quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ser campeão

No fundo, trata-se apenas disto. Contrata-se, vende-se, aposta-se, reza-se, apoia-se, lamenta-se, aponta-se, critica-se, tenta-se. Tudo para um só objectivo: ser campeão. Eu sei que nem me posso queixar: tenho 18 campeonatos nacionais em 28 anos de vida. Mas, no dia em que eu deixar de me lembrar pormenorizadamente como perdi os outros 10, podemos todos ficar preocupados.

Eu não sou mais ou menos do FCPorto consoante a equipa de futebol ganha ou não. Partamos, então, desse princípio que me parece óbvio e deixemo-nos de lamechices. Mas quero ganhar, certo? Portanto, é normal que, um ano e meio após o golo do Kelvin, eu esteja fodida. Certo? Não sou mais nem menos portista por isso, não vou mais nem menos à bola sequer. Passemos, então, a assumir que qualquer adepto deste clube está assim.

O que podemos fazer, então? Comecemos por nós, adeptos. Para mim, esta é a resposta mais fácil: andar atrás deles a apoiá-los. Isto não quer dizer aceitar tudo, ficar feliz nas derrotas porque há sempre um jogo a seguir ou deixar de ser exigente. Isto é só nós a fazermos o nosso papel. Só que não podemos ficar por aqui. Por exemplo, eu não percebo como é que um grande boi pode vir fazer um lançamento a centímetros da bancada e essa bancada estar a bater palminhas ou a comer pipocas. Juro. Só os que se levantaram, o insultaram, vá, até os que eventualmente lhe possam ter cuspido um ou outro pedaço de saliva totalmente justificada estavam a fazer o seu papel. Só esses podem reclamar com o nosso jogador que assistiu passivamente a toda a manha sem se mexer. Percebem a diferença?

Ser adepto não é só comprar bilhete. Como é que chegados aqui, ao jogo mais importante do ano, aos 90+2 minutos em que devíamos ter dado a volta ao filho da puta deste 2014, o Tello cai na área logo a começar e nós todos, todos mesmo, os mais de 40 mil, não nos levantámos todos a pedir penalty? Expliquem-me que eu juro que não percebo. Porque não era? A sério? Vocês viram lá isso? Porque o jogo estava mesmo a começar e havia tempo para ganharmos mesmo sem o penalty? A sério? Vocês são assim tão racionais? Eu, que não só me levantei, gritei penalty e pedi uma expulsão, tudo claríssimo e sem a mínima dúvida, quase que tive de pedir desculpa ao senhor que estava atrás e não viu bem o lance. Pensando bem, talvez eu me tenha levantado mal o Tello pegou na bola e estivesse a pedir falta e expulsão desde quando o André Almeida ainda nem tinha nascido. E então?

Agora passemos aos jogadores. Já toda a gente disse que fizeram o que podiam, que tiveram azar, que os outros executaram na perfeição a chamada táctica à boavista, mas com melhores jogadores. Tudo bem, adiante. Não concordo num pormenor: os nossos jogadores não fizeram tudo o que podiam, porque só quiseram jogar futebol. E esta merda não é o recreio da escola. Isto é e vai ser sempre para ganhar. Eu aplaudo a ideia de jogo, aplaudo o bom plantel que temos, aplaudo a tentativa, juro, mas não posso aceitar que um jogador dos outros e o árbitro, juntos, possam perder minutos em cada lançamento, cada canto, cada falta, sem que um jogador meu vá lá de peito feito. Desculpem, mas quando eu vi o Luisão no chão (já estava de pé a insultá-lo e a insultar a família do árbitro e, portanto, o senhor que estava atrás já não via nada outra vez), só me lembrei do Jorge Costa, do Maniche e do Costinha, a fazerem quase uma fila, ordeiramente, para dar uma festinha ao palhaço do Simão que estava no chão sem que ninguém lhe tivesse tocado (por amor de deus, toda a gente sabe que o Simão nunca sofreu uma falta na vida). O quê, C., mas tu defendes a violência? Violência? Violência é fazerem-me sentir que é melhor ter um Marcano, um Herrera e um Oliver, que, por muito que sejam bons jogadores, nunca na vida perceberão a importância disto.

Contra estes, não podemos ser os anjinhos que já perderam pontos com boavistas, guimarães e estoris. Contra estes, jogar bom futebol pode ser um passo para ganhar, mas é preciso muito mais do que isso. A cada canelada do Maxi nos pés do Brahimi, para não o deixar virar, um truque básico que pelos vistos não se usa nas escolas da Argélia ou do País Basco, tinham de ir todos a correr para cima dele. Não podemos ser só nós a levantarmo-nos, a tapar o senhor que está atrás e ficou sem ver e a pedir para que, se o mundo for justo, aquele Maxi acabar a dar caneladas no canil. O quê? Têm medo? É feio? E então?

Vamos ao treinador. O totó do André Almeida (porra, como é que um gajo com aquela cara tem mais chico-espertice do que um Indi?) levou um amarelo aos 2 minutos de jogo (penso que foi um recorde em jogos do benfica) e não se explora minimamente isso? O lateral esquerdo deles, que não só cumpre serviços mínimos naquela posição como tem cara de estúpido, está amarelado desde os 2 minutos de jogo e a puta da bola nunca mais vai para ali? Mas serei eu maluca? Eu sei que não tenho grande formação em tiki-taka, mas isto não se aprende nas aulas de Educação Física ou assim? E, estando o Brahimi a levar caneladas do Maxi e o Tello sem a bola desse lado, é mesmo preciso esperar tanto tempo para os trocar? Tanto extremo, tanta qualidade, e não há uma cabeça que reaja aos truques do Jesus? Tantos anos depois, o que nos falta aprender?

Não há ninguém que pense “hum, se o Samaris, o Enzo e o Talisca têm carta branca para distribuir pau, às tantas é melhor explicar ao meu meio-campo que pelo menos esta noite têm que parecer um bando de criminosos e não uns rapazinhos do coro”? Porra, mas o treinador não viu nenhum jogo deles? É preciso eu mandar-lhe o vídeo da traulitada que o grego deu no jogo do Arouca? É preciso eu fazer uma lista de pessoas que eu julgo estarem desaparecidas porque estão na cave da casa do argentino, que eu tenho a certeza ser um local de tortura? Oh, C., lá estás a exagerar. E então?

E terminemos lá em cima. O FCPorto-benfica não é um amigável. Admito que seja bonito não haver declarações nos dias anteriores a lembrar todas as roubalheiras que os meteram no primeiro lugar, ou declarações a seguir a notar que o primeiro classificado é um belo exemplo do anti-jogo dos pequeninos. Admito, sim. Mas não é por acaso que, mesmo quando éramos piores do que eles, lhes ganhámos. Não era por acaso que Vítor Pereira vinha falar de bloqueios quando só um ou dois de nós na bancada os tinham visto. E ele sabia tudo, tudo, sobre os truques do Jesus. Não foi por acaso que os destruímos em três décadas e que eu tive 18 campeonatos em 28 anos de vida. Foi porque, lá em cima, nunca ninguém se esqueceu do que é este clube.

Porque, no dia em que eu não passar pelo menos uma semana a pensar numa derrota, no dia em que perder com o maior rival em casa seja só menos 3 pontos, no dia em que um campeonato em risco não me deixar fodida, a comer e dormir mal, nesse dia, meus caros, já não haverá Futebol Clube do Porto.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Oportunidade

Isto não era esperado. A pré-época foi desastrosa, a planificação péssima, a equipa foi quase toda destruída e o nosso rival reforçou-se muito e bem. Tudo apontava para mais um campeonato fácil do Porto, daqueles resolvidos quase antes de acabar a primeira volta. No entanto, recebem-nos a 3 pontos de distância (sim, podem passar para primeiro, mas o campeonato não acaba depois deste clássico como previsto nas minhas sempre pessimistas previsões de Agosto) e com várias dúvidas que têm vindo a ser disfarçadas. Quem é este Porto a quem nós temos de ganhar hoje e porque é que é muito importante e dificil fazê-lo?

O FC Porto é o inimigo público número um do Benfica. Fosse o Benfica um clube sério e toda a estrutura estaria de tal maneira concentrada na sua destruição que eu seria forçado a divorciar-me da C. só para não haver riscos de espionagem. O Benfica só pode voltar a ser o clube hegemónico que já foi se o FC Porto deixar de o ser. Esta frase, aparentemente elementar, ainda não foi assimilada na direcção do Benfica, que se sentou à mesa com os azuis para "salvar o futebol português" ou uma treta do género. Se a destruição do futebol português equivaler à destruição do FC Porto, parece-me que a direcção do Benfica está a cometer um erro que só teria paralelo se António Costa estivesse acampado em greve de fome pelo prisioneiro 44 à frente do estabelecimento prisional de Évora. 
O FC Porto é, pela sua teia de organização, uma estrutura demasiado bem preparada e perigosa. Vou-vos dar um exemplo: Lopetegui. Eu não acho Lopetegui um bom treinador e parece-me que se não tivesse aquela concentração de craques no Olival que o FC Porto estaria bem abaixo do Benfica. No entanto, a sua contratação revela um pensamento estratégico e com visão e isso preocupa-me. Preocupa-me que alguém na Torre das Antas (que eu imagino como um local escuro e cheio de magia negra) tenha pensado que o futebol mudou, que o conceito Guardioliano de posse é o que está na berra e que é preciso alguém que domine isso e a formação: e chegaram a Lopetegui. Não é Lopetegui que me assusta, é quem pensou nele, é quem se debruçou sobre a evolução do futebol mundial actual até chegar a um nome. Esse método, essa capacidade de descobrir Robsons e Mourinhos (os dois desaproveitados em clubes rivais), é o que me preocupa no FC Porto. (eu gostava que alguém me viesse dizer agora que o bom do Julen tem é uma grande cunha de um empresário ou assim, mas eu, como futuro presidente do Benfica, assumo sempre o melhor dos meus adversários)

Porque é que isto é particularmente preocupante? Porque nós somos justamente o contrário: temos uma direcção que historicamente escolheu treinadores sem método até que descobriu, por obra e graça de Eusébio, Jorge Jesus. E Jesus elevou o futebol do Benfica a um nível que obrigou o FC Porto a dar Brahimi, Tello e Oliver ao seu novo treinador, além de manter Jackson e Danilo, jogadores a quem desejo lesões de tal modo graves em ambos os joelhos que serão publicadas no New England Journal of Medicine. Como tal, nós hoje somos reféns de JJ, temendo mais a sua saída do que um eventual regresso do Vale e Azevedo, e eles confiam quase cegamente na direcção deles, mesmo quando tentaram aguentar Paulo Fonseca até a um limite que nem um adepto do Betis ia aguentar (esta piada só será percebida por quem, como eu, viu tudo o que aconteceu ao Betis a época passada). 

E isto leva-nos a uma conjuntura estranha e particularmente bizarra antes do clássico: o Porto, historicamente um clube certeiro e silencioso, aparece a 3 pontos de desvantagem mesmo depois de ter feito all in e o Benfica, que em condições estilo anos 90 já estaria a planificar a época 2015/2016 dado que amanhã se consumariam os 18 pontos de atraso para os azuis, aparece no Dragão com o mesmo treinador e esquema táctico há 5 anos. 

Vamos, então, enfrentar o nosso rival em condições bem melhores do que eu imaginava há uns meses atrás. Nada disto me torna optimista e confesso-vos que odeio visceralmente este jogo e que acho que não vai correr bem. Mas o que eu queria mais explicar é que independentemente do resultado do clássico, há uma organização no FC Porto muito forte e que só várias vitórias consecutivas do Benfica podem fazer cair. Ganhar hoje seria uma delas. Não era e não é esperado que assim fosse, mas é o que é: se o Benfica ganhar, sai do Dragão com 6 pontos de avanço e até a pessoa que raciocinou correctamente até chegar ao nome de Lopetegui fica em causa. Eu sonho com isso há anos. Vamos a eles, rapazes!