sábado, 21 de junho de 2014

Hasta luego, Xavi

Think quickly, look for spaces. That's what I do: look for spaces. All day. I'm always looking. 

Em 2008 eu tinha 24 anos e pensava que já sabia tudo sobre futebol. Era um adepto informado, atento à história, plenamente consciente da evolução física do futebol. Achava que era preciso jogar bem, sim, mas que isso já não chegava. Era preciso ser forte, alto, duro, era preciso ganhar os duelos todos. O futebol tinha evoluído para uma idade mais avançada, robotizada. Kaká e Cristiano Ronaldo eram super-jogadores não pelos seus pés, mas, sobretudo, pelos seus corpos de atleta. Até que tu, Xavi Hernández, me ensinaste que não.

Até ao Europeu de 2008, Xavi era para mim - e penso que para todos - o homem que falhou na substituição de Guardiola. Ninguém ousaria dizer que era mau, mas não era Pep. Guardávamos na memória aquele Barcelona-Valência onde o Barça rodava a bola à volta da área che e Pep, em vez de continuar a rodar o jogo da esquerda para a direita, faz um passe mortal para o meio e descobre Kluivert, que fuzila o guarda-redes. Kluivert corre imediatemente para Pep que lhe aponta a bochecha, pedindo um beijo de agradecimento. Guardiola era inigualável, um cavalheiro, um intelectual. Xavi era uma imitação.


A Espanha de 2008 fez o seu jogo perfeito contra a Rússia, nas meias-finais. Foi um banho, uma aula, a primeira lição. Mas foi na final, com 24 anos, que eu percebi que estava na presença de uma inteligência superior. A Espanha ganha 1-0 à Alemanha (assistência de Xavi) e pode ganhar o seu segundo Europeu. Até aos 24 anos, todas as equipas que eu tinha visto a ganhar em momentos decisivos, por muito superiores ao seu adversários que fossem, encolhiam-se. Era uma coisa normal, explicável por psicologia básica: estás a ganhar e vais defender essa vantagem. E defender significava recolheres. No futebol da primeira década de 2000, dos altos, fortes e duros, nada mais normal do que suportar estoicamente bolas bombeadas pelo adversário a quem se cedia a posse porque se estava a ganhar. Até que, com 24 anos, eu aprendi a ver futebol de maneira diferente: com o jogo a acabar, Xavi recolhe a bola no meio-campo alemão. E em vez de se esconder ou de chutar contra o alemão e ganhar lançamento, esperou calmamente por Cazorla e Iniesta. E tabelou. Pôs a bola no sítio onde queria que os companheiros estivessem. "Põe-te aí." - parecia ordenar, como um jogador de xadrez que coloca as peças. Mexeu-se para o espaço livre como quem diz "Põe aqui. Estão a ver como é fácil?". E, com um minuto para acabar o Europeu, a Espanha defendeu com a bola e acabou a jogar na área alemã, quase fazendo o segundo. Lembro-me perfeitamente de dizer ao meu pai "Nunca vi isto na vida". Felizmente para mim e para o futebol, tinha acabado de começar. Foram anos magníficos. 



Ao lado de Iniesta, com os seus pés de ouro e com o pontapé decisivo no Mundial de 2010, e ao lado de Messi, para mim o melhor da história, Xavi parecia apenas um apêndice. Essencial, mas nunca a estrela mais brilhante. São dele as assistências para Torres na final do Euro 2008, para Puyol nas meias de 2010, para Villa nos oitavos de 2010 contra Portugal e para Jordi Alba na final do Euro 2012. Marcou o primeiro da manita ao Madrid, pôs a bola na cabeça de Puyol no 1-2 do 2-6 no Bernabéu e na cabeça de Messi na final da Champions em Roma contra o Manchester United. Quase nada. Mas fez-nos quase acreditar que não era imprescindível. Afinal, tudo o que fazia era receber e dar, não é verdade? Punha aquele ar sério de quem não tinha feito nada, cara fechada enquanto Puyol apertava com força a braçadeira e Casillas levantava as taças. Xavi gozava por dentro sabendo que, no fundo, ele é que os punha ali. Estão a ver como é fácil? Um general que não era o mais alto, o mais forte, o com melhores pés. Era só mais inteligente.

Xavi Hernandéz, que eu tristemente só comecei a dar valor em 2008, quando já era um jogador mais que experiente, foi a maior aula do futebol moderno. Explicou-nos, com o seu futebol, que estávamos todos enganados e que não era preciso ser alto nem bruto nem saltar muito alto. Havia que pensar antes, isso sim. E não bastassem as suas aulas em campo, deu entrevistas maravilhosas à Panenka, ao Guardian, cujas citações começam e acabam este texto, e ainda escreveu uma crónica para o El País sobre a morte de Aragonés. Guardiola já brilhava no banco quando nos apercebemos que talvez Xavi, enquanto futebolista, fosse Pep refinado. 


O Mundial de 2014, delicioso até agora, torna-se desde já mítico por ser a mais que provável despedida de Xavi dos grandes palcos. Um homem assim, que mudou o jogo, devia sair pela porta grande. Quanto a saídas lembro-me sempre de Michael Jordan - para mim o melhor desportista da história. O último ponto de Jordan é um deprimente lance livre pelos Washington Wizards no seu segundo e escusado regresso. Não que belisque em nada a sua carreira, mas foi completamente escusado. A última jogada de Jordan pelos Bulls tinha sido épica. Perdiam por 3 contra os Utah Jazz no jogo 6 da final e Jordan marca um lançamento com cerca de 20 segundos para jogar. A ganhar por 1, os Jazz metem a bola em Karl Malone, a sua estrela maior. Jordan rouba-a sem o deixar lançar e não pede desconto de tempo. Um para um, finge que arranca para o cesto, o adversário recua e escorrega. Jordan eleva-se e o tempo pára. Bola dentro, um ponto de avanço. Stockton falharia o triplo decisivo e Jordan conquistaria o seu sexto anel. Era a saída perfeita, heróica, como o Deus que foi. O regresso pelos Wizards, para mim, nunca existiu.


Xavi devia, como Jordan, ter saído em grande. Depois daquela assistência teleguiada para Jordi Alba, em Kiev, devia ter renunciado à selecção. Tipos assim não podem sair pela porta pequena. O seu último momento tem que ser mítico. Como o regresso aos Wizards de Jordan, para mim o Mundial de 2014 de Xavi não existiu. Ficará sempre presente aquela primeira aula de 2008 e tudo o que se seguiu desde então.

Este texto é o meu agradecimento. Até em Madrid se estende a homenagem no merenguíssimo As: "Esto duró lo que duró Xavi Hernández". Foi o melhor médio centro que vi na minha vida. Melhor que Redondo, Guardiola, Deschamps e Pirlo. Admito que a opinião é discutível, mas este foi o homem que, na minha idade adulta, me ensinou a ver futebol de outra maneira. Tu sim, eras o puto amo, o cérebro maior do melhor futebol da história. 
7 Ligas, 2 Taças, 3 Champions, 2 vezes campeão do mundo por clubes, 2 vezes campeão da Europa por selecções e Campeão do Mundo. Mas mais do que isso, um futebol diferente. E não há Bola de Ouro que supere isso. Aliás, se ta tivessem dado, suponho que a ias receber e passar logo.


Do you see yourself as a defender of the faith? An ideologue?
It was that or die. I'm a romantic. I like the fact that talent, technical ability, is valued above physical condition now.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Para a M., que quase foi do Porto

Quem pensa que a dificuldade de ter um marido benfiquista passa só por gostar muito de uma pessoa que era capaz de ceder o lugar num autocarro cheio para o Maxi Pereira se sentar, engana-se. É que eu cresci numa família em que toda a gente está do lado certo da paixão clubística e, portanto, há problemas sérios como "De que clube vai ser esta criança?" que nunca tive de enfrentar. Parecendo que não, influencia muito um bebé que todos os pais, irmãos, tios, primos, avós, vizinhos e porventura conhecidos sejam do mesmo clube e, sendo assim, todas as prendas, músicas de embalar e primeiras palavras sejam naturalmente das mesmas cores. Não só isto não me choca nada, como estou convencida que é o ambiente ideal para uma criança desenvolver valores importantes como "Ou és do mesmo clube que nós, ou então vais ter de procurar outra família".

O M. trouxe-me outra família, que eu adoro e que, apesar de claramente não me colocar tanta comida no prato quando o FCPorto ganha, me trata muito bem. E é nessa família que me deparo, pela primeira vez, com crianças a crescer sem a pressão o carinho da orientação clubística sempre no mesmo sentido. Estranhamente para mim, a primeira palavra da nossa sobrinha mais velha não foi "bola", ou "golo", ou "Pôto", que eram os conjuntos de duas sílabas que eu achava que toda a gente tentava ensinar aos pequenos seres humanos. A M. lá foi crescendo à sua maneira, feliz, maravilhosa, querida e fofinha, como uma princesa, sem nunca ligar muito àqueles tios que de vez em quando apareciam e a obrigavam lhe pediam com muito jeitinho para levantar um braço no golo do Porto ou correr para celebrar um golo do benfica.

As dúvidas surgiram por volta dos 4 anos, quando a M. começou a dizer que era do Porto e do benfica, para nos agradar aos dois. Como somos duas pessoas inteligentes e racionais, dissemos-lhe sempre que é impossível ser dos dois clubes ao mesmo tempo e que tinha de se decidir. A pressão O carinho começou a intensificar-se quando, aproveitando aquela fase de menina que vive num mundo de princesas e castelos, o M. lhe mostrou que o benfica tinha uma camisola cor-de-rosa e eu e a mãe a tivemos de convencer que, por dentro do azul e branco às riscas, o equipamento do FCP era cor-de-rosa, mas com brilhantes! Mal sabíamos, claro, que a fantasia um dia não estaria assim tão longe da realidade, mas adiante.

Na verdade, a querida M. sempre tendeu muito para os vermelhos (talvez por ser a cor mais próxima do rosa... percebem, pessoas que desenharam o alternativo deste ano e pessoas que eventualmente o vão comprar?). Durante algum tempo, e porque somos as melhores amigas, gostou de me agradar com uma suposta tolerância ao Porto, mas isso nunca chegou a preocupar o tio M., que às escondidas lhe ensinava músicas que depois eu a apanhava a trautear. Porque as pessoas do benfica são assim: más, porque actuam na sombra e ganham campeonatos nos túneis ou no Algarve, influenciando os árbitros, ou as sobrinhas, sem ninguém a ver. Mas isso eu ensinarei mais à frente à M., quando ela consolidar as ideias do bem e do mal, que é como quem diz do Porto e dos outros todos.

Quando a M. me disse que era só do benfica não consegui evitar ficar triste. Como é que alguém tão doce, tão lindo, tão inteligente, pode torcer pelo benfica? Mas enfim, eu casei com um benfiquista, por isso estas são perguntas às quais ando há muitos anos a tentar responder. Consegui, ainda assim, continuar a gostar da M. da mesma maneira, o que, reparem, mostra como sou uma pessoa espectacular, mas o assunto ganhou outros contornos quando ela se tornou um pequeno Rui Gomes da Silva. Em todas as vitórias, campeonatos e outros títulos ganhos pelo FCPorto nos últimos anos, eu tentei explicar à M. que ainda estava a tempo de mudar para ser mais feliz. Mas ela, mais fiel ao clube do que a todas as regras da lógica, respondia-me sempre: "Isso é mentira. O benfica é que ganha sempre".

E até parece um argumento fácil de contrariar, porque o benfica vai-se a ver e não ganha sempre. Mas experimentem vencer uma criança com factos quando ela coloca aquele ar impenetrável, de quem tem tanta certeza que o benfica ganha sempre como que a Cinderela vai casar com o príncipe. Felizmente, a M. aprendeu a ler muito cedo e então eu pude tomar a atitude mais adulta. Peguei num jornal desportivo, apontei para a tabela classificativa e perguntei-lhe, num tom agressivo descontraído: "Vá, lê lá quem vai em primeiro". Podia ter sido este o meu momento de glória, aquele em que a M., ao ver FCPorto ali em cima, me abraçaria e me diria "Leva-me já ao Estádio do Dragão, não quero ficar mais aqui". Teria sido lindo! Mas não.

"É o Porto... mas o benfica não vai em último!" Portanto, estamos conversadas. A minha sobrinha só admitiria trocar de clube se o benfica fosse em último. E, por muito que eu queira acreditar que um dia o mundo vai ser um local perfeito, onde não há fome nem guerra e o benfica vai em último, achei que estava na altura de desistir. A M. é do benfica e eu juro que não gosto menos dela por isso. O problema, como sabemos, vai ser dela quando descobrir que esteve tão perto de ser de um clube decente.

Talvez ela me venha a culpar porque não aproveitei quando, depois daquele golo do Kelvin que tento encaixar em todos os meus textos, estávamos as duas a brincar e, num programa desportivo que estava a dar na televisão, um comentador diz "Porque o benfica perdeu o campeonato, perdeu a Liga Europa, perdeu a taça, perdeu tudo" e a M., que estava de costas, dá um salto e fica de boca aberta a olhar para a televisão. "C., isto é verdade?", perguntou-me, no seu primeiro duro contacto com o mundo real. E eu, que fui mais tia do que super dragona naquele momento, infelizmente, disse-lhe só "Sim", em vez de lhe enumerar todo o palmarés do FCPorto e de lhe revelar logo ali todos os enganos e falcatruas que os lampiões inventam para convencerem as crianças a torcer pelo benfica. "Mas o meu pai disse-me que o benfica ganha sempre..." Foi ali, aos 6 anos, que a M. descobriu que os adultos não são de confiança, nem que sejam os nossos pais e, claro, muito menos se forem do benfica.

A M. tem agora 7 anos. Já não fala em princesas, já nem sequer gosta de cor-de-rosa. Já passou essa fase, assim como a de me tolerar enquanto 100% portista. Ao meu lado, vai cantando com desprezo a sua versão do cântico "slb... slb... campeões da Liga Europa...", sem saber por que razão eu me estou a rir com aquilo e o tio M. a ficar triste.

"- C., podias ser do Porto, mas gostar do benfica também.
- Não, M., ninguém é do Porto e do benfica ao mesmo tempo.
- Então já sei! Podes só gostar do benfica porque eu e o M. somos do benfica, mas não ficar mesmo a torcer pelo benfica".

Notem que a nossa sobrinha já tem uma dose de humanidade incrível, que lhe permite sugerir que eu podia abdicar de um pouco do meu ódio ao benfica por amor ao meu marido e a ela própria. A pequena M. não vai conseguir o que quer, mas nem por isso desiste.

"- C., por que é que tu não és do benfica?
- Porque o benfica é mau.
- Não é nada. O benfica é o melhor.
- Não é nada, isso é mentira. O Porto é o melhor.
- C., (ar benevolente, de quem está a dizer aquilo só para me ajudar...), se o benfica não fosse o melhor, tu achas que eu era do benfica?"

Mesmo estando do lado errado, tenho de admitir que estou orgulhosa, porque não há factos, derrotas ou números nenhuns que abalem a crença da M. no seu clube. A nossa sobrinha já é uma adepta como nós. Um bocadinho mais convencida, vá.

sábado, 7 de junho de 2014

Mundial à Benfica

Facto chocante 1: prefiro que o Benfica tenha um bom lateral-esquerdo na próxima época a que Portugal vença 3-0 a Alemanha.

Itália-Argentina, meias-finais do campeonato do Mundo. Maradona e Caniggia de um lado, uma Itália com Baggio, Baresi, Vialli e Zenga do outro. Local? Nápoles. Na dramática decisão por grandes penalidades, reza a lenda que quando Maradona marcou o seu penalty se ouviu sotaque napolitano nos festejos do golo. Pelo vídeo de youtube, parece-me que, pelo menos, o grito é evidente.


Ninguém pode censurar os napolitanos: vítimas de todos os ataques de toda a Itália, num tratamento praticamente racista, Maradona dera-lhes a doce vingança de se vingarem de todo o norte. Maradona vencera, por exemplo, a Juventus de Platini. Podia uma selecção nacional, no campeonato do mundo disputado em sua casa, ser mais importante do que isso? Claro que não. 

Facto chocante 2: prefiro que o Mangala, Fernando e Jackson sejam vendidos e que os substitutos não estejam à altura do que Portugal passe a fase de grupos do Mundial.

Um napolitano não podia não torcer por Maradona como nenhum adepto se esquece do seu clube no Campeonato do Mundo. Eu adoro Mundiais porque sou um devoto. Comecei com o Itália 90, lembro-me com exactidão de Romário em 94 e sofri com a Argentina de 1998 (maldito sejas, Bergkamp!) e daí adiante. Mas nunca a magia do Mundial me impediu de ver o Mundial como benfiquista. Em 1994 fiquei chateado com a expulsão de Thern nas meias e quis sempre a eliminação da Bulgária de Balakov e Kostadinov. Em 98 não queria que Doriva fosse campeão do mundo por ser do Porto, em 2006 festejei mais o penalty do Simão contra a Inglaterra do que todos os outros golos. Eu, como os napolitanos, como os restantes fanáticos, não me esqueço de quem sou.

Facto chocante 3: trocava a presença de Portugal neste Mundial e nos próximos quatro se me garantissem que o Benfica teria um substituto à altura de Garay na próxima época.

Vou-vos ser sincero: já me passou a fase em que era anti-selecção só para chatear. A selecção nacional é-me indiferente. Não o digo por mal, não o digo por provocação, digo-o porque o sinto. Não sofro nem me importo com a selecção portuguesa (descobri, às 11 da manhã de hoje, que Portugal tinha jogado com o México ontem) e acho que é porque não há espaço no meu coração futebolístico para isso. Para mim, ser do Benfica veio colado à minha existência - eu não saberia viver sem o Benfica e não tenho dúvidas que não veria razão na continuação da espécie humana no planeta Terra se o Sport Lisboa e Benfica cessasse de existir. Eu nunca senti isto pela selecção e isto não é algo que se possa ensinar. 

Facto chocante 4: a decepção do Portugal-França do Euro 2000, a melhor selecção portuguesa que vi e por quem estava a torcer, não se compara à minha dor com as vergonhosas prestações do andebol do Benfica nos últimos anos.

O que eu quero que a selecção portuguesa ganhe - quando a selecção é futebolisticamente interessante e eu percebo que vai entrar para a história (2000 e 2004) é, no máximo, comparável ao que eu sofro quando vejo um grande jogo de duas equipas estrangeiras e escolho torcer por uma. Eu sei, parece estúpido, mas é verdade. Uma pessoa às vezes empresta o seu apoio a equipas com as quais nada tem a ver (torci, avidamente, pelo Alavés na final da Taça UEFA contra o Liverpool). A selecção, sem ser tão distante como o Alavés, não consegue fazer mais do que isso. Periodicamente, sobretudo no Euro 2000 e no Inglaterra-Portugal de 2004, emprestei o meu apoio à selecção portuguesa. Mas é um empréstimo, uma coisa de curta duração, sem o risco de cicatrizes emocionais.

Facto chocante 5: preferia, na ordem de 821647523178351835406787565223186423653278 vezes mais, que o Benfica ganhasse o primeiro jogo do campeonato (nem que seja contra o Belenenses, em casa) do que Portugal seja campeão do mundo.

Ser adepto é uma paixão louca, uma devoção praticante. Eu sou do Benfica todos os dias, todos os segundos, até nesta altura ridícula do ano em que o Benfica não joga. Sou do Benfica desde sempre, desde que me lembro e tenho a certeza que a minha vida vai ser isto. Não faz sentido sentir dois amores assim. Não faz sentido ter dois clubes. Não se pode ser de dois, não dá. Apoiar uma equipa não é o mesmo que apoiar uma organização não governamental com um postal no Natal, envolve um sacrifício, uma entrega emocional que certos familiares mais distantes não têm direito. Entregar esse carinho a uma selecção que joga de vez em quando é o mesmo que eu dizer que gosto tanto dos meus primos que vi duas vezes na vida do que da minha mulher. 

Facto chocante 6:  eu preferia que a camisola alternativa do Benfica fosse branca (a minha preferida) a que a prestação de Portugal no Mundial fosse considerada a melhor de sempre da selecção.

Como é que, então, eu vivo um Mundial? De duas maneiras: a primeira com sentido histórico. Quero episódios como o de Rijkaard e Voeller em 1990. Quero ironias poéticas como a bola da Inglaterra que dava o 2-2 contra a Alemanha em 2010 e que entrou claramente, mas não foi assinalada, vingando (um pouco) a injustiça de 1996. E gostava que Messi fosse campeão do Mundo para a que a minha geração, que não viu Maradona em 1986, visse a consagração de um monstro. 
A segunda maneira é a do benfiquista. As alegrias de Garay e Enzo serão as minhas e espero que Rojo, Jackson e Mangala sejam raptados numa favela manhosa de São Paulo. Se Portugal for campeão do mundo que seja com 3 golaços do Ruben Amorim, todos com assistência do André Almeida, numa vitória por 3-2 com golos na própria de William Carvalho e Bruno Alves. Ficava contente se Portugal fosse eliminado nos penalties com o Beto a ser expulso por se adiantar. Sempre que Maxi Pereira for a uma bola, estarei por ele. 

Facto chocante 7: eu preferia que o Benfica ganhasse o próximo campeonato nacional a que Portugal ganhasse, consecutivamente, todos os Mundiais e Europeus em todo o meu tempo de vida. 

Imagino um Portugal-Argentina neste Mundial. Garay avança pelo meio campo e contorna facilmente a pressão de Cristiano Ronaldo. Encosta em Enzo que acelera e passa William Carvalho com a mesma facilidade que Markovic passou por ele em Alvalade. Faz uma cueca a Moutinho e tabela com Messi, aparece isolado, senta Patrício e elimina Portugal do Campeonato do Mundo. Talvez se ouvisse sotaque português no festejo do golo. O meu, pelo menos, seria nítido. Afinal, era golo do Benfica. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O factor humano

Campeones! Campeones! Oe, oe, oe! - Mais de 80 anos, doente oncológico, uns óculos garrafais. Entrou feliz na consulta e celebrava o título de campeão do Atletico de Madrid (e é nesta parte que vos explico que estou a trabalhar em Espanha neste momento). Todo ele era satisfação, felicidade. A mulher, mais composta, tinha um comportamento mais normal de quem está numa consulta. Mas aquele doente não. O homem estava completo, estava mais feliz do que nós podíamos estar. Sentia-se acima de todas as pessoas presentes na sala. Rematou, meio a brincar, meio a sério, em jeito de broma: "Ganhamos no sábado ao Madrid e paramos a terapêutica". A mulher abanou a cabeça, mas ele sorriu e olhou para cima, para um local muito distante, para uma glória eterna. "A sério, a sério" e contou-nos que nos últimos 5 minutos do Barça-Atleti foi para a varanda porque não aguentava mais. Foi dele que me lembrei primeiro quando Sergio Ramos empatou o jogo na Luz.

"O Factor Humano" é um romance de Graham Greene e foi-me recomendado pelo meu pai, de quem herdei não só a melhor qualidade do mundo - ser do Benfica - como o vício de policiais. É um livro de espionagem tenso, o mais próximo de Le Carré de todos os que li do Greene. É um livro jogado a meio campo, sem espectacularidade, mas incrivelmente denso e duro. Saltem este parágrafo se têm intenções de ler o livro: Maurice Castle é um agente duplo na Guerra Fria, mas Maurice não é comunista por ideologia ou por estar zangado com o sistema ocidental. Maurice torna-se um agente duplo tão e só por gratidão, porque fora um comunista que salvara a mulher da sua vida na África do Sul. A gratidão de Maurice é natural, é praticamente inevitável. Como pode ele não ajudar quem o ajudou? Mesmo que se comecem a suceder coisas estranhas à sua volta, mesmo que o preço a pagar seja demasiado alto, é inevitável escolher um lado. Mesmo quando nem temos assim tanto a ver com aquele lado. É o factor humano.

Eu identifiquei-me com aquele velhote do Atleti. Há vitórias que sabem tão bem e uma pessoa sente-se tão feliz que parece impossível que haja alguma coisa melhor na vida do que aquilo. Nunca ninguém que gostasse de história, pintura ou música me disse isto, mas já vi, no olhar de vários adeptos, uma felicidade tal que quase garanto que perceberam o sentido da vida e a fórmula da felicidade através dos seus clubes. Identifiquei-me com aquele velhote do Atleti como já me revi nas palavras até de adeptos de clubes rivais e em muitas loucuras que já ouvi relatar sobre adeptos de futebol. Fazemos promessas, dizemos coisas estúpidas, damos a volta à nossa vida por causa de um jogo. Mas acima de tudo, sentimos uma coisa muito forte. Porque só uma coisa muito forte pode fazer com que um velhote de 80 anos, com uma doença, se torne a pessoa mais feliz do mundo por ver o clube campeão e sinta que está a uma vitória da felicidade plena na vida. É impossível não sorrir com isso.

Eu gosto de futebol de duas maneiras: uma mais intelectualizada - a história, a táctica, etc. A segunda é a poética, a humana, a sentimental. O Atleti, como todos sabemos, perdeu dramaticamente a final da Champions, aquela final de sábado. O lado histórico e o sentimental uniram-se e o Atleti perdeu a segunda final da Champions 40 anos depois de perder a primeira da mesma maneira: nos descontos e com um golaço. Só que desta vez contra o maior rival. É uma coisa arrepiante de lixada. É impossível uma pessoa não sentir compaixão pela dor atletica daquele momento. Durante uns segundos, senti mesmo pena pelo Atletico, mas sobretudo pelo velhote que perdeu, de certo, o brilho no olhar. Sentir-me identificado foi natural. E não foi só por ter também já levado uma pancada assim, foi mesmo por solidariedade de adepto. É o factor humano.

Acho que já não trabalharei cá quando ele voltar à consulta. Suponho que vai continuar a terapêutica.

(foto José Goulão)