quinta-feira, 27 de março de 2014

A queda dum anjo

Ninguém admira mais Oscar Tacuara Cardozo do que eu. Quando o nosso ponta de lança enfiou o terceiro ao Sporting na Luz eu fui visto a gritar: “AMO-TE, CARDOZO!!! AMO-TE, CARALHO! AMO-TE!”. Uma pessoa que grita isto no meio de uma multidão só pode ser levada a sério. No Benfica da minha vida adulta, Tacuara Cardozo foi o homem que mais admirei, o jogador que nunca teve um assobio meu, a quem aplaudi mesmo todos os falhanços.
Não me interessa se é desengonçado, se não parecia capaz de ganhar os Jogos Sem Fronteiras. Oscar Cardozo é o maior marcador estrangeiro do Sport Lisboa e Benfica. E, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é um ponta de lança além da quantidade estúpida de golos que já marcou.

Foi-me penoso ver Cardozo ontem. Doeu-me. Cardozo, no Dragão, fez uma exibição tão péssima – fruto da sua gritante falta de ritmo e entrosamento neste novo Benfica – que eu sofri como sofrem os pais quando vêem os filhos a serem goleados num jogo de infantis. Tive vontade de o tirar dali, não só para o bem do Benfica (que era o mais importante), como por ele. Cardozo não merece não estar à altura do Benfica.

No livro de Camilo de Castelo Branco, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda é um miguelista provinciano e conservador que, chegado à capital, se torna um liberal um bocado para o devasso. A sátira da vida política portuguesa faz de Calisto um anjo caído, personagem cómica de costumes caricaturados. Cardozo merece tudo menos ser uma personagem cómica, um corpo estranho que os adeptos querem ver fora dali. Cardozo merece o nosso carinho, as nossas palmas, a nossa paciência, mas devido ao seu estilo de jogo – e à mudança de estilo do Benfica – só pode voltar em condições físicas que agora, obviamente, não tem.

No entanto, se o Sport Lisboa e Benfica se encontra líder do campeonato com 7 pontos de avanço, em todas as frentes e num estado anímico que faz quase esquecer que ao minuto 90 da segunda jornada com o Gil Vicente corríamos o sério risco de acabar a segunda jornada com zero pontos, muito se deve a Oscar Cardozo. Foi ele que marcou a Belenenses, Académica, Olympiakos, Nacional e aqueles 3 ao Sporting (cada um melhor que o outro). Numa fase da época onde o Benfica não jogava o que joga agora e onde tudo estava por um fio, Jorge Jesus incluído, Cardozo – como um anjo – manteve-nos vivos e permitiu-nos chegar a Março com o campeonato mesmo à mão.

Cardozo, neste momento, tem de estar no banco. Até Funes Mori teria sido mais útil que o grande Tacuara ontem. Mas é nosso dever não deixar cair Cardozo. Se Cardozo tantas vezes segurou o Benfica, agora é o Benfica que o deve segurar. Um matador destes não merece assobios e não pode ser exposto assim. Se há coisa que eu considero fatal para um clube e os seus adeptos é a falta de memória. E Cardozo deve perdurar sempre na nossa pelas melhores razões. Para mim, serás sempre um anjo.


  

terça-feira, 25 de março de 2014

Round one

Nós, cá em casa, odiamos clássicos. Há quem nos pergunte, a sorrir, "E então e amanhã, como é que é lá em casa? Deve ser giro, deve!" Não é nada giro. Nem há razão para sorrisos. É óbvio que nós sorrimos educadamente e dizemos "Vamos ver!..." (nenhum de nós diz: "Vamos ganhar" - a bazófia dá um azar do caraças) e a verdade é que preferíamos nem ver.

Eu gostava de ter uma metáfora à mão, do género: é como fazer um exame ou uma coisa assim. Deixem-me ver se me explico: a C. já foi operada três vezes. E em nenhuma delas ela desceu para o bloco operatório com a cara de dor que ela tem antes dos clássicos (para verem o tipo de pessoa com quem eu vivo, da última vez ela foi a rir-se para o bloco porque o Olympiakos tinha acabado de marcar ao Benfica. Espero que na operação te tenham tirado essa maldade do corpo). Para além disso, antes das operações, podíamos abraçarmo-nos e acalmarmo-nos mutuamente. Mas nós não nos podemos abraçar antes do clássico. Se a C. me quer abraçar antes do clássico, é porque está nervosa com a dupla de centrais dela e eu tenho de evitar delicadamente esse abraço para que isso lhes dê azar. Não há aquele conforto de casal "Vai correr bem, meu amor". Não, é mais "Espero que o teu ponta de lança parta as duas pernas depois de marcar na própria". Num Manchester United-Porto (2-2), a C. festejou o primeiro golo do clube dela agarrando-se à minha perna. Segundo os relatos dela, eu fiz a voz da miúda d'"O Exorcista" e disse: "Não voltes a fazer isso". Dado que era o meu dia de anos e dado que o Porto tinha marcado, eu acho que mereço uma salva de palmas por não ter arrancado a mão à C. 

O que é que piora ainda mais isto tudo, esta ansiedade toda? É que faltam, no mínimo, quatro clássicos, com a possibilidade de mais dois de bónus. Eu acho que isto devia ser proibido. Fazíamos um ou dois e pronto. O meu jogo de sonho do Benfica é o jogo de domingo, com a Académica: uma equipa inferior, marcar cedo (para eu acalmar), marcar o segundo antes da meia hora (para os matar moralmente) e fazer o terceiro antes da meia hora final (permitindo-me trinta minutos de descompressão que me deixam depois ficar feliz com o apito final). Jogar com o Porto significa tudo menos isto. Significa dificuldades, jogo muito preso, incerto, etc. A incerteza e o medo, apesar de algumas pessoas mais desprevenidas acharem que são o sal do futebol, são o maior terror. Se forem o sal são o sal que entra nas nossas feridas. Ninguém quer isso. E nenhum adepto com dois dedos de testa (de um lado ou do outro) pode querer isso seis vezes. É como se estivessem em cima de um prédio e vos desafiassem para saltar para o outro ao lado. Se conseguissem, ganhavam um prémio qualquer em dinheiro. Mas podiam cair. Quem é o doido que quer fazer isto seis vezes? 

Mais, quem é o doido que quer saltar, sabendo que se aterrar de boca lá em baixo vai ser gozado e vai ter que ver isso nos telejornais todos? Quem é o doido que quer saltar sabendo que tem traumas relativos a outros saltos? 
Viram o derby de Sevilha? As duas equipas que mais se odeiam no mundo numa eliminatória europeia. 0-2 na primeira mão, 0-2 na segunda. Penalties. Imaginem penalties numa eliminatória europeia contra a equipa que vocês mais detestam. Eu acho que, exceptuando os adeptos totalmente inconscientes, os que só aparecem para as festas ou que só sabem o resultado ao passar no quiosque na segunda-feira de manhã, ninguém se quer meter numa coisa dessas. É jogar à roleta russa, só que em vez de se morrer fica-se a ouvir os rivais uma vida inteira. As caras dos adeptos antes dos penalties eram de um sofrimento atroz. Ninguém queria estar ali, a viver aquilo. Era como se a tensão fosse insuportável, uma confusão muito grande onde se cruzam o nosso maior sonho e a nossa maior fobia ali à frente. É um salto muito arriscado, é colocar as fichas todas na mesa. Eu, sinceramente, evitava estas noites mal dormidas e os dias em que abraçar a minha mulher é estranho. 

Isto é a conversa de um adepto doente, que, ganhe ou perca, amanhã passa um mau bocado naqueles noventa minutos. Aos jogadores do Glorioso só me resta pedir que saltem com confiança e força amanhã. Sem olhar para o chão. Vou parar de escrever que a C. está a abraçar-me e tenho de a afastar. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Uma questão de perspectiva

O futebol é tramado. É maldoso, é caprichoso, tem coisas inexplicavelmente apaixonantes. O futebol, como em tudo na vida, depende da perspectiva. No início da época eu era uma pessoa desfeita, amarga e cínica. Depois de Maio de 2013, eu só tinha cinzas e luto por dentro. Não percebia como é que alguém podia sorrir. Era capaz de jurar que não houve Verão em 2013 (e dizem-me que pelos vistos foi nessa altura que nos casámos)  e que choveu de Junho a Novembro.
Deixei por escrito o meu veredicto, esta época seria para esquecer. A pré-época foi penosa e, apesar de parecer que foi há muitos, muitos anos, Bruno Cortez foi nosso defesa-esquerdo. A cada esquina havia um minuto 92. Era como se nenhum adepto benfiquista estivesse a ver os jogos do Benfica 2013/14 porque ainda estávamos todos com a cabeça (e que cabeça) em Maio de 2013, a tentar fazer falta sobre o Kelvin ou a não deixar o Ivanovic saltar. Eu, como é óbvio, não era diferente. Noites mal dormidas, humor depressivo e uma raiva em relação a todos os sonhos que o futebol pode dar que sempre que via a bola a rolar parecia que me estavam a dar facadas.

A C. andava nas nuvens, como é normal. Vingou-se, durante meses, dos benfiquistas que lhe lixaram a cabeça em Abril. O Porto não lhe tinha falhado e agora até tinha jogadores interessantes como Quintero, Carlos Eduardo e, claro, Licá. Com o Benfica a tomar Xanax, o tetra parecia uma mera burocracia (e digo-o como benfiquista). A fazer todas as piadas possíveis com o número 92, a C. divertiu-se e foi mais feliz do que eu posso imaginar (a única comparação possível é mesmo pensar na minha tristeza e tentar medi-la em felicidade, mas acho que o fosso onde eu estava não tem um correspondente em alegria). 

O futebol, dizia-vos, é uma coisa lixada e acho que nos apanhou aos dois desprevenidos. Eu, quando vi o Setúbal-Porto na primeira jornada e vi a loucura em que se tinha tornado o Porto, fui tomado como um portista (Eusébio me guarde!) saudosista de Vítor Pereira - logo eu, que quero que o homem fique na Arábia Saudita para sempre (vejam aqui). A C. acordou entretanto e em Novembro já não se podiam dizer palavras começadas por pê de Paulo nem por éfe de Fonseca sem ela ficar à beira de um ataque de nervos. Para mim, era impossível sair da cave escura onde me tinha enfiado e nem o mês de Novembro, em que o Porto conseguiu dar mais tiros no pé do que nos três anos anteriores, me conseguiu fazer acreditar. 
É tudo uma questão de expectativas: a C. vivia num mundo maravilhoso, mas o duplo-pivot arruinou tudo. Eu ainda estava em Maio de 2013 e os adeptos do Sporting viviam (vivem) em festa permanente. A verdade é que, para os adeptos do Sporting, depois do ano passado, tudo são vitórias. Se os jogadores entram em campo sem tropeçarem uns nos outros, isso é motivo de festejo porque já encerra em si uma melhoria em relação ao ano passado. Cá em casa, a C. passou do vale dos sonhos para uma confusão táctica maior do que Berlim em 1945 e eu só saí da posição fetal quando ganhámos 2-0 ao Porto e eu percebi que talvez fosse possível.

Chegados a esta fase do ano, as expectativas e as perspectivas cá em casa mantêm a sua distância paralela de quem sofre de maneira igual por clubes diferentes: para a C., Maio de 2013 parece ter sido há uma eternidade e o silêncio dela às vezes preocupa-me. O silêncio, na C., encerra uma violência contida que me dá vontade de evacuar a vizinhança. Ontem cruzámo-nos na rua com o Rui Gomes da Silva e enquanto a C. sussurrava "Olha-me este grande boi" sem se preocupar se ele ouvia ou não, imaginei a capa d`"A Bola" com a C. a dar-lhe um rotativo no ar "SUPER DRAGÕES AGRIDEM BARBARAMENTE DIRIGENTE DO BENFICA". Pelo menos o livro ia vender de caraças.
Já para mim, Maio de 2013 foi ontem. O Benfica vai à frente, tem uma vantagem confortável e joga bem. E, por muito confiante que uma pessoa se torne, não há benfiquista que não tenha um calafrio sempre que pensa "E se...". 

Cá em casa é sempre assim, em futebol. O que a um parece longe para o outro foi há pouco tempo. A alegria de um é a tristeza de outro, a vontade de ler notícias e falar sobre futebol é-nos sempre inversamente proporcional. A C. vê penalty no lance da Choupana e eu achei aquilo um escândalo que devia ter proporções maiores do que a crise na Crimeia. Eu apercebi-me do sol a chegar e a anunciar a Primavera e suponho que aos olhos da C. esteja uma chuva torrencial. Neste momento, o Benfica já está suficientemente bem para eu me lembrar que casei no Verão passado e a C. anda com um ar de descontrolo tal que às vezes parece que não me reconhece. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

A bazófia

Entramos naquela fase da época em que todos os jogos, além de serem o habitual sofrimento, podem mesmo decidir tudo. É normalmente nesta altura que nos imaginam com problemas conjugais relacionados com o facto de eu ser do melhor clube do mundo e do M. ser de um dos dois piores. Admito que isto cá em casa teria mais piada se andássemos constantemente a dizer ao outro "o meu clube é melhor do que o teu e vai ganhar ao teu por 5-0 e vocês vão ficar a cheirar mal". Essas coisas normais. Só que nós não somos assim.

Não sei se por amor ou apenas por instinto de sobrevivência, mas nós aprendemos a respeitar-nos mutuamente, mesmo sendo de dois clubes que dificilmente poderiam odiar-se mais e mesmo estando casados, sendo que não sei qual deles é o maior desafio (a rivalidade clubística chega a parecer pouco quando se vive com alguém que não sabe ligar a máquina de lavar louça).

Mas não é só pelo facto de sermos um casal do Porto e do benfica. A verdade é que nós não somos daqueles adeptos que gostam de andar a massacrar os do outro
lado com previsões de grandes atrocidades. Não que o façamos por civismo ou boa educação, nada disso, que horror, mas antes por uma mistura entre consciência de que no futebol tudo muda em pouco tempo e um medo aterrador de que isso dê azar.

O problema, o que nos afecta mesmo, é que nem assim estamos protegidos deles. E a partir daqui vou ter de passar a falar na primeira pessoa do singular, porque o M. sofre bem menos do que eu. Não só porque não contacta com muitos portistas diariamente, mas sobretudo porque contacta com uns extraordinários, tipo eu e a minha família. Admito que isto desvirtue um bocadinho a amostra para a grande conclusão científica que estou prestes a revelar-vos: os adeptos do benfica têm a maior concentração de níveis de bazófia.

A principal prova que eu recolhi após todos estes anos de estudo é que a palavra "bazófia" nem sequer ser é utilizada no Porto. Há alguns sinónimos, como "ter a mania" ou, o mais comum, "estás a precisar de levar um estalo nessas trombas", mas "bazófia" nem por isso. Depois, claro, ajuda o facto de o FCPorto ganhar muito. Parecendo que não, uma pessoa habitua-se a isso e não precisa de andar a bater no ceguinho para que os outros sofram.

Há, no entanto, aquelas épocas em que o benfica lá consegue ganhar alguma coisa. Ou pelo menos parece muito que vai ganhar. E, portanto, a bazófia dispara. Porque ninguém os pára, e são o maior clube do mundo, e a onda vermelha e não sei o quê. O ambiente mediático ajuda, o sol está de volta e estão reunidas então as condições para vários meses não só de Primavera e Verão, como também, infelizmente, de bazófia benfiquista.

Para quem não sabe muito bem como isto funciona, confesso que me é difícil explicar o que é a bazófia benfiquista. Não são só as coisas que dizem, que cantam, que escrevem. É um sentimento, mesmo. Eles convencem-se que são imparáveis, que são super-heróis que vão salvar o mundo, que não vai haver pobreza quando o benfica ganhar (é o PIB, certo?). Na cabeça deles, o benfica ir à frente é a cura do cancro, a descoberta de vida extraterrestre e o fim do aquecimento global, tudo junto.

E não me entendam mal: eu não confundo bazófia com um orgulho imenso no seu clube. Eu também tenho muito no meu (quando vai ou não à frente), eu também estou convencida que o meu é o melhor (com a diferença que o meu é mesmo). O M., cujos níveis de bazófia são tão poucos que às vezes desconfio que ele devia ser adepto, sei lá, do alverca, adora o benfica, vive para aquela porcaria, e no entanto é capaz de perceber que, ainda que muito bem encaminhado para tal, o clube dele ainda não ganhou nada esta época.

Escrever isto tem ainda mais piada tendo em conta as últimas duas épocas. Não sei se se lembram, mas fez agora dois anos que o Porto foi jogar à luz com os níveis de bazófia do outro lado no máximo. E há um ano, enfim, escusado será recordar outra vez o que se passou há um ano, até para evitar que o M. leia isto e acabe rapidamente com aquela coisa do "oh pra nós tão fofinhos cá em casa".

Ainda assim, parece-me que o efeito Kelvin tem tido algumas repercussões nos níveis de bazófia. Se o melhor minuto 92 de sempre não tivesse acontecido, imaginem o circo que isto não andaria nesta altura. Se o Cardozo não tivesse personificado a vontade dos lampiões em relação ao Jesus na final da taça, imaginem as coisas que o homem já teria feito (do género bater em polícias ou fazer um sinal com os dedos a um treinador adversário quando ainda falta jogar a segunda mão).

E chegamos ao ponto essencial da questão. Os adeptos da bazófia parece que não percebem que o que Jorge Jesus fez ontem não é um "mind game" à Mourinho, nem sequer um "tomem lá bifes que o benfica é o maior e vai ganhar tudo e isso". Vocês já deviam ter aprendido que naquela pequenina cabeça só cabe um pensamento: "eu sou o maior". E se até nos podemos rir do sinal com os dedos, vejam bem o que ele faz ao Raul José e ao Sheu. Ao Sheu, por amor de deus. Um homem que trata assim um homem da casa está-se bem a cagar para a casa, para o benfica.

O problema (vosso, não meu) é que aquilo que Jesus fez não é só o acto de loucura de um inimputável. Jesus não é só o treinador que não consegue conter o ego quando o benfica vai à frente e joga bem. Porque ele é o mesmo treinador que levou 5 do Porto, que nos deixou ser campeões no estádio deles, que perdeu vantagens com os mesmos erros contra Vitor Pereira, que deixou escapar três troféus em poucos dias. Aquilo que Jesus fez é o exemplo perfeito do que vos quero mostrar: a bazófia, no benfica, não aprende.

terça-feira, 11 de março de 2014

Pátria do futebol

Quando era miúdo vi uma cassete com um resumo do Itália 90 tantas, tantas vezes que fiquei a saber aquilo de cor. Começava com um grito (provavelmente referente ao México de 86) de Aaaaargentina (com o "g" mudo, como um "h") paaaaaaaatria queridaaaaa!!!! Não sei se o grito é de Victor Hugo Morales, famoso relatador argentino, mas tenho-o na cabeça, nítido. O futebol é uma memória estranha. Sempre que alguém diz Argentina, a primeira coisa que me vem sempre à cabeça é o grito desse relato. 

Em todas as minhas viagens, levei sempre comigo o benfiquismo e o futebol. Quando fui com o R. e o T. a Tallin, tivemos uma noite de copos brutal. Na primeira parte da noite estive com dois alemães horas e horas a falar do jogo. Um era um nómada da bola, trabalhava numa companhia aérea e andava a curtir grandes jogos, Europeus e Mundiais. O outro era do 1860 Munique e esteve a noite inteira a debitar coisas contra o Bayern, como eram odiosos e como só os queria ver na merda. Foi uma noite de partilha. Não me lembro do nome de nenhum dos dois, mas durante aquelas horas fomos, genuinamente, amigos de sempre. Eles ouviam, com sinceridade, a minha amargura em relação ao Benfica, atirando aqui e ali pormenores que se lembravam do meu clube. E aquele alemão (que era carpinteiro e estava na Estónia a aprender a fazer um tipo de casas em madeira) foi tão eloquente na sua verve anti-Bayern que ainda hoje é nele que penso quando vejo a equipa de Pep parecer não ter rival. Como estará ele?

El River en B de nuevo o una Libertadores? El descenso del River - o guia que foi connosco ao San Lorenzo-Rosario Central, adepto Xeneize.


A impressão mais brutal da Argentina é que em todo o lado parece dia de jogo. Camisolas do Boca, calças do River, polos do San Lorenzo. Uma tshirt a dizer "Dia del hincha del Racing", galhardetes do Independiente nos taxis. Tudo na rua, na boa. O preconceito de que todo o futebol argentino é violento é falso. Há violência e grave, sim. Mas o adepto normal, o hincha médio tem um orgulho nas suas cores desmesuradamente maior do o nosso. E ocupam as ruas, as paredes, tudo. Buenoa Aires é como um estádio gigante, e quem gosta de futebol sente que aterrou num planeta diferente, com uma paixão superlativa, nunca antes vista. Os ingleses podem ter o sentido de humor, os espanhóis podem ser campeões do mundo, mas há aqui uma visceralidade que não se explica. Vem de dentro, de um sítio que o adepto normal não conhece. Estamos a falar do povo de Maradona, Quino e Mafalda, Piazzolla e Che Guevara. Imaginem a capacidade mágica de sentir deste povo.



La bosta negra... Taxista de Buenos Aires

Quando entrámos no taxi em Buenos Aires e o taxista ouviu Bombonera, ouviu-se o seu sussurro, no meio do barulho do motor a ser ligado: la bosta negra... Era do Independiente, que está na segunda. Falou, indignado, de que quando o River esteve na segunda houve logo uma liguilha para o subir e ao contrário nada. "Muchos millones en el futbol". Bateu na FIFA ("hace mas dinero que Coca-cola!") e deixou-nos no estádio. Nem sei se lhe disse o meu clube, mas deliciei-me com aquele la bosta negra... Cheio de sarcasmo, quase a indicar-nos que íamos para o pior sítio do mundo e que devíamos mudar.
A piada constante, o tom leve e meio cantado das piadas reflectem uma ternura pelo jogo fabulosa. Na viagem nem sei por quantas camisolas passamos. Quando entramos na Bombonera e percebemos o pormenor arquitectónico delicioso do balneário rival ser em baixo da bancada da claque do Boca, percebemos que não há clássico português que possa enervar um argentino. Estes homens jogam no céu ou no inferno. Não há meio termo para os argentinos.


Eu levei o Benfica para Tallin, mas já levei o Benfica a muitos outros sítios. O que me fascinou na Argentina, sobretudo em  Buenos Aires, foi sentir que não precisava de levar para lá o que eu gosto de futebol. O futebol já lá estava. Pintado nas paredes ou numa simples banca de uma feira, nas camisolas que toda a gente usa, nos anúncios, nos jornais. Sente-se o futebol na rua. Na periferia ou na cidade, há sempre um campo com balizas com redes, com alguém a jogar. Reconheço algumas camisolas, mas só me apetece ficar a vê-los jogar. Eu sei, eu sei, há glaciares para ver e isto é só um romantismo estúpido, mas tenho a sensação que cheguei a casa.



In the stadium, we are San Lorenzo fans. If the other team scores the most beautiful goal of the football history... We don`t care - O nosso guia (sim, tivemos de ir para a bola de guia) a explicar aos americanos como se devem comportar num estádio.

O futebol argentino tem mil e um problemas: Don Julio é presidente da federação desde os tempos da ditadura. É também vice-presidente da FIFA. Nada é estruturado, os estádios são velhos, a violência é resolvida estupidamente com a proibição de adeptos visitantes em todos os estádios, sem que isso resolva nada. Como resultado, o futebol é miserável. Mas as bancadas dançam. E essa força visceral, esssa identidade, essa argentinidade, mantém o jogo vivo e fantástico. Não há guia argentino que não recomende uma ida à bola. É uma quinta-feira, o estádio nem enche. Mas a bancada dança, devagar, e as mãos agitam-se a um compasso certo. É impossível não entrar na onda, não cantarolar, não sentir aquele ritmo, aquela febre. Dá-me vontade de chamar toda a gente, de chamar a minha família, o meu serviço, os meus amigos que não gostam de bola e dizer-lhes: está aqui. É por isto que eu amo este jogo. Porque é de toda a gente, porque nos faz sentir coisas que mais nada nos pode fazer sentir. Porque é a alegria e tristeza máxima, porque é tão importante como a nossa identidade (e não há adepto do San Lorenzo que não queira para voltar para o bairro de Buedo, de onde a ditadura os tirou e construiu um supermercado no local do seu estádio). O futebol pode ser a alma de um povo, de um país. Pode ser o melhor guia, o melhor taxista, a melhor história, o melhor livro. O futebol pode ser a melhor metáfora de uma viagem. Para mim, a Argentina é o Perito Moreno, as cataratas do Iguazu e a imensidão de Buenos Aires. Mas a primeira recordação que terei será sempre a bancada do San Lorenzo aos saltos. É, até hoje, a minha pátria do futebol. Como aquele relato daquela cassete: Argentina, pátria querida. 

Si el fútbol nos importa tanto a los argentinos no es porque sí. Nos importa porque nos desnuda, nos representa, nos evidencia. Y el fútbol, hasta cierto punto, nos aproxima. Una de esas pocas cosas que los argentinos sentimos que hacemos bien. Una de esas pocas cosas que los argentinos, de vez en cuando, sentimos que hacemos juntos - La Argentinidad. Eduardo Sacheri, Panenka 25

sábado, 1 de março de 2014

Ele avisou

Todo o adepto deve ter a sua referência. Não falo de um jogador, de um treinador ou de um dirigente. Uma referência como adepto. Alguém que saiba mais do que nós, de quem podemos esperar uma previsão  acertada ou uma análise correcta e, sobretudo, alguém que no calor do momento seja mais inteligente do que nós. A minha referência é o meu pai. E nem sequer acredito que seja pelo simples facto de ser meu pai, porque admirarei muito os filhos do M., por exemplo, quando estes o contrariarem futebolísticamente em tudo. Só que o meu pai é o adepto que eu gostava de ser: calmo e ponderado quando os outros estão todos aos gritos e aos gritos quando todos estão calmos e ponderados.

O meu pai é daqueles adeptos que não liga muito a vendas ou contratações de jogadores, a dinheiro a entrar ou a sair. O meu pai está sempre atento é ao treinador. É exactamente o contrário de mim, que vou feita parola para o YouTube ver vídeos dos novos craques, mas à partida aceito qualquer um para os treinar. Criou-se o mito até de que o meu pai gostaria de qualquer treinador que viesse para o Porto. É que desde Octávio Machado que o meu pai se tornou um defensor acérrimo de todos os treinadores do FCP. Foi ele que me explicou o que Co Adriaanse queria fazer, foi ele que me avisou que Jesualdo podia ser campeão muitas vezes connosco, foi ele que logo sublinhou que com Fernandez até ao fim podíamos ter sido campeões em 2005. Mas foi ele, sobretudo, que admirou Vítor Pereira.

Acho que não é possível explicar-vos o quanto o meu pai gostava de Vítor Pereira. Desde o início, quando nós adormecíamos a ver o FCPorto, quando nós criticávamos a falta de fulgor, quando nós estávamos convencidos, admitam lá, que era impossível ganharmos alguma coisa com ele. O meu pai não precisou de nenhuma vitória contra o benfica ou de apenas uma derrota para o campeonato em duas épocas. O meu pai ria-se dos adversários que o desvalorizavam e durante meses deixou de perder tempo comigo, porque eu não o conseguia perceber. De vez em quando, lá me mostrava uma opinião, uma análise que lhe dava razão (honra seja feita ao blog Lateral Esquerdo, que penso ter sido o único a acompanhar a loucura do meu pai pelo homem), mas sem nunca se preocupar muito com a minha burrice.

Quando todos estávamos aos gritos, que a posse de bola não entusiasmava, que tínhamos de marcar mais golos, que não jogávamos bem, que, que, que, o meu pai estava calmo e ponderado. Ele sabia que íamos ganhar. Daí que, esta época, eu devesse ter percebido logo que algo ia correr mal. Pela primeira vez desde Octávio, o meu pai não gostou da escolha do treinador. Sim, leram bem. Quando a única coisa que sabíamos de Paulo Fonseca é que tinha qualificado um paços de ferreira sem estrelas para a Champions, ele torceu o nariz. Ele, o adepto que aplaudia Co Adriaanse quando ele experimentava o Pepe como único central, que era capaz de elogiar Jesualdo quando este mudava a equipa para jogar contra os rivais, que não compreendeu os adeptos que exigiram a cabeça de Fernandez. Quando todos estávamos calmos e ponderados, porque afinal de contas até um canguru a treinador é capaz de ganhar no FCP, o meu pai começou aos gritos.

Faltam 10 jornadas para o campeonato acabar e poucos acreditarão que o meu pai não tinha razao. Faltam 10 jornadas para o campeonato acabar e poucos, como o meu pai, continuarão a ir apoiar o FCPorto até ao fim. Porque o meu pai é o adepto que consegue ver à primeira que o duplo-pivot defensivo não resulta, mas também é o adepto que vai todo contente a cantar no cortejo para a luz, mesmo quando não espera vir de lá feliz. O meu pai anda triste, chateado por não terem mandado o homem embora quando ainda podíamos ser campeões com o tal canguru a treinar, mas nem imaginam a alegria que foi, para mim e para o meu pai, mesmo separados por milhares de quilómetros, durante uma chamada skype virada para a televisão, quando o Ghilas empurrou a bola lá para dentro. Porque quando o Porto ganha (ou passa uma eliminatória, no caso), gritamos todos.