terça-feira, 28 de outubro de 2014

O Benfica ainda acredita em contos de fadas

A nossa sobrinha mais velha, sobre a qual a C. já escreveu, quando tinha os seus três ou quatro anos , adorava as princesas da Disney, como todas as meninas da idade dela. A M., loura e com os seus olhinhos muito azuis, sentava-se muito concentrada no canto do sofá a ver de seguida as cassetes de vídeo e perdia-se completamente naquilo. O meu irmão, o tio mais novo da M., que é um bocadinho um irmão (muito) mais velho dela, adorava fazer-lhe a seguinte maldade: chegava a casa vindo do surf com a prancha na mão e, sem sequer olhar para a miúda, antes de fechar a porta virava-se lá para fora e despedia-se: "Adeus, Branca de Neve! Amanhã fazemos surf outra vez! Beijinhos!", fazia adeus e fechava a porta. A M., coitadinha, levanta-se a correr, abria a porta e gritava: "BRAAAAAAAAANCA DE NEEEEEEEEVEEEEE!?" e ficava muito triste quando via que ela não lá estava. Olhava para o meu irmão à procura de respostas e o sacana dizia-lhe, muito calmo: "Se calhar ela não é tua amiga, é só minha", para fúria e desespero da nossa sobrinha. Obviamente, porque a M. é brilhantemente inteligente (um misto de Ramires em transição defensiva com Aimar com a bola nos pés, mas numa criança), a brincadeira acabou por se perder. O meu irmão despedia-se da Jasmine (é a namorada do Aladino) ou da Pequena Sereia, ou fingia que estava ao telefone com elas, mas a M. dizia-lhe "Não está nada a Branca de Neve lá fora" e continuava no sofá. A história é uma delícia, mas já não resulta (estamos à espera que a F. cresça para lhe fazermos o mesmo).

O Benfica foi este domingo a Braga. Tinha quatro pontos de avanço e o nosso principal rival estava em crise, com exibições coxas e uma eliminação prematura na Taça de Portugal com contornos de escândalo. O Benfica visitava um estádio de uma equipa treinada por um ex-jogador do FC Porto (ok, isto só não se aplica a duas ou três equipas do campeonato), cujo ambiente chega a ser pior que o Dragão e onde já tivemos desde agressões nos túneis (onde Cardozo foi expulso por levar um soco) a cortes de luz quando o Benfica ganhava o controlo do jogo. O que é que seria de esperar? Obviamente uma arbitragem à portuguesa, que permitisse toda a violência possível e imaginária e uma entrega de jogadores como Ruben Micael que raiasse o heróico. (Aproveito este parágrafo para anunciar que, se um dia eu presidir a instituição secular e gloriosa do Sport Lisboa e Benfica, vou mandar raptar o Ruben Micael e que este será colocado numa cave do estádio da Luz. Cada vez que um benfiquista pagar as quotas, terá direito a dar uma carga de porrada no madeirense, para aliviar o stress. Prevejo chegar aos 500 mil sócios nos dois primeiros meses.) O Benfica até entrou bem e fez uma primeira parte que me pareceu competente (não pude ver o jogo todo, admito). Perdeu por erros do JJ, por erros individuais e por alguma dose de azar (aquela última bola, se fosse cabeceada por um jogador do Porto ou do Sevilha, tinha batido de seguida na barra, na cabeça do defesa e na barriga do fiscal de linha, acabando por entrar), acontece. A minha crítica não é por aí. Fico pior que fodido, dá-me vontade de mandar pontapés em coisas e acho que o país devia fechar para podermos debater os problemas técnicos e tácticos que nos assolam, mas não é por aí que escrevo o texto.

O que me choca, o que me põe mesmo nervoso, é a meninice do Benfica. Que a bola não entre naquele último lance, eu perdoo (apetece-me que o mundo acabe, mas perdoo). Que aquele primeiro golo entre, eu perdoo (que charutada impressionante), agora, que o Benfica vá a Braga sem perceber que tem que lá entrar como se fosse combater pela Palestina em Jerusalém é que me faz impressão. Mas ninguém avisou para o que se ia passar? Mas ninguém pediu a expulsão do Danilo a um ponto que o árbitro fosse obrigado a parar de compactuar com o que se estava a passar em campo? Mas que cambada de crianças é que estava vestida à Benfica para se ter permitido que o Ruben Micael faça uma falta em cima da área sobre o Jonas e que ninguém tenha pedido amarelo? E depois, claro, a cereja no topo do bolo: aquela confusão final, aquele perder a cabeça completo e ridículo que nos impediu de aproveitar os minutos finais e que nos pode ainda valer castigos. Pareciam a M. irritada depois de descobrir que não estava nenhuma princesa da Disney lá fora. Já tinham idade para ser mais crescidos, rapazes.

O que pergunto é: mas, além de mim e vários doentes que conheço, ninguém estava mentalmente preparado para ir a Braga? É que a nossa sobrinha, coitadinha, tinha três, quatro anos e queria muito conhecer a Branca de Neve. Mas o Benfica também é assim tão ingénuo? 
Eu acho que o JJ esteve mal no domingo, sim. Acho que vários jogadores não foram felizes em vários lances (porra, Lima, volta), sim. Mas isso, num campeonato de 34 jornadas, acontece (mas não pode acontecer muito!). Agora, exijo sempre, mas sempre, que os jogadores deixem a pele em campo. E, mesmo admitindo que a concentração de um jogador e de uma equipa não é a mesma durante todo o ano, não se admite, não se pode permitir uma exibição daquelas em Braga, num terreno minado onde ganhar seria uma cartada psicológica fortíssima e que ia dar suores frios aos nossos rivais que, ao invés, já esfregam as mãos. A M. dava saltos e pedia o telefone ao meu irmão e gritava: "Deixa-me falar com ela!" quando o meu irmão fingia que estava a combinar sair à noite com a Pequena Sereia, mas o Benfica não pode ser uma criança de três anos, enternecedora de tão inocente. 

Eu sei que já escrevi este texto mil vezes, eu sei que estou sempre a pedir isto: um Benfica obcecado em ser campeão nacional e com gente que só pense nisso a tempo inteiro e que prepare a equipa técnica e os jogadores para todos os factores que não podem controlar. Eu, que sou médico e que tenho outras coisas para pensar e fazer, passo 90% (perdão, 900%) do meu tempo a pensar nisto. E, no entanto, isto não acontece e domingos como o último acabam por aparecer. 
A cereja no topo do bolo é ver o presidente do Benfica a confraternizar alegremente com o presidente de um clube que eu só espero que acabe nas distritais da Libéria. Como é que eu me posso chatear com o Talisca por meter no instagram uma fotografia com o Kelvin quando o presidente do Benfica se dá bem com o presidente de uma equipa que nos recebe assim todos os anos? Assim é difícil acreditar que o Benfica vai mudar para o Benfica que eu sonho. Mais depressa o meu irmão vai fazer surf com a Branca de Neve.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ódio de estimação

A minha mãe descobriu há pouco tempo umas recordações um tanto ou quanto embaraçosas da minha infância. Entre elas, as minhas primeiras cadernetas escolares. Lembram-se das cadernetas, verdes, que no fundo só serviam para justificar faltas ou levar recados para casa? Bem, no meu caso, parece que elas serviam para eu escrever sobre coisas que me preocupavam na escola, como o facto de uma menina de outra turma andar a bater num amigo meu. E então eu descrevo como a D., que devia ser um brutamontes para eu andar a escrever mal dela na caderneta mas nem sequer me aproximar, andava a bater na malta e ninguém fazia nada. Um escândalo. Eu já não me lembro quem era aquela D., mas, aos 10 anos, ela parecia ser a pessoa que eu mais odiava.

No futebol, além, evidentemente, dos clubes rivais, é natural crescerem grandes ódios por jogadores. Já escrevi aqui, aliás, sobre o meu ódio de estimação a João Vieira Pinto (penálti para o Jardel, só de escrever isto). Também já passei por isso com João Moutinho (um anão do sportem que era extremamente irritante, sempre a mandar-se para o chão e que não valia nada, não sei o que é feito dele há vários anos). Maxi ainda é, obviamente, um excelente candidato. Adrien está a ganhar uma força brutaaaal. Em comum, têm todos algo: são do benfica ou do sportem. Parece-me fácil concluir que este é o meu requisito principal para tal ódio.

No entanto, nos últimos anos, há um fenómeno que tem crescido no Dragão que me incomoda. Fala-se muito da descaracterização da nossa equipa, da falta de cultura portista, de mística, no fundo, mas a verdade é que nas bancadas tudo isso também é visível. Já nem vou falar da massa assobiativa, que, por mim, era corrida a pontapé e ainda ganhava a inscrição de sócio noutro clube. Hoje, preocupa-me que um adepto do FCPorto seja capaz de odiar um jogador... do FCPorto.

Voltemos, então, à fatídica eliminatória da Taça. Como é que um jogador como o Adrien, um betinho que anda ali a dar pau a tudo o que mexe e que, porra, chama-se “Adrien”, portanto percebe-se bem como simboliza aquele clube, dizia eu, como é que este Adrien não é assobiado de cada vez que ousa fazer peito a um jogador nosso, e, no entanto, o Casemiro leva com uma assobiadela monumental? Expliquem-me, que eu juro que não percebo. É isto a exigência? Não querem saber dos outros, só querem que os nossos sejam sempre os melhores do mundo e arredores? Mas então e aquilo que tanto cobramos aos rapazes, a falta de noção do que é o Porto, o não perceberem como um rival nos une contra ele, também não devia ser assim com os adeptos? Um adepto que assobia o Casemiro em vez do Adrien não está precisamente a mostrar que o Porto mudou mesmo para pior?

E o Casemiro é só a última vítima. Ele que se prepare para meses disto. De assobios, de malta que preferia o Rúben, que preferia o Marcano, que preferia o Busquets ou o Yaya Touré, que preferia ficar entalada entre duas paredes do que, por momentos, parar para pensar que ele não fez nada para merecer isto. Por exemplo, se o Casemiro no próximo jogo marcar um golo, levantar a camisola e, por baixo, tiver uma do benfica, eu sou a primeira a invadir o relvado para o lincharmos logo ali. Sim, sou a favor disso, que é para não me virem acusar de achar que um bom portista é aquele que apoia sempre, em qualquer condição. Não, não, eu sou favor de executarmos um deles como exemplo para os outros se algum dia se atreverem, sei lá, a dizer que o Porto é feio.

Merecer. Acho que é por aí. O Casemiro fez aquela anormalidade no jogo contra os lagartos e atenção que eu também me levantei e disse duas ou três frases que não me atrevo a escrever aqui, mesmo depois do meu último texto ter desbravado quase tudo o que havia a desbravar em termos de linguagem. E então? Passámos a odiá-lo, foi? Desistimos dele? Não merece mais aquela camisola? Ele é dos outros agora? Vamos assobiá-lo sempre para quê? Na terça-feira, quando ouvi aqueles assobios na substituição dele, juro que me apeteceu abraçá-lo e dizer-lhe ao ouvido: “Não ligues, eles já fizeram isto ao gajo que vai entrar agora”.

Pois é, eu lembro-me do Dragão que assobiava o Quaresma. Eu lembro-me de os SuperDragões terem de cantar por ele para disfarçar os assobios. Porque os adeptos “exigentes” não gostavam da sua maneira de jogar, porque ele era muito egoísta e não passava a bola. Tudo certo, aliás, mas era mesmo preciso andarem a fazer isso anos a um jogador do nosso clube? Que, goste-se ou não (que é o meu caso), até ajuda a equipa de vez em quando? Quase que aposto que há muitos desses tempos que agora assobiam o treinador... por não meter o Quaresma. São cabeças difíceis de perceber. Portanto, Casemiro, a única coisa que te posso pedir é paciência, porque pode ser que um dia voltes ao FCPorto e esta malta já te endeuse de tal forma que parece que se esquecem que quem ganhou na terça-feira foi a nossa equipa e não um jogador.

Danilo é outro bom exemplo do que vos falo. Era ele o anterior ódio de estimação dos portistas. Assobiadíssimo, destruído nas redes sociais, até um cântico a gozar tinha... Na terça-feira, estava a sair do trabalho e a ouvir a flash no rádio quando o Danilo falou. Fiquei de boca aberta. Disse tudo bem, tudo com sentimento, parecia um gajo da Ribeira de tanto portismo que transparecia. E ainda com críticas certeiras, com a exigência que, sim, tanto nos caracteriza. O Danilo, neste momento, é provavelmente o jogador mais à Porto que temos, o que diz muito sobre a falta de Porto no Porto, mas enfim, estamos aqui para falar de outra coisa.

E, antes dele, o Hulk. Porra, como o Hulk sofreu no Dragão! Tanto, mas tanto assobio... Um jogador que agora, mesmo exilado na Sibéria, fala sempre com amor do nosso clube e que (só de pensar nisto já estou com uma lagrimazinha no canto do olho) sai do relvado da luz a gozar com eles. Ai, Hulk, perdoa esta gente! Acho que vou acrescentar na minha caderneta que, pior do que a D. andar a bater em amigos meus, são estes “portistas” que gostam tanto de bater nos nossos.

domingo, 19 de outubro de 2014

10 conselhos para a sobrevivência de um portista

1. Silêncio que só pode ser interrompido por asneiras

Estou fodida. Mal falei desde as 19.00 de sábado e continuo a não ter grande coisa para dizer. Sinto uma impotência do caralho. Estou farta desta merda.

2. Mandar todos para o caralho

Não considero adepto qualquer um que, nestas alturas, se dirige a outro adepto com piadolas ou provocações. Eu adoro gozar o benfica e o sportem nas suas humilhantes derrotas (e já vi tantas, foda-se!), mas nunca serei a pessoa que acha lindo ir massacrar o amigo adepto desses clubes. Vocês, que estão tão habituados a esta merda de sensação, deixem-me em paz. Não preciso de piadolas ou provocações, esta merda já custa que chegue. E isto estende-se a portistas que ficam contentes por estas coisas acontecerem, porque assim vêem validadas todas as suas previsões de catástrofe. Não são melhores do que eles, caralho.

3. Tentar pensar noutras merdas

Como se fosse possível. Tentar esquecer que esta merda não está a resultar, que já vimos este filme, que isto vai ser um filho da puta de um sofrimento até ao fim. Tentar não culpar tudo e todos, quando a vontade é toda essa. Tentar não desistir, nunca, não pode ser.

4. Acreditar que esta merda vai mudar

Foda-se, eu já me enganei muitas vezes em relação a treinadores, jogadores ou formas de jogar. Juro, sou uma merda de uma inutilidade como visionária. Mas até eu, até o caralho do meu peluche que é um urso azul com um símbolo do FCPorto, já percebemos que assim não dá. O que falta acontecer para o treinador perceber o mesmo? Um jogador do FCPorto entrar com uma bandeja no campo, colocar lá a bola e entregar tudo a um filho da puta de um adversário? Foda-se, parece-me que isso já está!!! Podemos seguir em frente, por favor??

5. Querer mais do que os outros filhos da puta

Já não via o Dragão assim há muito tempo. Que vontade! Cantei o hino até me engasgar, literalmente. Nas bancadas, entrámos com tudo, caralho. Estávamos capazes de os comer vivos. Estávamos a ser o Porto, foda-se, finalmente! Ao 8262044o passe falhado na defesa, levantámo-nos todos e juro que por momentos pensei que eram os nossos que não saíam dali vivos. Porra, isto é o Porto! Sofrer com aquilo até aos ossos! Se eles percebessem, se eles soubessem o que isto é...

6. Rezar para que alguém acorde aqueles cabrões

Andamos há muito tempo com esta conversa. Há tanto, que alguém lá em cima já a devia ter percebido. Falta Porto ao Porto. É assim tão difícil de aceitar a crítica? Seremos assim todos tão maluquinhos que não tenhamos percebido que é óptimo ter um jogador como Jackson, que foi um negócio do caralho ficar com ele mais um ano, mas que um capitão, um capitão à Porto, nunca tremeria naquela merda de penálti? Será assim tão de loucos esperar que um gajo que faz as asneiras do Marcano e do Casemiro se atire para o chão desesperado, chore, peça desculpa ou o caralho? Será assim tão impossível imaginar um mundo onde esses gajos tivessem de passar por nós na rua para saber como nós estamos depois da merda que fizeram? Foda-se, eu não peço um 11 de jogadores nascidos e criados no Porto. Já só queria um, UM gajo qualquer naquele relvado que percebesse um caralho do que é o nosso clube e do que estava ali em causa.

7. Manter alguma postura no meio desta merda toda

Nós não somos os gajos que foram campeões duas vezes nos últimos 30 anos. Nós não somos os gajos humilhados umas 92 vezes só nos últimos anos e que nem uma merda de uma final europeia são capazes de ganhar. Nós somos o Porto. Foda-se, e isso é um orgulho do caralho mesmo! Ninguém nos tirou nada, nem nós podemos deixar que se atrevam a tirar. Esta merda custa, mas não acaba aqui.

8. Levantar a cabeça, o caralho!

A partir de agora, a tolerância é 0! Recuso-me a repetir o mesmo erro dois anos seguidos. Se eu não vir imediatamente uma reacção à Porto, está tudo fodido.

9. Isto é só futebol? Foda-se!

Se acham que estou muito afectada, se vos parece que exagerei no tom, se nunca passaram por esta filha da puta de tristeza, então falamos daqui a uns dias, ou semanas, é mais seguro. O pouco que quero falar é com malucos que sabem o que é esta merda.

10. Amo-te muito, M.

Desculpa não te teres apaixonado por uma pessoa normal, que hoje chegaria aos teus braços feliz por te rever. Obrigada por perceberes o que se está a passar comigo, obrigada por aquela SMS no final do jogo a lembrar-me como o sportem é uma merda. És um marido do caraças, juro, mesmo sendo da merda do benfica. Foda-se, é que nem me posso lembrar dessa merda que ainda fico mais fodida.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Quaresma

Ricardo Quaresma é um óptimo exemplo do tipo de jogador de quem eu não gosto: individualista, egocêntrico, egoísta, incontrolável. É um jogador que irá sempre preferir fintar a passar ao lado, é um homem que irá sempre dizer ou pensar “eu” em vez de “nós”. Os especialistas dizem que nunca respeitou o suficiente a táctica, eu acrescento que o principal problema é nunca respeitar o suficiente a equipa. Mas também é, provavelmente, o jogador português mais talentoso desta geração. Ninguém tem aquela técnica, nem aqui nem em nenhum lado. O que Quaresma faz, só Quaresma é capaz de fazer. É único, não há igual e não dá para ensinar ou treinar.

Agora parem por momentos de imaginar o Quaresma com aquelas meias com caveiras a chegar ao treino da selecção, porque eu vou fazer uma comparação: Quaresma é aquele rapaz super giro, com grande corpo, demasiada areia para qualquer camião, que tu passas dias a admirar ao longe e a imaginar como é o homem perfeito… até que ele vem falar contigo e não sabe elaborar uma frase. Quaresma é o gajo que conheces na discoteca e ficas imediatamente apaixonada, até que, à primeira mensagem escrita que te manda, vem tudo cheio de erros e vomitas. Quaresma é o idiota com quem dás umas voltas, mas não apresentas a ninguém porque tens vergonha.

Após tantos anos no FCPorto, Quaresma continua a dar-nos umas voltas, a marcar uns golos porreiros, a fazer uns cruzamentos perfeitos, a fazer umas fintas únicas. Mas continuamos a ter vergonha dele. Nem que, de vez em quando, como no ano passado, seja a voz que é capaz de dizer em voz alta que a equipa não vale nada. O que era efectivamente verdade e que até nos fez agradecer-lhe a sinceridade. Mas até aí, nesse desabafo, o que Quaresma nos estava a dizer era que ele é bom demais para aquilo. Desculpem, mas tendo em conta o historial, não acredito no seu amor eterno ao FCPorto.

De qualquer modo, apreciei a sua reacção ao drama Lopetegui. Mais ainda apreciei ter um treinador que coloca a equipa acima das estrelas. Acho até que foi uma situação muito bem gerida, de parte a parte. Os únicos que estiveram mal nesta história, aliás, foram os adeptos, que assobiaram o nosso treinador por causa de um jogador. Vamos lá ver se nos entendemos: o único jogador que justificaria desestabilizar a equipa por um desejo nosso de o querer ver em campo, para mim, seria um jogador chamado Futebol Clube do Porto. Como não há (o que é uma pena, acho que dava um bom nome), não vos percebo.

Portanto, espero que agora, com o golo e a assistência pela selecção, não venham as exigências. Eu quero lá saber se joga o Quaresma ou o Tello, o Oliver ou o Quintero, o cão ou o gato. Se quem jogar der tudo em campo, estou satisfeita. Nenhum jogador está, em nenhuma situação, acima da equipa. Metam isso na vossa cabeça: podem adorar as meias com caveiras, as tatuagens, o estilo, a trivela, o que for… Mas, no estádio, ele é só mais um dos nossos.

E, se dúvidas houvesse sobre por que Quaresma nunca poderá ser um capitão ou um símbolo do FCPorto, hoje li as seguintes palavras: “O sportem vai estar sempre comigo”. E, dizem vocês, é muito lindo que ele não cuspa no prato do qual comeu. E, digo eu, em semana de clássico com o sportem, se ele não quer cuspir nesse prato, que se cale. Até sábado, tudo o que não for atirar esse prato de um 9º andar e ainda ir lá abaixo passar-lhe com uma retroescavadora em cima, é pouco para mim. Eu odeio esse prato e não admito que nenhum jogador que vá vestir a minha camisola nesse jogo pense em menos do que isso.

Porque o FCPorto, Quaresma, não é só o clube que te mostrou ao mundo, que te recuperou e que te paga ao fim do mês para poderes continuar a ter um grande carro. O FCPorto não é só essa conversa dos títulos, do tudo contra todos, do Somos Porto ou Sempre Preparados. O FCPorto é o entrar em campo no sábado com mais vontade do que eles, com as garras todas de fora, como se a vossa (e a nossa) vida dependesse daquela vitória. O FCPorto não é a equipa que jogou em alvalade, que foi roubada e podia ter ganho, note-se, mas que não quis tanto como os outros. E eu não posso admitir que alguém do meu clube não queira mais ganhar do que o beto do Adrien. Não posso admitir que um jogador corra menos do que o Cedric, faça mais asneiras do que o Saar, ou lute menos do que o Slimani.

Quaresma (e todos os outros totós que ainda não perceberam isto): no sábado, não é só um jogo da Taça. É um jogo contra o Acosta, que partiu o queixo ao Paulinho Santos. É um jogo contra o Bruno Paixão em Campomaior, que lhes deu um dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os penáltis do JVP para o Jardel, que lhes deu o outro dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os “tios” e as “tias” que não nos queriam ver a receber a Taça em 1994 e pelos corajosos jogadores que a levantaram. É um jogo contra o “Ricardismo” que afastou o nosso Baía da selecção. É um jogo contra adeptos que passam o jogo a reclamar de um lançamento, que querem é penáltis e expulsões e confusão, que não ganham nada mas são felizes na sua essência. É um jogo contra o presidente, que anda a falar sozinho, mas que tem de perder com os outros todos. É um jogo contra um rival. Portanto, vamos sofrer. Todos juntos, com Quaresma ou Tony Carreira, sei lá, nem quero saber.

Claro que, Quaresma, se marcares dois golos, deres outros dois a marcar, festejares mostrando o rabo à bancada visitante e com uma camisola a dizer “Estava a brincar no outro dia, o sportem afinal cheira a cocó” (perdoem-me a linguagem, ando a ouvir muito o Bruno porque estou viciada na sportem TV), estás perdoadíssimo. E prometo-te que venho aqui e mudo este texto todo, porque, se isso acontecesse, eras o melhor jogador da história do futebol, como é evidente. Aliás, vou mais longe, porque, se fizeres isto tudo, segunda-feira vou assim vestida para o trabalho:




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O Bernardo do Benfica

Confesso-vos que demorei a ver o Bernardo Silva. Por escolhas erradas que tomei ao longo da vida, nomeadamente ter escolhido ser médico em vez de jogador de futebol do Sport Lisboa e Benfica, só tenho tempo para saber tudo e mais alguma coisa da nossa equipa de futebol. Os juniores, a equipa B e as modalidades não têm a atenção que merecem a minha parte e penitencio-me por isso. Assim, ao invés de pessoas mais bem informadas do que eu, a minha atenção só se virou para o Bernardo quando começaram a correr nas redes sociais as fotografias dele no instagram: foi como uma bomba, havia um jogador do Benfica B que era do Benfica desde pequenino e que vive o clube como nós.



Comecei a espreitar resumos da equipa B, a ver os consecutivos golos e prémios de melhor em campo e dei por mim, mesmo sem lhe ver 90 minutos completos, a torcer por ele. O Bernardo Silva - independentemente do que venha a ser enquanto jogador de futebol - é um adepto do Benfica. E aos adeptos do Benfica quer-se sempre o melhor. Se o Bernardo chegar a jogar na Luz pelo Glorioso e marcar, virá festejar connosco e vai ter a alegria que nós teríamos. Só uma pessoa sem coração (ou sem acesso às redes sociais) podia não torcer por um jogador que ia à Luz de cachecol como nós.

Apesar de ser um adepto e de ter um ideal romântico sobre o mundo da bola, sou muito pragmático: não há Bernardos que substituam os Enzos, os Oblaks, os Garays, os craques a sério. Eu também sou mesmo muito do Benfica e duvido que fosse útil, neste meu momento de forma, à equipa de futebol, portanto não sou nenhum fundamentalista do "jogador da formação", do "jogador português" e dessas coisas. Eu quero que o Benfica tenha os melhores, não me interessa a idade, a nacionalidade nem se são vegetarianos ou se comem três bitoques ao pequeno-almoço. O que me faz confusão é que, em condições iguais, não se dê prioridade ao jogador da formação, ou - e isto ainda é mais importante - que sente o clube. Porque uma coisa é comparar o Ivan Cavaleiro ao Markovic, em que o primeiro será uma eterna promessa do futebol português e o segundo, enfim (pausa para chorar de saudades), outra é achar que o Bernardo não tem lugar neste plantel do Benfica. 


A questão é grave por dois prismas: em primeiro lugar, porque o Benfica perde um jogador que lhe podia ser muito útil porque me parece muito bom, ponto. Eu sei que desde que desperdiçámos Mario Stanic e Deco que o Bernardo pode não parecer muito grave, mas algo me diz que sim. Em segundo, pela identidade do clube. Este que vos escreve tem a mania que sabe muito de futebol e que acerta muito, mas, assim que vi o Talisca, ia morrendo. O Talisca, a número oito então, pareceu-me ser rapaz para ser responsável por 275 cateterismos e 12 pacemakers só na minha pessoa. Em todos os jogos, era sempre o jogador que eu tirava na primeira substituição. E o que é facto é que o rapaz tem 6 golos e que está a humilhar a minha opinião inicial sobre ele. Eu, sobre o Benfica, não faço questão de ter razão. Oxalá o Talisca se sagre Bota de Ouro este ano e que nunca mais ninguém ligue ao que eu escrevo. Mas o Talisca, apesar da sua meia dúzia de golos, além de não saber quem é o D'Artagnan, não sabe o que é o Benfica. Tanto assim é, que decidiu tirar fotografias com o Kelvin e escrever inclusivamente que o ama. 



As boas notícias (para os adeptos do Porto) é que o Kelvin está vivo, as más é que a jovem promessa goleadora do Benfica não percebe que uma fotografia destas é um choque para os adeptos do clube que representa. Tenho a certeza que o Bernardo não metia uma foto com o Kelvin nem que este lhe salvasse a família inteira e lhe entregasse três chaves vencedoras do Euromilhões. E isto é importante, isto é fundamental para um clube. Não acho que haja uma escolha Talisca versus Bernardo; o Benfica podia ter perfeitamente os dois e beneficiava disso. Eu prefiro o Talisca ao Ivan Cavaleiro e ao Nélson Oliveira. Mas prefiro uma oportunidade ao Bernardo do que aos negócios estilo Djavan, Candeias e Luís Felipes. É aí que me dói, que o Bernardo não tenha uma oportunidade no Benfica. É que há jogadores francamente maus que a têm só por jogos de comissões e empresários. O Bernardo não merece lugar cativo no Benfica só porque tem um número de sócio baixo, mas o seu futebol e o mais que declarado amor ao clube têm que se sobrepor a várias negociatas estranhas.

É que o Bernardo tem tudo para ser um Paneira. Um daqueles que só de vestir a camisola do Benfica se sente maior. E essa raça de jogadores que se confunde com a camisola tem uma grande virtude: torna o clube mais forte. Porque passa a haver alguém no balneário que lhes explica por que sofrem tanto os adeptos, que lhes explica por que é especial este ou aquele acontecimento, este ou aquele jogo. Porque esses jogadores comunicam melhor com os adeptos, fazem-nos sentir menos clientes, fazem-nos sentir mais próximos das camisolas. E esses clubes são melhores, são mais fortes, ganham mais do que os outros. É isso que eu quero para o Benfica. Porque eu sou do Benfica como o Bernardo Silva.