terça-feira, 22 de julho de 2014

Vinte anos depois

Passaram vinte anos desde que começou o capítulo mais negro da história do Benfica, ou seja, passaram vinte anos desde a chegada de Artur Jorge como treinador ao Benfica. Há vinte anos, a nação benfiquista assistia à destruição de uma equipa que fora campeã contra todas as previsões e de maneira heróica. O Benfica, numa fase crescente da história do Porto e arruinado financeiramente, desceu o seu nível desportivo para patamares terríveis que nos afundaram anos. Artur Jorge e Manuel Damásio, se o mundo fosse justo, não se podiam aproximar a menos de 50 Km do Estádio da Luz sem lhes cair um balde de estrume em cima.
Passaram vinte anos, vinte anos de trevas, de ruína. Desde aquela noite de Maio em Alvalade e daquelas tardes de uma alegria melancólica de Braga e na Luz, contra o Guimarães (como se toda a gente já soubesse o futuro), que o Benfica se separou de uma glória e de uma aura que nunca o tinham abandonado nos 90 anos prévios. 

As melhores personagens literárias são, para mim, as que têm passado. O Conde de Monte Cristo - o meu romance favorito - é fantástico porque todas as personagens têm uma história. Ou porque foram traídos ou porque foram conspiradores, ou porque amaram quem não podiam amar ou porque beberam demais numa tarde. Em "Vinte anos depois", também romance de Alexandre Dumas, encontramos os três mosqueteiros e D`Artagnan outra vez. O romance, longe de ser genial (Dumas era um boémio que escrevia muitíssimos livros para pagar os seus ainda maiores excessos), tem o condão de dar ao leitor aquilo que ele mais pode pedir: saber o que se passou, muitos anos depois, com os seus personagens favoritos. 

Chegados aqui, vinte anos depois da aparição do "poeta" Artur (que há quem diga que é exactamente a mesma pessoa que um célebre avançado do Benfica, especialista no pontapé em moinho - mas eu não acredito), temos o prazer de saber o que se vai passar com o Benfica, tal e qual como os quatro mosqueteiros. Maio de 2014, que podia ter sido perfeito não fosse um velhaco ter defendido os penalties quase para lá da própria marca de penalty, foi o melhor ano dos últimos vinte. Pela primeira vez desde a chegada de Artur Jorge, o Benfica foi inequivocamente superior ao Porto, com melhor plantel, melhor treinador e melhores resultados. Passaram-se coisas incríveis, entretanto. Longe da aventura de cordel de D`Artagnan e dos três mosqueteiros, longe do sorriso da Julieta (perdão, Constança. Julieta era no Dartacão) e daquele final de honra e glória, os últimos vinte anos foram uma tragédia onde o Cardeal Richelieu gozou a seu bel-prazer. Mais: apesar da vitória do ano passado e dos seus melhores anos já terem ido, a sua posição ainda é fortíssima. 

Em "Vinte anos depois", D`Artagnan é o único mosqueteiro. Athos, Porthos e Aramis seguiram os seus destinos (como Oblak, Garay, Markovic, Rodrigo...). E é aqui que as metáforas se separam: eu tive um prazer genuíno quando li o "Vinte anos depois" enquanto adolescente porque encontrar o futuro daquelas personagens (tão cheias de passado) era uma ânsia. E vivi aquilo tudo, o drama, as mentiras, a decadências e os erros irreversíveis com avidez. Porque o que eu queria era saber o que aconteceu, como é que estavam as minhas personagens aquele tempo todo depois. Em relação ao Benfica, não houve propriamente uma pausa entre os livros. Eu vivi estes anos, eu cresci com isto. Ou seja, o Benfica é a personagem da qual eu conheço o passado, é a personagem que eu mais estudei, que eu mais absorvi. Mas vinte anos são vinte anos e o marco histórico merece ser assinalado. Para onde queres ir Benfica? 

Vinte anos, além de um número redondo, simbolizam a primeira vez que o Benfica podia ter partido na frente para um bi-campeonato, podiam significar uma vida diferente, uma coroação, podia ser o princípio de qualquer coisa muito diferente das últimas duas décadas. Ao contrário, há uma estranha sensação de deja-vu. Como aquele festejo do título triste de 1993/1994, em que se despediu o último plantel à Benfica, sente-se esse espírito de revolução falhada: foi bonita a festa, pá. 
Eu gosto de personagens tristes, falhadas, com erros (Athos tem um filho com a amante de Aramis, sabiam?), eu gostei que, ao fim de vinte anos, os quatro mosqueteiros não ficassem juntos, num final de nostalgia amarga. Mas, quanto ao Benfica, nada me custava mais que os mesmos erros, que a mesma tragédia se assolasse sobre nós. Já não há paciência para finais tristes, já não há paciência para vinte anos que pareceram vinte séculos. 

Sinto que todos os anos, desde há vinte, começo a época com a mesma sensação. Gostava de, um dia, tantos anos depois, fechar este capítulo. 


6 comentários:

  1. e para alem disso tens o Betis que desce sempre que vai a europa..

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  2. É estúpido da minha parte tentar consolar um benfiquista a meio de um defeso que está para durar e durar até 31 de Agosto, mas cá vai: Tem lá calma ó Manel que a procissão ainda vai no adro.

    Se parece que nós vamos ter o melhor plantel - que já não tinhamos desde a última época do Vitor Pereira - também é certo que vocês partem com o melhor treinador, e mais, continuam a ter bons jogadores em todos os sectores.

    Qual será a melhor omolete? a do gajo que a sabe fazer bem ou a do que tem os melhores ovos?

    O que desejo é que ganhe o melhor, sem tricas como aconteceu este ano, e que desta vez o melhor seja mesmo o meu Porto.

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  3. Viagens ao Benfica do passado, e eu apareço logo :)

    Entrando nesse jogo, uma grande diferença da transição 93/94 para 94/95 e a actual, é que o treinador campeão mantém-se...

    Quanto muito, estamos a assistir a uma transição 90/91 para 91/92. Uma época fabulosa e depois o Benfica consegue que o Eriksson continue, mas vende o Valdo e o Ricardo Gomes para o PSG, sem os substituir convenientemente (quando o substituto do Ricardo foi o Paulo Madeira e o Rui Bento, está tudo dito na capacidade do Benfica em ser incompetente).

    O resultado não foi desastroso, mas a equipa perdeu nível e fez uma época à Jesus 2011-13...num nível alto, mas sem qualquer conquista de relevo.

    Quanto ao ciclo de 20 anos, sem dúvida que ainda não podemos fechar essa porta, M. O nosso Benfica continua em crise (já esteve bem mais enfiado no poço, mas ainda não saiu de lá)...a minha fé é sempre a mesma: não há ciclos eternos no futebol. O do porto vai acabar, de forma natural até, com o envelhecimento do seu presidente e o Benfica há-de voltar à aura 04-94. O maior clube de Portugal há-de voltar a ser o melhor clube de Portugal.

    Abraço

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  4. Bom texto.

    Estou cansado. Estou cansado de esperar o D. Sebastião. Às vezes o nevoeiro engana, e leva-nos a ver o que não existe. Depois, depois é triste encarar a realidade. Triste sina a nossa.

    Um abraço.

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  5. M:

    Faz hoje 10 anos do primeiro post do diário de um ultra.

    Abraço

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