rapaziada: está entre nós um ilustre. O Bakero é o homem do grande http://memoriagloriosa.blogspot.pt que um dia, se o mundo for justo, será elevado à condição de património da Humanidade.
    Devias ter-te apresentado! A malta falava-se no messenger! (Olha o tempo...)
    Acho que confundi o Veloso por causa de um penalty de um Benfica...União da Madeira (1-5 para a Taça?) assinalado pelo Veiga Trigo e também ele mal assinalado.
    Um grande abraço e muito obrigado pelo comentário e pelo vídeo

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  7. Por acaso já não me lembrava de falarmos no messenger e não fazia ideia que conhecias o Memória Gloriosa (que já agora, vou reabrir nos próximos dias, com novos videos, depois passa por lá ;) ). Mais fico com pena de não me ter apresentado, mas espero que haja nova oportunidade um dia destes, quem sabe um dia que te veja na Luz.

    Quanto a esse penalty com o União da Madeira (yep, 1-5 para a Taça :) )...ah esse sim, isso nem é fora da área, é escandalosamente fora da área lol. Só não digo que dá vontade de rir, porque sabemos bem porque apareciam esses "penaltys" contra o Benfica na década de 90 (e não só, mas enfim...).

    Já agora:

    http://uploaded.net/file/dqzkr2rf

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  8. Hehe... É bom saber que há alguém que partilha as mesmas sensações e não tem medo de dizer ao mundo o que faríamos aos simpáticos senhores que ajudaram o Benfica a perder mais uma final...
    (da-se como é possível que, estando 3 tipos a olhar para o beto naquele penalti, nenhum tenha achado anormal o Beto já estar no meio campo quando o Cardoso remata daquela maneira afoleirada... vejam as repetições e confirmem... e passa pela cabeça de quem querer marcar golos com uma sapatinha azul, AZUL, e outra cor de rosinha... da-se outra vez...)

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  9. A minha namorada diz que não percebe o meu estado desde ontem, vou enviar.lhe o link deste texto... bateu mesmo no fundo, isto de quando ficava-nos na fase de grupos fazia menos dor, mas só de imaginar a possível alegria de vencer esta porra, para o ano quero cá voltar, havendo sempre hipóteses de voltar a ficar em modo zombie...

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  10. Duas coisas:

    1)sobre o texto gostava apenas de acrescentar e penso que sentes algo muito semelhante. Tenho 27 primaveras contadas e sou do Benfica ainda antes de me lembrar de ser gente, mas tenho um sonho que gostava de ver concretizado antes de morrer. Será que dá pra ver o Benfica ganhar um Trofeu Europeu?
    Ficaria eterna-(este adjectivo ganha toda uma nova dimensao)-mente agradecido.

    2)Valeu ainda mais a pena ver aqui para ler que o Memoria Gloriosa vai reabrir em breve - sempre foi top 5 nos meus favoritos da web. Obrigado Bakero :)

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  11. Fui calado a maior parte do tempo de Turim para Milão a seguir ao jogo. Dei comigo a pensar que, ganhando ou perdendo, sou cada vez mais benfiquista. Nunca me senti aprisionado nesta paixão. Se de facto é uma prisão, que seja cada vez mais fechada. O meu amor pelo Benfica é uma sucessão infinitamente grande positiva. Não nascerá o matemático capaz de mensurar o meu benfiquismo. Felizmente, há muitos como eu, como tu e, já agora, como o Bakero, bem haja o regresso do Memória Gloriosa. Abraço.

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  12. É isto! É o que conta! Ser benfiquista não passa disto! É o que somos; e é tão lindo! Obrigado, M, por tentar explicar aos leigos (que também são do Glorioso), a irritação de não ganhar. E, ao mesmo tempo, a vontade de voltar a ganhar! Grande abraço de um Benfiquista, sócio do SCF (sim, eu tenho uma segunda equipa!), que sofre tanto quanto tu!

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