quinta-feira, 31 de julho de 2014

10 anos do Diário de um Ultra

Um comentário muito simpático no blog lembrou a efeméride: faz hoje 10 - dez! - anos que comecei o Diário de um Ultra. Foi o meu primeiro blog e nasceu na minha fase mais "claqueira". Do Diário vim cá para casa, de onde espero não mais sair. A maior parte dos textos deve já envergonhar-me (é por isso que foram escritos há uma década...), mas a data é para celebrar: faz hoje dez anos que me sentei a escrever pela primeira vez, para vossa manifesta infelicidade.

sábado, 26 de julho de 2014

Questionário para quem assobiou Messi no Dragão

1. O jogo era...
a) de homenagem ao Deco
b) um Real Madrid-Barcelona
c) um anúncio de champôs

2. O Messi interrompeu as férias para...
a) homenagear o nosso Deco
b) matar crianças em Gaza
c) abater o avião na Ucrânia

3. A grande dúvida que te inquieta é: o melhor jogador de todos os tempos é...
a) Vítor Baía
b) Deco
c) Secretário

4. Assobiaste o Messi porque...
a) é a tua forma de ovacionar um astro do futebol mundial
b) pensaste que dessa forma ele podia olhar para ti e tiravas uma selfie
c) és só atrasado mental

5. Preferes assobiar o Messi do que...
a) o treinador que não festejou a nossa Champions de 2004 e que não apareceu na homenagem ao Deco
b) qualquer jogador de uma equipa adversária do FCPorto nos jogos a sério
c) qualquer jogador formado num rival nosso que nos marque golos e nos elimine da Champions

6. Foste ao Dragão porque...
a) as pipocas estavam baratas
b) acabou-te a Coca Cola em casa
c) o que é o Dragão?

7. Quando começar a época, prometes...
a) assobiar da mesma forma todos os adversários do FCPorto
b) ir ao Dragão fazer cenas além de assobiar
c) dedicares-te à pesca desportiva

8. Agora, a frio, és capaz de admitir que...
a) assobiar o Messi num jogo de homenagem ao Deco foi a coisa mais estúpida que já fizeste
b) o FCPorto não merece ter-te como "adepto"
c) não devias ter nascido

9. Não vais ler mais este blog porque...
a) nós somos fãs do Messi
b) não percebes nada disto
c) não tens tempo para mais nada além de ler o livro da mãe do Ronaldo

10. Vá, agora a sério...
a) choraste com o Deco porque não há igual a ele
b) não consegues dormir porque tens saudades do portismo daqueles jogadores
c) nunca mais começa a bola a sério para nos deixarmos destas merdas


terça-feira, 22 de julho de 2014

Vinte anos depois

Passaram vinte anos desde que começou o capítulo mais negro da história do Benfica, ou seja, passaram vinte anos desde a chegada de Artur Jorge como treinador ao Benfica. Há vinte anos, a nação benfiquista assistia à destruição de uma equipa que fora campeã contra todas as previsões e de maneira heróica. O Benfica, numa fase crescente da história do Porto e arruinado financeiramente, desceu o seu nível desportivo para patamares terríveis que nos afundaram anos. Artur Jorge e Manuel Damásio, se o mundo fosse justo, não se podiam aproximar a menos de 50 Km do Estádio da Luz sem lhes cair um balde de estrume em cima.
Passaram vinte anos, vinte anos de trevas, de ruína. Desde aquela noite de Maio em Alvalade e daquelas tardes de uma alegria melancólica de Braga e na Luz, contra o Guimarães (como se toda a gente já soubesse o futuro), que o Benfica se separou de uma glória e de uma aura que nunca o tinham abandonado nos 90 anos prévios. 

As melhores personagens literárias são, para mim, as que têm passado. O Conde de Monte Cristo - o meu romance favorito - é fantástico porque todas as personagens têm uma história. Ou porque foram traídos ou porque foram conspiradores, ou porque amaram quem não podiam amar ou porque beberam demais numa tarde. Em "Vinte anos depois", também romance de Alexandre Dumas, encontramos os três mosqueteiros e D`Artagnan outra vez. O romance, longe de ser genial (Dumas era um boémio que escrevia muitíssimos livros para pagar os seus ainda maiores excessos), tem o condão de dar ao leitor aquilo que ele mais pode pedir: saber o que se passou, muitos anos depois, com os seus personagens favoritos. 

Chegados aqui, vinte anos depois da aparição do "poeta" Artur (que há quem diga que é exactamente a mesma pessoa que um célebre avançado do Benfica, especialista no pontapé em moinho - mas eu não acredito), temos o prazer de saber o que se vai passar com o Benfica, tal e qual como os quatro mosqueteiros. Maio de 2014, que podia ter sido perfeito não fosse um velhaco ter defendido os penalties quase para lá da própria marca de penalty, foi o melhor ano dos últimos vinte. Pela primeira vez desde a chegada de Artur Jorge, o Benfica foi inequivocamente superior ao Porto, com melhor plantel, melhor treinador e melhores resultados. Passaram-se coisas incríveis, entretanto. Longe da aventura de cordel de D`Artagnan e dos três mosqueteiros, longe do sorriso da Julieta (perdão, Constança. Julieta era no Dartacão) e daquele final de honra e glória, os últimos vinte anos foram uma tragédia onde o Cardeal Richelieu gozou a seu bel-prazer. Mais: apesar da vitória do ano passado e dos seus melhores anos já terem ido, a sua posição ainda é fortíssima. 

Em "Vinte anos depois", D`Artagnan é o único mosqueteiro. Athos, Porthos e Aramis seguiram os seus destinos (como Oblak, Garay, Markovic, Rodrigo...). E é aqui que as metáforas se separam: eu tive um prazer genuíno quando li o "Vinte anos depois" enquanto adolescente porque encontrar o futuro daquelas personagens (tão cheias de passado) era uma ânsia. E vivi aquilo tudo, o drama, as mentiras, a decadências e os erros irreversíveis com avidez. Porque o que eu queria era saber o que aconteceu, como é que estavam as minhas personagens aquele tempo todo depois. Em relação ao Benfica, não houve propriamente uma pausa entre os livros. Eu vivi estes anos, eu cresci com isto. Ou seja, o Benfica é a personagem da qual eu conheço o passado, é a personagem que eu mais estudei, que eu mais absorvi. Mas vinte anos são vinte anos e o marco histórico merece ser assinalado. Para onde queres ir Benfica? 

Vinte anos, além de um número redondo, simbolizam a primeira vez que o Benfica podia ter partido na frente para um bi-campeonato, podiam significar uma vida diferente, uma coroação, podia ser o princípio de qualquer coisa muito diferente das últimas duas décadas. Ao contrário, há uma estranha sensação de deja-vu. Como aquele festejo do título triste de 1993/1994, em que se despediu o último plantel à Benfica, sente-se esse espírito de revolução falhada: foi bonita a festa, pá. 
Eu gosto de personagens tristes, falhadas, com erros (Athos tem um filho com a amante de Aramis, sabiam?), eu gostei que, ao fim de vinte anos, os quatro mosqueteiros não ficassem juntos, num final de nostalgia amarga. Mas, quanto ao Benfica, nada me custava mais que os mesmos erros, que a mesma tragédia se assolasse sobre nós. Já não há paciência para finais tristes, já não há paciência para vinte anos que pareceram vinte séculos. 

Sinto que todos os anos, desde há vinte, começo a época com a mesma sensação. Gostava de, um dia, tantos anos depois, fechar este capítulo. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

A derrota da incompetência




Se há coisa que eu detesto é a incompetência. Se há coisa que eu detesto são frases começadas por "se há coisa que eu detesto", porque na verdade eu detesto muita coisa, mas agora já está, já está. A incompetência mexe particularmente comigo quando é recompensada. Todos os dias vejo gente incompetente a ser promovida numa empresa, num clube, num Governo, e isso deixa-me realmente irritada. Se o mundo fosse um local perfeito, nunca a minha vida poderia depender de um incompetente, fosse num call-center, num hospital ou num Parlamento. E, se o mundo fosse um local perfeito, sobretudo um treinador como Paulo Fonseca nunca chegaria ao meu clube.

Há, no entanto, um ingrediente que aumenta o meu nível de irritação com a incompetência. Porque há incompetentes que são esforçados, coitados, mas que têm noção do seu pequeno valor. Estes normalmente têm o dom de não pisar ninguém durante a sua estadia neste mundo. Mas há aqueles que, dentro da sua evidente incompetência, precisam de estragar a vida a alguém para consagrar a sua alegre ascensão ao reino dos incompetentes. São estes os que me tiram realmente do sério: os que são uma valente merda e acham que são uma grande coisa.

Já devem ter reparado, portanto, que este texto é sobre Scolari. Devo admitir desde já que acho que o Scolari é a pessoa que eu mais odeio no mundo. O que não diz muito sobre ele, na verdade, mas diz muito sobre a provável demasiada importância que eu dou ao futebol na minha vida. Às tantas devia dizer que a pessoa que eu mais odeio no mundo é o Cavaco,  sei lá, dava assim um ar mais sério e ativista da minha parte, mas hoje estou numa de ser honesta. Eu já não posso ouvir o Presidente falar em consensos pós-troika, mas mais depressa atiro um sapato à televisão quando ouço o Scolari avaliar a Colômbia como uma equipa com muitos talentos individuais e uma grande disciplina táctica, "tal como o meu time".

Não, Scolari, o teu time não é nada disso. Mas voltemos atrás. Scolari foi campeão do mundo em 2002, com uma equipa que tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, ou seja, com uma equipa que seria no mínimo candidata ao título com um pónei a treiná-la. Também tinha o Polga, é verdade, (saudades tuas, Anderson!) mas às vezes um daqueles incompetentes esforçados também dá jeito. Eu não gostava do Brasil de 2002, nem gostei de um Mundial afastado da paixão pelo futebol e dominado pelos esquemas de arbitragem. Mas o nosso problema só surgiu depois.

Scolari chegou à selecção portuguesa e, como toda a gente sabe, adoptou a estratégia de abrir uma guerra com o FCPorto para ganhar credibilidade junto dos nossos adversários e poder, assim, juntar um grupo de jogadores motivados em mostrar que ele tinha razão. Para isso, fez de Vítor Baía, o português com mais títulos de sempre, o seu novo Romário. Não é segredo que eu acho o Baía o melhor jogador de todos os tempos e de todas as constelações e que, se a Terra fosse explodir e me dessem a oportunidade de salvar alguém, ele seria o escolhido (desculpa M., amo-te muito, pensa que pelo menos assim morríamos os dois juntos e não há história de amor mais linda do que essa). Portanto, esta seria uma razão mais do que suficiente para justificar a minha relação com Scolari.

Mas é a incompetência do homem e a respectiva compensação dela que me tira do sério. Vamos, então, ao Euro 2004, maior orgulho dos adeptos da selecção pró-Scolari e, portanto, pessoas menos credíveis do universo. No primeiro jogo, contra a Grécia, Scolari entrou com o seu onze em campo. Resultado? Derrota. Inesperada, dirão aqueles que tinham uma bandeira na janela. Totalmente previsível, tendo em conta as escolhas e o mau trabalho do seleccionador, dirão aqueles que percebem alguma coisa de futebol. No segundo jogo, Scolari, que é incompetente mas não é totalmente burro, fez entrar os campeões europeus em título. Do FCPorto, pois claro. Resultado? Caminho aberto para a final. Demonstrou sabedoria, porque aprendeu com o erro, dirão aqueles que acreditam em Caravaggios. Mostrou que qualquer um podia treinar aquela equipa, dirão aqueles que sabem que o tal pónei também poria o Deco a titular.

Pelo meio, Ricardo tornou-se a figura de proa da selecção de Scolari. Desde logo pelo tal assunto Vítor Baía, que levava aquelas pessoas que pintam a cara de verde e vermelho a acreditar mesmo que o seleccionador tinha escolhido o melhor. E porque defendeu penalties. Uau, penalties. E logo contra a Inglaterra, uma especialista! O que se assemelha àquele momento em que o totó da turma acerta numa resposta e fica toda a gente espantada e com vontade de bater palmas. É fixe para o totó durante dois segundos, mas se está toda a gente tão excitada e emocionada com uma simples resposta certa, então deve ser um mau sinal a longo prazo. O resultado viu-se, aliás, na final desse Europeu.

Ainda hoje tenho de discutir essa final contra a Grécia com gente que acha que Portugal perdeu por azar. Ficou só 1-0, portanto é azar. E a culpa foi dos gregos, que eram feios e maus. Admito que quando fica 7-1 as coisas sejam mais evidentes, mas quem viu aquela final e tem alguma estima por futebol sabe que a grande derrotada foi a incompetência. Scolari não estudou minimamente o adversário (que, surpreendam-se agora, já tinha derrotado a selecção no jogo de estreia, portanto foi mesmo difícil não estar preparado), os gregos foram muito mais organizados e brincaram com a motivação e as rezas dos portugueses e, parem tudo o que estão a fazer, ainda por cima à custa de um enorme frango do menino do Scolari! Se eu fosse mesmo má, diria que foi perfeito. Olhem, já está, já está.

Este Brasil de Scolari mostrou cedo ao que vinha: desorganização máxima, teimosias tipo Fred, que merece o prémio de pior do Mundial (desculpa, Miguel Veloso), choradeiras e santas que defendem penalties, um discurso anti-árbitros e teorias da conspiração que, se não fossem tão idiotas e sem sentido, até nós poderiam incomodar. Mas lá foi passando e juro que quando vi o remate do Pinilla à barra pensei: "Tu queres ver que a €#%£ da Caravaggio me vai estragar o Mundial?" Felizmente, apareceu a Alemanha.

O que a Alemanha fez ontem foi colocar as coisas no lugar, dar sentido ao futebol, consagrar em números a vitória do trabalho sobre a incompetência, do mérito sobre a crença, da organização sobre a sacanagem. E, por isso, eu tenho de agradecer aos alemães, perdão, ao Guardiola. Não é nada contra o Brasil (a minha primeira memória futebolística até são os festejos em família em 94), note-se. O Mundial é que já estava a ser o melhor de sempre para mim, mas ver Scolari e toda a sua filosofia destruída vai muito além disso. O que vimos ontem e nunca vamos esquecer não foi só uma goleada ou uma humilhação, não foi só uma doce sensação de justiça ou uma vingança dos que não acreditam em santas. Foi uma lição de vida.