quarta-feira, 9 de julho de 2014

A derrota da incompetência




Se há coisa que eu detesto é a incompetência. Se há coisa que eu detesto são frases começadas por "se há coisa que eu detesto", porque na verdade eu detesto muita coisa, mas agora já está, já está. A incompetência mexe particularmente comigo quando é recompensada. Todos os dias vejo gente incompetente a ser promovida numa empresa, num clube, num Governo, e isso deixa-me realmente irritada. Se o mundo fosse um local perfeito, nunca a minha vida poderia depender de um incompetente, fosse num call-center, num hospital ou num Parlamento. E, se o mundo fosse um local perfeito, sobretudo um treinador como Paulo Fonseca nunca chegaria ao meu clube.

Há, no entanto, um ingrediente que aumenta o meu nível de irritação com a incompetência. Porque há incompetentes que são esforçados, coitados, mas que têm noção do seu pequeno valor. Estes normalmente têm o dom de não pisar ninguém durante a sua estadia neste mundo. Mas há aqueles que, dentro da sua evidente incompetência, precisam de estragar a vida a alguém para consagrar a sua alegre ascensão ao reino dos incompetentes. São estes os que me tiram realmente do sério: os que são uma valente merda e acham que são uma grande coisa.

Já devem ter reparado, portanto, que este texto é sobre Scolari. Devo admitir desde já que acho que o Scolari é a pessoa que eu mais odeio no mundo. O que não diz muito sobre ele, na verdade, mas diz muito sobre a provável demasiada importância que eu dou ao futebol na minha vida. Às tantas devia dizer que a pessoa que eu mais odeio no mundo é o Cavaco,  sei lá, dava assim um ar mais sério e ativista da minha parte, mas hoje estou numa de ser honesta. Eu já não posso ouvir o Presidente falar em consensos pós-troika, mas mais depressa atiro um sapato à televisão quando ouço o Scolari avaliar a Colômbia como uma equipa com muitos talentos individuais e uma grande disciplina táctica, "tal como o meu time".

Não, Scolari, o teu time não é nada disso. Mas voltemos atrás. Scolari foi campeão do mundo em 2002, com uma equipa que tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, ou seja, com uma equipa que seria no mínimo candidata ao título com um pónei a treiná-la. Também tinha o Polga, é verdade, (saudades tuas, Anderson!) mas às vezes um daqueles incompetentes esforçados também dá jeito. Eu não gostava do Brasil de 2002, nem gostei de um Mundial afastado da paixão pelo futebol e dominado pelos esquemas de arbitragem. Mas o nosso problema só surgiu depois.

Scolari chegou à selecção portuguesa e, como toda a gente sabe, adoptou a estratégia de abrir uma guerra com o FCPorto para ganhar credibilidade junto dos nossos adversários e poder, assim, juntar um grupo de jogadores motivados em mostrar que ele tinha razão. Para isso, fez de Vítor Baía, o português com mais títulos de sempre, o seu novo Romário. Não é segredo que eu acho o Baía o melhor jogador de todos os tempos e de todas as constelações e que, se a Terra fosse explodir e me dessem a oportunidade de salvar alguém, ele seria o escolhido (desculpa M., amo-te muito, pensa que pelo menos assim morríamos os dois juntos e não há história de amor mais linda do que essa). Portanto, esta seria uma razão mais do que suficiente para justificar a minha relação com Scolari.

Mas é a incompetência do homem e a respectiva compensação dela que me tira do sério. Vamos, então, ao Euro 2004, maior orgulho dos adeptos da selecção pró-Scolari e, portanto, pessoas menos credíveis do universo. No primeiro jogo, contra a Grécia, Scolari entrou com o seu onze em campo. Resultado? Derrota. Inesperada, dirão aqueles que tinham uma bandeira na janela. Totalmente previsível, tendo em conta as escolhas e o mau trabalho do seleccionador, dirão aqueles que percebem alguma coisa de futebol. No segundo jogo, Scolari, que é incompetente mas não é totalmente burro, fez entrar os campeões europeus em título. Do FCPorto, pois claro. Resultado? Caminho aberto para a final. Demonstrou sabedoria, porque aprendeu com o erro, dirão aqueles que acreditam em Caravaggios. Mostrou que qualquer um podia treinar aquela equipa, dirão aqueles que sabem que o tal pónei também poria o Deco a titular.

Pelo meio, Ricardo tornou-se a figura de proa da selecção de Scolari. Desde logo pelo tal assunto Vítor Baía, que levava aquelas pessoas que pintam a cara de verde e vermelho a acreditar mesmo que o seleccionador tinha escolhido o melhor. E porque defendeu penalties. Uau, penalties. E logo contra a Inglaterra, uma especialista! O que se assemelha àquele momento em que o totó da turma acerta numa resposta e fica toda a gente espantada e com vontade de bater palmas. É fixe para o totó durante dois segundos, mas se está toda a gente tão excitada e emocionada com uma simples resposta certa, então deve ser um mau sinal a longo prazo. O resultado viu-se, aliás, na final desse Europeu.

Ainda hoje tenho de discutir essa final contra a Grécia com gente que acha que Portugal perdeu por azar. Ficou só 1-0, portanto é azar. E a culpa foi dos gregos, que eram feios e maus. Admito que quando fica 7-1 as coisas sejam mais evidentes, mas quem viu aquela final e tem alguma estima por futebol sabe que a grande derrotada foi a incompetência. Scolari não estudou minimamente o adversário (que, surpreendam-se agora, já tinha derrotado a selecção no jogo de estreia, portanto foi mesmo difícil não estar preparado), os gregos foram muito mais organizados e brincaram com a motivação e as rezas dos portugueses e, parem tudo o que estão a fazer, ainda por cima à custa de um enorme frango do menino do Scolari! Se eu fosse mesmo má, diria que foi perfeito. Olhem, já está, já está.

Este Brasil de Scolari mostrou cedo ao que vinha: desorganização máxima, teimosias tipo Fred, que merece o prémio de pior do Mundial (desculpa, Miguel Veloso), choradeiras e santas que defendem penalties, um discurso anti-árbitros e teorias da conspiração que, se não fossem tão idiotas e sem sentido, até nós poderiam incomodar. Mas lá foi passando e juro que quando vi o remate do Pinilla à barra pensei: "Tu queres ver que a €#%£ da Caravaggio me vai estragar o Mundial?" Felizmente, apareceu a Alemanha.

O que a Alemanha fez ontem foi colocar as coisas no lugar, dar sentido ao futebol, consagrar em números a vitória do trabalho sobre a incompetência, do mérito sobre a crença, da organização sobre a sacanagem. E, por isso, eu tenho de agradecer aos alemães, perdão, ao Guardiola. Não é nada contra o Brasil (a minha primeira memória futebolística até são os festejos em família em 94), note-se. O Mundial é que já estava a ser o melhor de sempre para mim, mas ver Scolari e toda a sua filosofia destruída vai muito além disso. O que vimos ontem e nunca vamos esquecer não foi só uma goleada ou uma humilhação, não foi só uma doce sensação de justiça ou uma vingança dos que não acreditam em santas. Foi uma lição de vida.

17 comentários:

  1. Dizer que esta Alemanha é "filha" do Guardiola é um crime maior do que a incompetência do Scolari

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  2. Perfeito, perfeito, perfeito, perfeito!!!!!

    Obrigado C.!!!

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  3. " No primeiro jogo, contra a Grécia, Scolari entrou com o seu onze em campo. Resultado? Derrota. Inesperada, dirão aqueles que tinham uma bandeira na janela. Totalmente previsível, tendo em conta as escolhas e o mau trabalho do seleccionador, dirão aqueles que percebem alguma coisa de futebol. No segundo jogo, Scolari, que é incompetente mas não é totalmente burro, fez entrar os campeões europeus em título. Do FCPorto, pois claro. Resultado? Caminho aberto para a final."

    Grécia - Portugal

    GK - Ricardo
    RB - Paulo Ferreira (PORTO)
    CB - Jorge Andrade (ex-PORTO)
    CB - Fernando Couto (c) (ex-PORTO)
    LB - Rui Jorge
    CM - Maniche (PORTO)
    CM - Costinha (PORTO)
    RW - Luís Figo
    AM - Rui Costa
    LW - Simão
    CF - Pauleta
    Nota: Deco entrou ao intervalo

    Russia - Portugal

    GK - Ricardo
    RB - Miguel
    CB - Jorge Andrade (ex-PORTO)
    CB - Ricardo Carvalho (PORTO)
    LB - Nuno Valente (PORTO)
    CM - Maniche (PORTO)
    CM - Costinha (PORTO)
    LW - Simão
    AM - Deco (PORTO)
    RW - Luís Figo (c)
    CF - Pauleta

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    1. Pois. Às vezes é melhor mesmo estar calado. Ridículo.

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    2. Obrigado por comprovar a tese da C.
      O Ricardo Carvalho e o Deco principalmente faziam toda a diferença.
      Bastava estar tb o Baía e o Europeu tinha sido um passeio.

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    3. Ridículo é misturar assuntos. Enumerar ex-PORTO não faz sentido nenhum. A lógica do artigo está correcta, e passa por explicar que do jogo da Grécia para o da Rússia passou-se de 3 para 5 jogadores da mesma equipa (27% para 45%), habituados a jogar juntos, da mesma zona (meio campo) e que tinham ganho a Champions League. Só não percebe isso quem não quer.

      Ah, o FC Bayern (do Guardiola) tinha 6 em 11 jogadores no jogo com o Brasil.

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    4. Estes exemplos vê dar razão à C.: No jogo que perdeu, três jogadores do Porto. No jogo que ganhou 5 jogadores do Porto, entre os quais Deco,.em vez de rui costa.

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  4. A filiação da Alemanha é um bocado excessivo. Eles antes do Guardiola já têm 3 títulos de campeão e mais 1 dúzia de meias-finais, ou seja, já sabiam muito bem o que é trabalho e futebol ainda antes do Guardiola nascer. Mas de resto, completamente de acordo, o Scolari é realmente o burro que ele próprio fala.

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  5. Scolari pode ser burro, mas foi ele quem levou Portugal à única final da sua história, e juntamente com Otto Glória em 1996, também brasileiro, levou Portugal em 2006 a uma meia final de uma Copa do Mundo, enquanto que os inteligentes, espertos e bons nem sequer chegaram aos 4ºs de final, muitas vezes ficando pela fase de grupos...

    Se Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos podiam ser treinados por um ponei, a dita melhor geração portuguesa de sempre também podia...

    Os 7 x 1 tem o seu valor para alemães se vencerem o Mundial, caso contrário será mais um fiasco e o jejum continuará, já que nada ganharam desde o Euro 1996, enquanto que o derrotado de ontem de 1996 até 2014, já venceu 1 mundial com Scolari, 4 Copas das Confederações(sendo a última contra a melhor Espanha de sempre em 2013 e com Scolari) e 3 ou 4 Copas América, enquanto que Argentina, Holanda e outros chupam no dedo até hoje desde a década de 80, sem ganhar absolutamente nada...

    Argentina, Alemanha e Holanda.Destes 3, 2 vão continuar em jejum...

    É bastante incompetente, os 20 títulos que ganhou na carreira foram pura incompetencia, é...

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  6. Perfeitas suas palavras, concordo totalmente, bateu uma tristeza ver a cara de meus vizinhos e amigos ontem, após a derrota, mas a seleção brasileira, a alemã e, principalmente, o Scolari mereceram o placar de ontem. Sou Dragão, mas não vivi o Euro 04, só vim a acompanhar o FC Porto religiosamente nos últimos 4 anos, logo, não falo como portista, falo como brasileiro que ficou encantado pela "Família Scolari" em 2002 e desde a época cultivava enorme estima pelo Felipão.

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  7. Ah então o caminho até à final é graças aos "campeões europeus em título.". Mas a derrota na final é culpa do Ricardo. Interessante. Quem não perceber de bola ainda acredita.

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  8. Cara C., subscrevo cada palavra, cada vírgula cada ponto. Festejei cada golo da Alemanha como se fossem golos do Porto contra o slb.

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  9. E eu apesar de ser portista, vibro cada vez que Portugal é eliminado de qualquer competição, porque Portugal só é favorito a ganhar qualquer coisa nas campanhas da imprensa portuguesa... Mas aos olhos do mundo, Portugal é do 2º ou 3º escalão do futebol, juntamente com Grécias, Costas Ricas ou Camarões.
    Vez em quando faz uma graçola num europeu ou mundial, mas não mais que isso, um eterno outsider com mania que é colosso mundial...

    Scolari pode ser incompetente burro e etc, mas tem uma copa do mundo e uma taça das confederações no currículo...a única final que perdeu em seleções foi com Portugal, sinal que algo está errado...ou a melhor geração portuguesa de todos os tempos, a de 2004, não sabia jogar à bola???O time titular da final com Ricardo, Miguel(saiu lesionado no comecinho, entrou paulo Ferreira) R. carvalho, J.Andrade, NUno Valente, Costinha, Deco, Maniche, Figo, CR/ e Pauletaa eram uns anjinhos inocentes e totós, que esqueceram da tática, esqueceram como se joga à bola após um mês inteiro treinando juntos???
    Poupem-me!!!

    É a velha história de sempre:enquanto foram ganhando no euro 2004, o mérito era da "base" que Mourinho deixou, quando perderam para Grécia com a mesma "base" de Mourinho, a culpa é do burro!!!

    E pelos vistos, se um dia Scolari treinar o FCP, o clube vai ficar sem adeptos...

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  10. Por favor não continuem a insistir que esta Alemanha é a equipa do Pep... Isso é das maiores mentiras que anda por aí nos dias que correm.

    E eu sou um admirador absurdo de todo o cérebro do grande Pep!

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  11. Dizer o quê?

    Baía o melhor do mundo e arredores?

    Com certeza. Eu lembro-me como ele entrou a titular na seleção e como, num jogo na Grécia (olha a coincidência!!!) deu perus e nos afastou da competição desse ciclo.

    Por mim, eu só tenho a agradecer ao Scolari, que é um c****** de um arrogante e se f**** à grande. Porém, ele teve o mérito de, em 6 anos, pôr o país (descontando os que não lhe perdoam não ter convocado o cancro Baía) a sonhar.

    Aliás, com a mesma matéria prima, Oliveiras e Coelhos fizeram muito mais, mas muiiiiiiiiiiiiiito mais. Isto para não falar em Paulo Bento...

    O resto é dor de corno relativamente a um técnico que tem um currículo com títulos (mais ou menos) importantes.

    LOL

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