quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O que faltava

Se és do sportem, começa a ler o texto só daqui a quatro minutos por favor. 

O Bruno é o homem que faltava ao futebol português. E não estou a ser irónica, como o árbitro Manuel Mota quando só deu quatro minutos de desconto depois uma segunda parte do mais puro anti-jogo que eu já vi. Jogadores a deitarem-se no chão até quando caíam sozinhos, choro, lágrimas, pernas no ar, macas, um terror, pobres coitados, tanto sofrimento junto. Já não via uma coisa assim desde o Porto-benfica, juro.

Digo-o porque, sem o Bruno, o sportem estava condenado a ser o terceiro grande só duas vezes por ano – quando jogava contra os rivais da Segunda Circular. E este é o maior, e provavelmente único, elogio que lhe posso fazer: até aqui, ninguém do FCPorto se importava com o sportem.

Eu, confesso, sou uma grande ativista do ódio contra o sportem desde sempre. É verdade que, quando vivia no Porto e eles eram campeões (não sei se se lembram, já foi há tanto tempo), nem se dava por isso. E todos sabemos que o sentimento “anti” cresce sobretudo baseado nisso: no colega do lado que é de outro clube e nos f%&# a cabeça quando ganha. No meu caso, foi um coisa televisionada, como já expliquei aqui.

O M. costuma dizer, na brincadeira (será?), que só se apaixonou por mim porque eu odeio o sportem. Reparem: eu ser do Porto, o clube que destrói o dele, ainda aguenta; agora uma pessoa que não odeia o outro rival não tem qualquer credibilidade para ele. Entretanto, a verdade é que ele foi percebendo a diferença entre odiar o sportem em Faro (o M. quer que os nossos filhos sejam do farense, quando o clube tem um leão como símbolo e tem sportem no nome, valha-me deus, qualquer dia queres que se chamem Bruno!!!!) ou em Lisboa e odiar o sportem no Porto. É que o sportem praticamente não existe para um portista. Lá em casa, no Porto, sabe-se sempre quem joga contra nós e contra o benfica, mas contra o sportem não. E este é só um exemplo do desprezo que o Bruno tem que combater.

A estratégia dele é conhecida e tenta copiar (muito mal, muito mal...) uma que vimos funcionar há 30 anos. Não lhe interessa se, na altura, o Porto era o clube da “província” e precisava de se afirmar perante a “capital” com um discurso de incitamento à guerrilha e se, agora e sempre, o sportem é tudo menos isso.

Ver o sportem a adoptar a postura de “contra tudo e contra todos” é engraçado, porque reparem que nem no ano passado, quando andavam pelo sétimo lugar, alguma vez os vi argumentar que estavam assim porque estava tudo contra eles. Nem quando lhes apanharam o vice a pagar a um árbitro. Aliás, nem nas primeiras jornadas deste ano, com foras-de-jogo constantes e um empate contra o rival com a ajuda do árbitro. Isto surge, naturalmente, quando o sportem, a meio da época, já deixou a Taça de Portugal e a Taça da Liga pelo caminho e quando até o Montero já deixou de marcar golos em fora-de-jogo.

Nada contra a estratégia de criar teorias da conspiração para desculpar derrotas. Faz parte. O que o Bruno fez de diferente é que se virou para o nosso lado. Exclusivamente para o nosso lado. E nós estamos habituados aos Gomes da Silva desta vida vestidos de vermelho, mas de verde realmente ainda nos faz alguma confusão. Principalmente quando mantêm aquela pose cavalheiresca, tão à sportem, com um tom erudito e um ar tão lavadinho. Como é que uma pessoa entra na lama da argumentação com alguém que tem o cachecol sem dobras e sem manchas pousado em cima dos ombros?

Eu estou habituada a falar sobre roubalheiras, polémicas, apitos, nomeações e etc com um vermelho que está convencido que a fome no mundo vai acabar quando o Pinto da Costa sair do Porto. Mas a verdade é que não estou habituada a falar com um verde sobre a roubalheira que foi o sportem-marítimo da Taça da Liga, por exemplo. Ou da ilegalidade do primeiro golo deles em Penafiel. Ou do escândalo que foi o marítimo ter subido ao relvado depois do FCPorto. Ou do penalty por marcar sobre o Carlos Eduardo. Ou de como o nosso jogo deveria ter terminado sempre depois devido ao anti-jogo do qual já falei.

Estivesse o futebol português como há um ano e nesta altura eu não teria de fazer isto. Mas não está. Porque o Bruno chegou e odeia o FCPorto e vai fazer de tudo para convencer os outros clubes todos que nós somos maus. O Bruno era o homem que faltava para que todos se odeiem a todos e passemos a semana a levar com ameaças de boicotes e jogos com os juniores. Não é o primeiro, não será o último, e ainda lhe falta aquele pequeno pormenor de ganhar para que isto resulte.

sábado, 25 de janeiro de 2014

10 anos sem Fehér e uma vida de recordações

Foi há 10 anos. Eu estava a ir de boleia para Lisboa, a voltar de Faro em plena época de exames. A ouvir o jogo na rádio com outro benfiquista, tínhamos acabado de gritar aquele golo do Fernando Aguiar como se fosse realmente importante. Eu não vi a queda em directo, mas ouvi a voz do repórter de campo nervosa, embargada, aflita, assustada, a dizer que Fehér tinha caído e que podia estar mal. Lembro-me vagamente do relato confuso de tudo o que se estava a passar, da aflição geral, das contradições normais, dos boatos. E lembro-me de chegar a casa e seguir aquilo tudo em directo com o R., no apartamento de Sete Rios que tantas memórias me traz.

Toda a gente se lembra da morte de Fehér. Se estava a ver o jogo ou não, da queda, do que pensou, do que sentiu. Faz hoje 10 anos e, para muitos, parece que foi ontem, tal a nitidez com que se lembram. Nem parece verdade que já passou uma década inteirinha, de tão apressados que andamos, com tantas coisas que já fizemos, se ainda ontem era domingo e estávamos a ver o Benfica em Guimarães, sem pensar em mais uma semana de trabalho. As recordações têm, depois, esse poder: são uma máquina do tempo brutal, uma viagem rápida a sítios há muito distantes, tão brutal nas suas contradições (como mudei em 10 anos!) que chega a dar tonturas. 

Esta expressão, que uso repetidamente, vem de um artigo que o D. me mostrou uma vez na Time. Escrito por um adepto do Liverpool, acabado de ser campeão europeu, o artigo é um maravilhoso elogio à eterna alegria e melancolia de ser adepto. O autor explica a quem não sabe e verbaliza por quem o sente que ser-se adepto é ter sempre a nossa vida à nossa volta, à distância de um golo, de um número nas costas numa camisola. Para 99,999% das pessoas, Fehér representa um domingo à noite trágico, uma memória brutal e inesquecível, a morte em directo. Obviamente que, para mim, Miki Fehér é sobretudo lembrado por essa tão triste noite. Mas não só. Fehér é também um jogo contra o Guimarães em casa emprestada no Jamor, um 2-0 insonso à segunda jornada, com um golo seu no fim, que me fez logo perceber que era mais um ano de seca. Foi uma tarde de pouco sol passada em Porto Covo, com o T. e o D., a beber cervejas no café do parque de campismo e a adivinhar mais uma época terrível. 
Fehér foi uma viagem espectacular para o Porto, para vermos o Benfica-Lazio no estádio do Bessa (perdemos 0-1 depois de termos perdido 3-1 em Roma). No meio de tantas e tantas gargalhadas naquele autocarro, preciosa ajuda para esquecermos a eliminação, lembro-me do M. gritar: "Podemos criticar todos, menos o Fehér! Esse dá tudo o que tem, não sabe é mais que aquilo!" - e no meio dos risos, da juventude e tempo que me permitia fazer viagens para ir ver o Benfica a todo o lado, ficou o único elogio futebolístico que me lembro de ouvir ao húngaro em vida (eu sei que não interessa para nada se ele era bom jogador ou não, é só uma história).

A verdade é que esse poder de aliar o futebol à memória e, por consequência, à minha vida, é uma das grandes razões pelas quais eu vou sempre amar este jogo. Eu sei que nunca vou esquecer Fehér, sobretudo por aquele domingo, mas também por me levar aquelas férias, aquela viagem e até a um reportagem da SportTv, que vi numa daquelas manhãs de ócio da vida estudantil, da qual só me lembro do Cajuda, na altura treinador do Braga, a virar-se para ele a dizer "toda a gente sabe que não estás no teu melhor momento", um fragmento bizarro que não sei porque é que cá ficou. 

Hoje, 10 anos depois da sua morte, milhares de pessoas também usarão o futebol como máquina do tempo e vão viajar uma década, recordar onde estavam, com quem estavam. Vão lembrar-se de projectos dessa época, de sonhos, de desilusões, da vida, da sua vida. Infelizmente, será por um motivo trágico e marcante. Hoje, toda a gente fará essa viagem com os adeptos de futebol. Mas, no próximo jogo, um pormenor qualquer fará um adepto recorda-se de uma conversa, de uma piada dita com um amigo a ver a bola, de um craque, de uma viagem, de um familiar. E fará essa viagem sozinho, sorrirá para dentro e contará isso a alguém da nossa tribo. Uma das maiores alegrias que tenho como adepto é que facilmente viajo para locais distantes (Budapeste, a perder 2-1 com o Manchester United para a Champions, em que eu e o R., recebendo a mensagem do golo de Simão de livre, imitámos os festejos pela praça), para datas (o meu dia de anos, em que a C. festejou o primeiro golo do Porto em Old Trafford (2-2) agarrando-se à minha perna e eu a olhei com ar ameaçador e lhe pedi para nunca mais repetir aquilo), para pessoas (o meu avô e o Benfica-Beira Mar de 93/94). Hoje, infelizmente, o futebol vai fazer-nos recordar uma tragédia colectiva. Mas, acreditem, várias vezes me leva aos meus tesouros pessoais. 

"...ser adepto é mais que derrotar a distância e a geografia. É a nossa máquina do tempo pessoal. Se há coisa que eu fiz de forma consistente nos últimos 50 anos foi apoiar o Liverpool. Ser adepto é uma benção, porque nos liga à infância como mais nada o faz, e a tudo e todos que marcaram as nossas vidas entre a infância e o presente. Por isso, (...) quando vi o jogo na televisão, não tive que estar à procura dos fragmentos da minha vida. Eles estavam todos à minha volta. Chá em casa da minha avó depois de um jogo; o meu tio favorito que morreu muito cedo; namoradas que não perceberam a essência disto (casei com a única que percebeu); o meu bolo do 21º aniversário, feito pela minha mãe, com as cores do Liverpool; as minhas filhas vestidas com os primeiros equipamentos delas; os grandes amigos com quem já não falo há muito.

What does being a fan mean? It means you`ll never walk alone"

(Michael Elliot, hopelessly devoted. Para quem tiver assinatura da Time, está aqui. A minha tradução vem do meu antigo blog, com a revista ao meu colo)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Tempo para pensar

Já lá vão mais de três anos desde o meu último desgosto amoroso. O André deixou-me e eu pensei que o mundo ia acabar, mas afinal acabei por encontrar a felicidade ao lado do Vítor. Nos últimos dois anos não vivemos uma grande história de amor, mas a verdade é que o sexo contra o benfica era fantástico.

Sabes, quem me ouvir falar até parece que estou sempre a trocar de companheiro, mas a verdade é que são eles que me têm trocado por outras atrás do dinheiro. Quanto a isto não posso fazer nada: por muito boa que eu seja e por muita estabilidade que lhes dê, nunca vou ser rica como aquelas pindéricas russas e árabes.

Por isso, tenho de arriscar. Já não há muitos rapazes novos e jeitosos por aí que ainda estejam solteiros. E tu soubeste engatar-me bem. Eu bem vi como tratavas a tua ex, lá em Paços de Ferreira. Parecias o sonho de qualquer adepta. Vitórias a jogar bonito – o que mais se pode pedir?

E ela, como toda a gente sabe, era muito mais burra do que eu, portanto não me foi nada difícil conquistar-te. Tu sabias ao que vinhas: eu já não sou a mesma pessoa que há três anos. Já não estou à espera de um grande amor, mas também já não estou de coração partido. Sou uma mulher mais madura, não me deixo apaixonar por qualquer ruivinho que aparece e já não acredito em contos de fadas. Só quero um homem que me trate bem, que me dê a mão na rua, que me aqueça a cama no inverno, sabes?

Não peço muito em troca. Só preciso de ganhar, ganhar, ganhar. Escusamos de ter a posse de bola do Barça de Guardiola ou de fazer uma jogada como o último golo do Messi. Não estou à espera de muito, porque não me quero magoar. Mas tu nem isso me estás a dar. Pareces cada vez mais distante, como se estivesses condenado a aturar-me. Às vezes até parece que não gostas de mim. Porquê, Paulo, porquê? O que se passa contigo? Não podes ter deixado de ser um bom partido assim tão depressa. Ou será que nunca foste? Será que me enganei?

Eu sei, eu sei que também não estou nesta relação de pedra e cal. Já não consigo dar-te os filhos que dei ao André e ao Vítor – o Falcao, o Hulk, o Moutinho, o James. Mas porra, Paulo, temos o Fernando, o Lucho, o Jackson, o Mangala, o Danilo, o Alex Sandro, tanta coisa que outro homem qualquer era capaz de matar para ter. Mas contigo assim isto não está a funcionar. Não está, escusas de vir para a televisão fingir que está tudo bem entre nós porque não está.

É verdade que a nossa relação não está perdida, mas eu preciso de um tempo para pensar. O problema – espero - não és tu, sou eu. Sou eu, que ainda agora na luz gritei amo-te mais alto do que todos os vermelhos que lá estavam e, mesmo assim, levei com a tua indiferença, com a tua incompetência, com a tua falta de vontade em estar comigo. Senti-me como uma daquelas mulheres que chega a casa do trabalho, arruma tudo num instante, faz o jantar preferido do marido e veste a sua lingerie mais sexy, mas, quando ele chega, vai directo para a cama e não usufrui de nada.

Não pode ser, Paulo, assim não pode ser. Tens pouco tempo para me mostrares que queres lutar por esta relação. Eu não desisto de ti, acredita. Estarei sempre aqui para o que precisares, ao teu lado, a gritar da bancada. Conquista-me outra vez, mostra-me que podemos ser felizes. Agora é a tua vez de me dizeres amo-te todos os dias.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Stress pós-traumático

Tenho saudades de amar o Benfica. Amar. Amar desenfreada e loucamente, sorrir e sentir os meus olhos a brilhar quando se fala do Benfica. Saudades da comunhão, de me sentir capaz de confiar cegamente (se bem que, honestamente, eu nunca confiei assim no Benfica e duvido que alguma vez o consiga vir a fazer).

Eu sei, ganhámos. Ganhámos 2-0 e até pareceu simples. Eu devia estar contente e, confesso, estou algo surpreendido. Espero que vocês compreendam a bordoada que eu vou mandar agora: Eu compreenderia se, depois de Maio de 2013, os jogadores do Benfica se tivessem suicidado todos. (Ainda estão cá? Vão continuar a ler?). Era uma morte digna, um hara-kiri à japonesa, numa tentativa de salvar a honra (semelhante ao que a C. praticamente faz quando um carro que não tem prioridade consegue meter-se primeiro no cruzamento do que ela. A C. sente que isso é um vexame que envergonhará os nossos bisnetos). Sinceramente, para alguns deles, seria até uma maneira de, finalmente, serem apreciados por mim, ao sentir que pelo menos tinham sentido aquela perda como eu. No entanto, e passados uns meses do pior período da história do humanidade, eis que o Benfica ganha aos seus rivais e passa para a frente do campeonato. Eu devia estar feliz com isso - e estou, na medida em que isso é melhor do que um plantel ter-se suicidado, mas não estou convencido. Não sei se é stress pós-traumático, se é só feitio. 


 Não estou convencido por dois tipos de razões: as primeiras são irracionais e fazem parte da minha loucura, ou seja, eu parto do princípio que tudo nos vai correr mal. Tudo. Eu assumo sempre, mas sempre, que o rival naquele dia se vai matar em campo e que o nosso guarda-redes anda a ser chantageado por um polícia. Isto, com toda a probabilidade, vai-me retirar anos de vida, quase tantos como aqueles que a C. perde quando um carro lhe ganha um cruzamento (a sério, C., não é preciso ficar com o olhar Paulinho-Santos-quando-via-o-JVP sempre que isso acontece. É só um cruzamento e a seguir passamos nós, querida).
O segundo tipo de razões é mais racional: perdemos Matic e Salvio e Cardozo estão de baixa há mais tempo do que é normal (em milhões de benfiquistas não havia ninguém que desse um ligamento ao Salvio?), o que é equivalente a dizer que estamos numa guerra sem as nossas metralhadoras e que agora vamos tentar combater o inimigo não tendo generais. E, além disso, pusémos à venda metade do regimento. Para o observador externo, mais parece que andamos a dar tiros no pé do que a tentar ganhar a guerra. Ora, isto, aos olhos de quem, aos 90 minutos, face a um livre indirecto do Porto, pensou "pronto, eles vão marcar agora e ainda empatam e eu vou ter aqui uma coisa má", é só a pior coisa do mundo. Não há nada mais lixado para um paranóico do que ser efectivamente perseguido. 

Eu sei que já escrevi isto mil vezes e a C. goza-me a dizer que eu tenho que deixar de acreditar que vou ser presidente do Benfica e que posso parar com a campanha. Eu sei que devia. Em primeiro lugar porque vou ser jogador ("não joga o Matic, joga o Manel"), mas em segundo lugar porque até para mim mesmo me torno cansativo, com este género de benfiquismo circular, sempre a lamuriar-se. E a verdade é que, face ao duplo-pivot de Paulo Fonseca, quase todos os problemas parecem piores. Pelo menos para a C., aos olhos de quem aquela linha de dois trincos a atrapalharem-se parece pior que a II Guerra Mundial para os polacos. Mas poderei eu animar-me e ceder aos olhos (lindíssimos) de quem, além de ser do Porto, não deixa ninguém passar num cruzamento? Não será mesmo isso que ela quer, que eu baixe as defesas? 


É disso que eu tenho saudades, de me animar. De me entregar sem medo. De ter um bocadinho de fé sem me sentir logo ridículo. Eu nem sei se alguma vez fui assim ou poderei vir a ser, mas gostava, juro que gostava. O problema é que eu tenho de aturar um presidente que vende o craque da equipa por metade da cláusula, tenho um treinador que, com uma só frase, arrasou toda a formação. E um plantel valioso, mas insuficiente para, 11 contra 10 do Porto, ao menos ter a bola nos pés. E como é que uma pessoa acredita em alguma coisa depois de Maio do ano passado? 

Eu sei, eu sei. Era suposto, depois de um clássico e vivendo com a C., vir para aqui cantar vitória. Mas isso era o mesmo que a C. começar a ser uma cordeirinha ao volante. Eu já vi o Benfica levar muita porrada. De dentro e de fora. Desde a morte na praia até ao assassinato do seu património. Não sei quantas vezes o Benfica vai ter de ultrapassar todas as coisas que se parecem mover contra ele. Não sei quantas vezes vou ter de esperar que o Benfica nasça outra vez. O que te prometo, Benfica, é que de todas as vezes, vou esperar pacientemente e ao teu lado. Vou contigo até ao fim, sem as melhores metralhadoras, com o general vendido a meio da batalha. Domingo após domingo, clássico após clássico, ano após ano. Posso não dar berros em cada parto, pode não me cair uma lágrima cada vez que entras em campo, posso não gritar o "NINGUÉM PÁRA O BENFICA!" sem temer que isso dê azar. Mas eu estou aqui, a escrever este texto repetidamente, da minha maneira traumatizada, perturbada e ansiosa, ao teu lado. 

Vou ver-te nascer as vezes que for preciso até, finalmente, me animar. 

Vão ver o jogo juntos?

Percebo a tentação da pergunta. Para este filme de um casal de clubes diferentes ficar completo, são necessários aqueles planos de nós os dois, juntos na bancada, cada um com o seu cachecol e muito sorridentes porque gostamos muito um do outro e isso supera tudo. Estou quase a vomitar. Porque, felizmente ou infelizmente, não sei, esse casal não somos nós.

Não consigo sequer imaginar o que seria ver este jogo ao lado do M.. E nem seria só por ele, que nestas alturas diz coisas completamente absurdas que me dariam a justa causa para pedir o divórcio abaixo da cláusula de rescisão, mas sobretudo pelo que estaria à volta.

O futebol, para mim, não é uma experiência pessoal. Eu não quero que o meu clube ganhe só para eu ficar feliz. Não me basta olhar para o relvado e absorver internamente o que se está a passar. Não sou capaz de viver um benfica-Porto sozinha. E era isso que aconteceria se um dia eu cometesse o erro de ir ver um jogo destes ao lado do M..

Mas então, C., estarias com o teu marido, que te ama muito e te iria proteger daqueles malucos que gritam de alegria quando vêem passar uma águia. Sim, acredito que sim, a não ser que o Porto marcasse primeiro e o M. começasse aos berros a denunciar o meu ódio ao benfica e a dizer que eu merecia ser comida pelo tal milhafre. Podia acontecer. E o pior é que, só de imaginar esse cenário, comigo a correr e a fugir de milhares de lampiões enfurecidos, eu sorrio, porque o Porto pelo menos estava a ganhar.

Mesmo admitindo esse risco, eu teria de tornar-me cega, surda e muda. Não poderia gritar penalty de cada vez que o Garay atirava ao chão um jogador meu e teria de não bater no gajo do lado (o meu marido, possivelmente) quando ele aplaudisse o amarelo e consequente vermelho por simulação. O M., que adora quando o Porto é roubado porque sabe que me irrita mais, iria provocar-me ao apontar para o adepto que diria um lamentável “É muito difícil para o árbitro” e eu não aguentaria mais. Imagino-me a entrar no relvado, dar um cachaço ao árbitro e voltar mais aliviada. Esperem... Isto já aconteceu, não já?

Voltemos ao cenário em que eu estou numa bancada rodeada de lampiões. O Jackson vai isolado para a baliza, eu levanto-me e incentivo-o, mas o f%#& da p!$#$ do árbitro interrompe a jogada. O que seria aceitável eu fazer? Chamar-lhe ladrão penso que não me causaria problemas, porque há uma espécie de acordo universal entre adeptos em que ninguém defende o árbitro seja em que condições for, mas eu não iria ficar por ali. Porque o benfica é sempre beneficiado, e isto está tudo feito para estes c#amp;#&$ serem campeões porque o ano passado nós conseguimos destruí-los, e de repente sai-me o nome do Kelvin ou o número 92, e lá estou a ser perseguida por milhares de lampiões pela bancada fora. Na minha mente, isto acaba quase sempre assim.

Por outro lado, se o M. estivesse ao meu lado naquele momento, eu iria gritar-lhe: “E AGORA? DIZ LÁ QUE NÃO ESTAMOS A SER ROUBADOS!”. Porque eu gosto muito dele e quero que ele veja o mundo tal como eu. Seria um momento tão bonito, nós a partilharmos a mesma visão sobre um lance de um jogo entre os nossos clubes. Mas ele negaria tudo, inventaria uma nova regra para justificar a estupidez do Soares Dias e começaria a passar um atestado para eu ser internada numa unidade de psiquiatria. Ele tem esse poder sobre mim.

E eu desabafaria que nós não estamos a jogar um c”#$#$34 e que o nosso extremo não tem lugar nem no Ramaldense. E eles ficariam confusos, porque o Gaitán, aparentemente, tem todas as condições para fazer uma bela carreira no Ramaldense. E eu continuaria, que o nosso treinador é teimoso e burro, que estou farta disto, que não aguento mais. E um deles iria tocar-me no ombro, em jeito de compreensão, enquanto me contaria que desde os 5-0 no Dragão que também acha o Jesus um incompetente. E agora, só por este momento, talvez valesse mesmo a pena ver um jogo do outro lado.

Do outro lado. Porque eu e o M. somos um casal, mas somos de lados diferentes. E eu não me sinto bem do lado dele. O lado dele é vermelho e eu não gosto, o lado dele estava em maioria mas calado, o lado dele está tão habituado a perder com o meu lado que parece que nem estava a contar com a enorme quantidade de ofertas que o meu lado lhes deu. É verdade, se víssemos este jogo juntos podíamos dar a mão, aparecer na televisão com um ar fofinho e dar um grande exemplo de civismo. Mas não é assim que entendemos o futebol. Sobretudo, não é assim que vivemos os nossos clubes.

O futebol não é uma experiência pessoal, é para ser vivido com os outros, os que estão do meu lado, os meus. Eu quero que o meu clube ganhe para nós, os bons, ficarmos todos felizes. Eu olho para o relvado, a partir de uma bancada azul, e canto, e grito, e salto, quando os meus cantam, e gritam, e saltam. Não sou capaz de viver um benfica-Porto sozinha, mas ali somos um só. E, nessa parte - só mesmo nessa parte, porque tudo o resto já sabemos que não está a funcionar, e notem que consegui escrever um texto sobre o clássico disfarçando a minha revolta -, foi mesmo bom.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Benfica-Porto, o elefante cor-de-rosa

Toda a gente nos pergunta, invariavelmente, como é que eu e a C. vivemos esta semana. Talvez imaginem cenas de guerra, discussões constantes. Outros, mais românticos, talvez nos imaginem só a falar sem parar do assunto, numa harmonia de compreensão pelo outro lado que serviria para Bruno Carvalho dizer que estávamos unidos a planear coisas contra o Sporting.
Nada mais falso. Quem passe cá por casa esta semana, se não falar do assunto, até poderá imaginar que está na presença de um casal culto e civilizado, com boa música a tocar no Spotify (passe a publicidade, isto é brutal), livros a serem lidos, trabalhos a serem acabados e, devido a interesse histórico e pitoresco (adoro quando alguém diz "pitoresco" numa tentativa condescendente de não desprezar algo), até se juntou para ver o Portugal-Coreia do Norte de 1966 (talvez aqui o meu fascínio pelo Jaime Graça - impressionou-me mesmo - nos denunciasse, mas adiante). Esta semana, vistos de fora, eu e a C. parecemos pessoas normais. Nada mais falso.

A verdade é que nenhum de nós pára de pensar no Benfica-Porto de domingo desde há muito tempo. Há um elefante cor-de-rosa a passear no nosso T1, mas nós fingimos que não o vemos e que há espaço para os três cá em casa. A verdade é que, para mim e para a C., adeptos sofredores e doentes, pessoas com uma personalidade anormalmente patológica no que aos nossos clubes diz respeito, o Benfica-Porto (e outros jogos importantes) são um inferno. São uma montanha de sofrimento, uma escalada gélida, de arrepios e ravinas perigosas que nenhum de nós quer fazer. Um sofrimento tal que, admitimos (os dois, no plural), praticamente não compensa. A alegria de ganhar um clássico (uma maravilha sem preço) valerá este sofrer por antecipação todo?

A nossa solução para o Benfica-Porto é a de qualquer pessoa adulta, ponderada, madura para os assuntos delicados: não falar sobre isso e esperar que passe. Se nós nos agarrarmos muito aos livros e ao trabalho e não falarmos do assunto, pode ser que me saia da cabeça o medo que o Oblak dê um frango e lixe com éfe grande toda a promissora carreira que tem. Se falarmos do trabalho e dessas coisas, a C. aspira a que também Paulo Fonseca pense em tudo menos no duplo-pivot. Se formos passear, se convidarmos amigos a vir cá a casa, pode ser que até aconteça, por milagre, que este sofrimento todo passe finalmente.

Eu gostava - ou não - de vos dizer que andamos em casa eu com camisola do Benfica e ela do Porto e que passamos o dia a provocar-nos subtil e inteligentemente. Mas isso, além de ser uma treta maior do que o fair-play, não somos nós. Nós andamos a telefonar às escondidas aos nossos pais a discutir táctica enquanto o outro não chega. Nós não vemos notícias na TV sobre os clássicos porque já lemos tudo três vezes na net. Nós não precisamos de perguntar ao outro em que é que está a pensar nesta semana (ou na anterior) porque já sabemos a resposta.

A C. está ao meu lado a fingir que isto não é nada com ela. Nem levantou os olhos quando uma notícia sobre o clássico foi dita agora, no resumo do telejornal. É normal, acabou de passar um elefante à frente da televisão.
Agora vamos os dos fazer o jantar. Além do elefante, temos amigos cá em casa.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eusébio (o lado azul)

O telefone nunca toca ao domingo de manhã. É uma regra sagrada para um casal sem filhos: domingo de manhã é para dormir, sempre. No entanto, este domingo o telefone tocou. Era o pai do M..

- O Eusébio deve ter morrido - disse ele, antes de atender.

Porque só uma coisa assim tão grave quebraria a regra.

O Eusébio morreu mesmo. Eu virei-me para o lado cheia de sono. Ele não dormiu mais.

Eusébio, para ser sincera, não me dizia nada. Conhecia-o apenas pelos golos que passavam na televisão em datas marcantes. Não me era indiferente a sua qualidade, claro, mas era uma espécie de personagem dos livros de História, com defeitos e virtudes que me eram distantes. Cresci numa família portista que nunca o idolatrou. Contaram-me, ainda por cima, as histórias do rapaz negro que se tornou um grande exemplo do colonialismo do Estado Novo.

Eusébio, para mim, uma portuense, portista, de 27 anos, era um benfica e um país de outros tempos. Quando o meu sogro falava dele, eu conseguia ver nos seus olhos um benfica que eu nunca vi. Um benfica que ganhava, um benfica que metia medo, um benfica que era o símbolo máximo de um povo calado pela ditadura.

Mas o benfica e o país dos meus tempos não são assim, felizmente. Daí que Eusébio nunca me tenha motivado nenhuma rivalidade, sequer. Dizem que era bom homem e não me lembro de o ouvir dizer mal do meu FCPorto. Isso também terá ajudado, claro. Mas eu não sou do tempo do Eusébio. O tempo traz-nos diferentes olhares, diferentes opiniões. Maradona será sempre o melhor para o meu pai, Messi dificilmente perderá o primeiro lugar nos meus escolhidos. Messi é o meu Maradona, Maradona é o Messi do meu pai.

Para uma jornalista, a notícia de uma morte é quase sempre um conjunto de caracteres, uns telefonemas, umas manchetes. Escrevo sobre acidentes mortais todos os dias, as catástrofes naturais quase nunca me surpreendem e é raro parar para pensar sobre o que se está a passar. Fi-lo, por exemplo, quando escrevia sobre os seis miúdos que o mar levou no Meco. Fiquei genuinamente aterrorizada com o que estava a contar. A morte é mais fácil de encarar quando chega na altura certa, de uma maneira suave, sem sobressaltos e dor. Mas a morte de um ídolo nunca faz sentido, muito menos para um adepto. Eusébio não o era para mim, mas era-o para o M.. E, embora futebolisticamente espere que o benfica de Eusébio continue enterrado, não consegui deixar de ficar triste por ele. Pelo meu sogro. Pelas pessoas de quem gosto e que gostavam dele.

No domingo, no entanto, voltaremos ao relvado. E aí não há tempo para choradeira. A não ser quando eu penso no duplo pivot (PORQUÊ??? PORQUÊ QUE NÃO MUDAS ESSA MERDA?? Estou tão cansada disto...). Eusébio era futebol e é disso que todos nós gostamos. Por isso tenho pena que as atenções se possam virar para os adeptos portistas (muitos ou poucos) que não respeitarem a sua memória. Porque isso vai acontecer, preparem-se. A geração que irá à luz não se identifica com Eusébio, o grande jogador português, mas ouviu falar do benfica que os nossos avós nos ensinaram a odiar depois de tantos anos a sofrerem com o nosso, na altura, pequeno Porto. E quem vive em estádios, como eu, sabe que não é a morte de um ser humano que está em causa, mas uma rivalidade. Nós dizemos isto a brincar, claro, mas o M. ficaria mais afectado e eu, confesso, talvez visse uma vantagem se fosse o Matic que morresse esta semana.

Não estou a tentar desculpar quem eventualmente o faça, mas quem assobiar Eusébio estará, na verdade, a sentir que está a assobiar o benfica. Eu não o farei (nem sei assobiar, tenho a tarefa facilitadíssima!), mas também não vou gostar de ver os moralistas do costume a dizer que aquela gente do Norte é sempre a mesma coisa. É que, além de ser cientificamente improvável que uma pessoa, por ser de um clube diferente, se torne mais mal educada, uma rápida pesquisa mostrar-lhes-á que a rivalidade (e, por vezes, a estupidez) é transversal no mundo do futebol (um dia talvez o M. vos conte o dia em que, no estádio do Betis, se festejou com confetis a morte de um ex-presidente do Sevilha. É bonito? Se levarmos muito a sério, não. Tem piada? Se formos inteligentes, alguma).

O futebol é um jogo em que um dia eu estou bem e no outro está o M., mas não é o futebol que nos define enquanto pessoas. Há de tudo em todo o lado. Há adeptos do benfica que aplaudiram a equipa quando fomos campeões em pleno estádio da luz e, se houver destes no Porto, não me identifico nada com eles. Incomoda-me que alguém deseje a morte do meu presidente, mas não sou moralista. Prefiro sentir esse desejo como uma manifestação de rivalidade, um reconhecimento do tanto que essa pessoa me deu de bem e lhes deu de mal. Porque o Porto e o benfica, nos tempos de Eusébio ou agora, são dois rivais. É mesmo isso que tanto gozo nos dá.

- O Eusébio morreu mesmo? - perguntei eu, quando finalmente acordei.
- Sim - respondeu ele, já de olhos tristes.
- Porra. Isso vai ser uma vantagem para vocês no domingo.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio

Nós, médicos, estamos treinados para ultrapassar isto da morte. Vivemo-la muitas vezes e o seu absolutismo, a sua inacreditável estupidez e tamanho obrigam-nos a certos mecanismos de defesa que nos permitam seguir em frente. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer.

Eu nunca vi Eusébio jogar. Quando nasci, em 1984, já se tinha retirado e a minha primeira memória do King é a banda-desenhada de Eugénio Silva "Eusébio, Pantera Negra". Eusébio é, para mim, o herói do Benfica de banda-desenhada. Foi a partir desse livro que o meu pai me contou as façanhas de Eusébio, os episódios que mais o marcaram, os golos que marcaram a sua meninice. É da estátua de Eusébio que me lembro na primeira vez que fui ao Estádio da Luz (1-1 com o Boavista). 

Para mim, sem o ter visto jogar, Eusébio era o divino. Era o Benfica que tinha sido invencível, era o Benfica europeu, dominador, fantástico. O Benfica que tinha conquistado aqueles campeonatos todos, que tinha marcado gerações e gerações e marcara o nome do meu clube na história do futebol mundial. Eusébio, que eu nunca tinha visto jogar, era, no fundo, a minha imaginação. O meu Benfica imaginário, que eu queria ter vivido, que eu gostava de voltar a ver. O Benfica do qual o meu pai falava com um brilho nos olhos. Eusébio era, mais coisa menos coisa, a razão pela qual o meu pai era do Benfica e eu, mesmo sem o ter conseguido verbalizar até hoje, talvez tenha percebido que, por via indirecta, era por causa dele que eu era do Benfica. 
Com 5 ou 6 anos, nas mais intrincadas discussões futebolísticas, lembro-me de gritar uma vez no infantário: "Mas se o Eusébio jogasse vocês não tinham hipóteses!". Ainda hoje me parece um argumento difícil de rebater.

A idade e este Benfica que me calhou em sorte tornou-me um cínico. Nunca achei graça ao aproveitamento político do King, nunca gostei que se desse a tantos excessos, e, mais grave, percebi que muito dificilmente vou viver esse seu Benfica. O Benfica das vitórias, da glória europeia, o "Ben-fica" com sotaque inglês de Bobby Charlton. O Benfica dos olhos do meu pai. O Benfica de camisolas vermelhas, golas brancas e número cosido nas costas. O Benfica do meu tempo, infelizmente, é o Benfica que apaga as luzes na hora da derrota e perde muito mais que ganha. Talvez por isso, e pelo treino de médico, não me tenha imediatamente emocionado com a morte da maior lenda do meu clube. Só ao longo do dia, vendo as inúmeras manifestações de todos os ilustres representantes do "beautiful game" percebi e senti o legado que Eusébio nos deixou. Muito dificilmente o nome do Benfica subirá tão alto como hoje no meu tempo de vida. 

As manifestações de respeito e carinho de figuras como Maradona, Pelé, Franz Beckenbauer, Bobby Charlton, Michel Platini ou de clubes como AC Milan, Manchester United, Real Madrid, Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal, AS Roma, além de destaque na Marca, As, L`Equipe, BBC, CNN, Guardian, Gazzetta Dello Sport devem fazer parar o coração de qualquer benfiquista. Devem fazer-nos, nem que seja por um momento, pensar que se o museu tem aqueles troféus, se o Estádio da Luz tem aquele tamanho, se somos assim tantos, se somos o que somos, muito se deve a Eusébio da Silva Ferreira.

Hoje não partiu a minha infância, mas partiu a de quem me passou o benfiquismo. 

O Benfica não morre com a partida de Eusébio. Mas o ressurgimento da sua memória colectiva, a sua grandeza, o rasto de vitórias e derrotas marcantes que deixou, marcando de forma supra-histórica o Mundial de 1966, é a mais fulgurante oportunidade que Benfiquistas como eu, que nunca viram Eusébio jogar, têm de sentir o seu clube e a sua maior glória, orgulhando-se e espantando-se com o sem número de línguas que dizem o nome Eusébio e, por consequência, o do Benfica. Se queremos que daqui a 50, 60 anos, outro Eusébio seja chorado, urge que o Benfica deixe de ser um clube que apaga as luzes na hora das derrotas, que se desculpa, que parece querer viver à margem dos seus sócios e  faça tudo para se transformar e voltar a ser o clube mítico que parece reluzir nos olhos do meu pai e nas palavras de Bobby Charlton.

Nós, médicos, estamos treinados para passar por cima disto da morte. Amanhã é outro dia e é preciso trabalhar, seguir em frente. Não há tempo para chorar, para pensar no que é que afinal nós andamos aqui a fazer. Mas hoje morreu o Eusébio. Não há treino que valha ao médico quando é o Benfiquista que chora por dentro.