quarta-feira, 4 de junho de 2014

O factor humano

Campeones! Campeones! Oe, oe, oe! - Mais de 80 anos, doente oncológico, uns óculos garrafais. Entrou feliz na consulta e celebrava o título de campeão do Atletico de Madrid (e é nesta parte que vos explico que estou a trabalhar em Espanha neste momento). Todo ele era satisfação, felicidade. A mulher, mais composta, tinha um comportamento mais normal de quem está numa consulta. Mas aquele doente não. O homem estava completo, estava mais feliz do que nós podíamos estar. Sentia-se acima de todas as pessoas presentes na sala. Rematou, meio a brincar, meio a sério, em jeito de broma: "Ganhamos no sábado ao Madrid e paramos a terapêutica". A mulher abanou a cabeça, mas ele sorriu e olhou para cima, para um local muito distante, para uma glória eterna. "A sério, a sério" e contou-nos que nos últimos 5 minutos do Barça-Atleti foi para a varanda porque não aguentava mais. Foi dele que me lembrei primeiro quando Sergio Ramos empatou o jogo na Luz.

"O Factor Humano" é um romance de Graham Greene e foi-me recomendado pelo meu pai, de quem herdei não só a melhor qualidade do mundo - ser do Benfica - como o vício de policiais. É um livro de espionagem tenso, o mais próximo de Le Carré de todos os que li do Greene. É um livro jogado a meio campo, sem espectacularidade, mas incrivelmente denso e duro. Saltem este parágrafo se têm intenções de ler o livro: Maurice Castle é um agente duplo na Guerra Fria, mas Maurice não é comunista por ideologia ou por estar zangado com o sistema ocidental. Maurice torna-se um agente duplo tão e só por gratidão, porque fora um comunista que salvara a mulher da sua vida na África do Sul. A gratidão de Maurice é natural, é praticamente inevitável. Como pode ele não ajudar quem o ajudou? Mesmo que se comecem a suceder coisas estranhas à sua volta, mesmo que o preço a pagar seja demasiado alto, é inevitável escolher um lado. Mesmo quando nem temos assim tanto a ver com aquele lado. É o factor humano.

Eu identifiquei-me com aquele velhote do Atleti. Há vitórias que sabem tão bem e uma pessoa sente-se tão feliz que parece impossível que haja alguma coisa melhor na vida do que aquilo. Nunca ninguém que gostasse de história, pintura ou música me disse isto, mas já vi, no olhar de vários adeptos, uma felicidade tal que quase garanto que perceberam o sentido da vida e a fórmula da felicidade através dos seus clubes. Identifiquei-me com aquele velhote do Atleti como já me revi nas palavras até de adeptos de clubes rivais e em muitas loucuras que já ouvi relatar sobre adeptos de futebol. Fazemos promessas, dizemos coisas estúpidas, damos a volta à nossa vida por causa de um jogo. Mas acima de tudo, sentimos uma coisa muito forte. Porque só uma coisa muito forte pode fazer com que um velhote de 80 anos, com uma doença, se torne a pessoa mais feliz do mundo por ver o clube campeão e sinta que está a uma vitória da felicidade plena na vida. É impossível não sorrir com isso.

Eu gosto de futebol de duas maneiras: uma mais intelectualizada - a história, a táctica, etc. A segunda é a poética, a humana, a sentimental. O Atleti, como todos sabemos, perdeu dramaticamente a final da Champions, aquela final de sábado. O lado histórico e o sentimental uniram-se e o Atleti perdeu a segunda final da Champions 40 anos depois de perder a primeira da mesma maneira: nos descontos e com um golaço. Só que desta vez contra o maior rival. É uma coisa arrepiante de lixada. É impossível uma pessoa não sentir compaixão pela dor atletica daquele momento. Durante uns segundos, senti mesmo pena pelo Atletico, mas sobretudo pelo velhote que perdeu, de certo, o brilho no olhar. Sentir-me identificado foi natural. E não foi só por ter também já levado uma pancada assim, foi mesmo por solidariedade de adepto. É o factor humano.

Acho que já não trabalharei cá quando ele voltar à consulta. Suponho que vai continuar a terapêutica.

(foto José Goulão)

1 comentário:

  1. M., depois de ler este teu post, fiquei eu com vontade de escrever qualquer coisa que já me andava na cabeça há bastante tempo.

    Abraço e obrigado.

    http://9x10.blogspot.com/2014/06/condicao-humana.html

    ResponderEliminar