sábado, 21 de junho de 2014

Hasta luego, Xavi

Think quickly, look for spaces. That's what I do: look for spaces. All day. I'm always looking. 

Em 2008 eu tinha 24 anos e pensava que já sabia tudo sobre futebol. Era um adepto informado, atento à história, plenamente consciente da evolução física do futebol. Achava que era preciso jogar bem, sim, mas que isso já não chegava. Era preciso ser forte, alto, duro, era preciso ganhar os duelos todos. O futebol tinha evoluído para uma idade mais avançada, robotizada. Kaká e Cristiano Ronaldo eram super-jogadores não pelos seus pés, mas, sobretudo, pelos seus corpos de atleta. Até que tu, Xavi Hernández, me ensinaste que não.

Até ao Europeu de 2008, Xavi era para mim - e penso que para todos - o homem que falhou na substituição de Guardiola. Ninguém ousaria dizer que era mau, mas não era Pep. Guardávamos na memória aquele Barcelona-Valência onde o Barça rodava a bola à volta da área che e Pep, em vez de continuar a rodar o jogo da esquerda para a direita, faz um passe mortal para o meio e descobre Kluivert, que fuzila o guarda-redes. Kluivert corre imediatemente para Pep que lhe aponta a bochecha, pedindo um beijo de agradecimento. Guardiola era inigualável, um cavalheiro, um intelectual. Xavi era uma imitação.


A Espanha de 2008 fez o seu jogo perfeito contra a Rússia, nas meias-finais. Foi um banho, uma aula, a primeira lição. Mas foi na final, com 24 anos, que eu percebi que estava na presença de uma inteligência superior. A Espanha ganha 1-0 à Alemanha (assistência de Xavi) e pode ganhar o seu segundo Europeu. Até aos 24 anos, todas as equipas que eu tinha visto a ganhar em momentos decisivos, por muito superiores ao seu adversários que fossem, encolhiam-se. Era uma coisa normal, explicável por psicologia básica: estás a ganhar e vais defender essa vantagem. E defender significava recolheres. No futebol da primeira década de 2000, dos altos, fortes e duros, nada mais normal do que suportar estoicamente bolas bombeadas pelo adversário a quem se cedia a posse porque se estava a ganhar. Até que, com 24 anos, eu aprendi a ver futebol de maneira diferente: com o jogo a acabar, Xavi recolhe a bola no meio-campo alemão. E em vez de se esconder ou de chutar contra o alemão e ganhar lançamento, esperou calmamente por Cazorla e Iniesta. E tabelou. Pôs a bola no sítio onde queria que os companheiros estivessem. "Põe-te aí." - parecia ordenar, como um jogador de xadrez que coloca as peças. Mexeu-se para o espaço livre como quem diz "Põe aqui. Estão a ver como é fácil?". E, com um minuto para acabar o Europeu, a Espanha defendeu com a bola e acabou a jogar na área alemã, quase fazendo o segundo. Lembro-me perfeitamente de dizer ao meu pai "Nunca vi isto na vida". Felizmente para mim e para o futebol, tinha acabado de começar. Foram anos magníficos. 



Ao lado de Iniesta, com os seus pés de ouro e com o pontapé decisivo no Mundial de 2010, e ao lado de Messi, para mim o melhor da história, Xavi parecia apenas um apêndice. Essencial, mas nunca a estrela mais brilhante. São dele as assistências para Torres na final do Euro 2008, para Puyol nas meias de 2010, para Villa nos oitavos de 2010 contra Portugal e para Jordi Alba na final do Euro 2012. Marcou o primeiro da manita ao Madrid, pôs a bola na cabeça de Puyol no 1-2 do 2-6 no Bernabéu e na cabeça de Messi na final da Champions em Roma contra o Manchester United. Quase nada. Mas fez-nos quase acreditar que não era imprescindível. Afinal, tudo o que fazia era receber e dar, não é verdade? Punha aquele ar sério de quem não tinha feito nada, cara fechada enquanto Puyol apertava com força a braçadeira e Casillas levantava as taças. Xavi gozava por dentro sabendo que, no fundo, ele é que os punha ali. Estão a ver como é fácil? Um general que não era o mais alto, o mais forte, o com melhores pés. Era só mais inteligente.

Xavi Hernandéz, que eu tristemente só comecei a dar valor em 2008, quando já era um jogador mais que experiente, foi a maior aula do futebol moderno. Explicou-nos, com o seu futebol, que estávamos todos enganados e que não era preciso ser alto nem bruto nem saltar muito alto. Havia que pensar antes, isso sim. E não bastassem as suas aulas em campo, deu entrevistas maravilhosas à Panenka, ao Guardian, cujas citações começam e acabam este texto, e ainda escreveu uma crónica para o El País sobre a morte de Aragonés. Guardiola já brilhava no banco quando nos apercebemos que talvez Xavi, enquanto futebolista, fosse Pep refinado. 


O Mundial de 2014, delicioso até agora, torna-se desde já mítico por ser a mais que provável despedida de Xavi dos grandes palcos. Um homem assim, que mudou o jogo, devia sair pela porta grande. Quanto a saídas lembro-me sempre de Michael Jordan - para mim o melhor desportista da história. O último ponto de Jordan é um deprimente lance livre pelos Washington Wizards no seu segundo e escusado regresso. Não que belisque em nada a sua carreira, mas foi completamente escusado. A última jogada de Jordan pelos Bulls tinha sido épica. Perdiam por 3 contra os Utah Jazz no jogo 6 da final e Jordan marca um lançamento com cerca de 20 segundos para jogar. A ganhar por 1, os Jazz metem a bola em Karl Malone, a sua estrela maior. Jordan rouba-a sem o deixar lançar e não pede desconto de tempo. Um para um, finge que arranca para o cesto, o adversário recua e escorrega. Jordan eleva-se e o tempo pára. Bola dentro, um ponto de avanço. Stockton falharia o triplo decisivo e Jordan conquistaria o seu sexto anel. Era a saída perfeita, heróica, como o Deus que foi. O regresso pelos Wizards, para mim, nunca existiu.


Xavi devia, como Jordan, ter saído em grande. Depois daquela assistência teleguiada para Jordi Alba, em Kiev, devia ter renunciado à selecção. Tipos assim não podem sair pela porta pequena. O seu último momento tem que ser mítico. Como o regresso aos Wizards de Jordan, para mim o Mundial de 2014 de Xavi não existiu. Ficará sempre presente aquela primeira aula de 2008 e tudo o que se seguiu desde então.

Este texto é o meu agradecimento. Até em Madrid se estende a homenagem no merenguíssimo As: "Esto duró lo que duró Xavi Hernández". Foi o melhor médio centro que vi na minha vida. Melhor que Redondo, Guardiola, Deschamps e Pirlo. Admito que a opinião é discutível, mas este foi o homem que, na minha idade adulta, me ensinou a ver futebol de outra maneira. Tu sim, eras o puto amo, o cérebro maior do melhor futebol da história. 
7 Ligas, 2 Taças, 3 Champions, 2 vezes campeão do mundo por clubes, 2 vezes campeão da Europa por selecções e Campeão do Mundo. Mas mais do que isso, um futebol diferente. E não há Bola de Ouro que supere isso. Aliás, se ta tivessem dado, suponho que a ias receber e passar logo.


Do you see yourself as a defender of the faith? An ideologue?
It was that or die. I'm a romantic. I like the fact that talent, technical ability, is valued above physical condition now.


10 comentários:

  1. Apenas 100% é o que concordo. Apesar de amar o Fernando Redondo, Xavi incontáveis vezes me fez chorar de alegria a cada jogo.

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  2. Kaká corpo de atleta! Ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  3. Caro M.,
    Como várias vezes me acontece ao ler os teus textos não consigo deixar de sentir uma lágrima ao canto do olho.. Isto é paixão, isto é magia, é espetáculo, é o David contra Golias. É no fundo o futebol como vida que nos enche e preenche e sem o qual parece que sentimos um vazio cá dentro.
    Se ele decidir arrumar a carreira farei o meu próprio tributo contando a todos a bonita história de Xavi Hernandez.

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  4. E as palavras dele sobre o seu ídolo, o Le Tissier?

    "The man I absolutely loved watching as a kid was Matt Le Tissier after seeing the highlights of his extraordinary goals.
    His talent was out of the norm. He could dribble past seven or eight players but without speed - he just walked past them. For me he was sensational.
    We had a programme on Spanish TV with the best goals from around Europe. He was always the star.
    I was ten or even younger. He was definitely an idol."

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  5. Tu si que eres el puto amo!!!!!!....
    Que texto delicioso!!.....
    Concordo 100% contigo...
    Me pusiste la piel de gallina... Muchas gracias...

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  6. Tu si que eres el puto amo!!!!......
    Me emocioné al leer tu texto......
    Fantástico........
    Gracias......

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  7. Grande texto. Acompanhei com interesse a carreira do Xavi desde que foi campeão do mundo de sub 20. Um super craque! Vai deixar saudades

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  8. Apesar de gostar de Xavi, para mim o Iniesta é melhor e é a larga distância actualmente o melhor médio do mundo. Creio que a seguir a Zizou o médio que vi jogar com mais classe e elegância é Iniesta.

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  9. Parece que ainda não é esta a despedida do Xavi...
    http://www.record.xl.pt/Futebol/Internacional/espanha/interior.aspx?content_id=896491

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