terça-feira, 9 de setembro de 2014

Época de exame

Eu fui um bom aluno. Na faculdade tinha dois objectivos: acabar o curso com uma boa média - coloquei a meta nos 16 valores e atingi-a sem grandes problemas - e nunca deixar nada para Setembro porque isso me ia lixar as férias. Palavras sábias que alguém uma vez disse ao meu pai: "Ser o melhor aluno dos bebâdos e o mais bebâdo dos melhores alunos". Este objectivo não consegui, mas pronto.

Como aluno de 16, havia vários tipos de exame. Havia os exames em que tinha estudado para mais do que 16, em que o exame era fácil e eu sabia que ia ter boa nota antes de começar. Uma pessoa está plenamente confiante, não há discussões interiores sobre a matéria, aquilo já faz parte de nós. Como, a certa altura, o Benfica de 2013/2014. Em Fevereiro de 2014, quando o Benfica atropelou o Sporting no Estádio da Luz, o Benfica sabia a matéria de cor. Era o aluno sem medo, perfeitamente capacitado do que sabia, que nem imaginava que podia ter dúvidas. Os jogadores abordavam os jogos e os lances sem colocarem a hipótese de não os ganharem. Estavam concentrados, e respondiam a perguntas aparentemente fáceis como "Rio Ave em casa", sem se esquecerem daquela coisinha que o professor tinha dito na aula e que ia ser descontada se não estivesse lá. Não havia engonhanços, ronha, as respostas eram claras, precisas, de quem sabia em que página do livro estava a resposta e ainda tinha preparado uns pozinhos para requintar a resposta. Em perguntas de alínea, como "Guimarães em casa", "Braga fora", o Benfica foi cuidadoso e humilde. Leu as alíneas todas para ir cortando as que tinha a certeza que estavam erradas e assinalou com cuidado, sem arriscar. O Benfica intramuros de 2013/2014, na segunda metade da época, foi o aluno de 20, o menino bonito em que um professor e um adepto se podia orgulhar e a quem se augurava um futuro risonho.

Houve exames que eu odiei fazer. Não gostava da cadeira (o curso de medicina é longo e tem várias coisas que depois nos esquecemos e que nunca vamos usar na vida. Sei mesmo muito pouco - nada? - de otorrinolaringologia, por exemplo), não tinha estudado, enfim. Eram cadeiras que eu fazia, mas em que não me aplicava a 100%. Não era o aluno modelo. E o Benfica, várias vezes, não o é. A preparação é deficiente, não se estudou o suficiente, a coisa vai correr mal. E aqui depende muito do professor que está do lado de lá. Num exame oral é preciso sorte com o professor, com a maneira como ele acordou, com as perguntas, com o facto de ter ou não simpatizado connosco. Uma vez fiz uma oral com um médico que tinha estado de urgência, sem dormir. Acho que se tivesse falado do Benfica em vez de medicina teria tido a mesma nota. E fiz orais com professores brilhantes, inteligentes, capazes de perceber só pela maneira como começávamos a frase se sabíamos ou não do que estávamos a falar (uma saudação à minha tutora de pediatria). Ou seja, muito do sucesso do Benfica depende do Porto (e vice-versa). Quando o Porto é implacável (2010), um Benfica mal preparado só vai levar sovas. Um Porto sem dormir, como o de 2005, foi vencido por um Benfica em que o primeiro médio suplente era o Bruno Aguiar.

Depois havia os exames dúbios. Aqueles onde eu tinha estudado, mas sabia que não eram fáceis. Os exames onde eu gostava da matéria, mas não sabia tudo. Eram as épocas de exames tramadas, com muitos exames em cima uns dos outros,  às vezes na época de Natal, quando eu ia a casa visitar a família. E, nestes exames, as coisas eram imprevisíveis. Tudo é fácil quando se sabe a matéria toda - não há professor nem Estoril que nos tire dois pontos - e tudo é também fácil quando sabemos que não estamos preparados: não há ilusões e vamos só tentar não baixar muito a média e recuperar no próximo. Mas eram estes exames intermédios que eram uma incógnita e que puxavam pelos alunos. Era preciso ser-se esperto, concentrado e ter alguma sorte. Sinceramente, nunca fui suficientemente calmo para ser consistentemente bom nestes exames e, mais desafortunadamente, o Benfica também não. Um exame em que não soubéssemos tudo obrigava a ser inteligente na maneira como respondíamos com confiança, escondendo a matéria que não sabíamos. Era preciso trazer o exame até à nossa zona de conforto, ser inteligente e usar cada bala (os alunos de 20 acabam o exame com pena de não terem mostrado tudo o que sabiam). O Benfica nunca é bom nestes exames. Em anos em que o Porto é do nosso campeonato, nem muito superior nem muito inferior, o Benfica não tem sabido fazer o exame com inteligência (2011/2012), ou não tem tido sorte (2012/2013).

O Benfica de 2014/2015 tem o mesmo treinador de há 5 anos, aguentou Gaitan, Enzo Perez, Salvio, Lima e Luisão. Mas não tem Garay nem grandes avançados. É o bom aluno, o aluno de 16, mas o aluno que não estudou tudo. E tem um professor que sabe a matéria, ainda que haja lacunas. Para ser campeão, o Benfica tem que ser inteligente nas respostas, tem que estar sempre concentrado, tem que puxar persistentemente os jogos para aquilo em que faz melhor. Não pode entrar a achar que não vai ter boa nota, não pode achar que isto é um exame para 20 valores. É um exame duro, no qual é preciso sorte, é preciso que o professor falhe as perguntas e é preciso muita, muita concentração. 2014/2015 é um teste de maturidade, de mentalidade competitiva, de saber sofrer. 2013/2014 foi de cruz, 2014/2015 é uma pergunta de desenvolvimento.

4 comentários:

  1. 2014/2015 até agora foi de uma pergunta de interpretação. Daqui para a frente vai ser escolha múltipla com a anotação "Escolha as mais correctas" para teres ideia do difícil que vai ser!
    André M.
    SL

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  2. Os homens do apito já estão a ajudar.

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    1. Basta serem isentos e acertarem/errarem igual para todos, que já estão a ajudar.
      Mário Rui

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  3. Excelente analogia!
    2014/15 é uma resposta de desenvolvimento e que deve ser dada de forma muito inteligente e focada no nosso campo, o (bi)campeonato! Se for preciso deixar cair temas não tão importantes, mesmo que contribuam para uma nota final mais alta, deixamos. Mas ganhar o BI é fundamental! É como ter nota máxima numa oral.
    Abraço e Viva o Benfica!
    Mário Rui

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