quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Os milhões

"O que se passa no futebol não é nada diferente do que se passa noutras áreas de actividade no nosso país. As estatísticas mostram que as grandes fortunas aumentam e o grosso da população cada vez tem maiores dificuldades. Quando todos os meios são canalizados para poucas pessoas ou entidades, é evidente que não sobra nada para os restantes"


Chegou o dia: finalmente citei um grande filósofo da actualidade, capaz de misturar as frases mais complexas de Camões com as teorias mais evidentes de Marx. Falo, claro, de Manuel Machado. O treinador do nacional foi questionado, depois de um jogo até muito bom da sua equipa, sobre os contratos que os três grandes assinaram com duas operadoras de televisão, o que, só por si, diz muito da loucura generalizada a que temos assistido nos últimos dias. A pergunta é pertinente, claro, porque é o assunto do momento e os clubes mais pequenos têm uma palavra a dizer. O problema é que nós, adeptos (?), andamos demasiado obcecados com isto.

Claro que não sou ingénua. Quando se fala destes valores astronómicos, trata-se de uma injecção nunca antes vista nos três grandes, com óbvios reflexos no futebol português da próxima década. E sim, acho muito bem que estes se discutam. E foi isso que Manuel Machado fez. Só que, curiosamente, não é esta a conversa que estamos a ter na bancada. Entre adeptos (?), o que interessa agora é saber se o meu milhão é maior do que o teu. De repente, parece que o cachecol se levantou da cadeira azul, vermelha ou verde e se sentou à mesa de negócios. Parece que decidimos trocar todos o equipamento pelo fato e gravata e já todos falamos de "sponsors" e "direitos de exploração" de um canal com a mesma paixão daquele penálti por assinalar ou fora-de-jogo mal tirado.

Mas está tudo maluco? Andamos aqui a queixar-nos tanto de como os nossos clubes se esqueceram de nos tratar como adeptos e, afinal, queremos todos ser clientes? Queremos tanto que os rapazes suem as camisolas e, afinal, estamos mortinhos por vestir uma da Meo ou da NOS? Pagamos tanto por bilhetes de maus espectáculos de futebol e, afinal, estamos dispostos a pagar mais para ficar no sofá com a operadora que assinar contrato com o nosso clube? Vendemo-nos por 400 ou 500 milhões? Vá lá, até o Banif vai custar bem mais do que isso.

Claro que se me dissessem assim "C., nos próximos 10 anos o teu clube vai ganhar mais dinheiro com a transmissão dos jogos e, ao mesmo tempo, as bancadas vão ter mais 400 ou 500 milhões de adeptos ferrenhos" a conversa era outra. Nada me parte tanto o coração de adepta como bancadas vazias ou repletas de assobiadores/pipoqueiros/clientes profissionais. Isso é que me preocupa. Se os três grandes assinassem um contrato para proibir a debandada de clientes que saem aos 80 minutos de um jogo por resolver só para não apanhar trânsito, isso sim, seria aplaudido por mim. Se os clubes pequenos assinassem um contrato para baixar os preços dos bilhetes e que proibisse os treinadores de jogarem todo o santo campeonato para o empate, isso sim, seria de louvar.

Eu bem sei que os tempos não estão fáceis para falarmos de futebol. O novo ano está aí à porta e são demasiado poucos os jogos que nos ficaram na memória até agora pela qualidade. Não há nenhuma equipa que nos deixe de boca aberta, de treinadores então é melhor nem falarmos e, nesta altura, escolher o melhor jogador do campeonato é basicamente distinguir aquele que, entre os maus desempenhos colectivos, mais conseguiu resolver as coisas sozinho. Tudo isto é feio, não entusiasma e tira pessoas das bancadas para as discussões nas redes sociais sobre contratos televisivos.

Por isso é que a culpa não é só destes adeptos (?). Há muito tempo que digo que os clubes querem isto. Faltam três dias para o jogo mais importante da época até agora, entre dois rivais que precisam desesperadamente de ser campeões este ano por razões diferentes e com protagonistas que, mal ou bem, provocam muitas paixões e muitos ódios e, mesmo assim, parece que anda tudo adormecido com os milhões. Não tenho dúvidas que, no sábado, nas bancadas de alvalade, vão estar milhares de adeptos ferrenhos a puxar pelas suas equipas (no caso do FCPorto, com a enorme vantagem de não jogar com os adeptos (?) do Dragão). Mas no campo, nos bancos e nas tribunas VIP já não confio. Se me querem como cliente, a adepta torce pelo seu clube, sempre, mas não pelo futebol que vocês querem.

Vou resistir até não poder mais aos contratos milionários, aos sponsors e aos namings. Não vou comprar camisolas de outras cores e formatos. Vou fechar a boca às pipocas e à Coca-Cola. Não vou participar nos concursos de selfies ou na "kiss cam" (até porque teria de beijar outro homem que não o meu marido e seria eventualmente chato). Vou continuar a esperar que o meu clube se lembre que em 2014 fiz 25 anos de sócia. Não me vou importar de ficar para trás neste mundo das marcas, das operadoras e dos likes nas redes sociais. Já há muita gente paga nos clubes para se preocupar com isso, e sei que tem de ser assim. Agora a mim, a nós, não nos deviam arrastar para isto.

Por isso, fica o apelo: não vão com a corrente. Libertem-se das amarras do futebol moderno e voltem às discussões estúpidas e irracionais sobre o penálti e o fora-de-jogo. Imaginem o que será o campeonato nos próximos 10 anos, disputado mais entre duas operadoras do que entre três rivais. Lembrem-se daqueles domingos na bancada, com o rádio colado ao ouvido e a ansiedade de chegar a casa para ver os resumos. Vão lá buscar o álbum de fotografias ao baú para recordarem a vossa primeira camisola ou cachecol e mostrem-no aos vossos filhos, que neste momento têm tanta vontade de ser do vosso clube como do Barcelona ou do real madrid. Saiam do sofá e vão à bola, não para assobiar ou recordar o momento no instagram, mas para exigir que não nos tirem a paixão. Porque, meus caros, sem ela, não há milhão que nos salve.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Azul e branco

O futebol desilude-me quase todos os dias. Não falo só do meu clube, mas mesmo do todo. Acho que com este blog já foi dando para perceber que eu não vou muito na onda da pipoca e bebida na bancada, das marcas multinacionais pintadas nas cadeiras e do ir ao estádio alegremente para ver a super-estrela daquela equipa espanhola ou alemã que infelizmente nos calhou.

Sou, neste aspecto, o chamado Velho do Restelo. Esta é, aliás, uma expressão que me recorda o momento em que percebi mais nitidamente que eu e este futebol não somos compatíveis. Não sei se já vos aconteceu mas, de repente, dei por mim numa bancada, totalmente alheada do que estava a acontecer à minha volta, e a pensar “Mas o que é que eu estou aqui a fazer? E quem são aqueles no campo?”. Bem, isto escrito não fica assim tão bem, mas prometo tentar, até ao fim do texto, tirar-vos da cabeça essa sensação de que enlouqueci de vez.

Belenenses-FCPorto, 17 de Maio de 2015. Certamente se lembram das condicionantes da partida: tínhamos de ganhar para evitar que o rival fosse campeão. Não adianta espremermos muito isto, porque ainda me dói, ok? Voltemos apenas por breves segundos àquele momento em que uma equipa irreconhecível nos borra de vergonha e perde não só um título, mas uma velha máxima portista: podes não ganhar sempre, mas nunca desistes de lutar.

E foi assim que dei por mim a insultar 11 marmanjos que ainda achavam que mereciam palmas no fim. Felizmente, estavam vestidos de cor-de-rosa. É-me muito difícil insultar assim pessoas equipadas à Porto. Apesar de ter desgraçado a minha vida ao casar com um benfiquista, ainda acredito que quem veste uma camisola do meu clube é melhor pessoa só por isso. Vejam o Maxi, por exemplo. Não vou voltar a lembrar-vos do que pensava dele antes, mas apenas sublinhar que, de azul e branco, acho que é o melhor lateral-direito do mundo (mister Lopetegui, aproveite e anote bem a posição dele, não vá dar-lhe para trocar tudo outra vez).

De azul e branco, tudo e todos ficam melhor. Ora, e se não me pode ser assim tão difícil aceitar que, às vezes, é possível que outra equipa, numa tentativa ridícula de se aproximar do melhor clube do mundo, escolha as mesmas cores para se representar, obrigando-nos, por isso, a ter um equipamento alternativo, mais insólito é um Velho do Restelo adaptar-se a um futebol onde são precisos dois equipamentos de cores diferentes todos os anos e que ainda por cima são bastante usados.

Chamam-lhe o futebol moderno, a necessidade de vender camisolas e de fazer crescer uma “marca”, sendo que nem estão a falar da marca que efectivamente faz um bom dinheiro com as camisolas, mas do meu clube. O meu clube, uma marca. É assim que funciona agora, eu sei, porque os grandes clubes têm de ser grandes marcas. E não podemos ficar para trás, claro, porque ao Velho do Restelo também não interessa um clube muito fiel aos seus princípios que perca sempre.

Estamos, portanto, perante um dilema. Por um lado, não podemos ter sempre o mesmo equipamento, o mesmo azul e branco, as mesmas riscas, as mesmas meias, a mesma gola. Não devíamos sequer não ter patrocinador, embora esta seja uma bênção dos deuses para o Velho do Restelo que quer uma camisola “limpa”. Não podemos ignorar o mundo à nossa volta e acreditar que, se estivessem vestidos à Porto, aqueles mesmos 11 marmanjos se iam arranhar todos por uma vitória num jogo que muito provavelmente nem serviria para nada. Mas, por outro lado, seja de cor-de-rosa ou de castanho, a verdade é que eles parecem estar cada vez mais distantes de nós.

E escrevo isto porque tenho tido alguma dificuldade em ver o FCPorto a jogar de azul e branco. Não sei se é da época natalícia, mas tenho reparado que a minha equipa joga de seguida com outras cores, nem que seja em casa ou com um adversário verde e amerelo. Parecemos uma espécie de Black Friday, a acenar vividamente aos consumidores: “Vejam este castanhinho, tão lindo e que cai tão bem, é para o menino e para a menina, e por apenas muitos e muitos euros”.

Peço desculpa aos vanguardistas deste futebol, mas isto também é culpa nossa. A única camisola que tenho do FCPorto que não é azul e branca é roxa e foi-me oferecida por ir à meia-final na Corunha. Bem podem fazer toda uma campanha à volta do camuflado que não me convencem que sou mais guerreira por isso. Oh, e a tentativa de me fazer comprar uma coisa cor-de-rosa (uma cor que fica ao lado do vermelho na paleta, por amor de Pinto da Costa!) só porque sou mulher, que falhanço.

Mas, esperem, estas camisolas vendem muito. Se as vejo na bancada é porque são um sucesso. Pois é, e isto funciona porque as pessoas compram. Não adianta andarmos todos a fazer de conta que somos Velhos do Restelo se depois aderimos ao kit “Venha ser um Adepto-Consumidor” num instante. E não falo só de moda, isto é uma questão de atitude. De que serve exigirmos aos nossos jogadores que lutem como um João Pinto, se passamos a semana a falar de direitos televisivos? Há adeptos fanáticos a celebrar direitos televisivos! E há outros adeptos fanáticos a criticá-los! E há outros adeptos fanáticos a quererem igual! Salvem-me! Tirem-me daqui! Quero voltar às semanas a criticar o Tonel por aquele penálti! Metam-me numa máquina do tempo e façam-me voltar ao Domingo Desportivo e aos resumos sem necessidade de HD para constatar que “O meu clube é mais roubado pelos árbitros do que o teu”!

Desculpem a efusividade, mas isto incomoda-me mesmo. E incomoda o meu avô, que é o maior portista do mundo, portanto temos mesmo de parar com isto. Acho que até já vos contei aqui o célebre episódio, passado há muitos e muitos anos, em que o meu avô - que, curiosamente, também é o maior anti-benfiquista do mundo - torceu uns minutos pelo benfica em Vidal Pinheiro porque nunca pensou que os vermelhos pudessem ser os bons. Aquele momento em que João Vieira Pinto cai na área, numa das suas milhares de tentativas de sacar um penálti, e o meu avô grita “PENÁLTI!”, com absoluta convicção de que o Salgueiros estava obviamente a ser roubado, é não só uma das recordações familiares mais contadas em cada Natal, como também é um bom exemplo da problemática que hoje nos ocupa.

O meu avô foi enganado, talvez um bocadinho pelo equipamento alternativo e muito pelos óculos que deviam estar com a graduação errada. Mas isto aconteceu uma vez, há muitos e muitos anos. Só que agora somos todos enganados. Tanto que, no passado fim-de-semana, num jogo de andebol em que o FCPorto se apresentou com o equipamento alternativo, o meu avô esteve sempre a torcer pelos azuis contra “os filhos da puta de castanho”. E desculpem se é por gostar tanto do meu avô – e de também eu ter problemas de visão - que o compreenda perfeitamente. Não faz sentido um mundo em que, constantemente, os azuis são os maus e “os filhos da puta de castanho” são, afinal, o nosso clube.

Não sei se ainda vou a tempo, mas é por isso que venho pedir encarecidamente que, até ao Natal, ainda me seja possível ver umas quantas vezes os meus rapazes vestidos à Porto. Já não peço que, só por isso, eles se vão tornar 11 Andrés Andrés, com camisola e sangue portistas, mas pelo menos assim o meu avô poderá continuar a torcer por eles. Porque para ele, para mim, para qualquer Velho do Restelo, o nosso coração só tem uma cor: azul e branco.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Nada para dizer

Pedimos desculpa por não escrevermos quase nada neste blog há uns meses. É verdade que sou capaz de uma vez ter mandado a piada ao M. de que me divorciava dele quando o benfica ganhasse dois campeonatos seguidos, porque na altura me pareceu o mesmo que prometer-lhe o divórcio caso fôssemos viver para Júpiter, mas não se preocupem que o amor foi mais forte e ainda cá estamos.

O único problema deste casal é que estamos com algum receio de não ter nada para dizer. Não sei se vocês têm visto a época dos nossos clubes, mas hão de entender que não andamos propriamente com muita vontade de nos picarmos um ao outro. Para ser sincera, os nossos diálogos futebolísticos por estes meses resumem-se basicamente a isto:


“M.: Não jogamos nada.
C.: Pois, nós também.”


Bem, talvez esteja a exagerar. Não estamos assim tão desanimados que não nos permitamos umas análises um bocadinho mais profundas. Preparem-se, que vêm aí assuntos para os quais foram necessárias muitas horas de concentração e que parecem roubados do trabalho de vários olheiros dos nossos adversários:


“M.: Não sabemos construir uma saída de bola.
C.: Pois, e nós não sabemos marcar um canto.”


No fundo, nesta casa há dois monólogos muito semelhantes sobre duas equipas muito diferentes. E escrever aqui apenas torna mais real a nossa angústia:


“M.: O que é que eles farão nos treinos além de chutar para a frente?
C.: Pois, nós é mais passar para trás.”



A nossa rivalidade está adormecida pela nossa impotência enquanto treinadores de bancada. Às vezes, vocês imaginem lá tal é o desespero, até damos por nós a elogiar o outro lado:


“M.: Bem, pelo menos o Lopetegui tem uma ideia de jogo.
C.: Pois, mas pelo menos o Rui Vitória não anda há dois anos a cometer os mesmos erros.”



E isto é a pior coisa que um adepto pode ouvir. Se o outro lado gosta, está tudo ainda pior do que imaginávamos. É por isso que, agora, até damos por nós a ver e comentar os jogos juntos:


“M.: Repara bem que o Talisca num minuto é ala-esquerdo, no outro é número 8 e depois passa a segundo avançado. Apenas talvez não tenha sido ainda experimentado como empregada doméstica.
C.: Pois, e tu vê bem esta saída do lateral-direito, indo o lateral-esquerdo para lateral-direito, o central para lateral-esquerdo e o médio defensivo para central. Parece um jogo de subbuteo em que de repente alguém mexeu no campo e os jogadores caíram todos de um lado para o outro.”



Não é fácil de acompanhar, eu sei. Talvez não tenhamos estudos para isto. Nem nós, nem os poucos que se vão safando:


“M.: Coitado do Gaitán, está mais sozinho no futebol com qualidade do que o deputado do PAN no Parlamento.
C.: Pois, já os meus são tão choninhas que o André André e o Maxi me parecem dois belos jihadistas do Estado Islâmico.”


Portanto, já perceberam por que é que mais vale estarmos calados. Entretanto, se conhecerem um terapeuta de casais-adeptos, estamos preparados:


M.: Porque, se fosse fácil, não era para nós.
C.: Pois, e vamos com muchas ganas e mucha ilusion!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Final dos anos 90, são vocês?

Confesso-vos que sofro mais por antecipação do que com os acontecimentos em si. Estou mentalmente preparado para os maiores desastres do Benfica (retirando o golo do Kelvin, porque esse já nem a mente mais sã e racional podia adivinhar). Sou um benfiquista que fez o ciclo durante o penta do Porto e o liceu durante os títulos dos lagartos e do Boavista, portanto esta coisa de estar afastado do título antes do dia das Bruxas - qual Natal qual quê (piada do D.) - é só um regresso à infância. Muito obrigado, Benfica! Agora metam o Dartacão a dar na televisão e tirem-me as 40 horas (ahah) de trabalho semanais.


Voltando ao sofrimento: a minha antecipação da dor é muito superior ao impacto. Vejo as coisas e o futebol com uma perspectiva lógica e procuro razões. Sou um adepto com alma de treinador. Se estamos a jogar mal, se os resultados não aparecem persistentemente, é porque há causas. E são essas causas (que eu adivinho que venham a causar dissabores) que me doem. É óbvio que levar 3 do Sporting em casa tende a acentuar ligeiramente esse sentimento de merda e é nestas alturas que se deve vir escrever. É o porreiro de ter um blog e não ser da direcção do Benfica: eu posso decidir a quente (até porque se a minha opinião contasse, Rui Vitória não seria treinador do Benfica, mas Lima talvez não tivesse sido contratado e tínhamos ido buscar o Éder). 

Por mistérios insondáveis que eu não consigo discernir, o Benfica resolveu mudar. Eu, na minha humilde opinião (aqueles anos do penta e os seguintes fizeram-me assim, pobre de espírito e contente com pouco), achei que o rumo estava bem traçado: tínhamos um bom treinador e comprávamos bons jogadores (parece fácil, não é?). O bicampeonato parecia mostrar que estava tudo bem (talvez esta frase soe fácil agora. Prognósticos no fim do jogo são mais fáceis, eu sei, mas tenho ideia de que a direcção do Benfica, quando resolveu planear a época no Verão de 2015, estava vagamente ao corrente dos feitos de Maio de 2014 e de 2015. Corrijam-me se estiver enganado). Vai daí, a direcção do Benfica, não contente com o rumo das coisas - lá terão as suas razões - decide mudar. É como se um tipo tivesse ganho a lotaria, visse que tinha a chave vencedora na mão e dissesse que queria outro talão.
E o decidir mudar não passa apenas por deixar JJ ir embora (vou dar outra vez de borla que ninguém imaginou que ele fosse treinar aqueles montes de cocó), mas - e isto já se tinha verificado o ano passado - também em deixar de investir na equipa principal. O extraordinário feito de 2014/2015 (campeões contra um Porto muito mais forte do que nós) terá toldado a análise dos nossos dirigentes, que passaram a acreditar que as camisolas do Benfica seriam campeãs desde que vestidas por pessoas com capacidades motoras mínimas e mais de 18 anos no cartão de cidadão, de preferência com berço no Seixal e até com um cadáver a treinador. Talvez em Outubro - eu sei, eu sei, prognósticos só no fim do jogo - já se possa suspeitar que não.

Vou atalhar: isto não vai lá com o Renato Sanches (sim, eu ouvi, à saída do Estádio da Luz, dois adeptos do Benfica a imaginarem o Renato Sanches a resolver um derby em que levámos 3 secos na Luz). Porque é que é estúpido apostar nos jovens só porque sim? Em primeiríssimo lugar porque os nossos jovens não são os do Barcelona - as nossas escolas não são suficientemente boas para fornecer 11 jogadores com qualidade suficiente para o Benfica (talvez um por ano. Mais do que isso é romper as probabilidades). E basta pensar em probabilidades: onde é que é mais provável encontrar um médio centro ao nível de Enzo Perez? 
Hipótese 1: em toda a América do Sul, América Central, América do Norte, África, Europa, Oceânia, no Campeonato Nacional de Séniores.
Hipótese 2: no Seixal, num dos 3 médios centros com mais de 17 anos. 


Talvez eu esteja errado, mas eu tenderia a ir pela hipótese 1 (sou de ciências). Podem dizer que a hipótese 2 é mais barata. Verdade, mas é como comparar uma rifa dos escuteiros de Alcabideche contra 3/4 das combinações do Euromilhões. Mais: os jovens do Benfica estavam a ter o percurso de sonho para mim: rendiam 15 milhões aos cofres e nem jogavam (e, logo, não faziam muita merda, como o Ivan Cavaleiro, quando fez estupidamente a falta que deu o 3-3 ao Sporting na Luz na Taça. Luisão fez o 4-3 por baixo das pernas do Patrício). Sim, Bernardo é a excepção que confirma a regra. 
Há um clube, que não mora longe de nós, que durante 30 anos teve como bandeira a formação. Ganhou dois campeonatos, um com Mário Jardel e JVP, o outro com André Cruz, Schmeichel e Acosta. A obsessão com os jovens é uma filosofia estúpida e que importa combater. Seria como um director clínico de um hospital meter os alunos de faculdade a fazerem cirurgias sozinhos. Era pedagógico, mas vá, vagamente perigoso. Sei lá, era como meter o Roderick num jogo decisivo. Imaginem!

Ou então é culpa do BES. Mas o presidente disse que não, portanto não deve ser.

Luís Filipe Vieira, obcecado com a sua obra do Seixal, e talvez ainda lixado com o dinheiro que perdemos com o Bernardo, resolveu ver nos putos a solução para todos os males (eu, quando jogava Football Manager, também insistia nos gajos que eu tinha comprado mesmo quando eles se revelavam ser uma merda). Não fosse este rumo já mau, ficou tudo complementado com o nosso abandono do mercado futebolístico. Passo a explicar: eu habituei-me a que o Benfica visse fugir os seus craques. Mas sempre com esperança que viessem outros. Partiu Cardozo, veio Jonas. Foi-se Saviola, veio Lima. Foi Matic e tentámos Fejsa e depois Samaris. Umas vezes corria bem, outras pior. A surpresa é que abandonámos o mercado e fomos buscar as rifas aos escuteiros: lesiona-se Salvio, fica o Guedes. Sai Maxi, fica Semedo. Enzo partiu em Dezembro e não fomos buscar ninguém. Desde a partida de Enzo, em jogos fora para o campeonato, o Benfica ganhou em Penafiel, Madeira, Moreira de Cónegos, Arouca e Belém (as três últimas muito sofridas). Perdeu em Paços, com o Rio Ave, em Aveiro com o Arouca, no Dragão e empatou em Alvalade e em Guimarães. Fizemos menos 3 pontos que o FCP desde a saída de Enzo e acabámos a gritar um golo do Belenenses. 
Mais, depois da saída de JJ, achei que o mínimo era que todos os benfiquistas tivessem que hipotecar todas as suas posses (inserir aqui piadas com um euro) para irmos comprar o Messi e construirmos uma máquina do tempo que nos permitisse jogar em Alvalade com o Maradona de 1986. Temo que, mesmo com esses, Rui Vitória não conseguisse grande coisa, mas pelo menos tínhamos mais hipóteses. Mas não: fomos buscar um marroquino que a única coisa que pode ganhar na vida é o Biggest Loser e optámos por esperar pela evolução do Talisca (e de dois cactos. Estão empatados em termos de progressão, mas as fotografias de Instagram dos cactos são menos assustadoras). É como declarar guerra ao nosso pior inimigo e aparecer lá sem roupa e com duas peças de dominó como armas.


Não dá para retirar aquele passe de merda do André Almeida, mas dá para rever a próxima planificação. Isto não foi uma questão de sorte. Sorte tivemos nós em Madrid, onde um Jackson Martinez normal nos tinha marcado um poker. Madrid sim, foi um acidente. Ontem foi um atropelo.
Agora vou voltar ao futebol da minha infância: ver jogos sem a esperança mais importante, a de ser campeão, distrair-me a ler livros e a estudar e começar a sofrer por antecipação pelo próximo ano, à espera que nos saia a lotaria. Ou que, pelo menos, se preencha o boletim.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O nosso caminho


A hora e meia de treino talvez seja o menos importante - Rui Vitória, 15 de Agosto de 2015, em entrevista ao Expresso 
http://expresso.sapo.pt/desporto/2015-08-15-As-vezes-um-jogador-precisa-de-um-abraco-outras-de-uma-marretada-nas-costas

Eu fiz tudo para não vir escrever a quente depois da derrota em Aveiro com o Arouca. Achei que deixar passar uns dias, analisar com calma e reflectir me iam fazer ver as coisas de outra maneira. Às vezes é preciso distância e sabe Eusébio nosso Senhor o quão irascível e maldoso eu me torno após uma derrota do Benfica. Afastar-me do teclado parecia-me uma excelente opção.

Eu juro que tento ser um tipo mais saudável: corro, leio, tento ser bom médico e bom marido. Tento relativizar as derrotas e lembrar-me que eu não sou um homem da bola, que aquilo são onze contra onze idiotas e até tive a decência de evitar ouvir as declarações do nosso treinador, essa personificação da banalidade, esse monumento aos medíocres, que doravante poderão sempre sonhar com alguma coisa que não merecem.



O problema é que o mundo de hoje mudou e eu, como tantos outros humanos, tenho facebook e twitter, o que é uma maneira simpática de trocar ideias, ler notícias, descobrir coisas novas. Suponho que é isso que as pessoas fazem com as redes sociais. Eu uso-as para discutir ainda mais o Benfica, como se não bastassem todas as horas que passo a pensar no meu clube. E foi nestas que descobri a resposta a uma questão que, durante o Arouca-Benfica, no meio de todo o desespero e das trevas nas quais entra o meu cérebro enquanto não estamos a ganhar 4-0, e intrigado com a quantidade de vezes que o Arouca ia entrar na nossa área com a bola dominada, coloquei a mim mesmo: será o nosso treinador diabético? Então porque raio está o homem sempre a beber água? Como é óbvio, não me preocupei muito mais com isso - era só um palpite, e parecia-me bem mais fácil controlar a diabetes do que os contra-ataques do Arouca, portanto esqueci a pergunta.
Eis senão quando, na manhã seguinte, ao abrir o facebook, li um desabafo do ilustre boloposte, que adiantava que o nosso mister bebia água assim porque - segundo uma daquelas facilmente esquecíveis entrevistas de pré-época, uma vez, como treinador do Fátima (este toque de misticismo arrepia-me pelas piores razões) bebeu água num lance de perigo contrário e a bola não entrou. Vai daí, o bom do Rui decidiu começar sempre a beber água quando há um lance contrário.

Há coisas que têm de ser modificadas, estamos a modifica-las, mas esse é um caminho que vamos percorrer. Este caminho vai ser feito, estamos a começar um caminho longo. - Rui Vitória, 10 de Agosto de 2015, após perder a Supertaça 
http://www.maisfutebol.iol.pt/benfica/sporting/rui-vitoria-se-calhar-se-isto-fosse-facil-nao-era-para-mim

Uma pessoa tenta aguentar-se, não vir escrever, não parecer um daqueles tolinhos que parece que querem que a coisa corra mal (eu juro-vos, pela minha saúde, que se há coisa que eu quero é ver Rui Vitória com oito campeonatos consecutivos conquistados ao serviço do meu clube e a rir-se de mim no meio do estádio da Luz. Até pode incitar a cânticos "O M. é burro allez! O M. é burro allez! O M. é um burro allez allez allez..."). Mas este toque de curandeiro, de gajo que acredita mais em beber água do que na hora e meio de treino, matou-me. Estou há quatro dias com isto atravessado, a pensar no que havemos de fazer para, como diz o outro, seguirmos o nosso caminho. Mas aguentei tanto a raiva como o Benfica aguenta a posse de bola com perigo. É que pelo número de lances perigosos que nós sofremos em todos os jogos, a minha sugestão é colocar Rui Vitória a soro e talvez algaliá-lo, dada a quantidade de água necessária para manter a nossa baliza a zeros.


Temos de continuar o nosso caminho - Rui Vitória, 17 de Agosto de 2015, após a vitória de 4-0 sobre o Estoril 
http://www.publico.pt/desporto/noticia/rui-vitoria-depois-do-primeiro-golo-soltaramse-as-amarras-1705201

É óbvio que o plantel é fraco e que assim não há milagres. Se alguém da direcção do Benfica estiver a ler, fica aqui o recado: faltam três dias para fechar o mercado. Falta um lateral esquerdo, um lateral direito (notícia de última hora: Nélson Semedo não é um bom defesa direito para o Benfica. Regressamos agora para estúdio), um médio centro (falta-nos tanto um médio centro como faltou um ponta de lança a sério à selecção portuguesa nos anos 90) e um extremo. E o Gaitan não sair. O mercado fecha a 31 de Agosto, caros senhores da direcção. É melhor meterem um lembrete no telemóvel. Mas eu até vivia à espera dos bons negócios do fecho de mercado se achasse que depois iríamos fazer algo com eles: eu esperei por Jonas com paciência porque sabia que ele depois ia encaixar. O meu problema é que mesmo com dois laterais bons, Rui poderá não saber muito bem o que fazer com eles - talvez os mande comprar água - e isso não vai chegar. Dei por mim a ver o sorteio da Champions com um medo permanente: todas as equipas me pareciam colossos inultrapassáveis e a razão não é a nossa costumeira fase de grupos merdosa, é que se nos tivesse saído um grupo com o Estoril, o Arouca e Pinhalnovense, eu não tenho a certeza que passássemos em primeiro.

A bola parece que batia em tudo o que é adversário e não dava golo. Queremos dizer que o nosso caminho vai continuar e vamos preparar já o próximo jogo - Rui Vitória, 23 de Agosto de 2015, após a derrota com o Arouca em Aveiro por 1-0 
http://www.record.xl.pt/futebol/nacional/1a-liga/benfica/detalhe/rui-vitoria-fizemos-o-suficiente-para-ganhar-970620.html


Voltando à garrafa de água: eu tolero a superstição ocasional. No que ao Benfica diz respeito, eu sou a pessoa com mais hábitos estranhos, com mais camisolas, amigos e bifanas que dão sorte que este mundo já viu. Mas eu não sou treinador do Benfica, eu sou médico. E aí não há superstições: ou se sabe ou não se sabe. Tem alguma graça - do ponto de vista estritamente humorístico - imaginar um médico que bebesse água antes de uma reanimação  ("uma vez estava a beber água, o doente parou e consegui salvá-lo!"). O que nós temos hoje no banco é um treinador que se vira de costas nos penalties, que bebe água nos contra-ataques, mas que não consegue pôr a equipa a jogar à bola. Eu admito que este pormenor só me irrita porque não jogamos futebol. Se nós jogássemos como o Barça de Guardiola, eu permitia que o bom do Rui cagasse junto à linha lateral e desse murros aos apanha-bolas "porque dá sorte nos lançamentos laterais do lado esquerdo, a meio do meio-campo". Mas Rui, nós não jogamos como o Barça do Guardiola. Longe disso. Tinhas que beber o oceano Atlântico em garrafas de água para nos aproximares disso, Rui.

Aliás, uma das coisas que mais me tem intrigado nas várias observações aos jogos do Benfica, é que muitos analistas acusam Rui de não estar a impor as suas ideias. Eu acho justamente o contrário: as ideias dele estão lá todas e sempre foram estas: zero. E não me venham agora com as desculpas dos jogadores do Benfica fora de forma. Jonas parece mau porque está mais isolado do jogo que um autista. Deve passar horas em introspecção, esquecendo-se inclusive que está a jogar futebol. Pizzi falha todos os passes porque ninguém está no sítio certo. Todos os nossos defesas parecem do Sporting de Vercauteren porque agora, em vez de uma linha defensiva, fazemos três ou quatro. Sabem quem é que tem sobressaído individualmente no "modelo de jogo" (chamemos-lhe assim, eufemisticamente) de Rui Vitória? Júlio César. O nosso caminho tende a pô-lo em evidência.


São três adversários diferentes, mas o Benfica tem uma palavra a dizer. Temos consciência do nosso valor, queremos fazer o nosso caminho. - Rui Vitória, 28 de Agosto de 2015, comentando o sorteio da Champions
http://www.sabado.pt/ultima_hora/detalhe/rui_vitoria_adversarios_na_champions_benfica_tera_uma_palavra_a_dizer.html


Nestes quatro dias afastado do teclado, martelaram-me na cabeça as horríveis justificações de Rui Vitória para a derrota em Aveiro. Qualquer coisa como cruzámos muito e chutámos muito: já não se via uma interpretação tão primitiva sobre um jogo de futebol desde que o Marcelo Rebelo de Sousa deixou de escrever n`"A Bola". E durante estes quatro dias, debati-me com as duas justificações possíveis (ambas assustadoras) para estas palavras:

1. Rui Vitória acha mesmo que cruzar muito e chutar muito é bom futebol e que estivemos de facto muito perto de fazer muitos golos. Qualquer pessoa racional consegue rever o Arouca - Benfica e percebe que, exceptuando a defesa ao cabeceamento de Mitroglou, Bracalli teve uma exibição fácil. Bastou não se desviar de nenhum dos infrutíferos remates de longe e com 34 pares de pernas pelo meio para ficar com uma estatística avassaladora. Eu próprio teria feito a mesma exibição. Júlio César, por outro lado, levou com avançados sozinhos na sua cara, a poderem pensar na lista de compras antes de rematar. Se Rui Vitória conta que este tipo de remates ou de cruzamentos a 40 metros vão funcionar, estamos perante um homem que acha que a probabilidade de ganhar o Euromilhões é de cerca de 50% e que mais dia menos dia lhe vai sair. Eu quero lembrar que para se ser campeão em Portugal é preciso uma percentagem de vitórias que ronde os 80% (este ano talvez menos). O nosso método - ou a ausência dele - garante-nos até agora uma percentagem de 33%, com uma perda de um troféu pelo meio. A jogar assim e a achar que é assim que se deve jogar, o fim de semana nem foi mau, já que não perdemos pontos para o Braga na luta pelo terceiro.

2. Rui Vitória sabe que não jogamos um caracol, mas está a tentar mostrar-nos as coisas boas, passando-nos a mão pelo pêlo. É como se ele próprio soubesse que isto é mau, mas que não vai mudar porque isso envolvia um processo de treino mais complicado do que beber água. Vai daí, Rui Vitória tenta animar-nos. É como se um soldado japonês, depois de Hiroshima, viesse dizer: "ainda assim, fizemos uma agradável exibição em Pearl Harbour". É o encolher de ombros a pedir que ninguém se zangue com ele, uma coisa ainda mais choninhas do que a cara dele. Pior só aquela tentativa de justificação pelos árbitros "Houve dois lances que...", rapidamente interrompida por um qualquer sentido de moralidade estranho "mas não quero entrar por aí", porque Rui quer continuar a ser bom rapaz e se atacar os árbitros depois pode vir a perder o seu local de comentador no Grande Área lá para Novembro. 

Apesar de acreditar mais na primeira hipótese - Rui é mesmo incapaz de identificar o bom e o mau futebol (quanto mais fazer-nos jogar o bom) - há uma coisa que salta à vista na segunda justificação que é o que mais me irrita no nosso treinador, mas que poderá vir a ser a nossa salvação. Rui Vitória está habituado a ouvir elogios. Não que alguém alguma vez tenha dito que ela era um génio, mas aquele elogio quase salazarista de "é um rapaz esforçado", "compensa com trabalho aquilo que lhe falta em talento", etc. Ou seja, Rui Vitória parece-me um homem habituado a ter boas críticas, a ser levado em conta. E é esse ar de pânico que detectamos quando Luisão se aproxima dele, a meio da primeira parte: "eu vou perder os elogios", "estas pessoas não vão gostar de mim", "quero voltar para o Vilafranquense, quando o Armando Sá me achava um génio"



(imagem escandalosamente roubada ao Bnrb.com: https://www.facebook.com/BnrB.fb?fref=ts)

E é esse ego do Rui que nos pode valer. Vieira não vai assumir o erro e, quando a evidência for tão grande e já não houver água engarrafada no Estádio da Luz, Vieira vai lembrar-se de Fernando Santos, da sua amargura por ter despedido o engenheiro demasiado cedo e vai proteger o treinador que acha que a hora e meia de treino não é o mais importante. Mas aí, faltarão a Rui aquelas palavras que se habituou a ler, aqueles elogios condescendentes, aqueles sorrisos no café e acho que o homem vai desistir. 

Quero deixar bem claro que não é uma derrota que nos vai desviar do nosso caminho. Temos o nosso caminho bem feito. - Rui Vitória, 28 de Agosto de 2015, na antevisão do Benfica-Moreirense



Até lá, não nos resta mais do que apoiar, esperar que alguém lhe meta qualquer coisa na água e o homem fique mais esperto. Eu vou desabafar por aqui e vou parecer maluquinho no trabalho. A minha preocupação, confesso, já vai em 2016/2017 e em quem nos vai orientar para o ano. Tinha muito a escrever sobre o que quero e quem quero para próximo treinador do Benfica, mas nesta altura só queria alguém que considerasse os treinos mais importantes que a hidratação. Até lá, seguiremos o nosso caminho. 

PS: uma hora e meia de treino não é muito pouco?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A arte de ser um bom rapaz

Sísifo é uma personagem que, segundo a mitologia grega, estava condenado a empurrar uma pedra até ao cimo de uma montanha. Quando o conseguia, a pedra rolava de novo até cá abaixo, tornando todo o seu esforço infrutífero.

Eu tenho 31 anos. Se me perguntassem quais eram os meus objectivos de vida aos 10 anos ou aos 15 ou aos 18 ou aos 20 ou aos 25 ou aos 31 a minha resposta ia mudar com várias nuances. Aos 10 anos queria ser jogador do Benfica, aos 18 queria entrar em Medicina, aos 25 queria viajar pelo mundo, etc. Mas, em todas essas idades, em todos os dias desta vida, um dos meus 5 principais objectivos de vida (para não dizer o primeiro, que ficava mal) era ver o Benfica bem. Durante toda a minha existência da qual me lembro, o meu maior desejo - o mais profundo, o mais sentido, aquele à qual dediquei mais tempo a pensar - era em ver o Benfica bem. Como é óbvio, já dediquei mais tempo ao Benfica do que a qualquer outro assunto na minha vida: para cada segundo em que eu penso na minha relação com a C., dedico cerca de 22 horas a analisar o meu clube (acho que é esta a proporção).

Eu, como Sísifo, dediquei horas a empurrar uma pedra imaginária até ao cimo de uma montanha. E depois a pedra caía. Sempre. Muito provavelmente porque eu não tenho nada a ver com a pedra: nenhuma das minhas análises, conclusões e planos podia superar o duro facto de que a pedra ficar lá em cima ou cair em cima de mim como um golo aos 92 não dependia absolutamente nada de mim. E a pedra foi caindo, mas eu, como qualquer estúpido de bola, tentei sempre. Até que a pedra ficou.

O Benfica era bicampeão (apesar do sofrível futebol do segundo campeonato), tinha um treinador que é um filho da puta, mas já cá estava há 6 anos, e - depois de 20 anos inenarráveis e mais uns 7 ou 8 incrivelmente penosos (porra da pedra que caía sempre com estrondo) - o clube parecia mais ou menos estável. Não quer isto dizer que o Benfica fosse ficar bem ou que eu fosse tornar-me num optimista (ahah!), mas eu achei que podia dobrar a atenção que dou à C. e subir a proporção para dois segundos para ela e 21horas, 59 minutos e 59 segundos para o Benfica. Obviamente, a pedra rolou cá para baixo, batendo-me consecutivamente com todo o seu peso na minha cabeça.



Odeio perder com o Sporting. Em primeiro lugar, porque não estou habituado. Foi a segunda vez desde 2009 e ambas com roubo (ontem há um penalty por assinalar a nosso favor. No golo "mal anulado" a bola passou por fora da linha, da Via do Infante e da Ria Formosa antes de regressar ao campo de jogo). Em segundo lugar porque se o ano passado já foi estranho não lhes ser superior (e isto é um simpático eufemismo para o jogo de Alvalade), ontem eles foram tão melhores do que nós que o próprio Rui Gomes da Silva é capaz de ter algumas dificuldades em não o ver. E muito disto porquê? Por Rui Vitória.

Eu não gosto do Rui Vitória. Nunca gostei e já o tinha escrito em 2013. É o professorzinho de Educação Física, é o gajo porreiro, que faz óptimas conferências de imprensa e é o único homem em Portugal que consegue falar mais tempo e dizer menos do que o António Costa. 
Rui Vitória é aquele gajo que, depois de apontarmos os 150 mil erros que o Benfica cometeu ontem, vai ser defendido por alguém com o sólido argumento "mas ele é boa pessoa". E isso enerva-me porque o "mas ele é boa pessoa" quer dizer "apesar da sua gritante incompetência, falta de carisma, ideias, inteligência, sentido de humor ou beleza ou qualquer outra qualidade, ele nem é um tipo mau".

Rui Vitória tem ar de ser um divertido professor de Educação Física que dá carolos aos alunos que chegam atrasados, que lhes diz "meu g`anda malandro!" com ar cúmplice antes de distribuir as equipas de mata e meter cunha à professora de Matemática para não chumbar o gajo que tem 18 anos e está no sexto ano, porque ele dá um jeitaço nas inter-turmas. Infelizmente, treinar o Benfica é um bocado mais difícil do que o inter-escolas de Alverca.

Rui Vitória tem todo o ar de gajo que debita 350 banalidades por segundo. Se perguntarem a Paulo Fonseca o que é que ele pensa da Premier League, provavelmente ele responder-vos-à que o Bayern de Munique é favorito, mas depois até corrigirá e vai dizer 3 ou 4 coisas que qualquer um de nós - leigos da bola - nunca pensou. A Rui, imagino-o no seu restaurante do costume, onde come sempre  o mesmo, a dizer ao empregado: "A Premier League é muito forte. Tem grandes equipas como o  Chelsea, Man Utd e Man City, e qualquer um pode ganhar". A frase, fictícia, não está ao nível desta pérola filosófica, que, ao contrário da minha frase imaginária, é bem real: "No meu caso, sou por natureza uma pessoa que, por norma, não se desequilibra com nada. Mas isso não significa que não seja humano. " - pag.89 d` "A arte da guerra - para treinadores" do próprio Rui Vitória. Ou desta, que é todo um tratado filosófico e que vos vai surpreender pela pujança e originalidade: "Quando penso na relação que tenho com os membros da equipa técnica sei que, de facto, tem de funcionar muito bem". Esperemos pelas traduções em grego, para quando ele estiver a treinar o Panionios daqui a dois anos.


(Acho que agora podias dedicar-te ao treino, Rui)

E agora vocês dizem: porra, M., não é muita porrada para um homem só e apenas depois de um jogo? Não, óbvio que não. Era um derby importante e que tinha de ser ganho nem que fosse preciso mandar atropelar o autocarro do Sporting na A2. E a Margarida Rebelo Pinto dos treinadores achou que entrámos "um pouco receosos" e que foi um jogo equilibrado, isto apesar de termos mudado de táctica umas 5 vezes, de não haver processo ofensivo nem defensivo de equipa grande nem sequer de média. O que eu vi foram os chutões para a frente do Guimarães para o Baldé, depois para o Mazzou e - num gesto de argúcia táctica infinita - para a corrida do Hernâni, serem agora chutões para o Jonas. Não sei como é que se chamam os filhos do Jonas, mas sei que o futebol que se adequa ao Jonas não é o do pontapé para a frente ("Lá em casa também sabemos de táctica" - vai ser o título do meu livro). Talvez o problema de Jonas seja a falta de leitura: "Todos os jogadores têm de ser muito combativos nos duelos individuais." O problema de Jonas é ser somente inteligente e ter bons pés, quando Rui procura "uma visão total do jogador" - daí que Jonas agora tenha de ser mais estimulado, buscando longas bolas nas alturas. Rui Vitória, em tom mais confessional, diz que "até me inclino para os aspectos psicológicos e contextuais excessivamente" e aqui a minha dúvida é como é que ele insistiu no Talisca, dado o contexto psicológico daquele penteado.




(um aparelho que pode ser útil a Jonas durante a época)

Eu sei, eu sei, é cedo. O campeonato começa para a semana e toda a gente tem zero pontos. Mas o que eu vi ontem foi um regresso aos tempos das conferências de imprensa de Quique Flores, de eyeliner, entrevistas porreiras e tantos problemas na equipa que dava para escrever um livro. Rui vai brindar-nos com aquelas frases super irritantes como "temos o nosso caminho" ou "perdemos este jogo com o Arouca, mas ganhámos uma equipa". Talvez a nossa grande vitória da época vá ser uma convocatória à selecção do Nélson Semedo lá para Março, num amigável. 

Talvez a culpa nem seja dele (ele até é bom rapaz!), seja de quem o pôs lá. Talvez até vá correr tudo bem (depois de ontem até aquele ministro iraquiano fica com vontade de desistir, mas pronto), mas eu confesso que odeio este tipo de personagem incompetente, sem qualquer prova dada (não, aquela Taça não conta, ao Benfica pós-Kelvin e pós-Chelsea até o Sporting do Vercauteren teria ganho) seja dado não o benefício da dúvida, mas a responsabilidade social mais importante do planeta que é ser treinador do Benfica. 

Este texto, como já viram, foi escrito a quente, depois de meses lixado por termos ido buscar um treinador a quem sempre tive um ódio particular e depois de perdermos um derby. Talvez não tenha sido a pessoa mais justa do mundo. Talvez esteja só cansado de andar a carregar uma pedra que acaba sempre por cair lá para baixo. Em todo o caso, fica já aqui prometido que, se formos campeões com este gajo, compro 20 exemplares d`"A arte da guerra - para treinadores". 

Porque, como diria Rui Vitória, na sua espectacular obra e naquele seu estilo de quem vai dar um excelente comentador: "para ganhar um jogo é preciso marcar golos".




quarta-feira, 8 de julho de 2015

Moutinho, Maxi e a adepta vidente

Se há coisa que eu não faço questão de ter, no que ao FCPorto diz respeito, é razão. Por este clube, sou capaz de pôr de lado todo o orgulho e de até me sentir bem com toda a minha profunda ignorância e incapacidade de ver um bocadinho mais além do que a notícia que sai hoje ou amanhã num jornal. Quando percebo que não tive razão noutro aspecto qualquer da vida – no trabalho ou, Pinto da Costa me livre, numa discussão com o M., por exemplo, -, fico frustrada, zangada, furiosa. Com o FCPorto, a verdade é que não me importo de parecer ter o QI de um pedaço de relva.

Com isto não quero dizer que podem fazer do FCPorto o que quiserem que eu não estarei atenta. Não, alto lá. Eu tenho passado os dias a fazer de conta que me preocupo com a situação na Grécia, mas na verdade o meu Eurogrupo é outro. Serão Imbula e Danilo compatíveis? Estarão André André e Sérgio Oliveira prontos para isto? Terão Casillas e Drogba noção dos cortes aos pensionistas que o Passos quer fazer? Vida de adepta parece fácil quando não é preciso andar a fazer quilómetros de um lado para o outro e a gastar dinheiro, mas procurar respostas para tudo isto é uma canseira.

E todos os anos é isto. A época acaba, normalmente bem mas ultimamente mal, e damos por nós, num instante, mergulhados nesta exasperante preparação da próxima. Enquanto a nossa vida profissional, por muito cansativa e stressante que seja, ainda nos dá uns 22/25 dias de descanso por ano, os nossos clubes não. Nada. Não há um dia em que eu possa estar descansada, um “ufa, hoje não tenho que me preocupar com o negócio do Jackson”, um “ai que alívio, hoje ninguém deu uma entrevista a dizer que não gosta do treinador”. Nunca.

Há sempre um que vai sair e outro que vai entrar, há sempre milhões de um lado para o outro, há sempre o problema da baliza, e o lateral direito que saiu, e a falta de um central possante, e o lateral esquerdo que é um moina, e o meio-campo que foi desfeito, e o ponta-de-lança que me faz chorar, e o treinador que tem de fazer quase tudo de novo, e a falta de FCPorto no balneário, e podíamos ficar aqui um dia inteiro nisto. Tanto podíamos que isto é, afinal, o que eu passo o dia inteiro a pensar.

E é inevitável: chega uma altura em que me convenço mesmo que não só a minha opinião foi construída com base em informações sólidas como a conversa no café, mas também que ela vale alguma coisa. Há um momento em que, de repente, parece que sou eu que está a negociar o Jackson e que só ao perguntar “Como é que é possível que alguém ache o atlético de madrid melhor do que o FCPorto?” vou convencê-lo a não ir. Vá, confessem. Vocês também não acham que, com toda a bagagem negocial que um adepto vai adquirindo ao longo dos anos, tinham conseguido baixar o preço do Imbula? Vocês também não desconfiam, porque negociadores implacáveis como nós são sempre desconfiados, que o Casillas e o Drogba querem é ter um fim de carreira descansados?

O que é engraçado é que, todas as épocas, eu falho redondamente. A equipa nunca é a que eu tenho na cabeça, nunca joga como eu a preparei no estágio em Bedernsshtifadaregeitmafield, nunca ganha todos os jogos por 10-0 como eu lhes passei estes meses a mostrar que era perfeitamente possível. É incrível, estão sempre a desiludir-me. Vá lá que, de vez em quando, há um ou outro que se safa. João Moutinho, por exemplo.

O engraçado de ter um blog onde escrevo desabafos inúteis sobre o meu clube é que depois posso ir ler o que pensava há cinco anos, quando Pinto da Costa foi buscar “um jogador à Porto” a um clube podre. Vou passar a citar a minha parte preferida:

“Quanto aos contras, vejo milhares. O que vale o Moutinho? Nunca vai "explodir", não vai ser melhor do que é. Parece-me um médio banal, com menos de 1,50m, um chorão que está sempre no chão.”

Digam lá: eu não sou brilhante? Previ que o Moutinho não ia explodir e, como todos sabem, não rebentou literalmente nenhuma bomba no Dragão nos anos em que ele esteve cá (M., não vale pensar “infelizmente”). O Moutinho não era exactamente banal no dia em que o fomos buscar - ou, como hoje sabemos mais apropriado dizer, salvar? E não vos parecia mais pequeno? E não se tornou entretanto um atleta que deixou de se atirar para o chão? Enfim, é quase inacreditável como a minha primeira análise foi tão certeira.

Tudo isto para que também fique por escrito o que penso sobre Maxi Pereira.







Serviu este pequeno espaço para eu respirar fundo e contar até 10.







E agora outra vez.







Só mais uma vez.







Falar de Maxi Pereira não é fácil. Foram muitos anos do outro lado. Daquele lado. Muitos anos de luta, de bocas e, sobretudo, de cacetadas (por falar em Moutinho, lembram-se disto?)



Eis o que escrevi na altura:

“O que me impressiona mais não é aquele golpe de kung fu aplicado ao Moutinho. É quando ele se levanta, com a mão no ar, certamente não a pedir desculpa mas antes a alegar que não foi nada – mas o quê, já não se pode espetar um pontapé noutro gajo? –, espera que o árbitro se concentre nos nossos protestos e depois, quando já sente, já sabe, que não vai ser expulso - e juro que nunca mais me vou esquecer deste momento -, ele sorri. Sorri, o grande cabrão.”

Enquanto me lembro disto, cresce-me cá dentro uma vontade de assassinar com as minhas próprias mãos aquele ser muito pouco humano. Não deixa, no entanto, de ser engraçado: o “anão” que “só se atira para o chão” a ser varrido pelo “cabrão” que “só sabe dar pau”. Esperemos, então, que esta memória seja só um bom prenúncio da minha profunda incapacidade de planear uma época do FCPorto.

Daqui a uns dias, ao ver Maxi de azul e branco (só de escrever isto morreu mais um unicórnio fofinho), e sabendo que Moutinho entretanto nos trocou pelo dinheiro do principado, não prometo que, ao rever estas imagens, não note que, afinal, o médio banal de 1,50m não tenha, enfim, exagerado um bocado e que aquele antigo Maxi Pereira do benfica, uma besta abominável, até, vá, tenha pedido mesmo desculpa. Talvez daqui a uns meses, se tudo correr normalmente e eu nunca tiver razão, como eu desejo!, o novo Maxi Pereira seja... hum... falta-me a palavra exacta... Ah, já sei: um cavalheiro.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

1993

Nota prévia: este texto é todo escrito assumindo a ida de Jorge Jesus para o Sporting. Já se confirmou que não fica no Sport Lisboa e Benfica, 34 vezes campeão de Portugal, e tudo indica que irá para os verdes. 

Eu adorava o homem. Sabia do feitio doente, da sobranceria e do ego quase ridículo para quem faz madeixas no cabelo. Suportei os erros de português, a incoerência, humilhações duras (2010/2011, Eusébio me faça esquecer), percebi muito depressa que não íamos ganhar sempre (mas foram metade das vezes), mas senti o salto qualitativo. O futebol. A equipa alinhada a defender, imprevisível a atacar, as bolas paradas trabalhadas, o treino a saltar-nos para os olhos em cada jogo. Aquela disciplina táctica, a jogar com 9 em Turim, num momento de alta pressão, como o aluno que já sabe tudo e que já nem precisa de pensar para saber a resposta.


JJ, num clube de loucos, tornou-nos competitivos, perigosos, manhosos, temidos. Passámos a contar para o totobola. Aprendi muito sobre futebol a ver o Benfica de JJ, para o bem ou para o mal. Defendi a sua continuidade até em Maio de 2013 e queria mais. Queria (e espero) que Vieira tenha feito tudo para o manter cá. Estava relativamente preparado para a sua saída para o estrangeiro, mas - apesar de já conhecer os rumores - não para os verdes.

Para que isto fique bem claro: JJ não passa a mau treinador por ir para o Sporting, não vai desaprender nada, não me vão ler que ele afinal é o José Mota. Mas, para mim, é persona non grata. É um traidor. Sim, um traidor. Oh, mas ele sempre foi do Sporting! Caguei, amigos. Jorge Jesus, génio da linha defensiva, ia continuar a treinar Bragas e afins não fosse a oportunidade de vestir o manto sagrado do Benfica. E o mínimo dos mínimos que eu peço a quem veste esta camisola é que nunca vá para os rivais (a não ser que sejas o Pesaresi). Chegará o dia, quando eu for presidente do Benfica, que qualquer funcionário do Glorioso será capaz de citar todos os nossos títulos, os dois 11 campeões da Europa e o número de golos do Eusébio no Benfica (773). Mas, até lá, o mínimo dos mínimos, os serviços quase-zero que eu exijo, é não jogar depois num rival. O pai dele, ai o pai dele, que é tão do Sporting e ele foi sempre do Sporting! Então nunca tinha assinado. Ficava um lagarto orgulhoso a treinar o Belenenses, a ficar em 6º lugar e treinar as transições defensivas perfeitinhas no Restelo ou no Bonfim ou em Felgueiras (e sim, talvez ninguém reparasse nele. O homem já treinava na primeira divisão desde 1997 ou assim e ainda ninguém o tinha agarrado). Mas não, veio para o Benfica. Quem vem para o Benfica, deve sentir-se orgulhoso. Deve amar cada canto do clube, cada centímetro quadrado do estádio da Luz. Deve pensar: "Porra, estou no mesmo clube onde jogou o Coluna" e chorar de emoção. O mínimo é não ir para um rival a seguir. 



Vou explicar-vos: eu tenho amigos do Sporting. Grandes amigos, grandes sportinguistas, pessoas que eu adoro. Mas, para mim, é como se elas não fossem do Sporting. Eu não concebo o bem no Sporting, o meu cérebro entra em dissociação cognitiva. A minha sogra diz-me, olhos nos olhos, que acha que eu e o meu Pai somos demasiado boas pessoas para ser do Benfica. Eu adoro a minha sogra e adoro-a mais por dizer isto. Eu percebo: quando nós somos malucos por um clube, não somos selvagens que não conseguimos comer à mesa com pessoas de outro clube. Mas há algo no nosso cérebro que separa as duas coisas, retirando essa característica daquela pessoa de quem gostamos. (And that, kids, is how I met your mother).

O Benfica é um clube que foi fundado por gente pobre e que, anos após aparecer, viu um clube de gente rica roubar-lhe jogadores. Era um clube que no primeiro ano da fundação não tinha militância para jogar futebol, só para fazer bailes. Para jogar futebol, teve de nos roubar jogadores. Esse clube, com um equipamento metade cor de ranho, metade a imitar a cor dos calções do Benfica, nasceu em oposição a nós. É o nosso nemesis, o nosso rival, o nosso oposto. Se o Sporting gosta de carne, eu gosto de peixe. Se o Sporting pensa de uma maneira, eu penso de outra. Imediata e automaticamente. E eles igual. É assim, sempre há-de ser. Nós bons, bonitos, altos e fortes. Eles maus, feios, baixos e fracos. Nós espectaculares, eles uma merda. Eu não consigo perceber como é que alguém com mais de 5 anos e 3 neurónios aceita ser do Sporting quando tudo isto é evidente. 
Jorge Jesus, exímio explorador daquele corredor entre a ala e o corredor central (apanha a quina da grande área), quando assinou por nós em 2009, devia ter percebido uma coisa: uma vez nosso, devia ter sido sempre nosso. Podia sair para o Zenit, para o Austria de Viena ou para o Real Madrid. Mas não para eles (nem para os de azul, claro). Chama-se ética, chama-se respeito, chama-se futebol. Ah, e o Simão? O Simão foi um grande jogador mal formado, que cuspiu no prato que o fez crescer e que agora está à procura de tacho no Benfica. Não é dos meus, meus. Nunca foi. Foi o melhor jogador de uma equipa do Benfica? Sim, mas nunca teve o meu amor. 


Isto parece estúpido, estamos em 2015, mas sim, eu sinto aqueles roubos de 1907 do clube dos Holtremans como se fossem hoje. E os do Verão de 1993. É uma coisa imperdoável, histórica, que pode ter mil anos que nós nunca vamos perdoar. Tivemos a pequena vingança de um dia comprarmos um júnior deles do Sporting de Lourenço Marques, mas se ali ficasse, Eusébio nosso senhor ia ser mordomo de um Ricciardi ou assim. Se JJ assinou em 2009 connosco, assina pelo nosso lado da história (o correcto, claro) e, para mim, não pode voltar atrás. Não aceito, não quero saber de mais nada. Se assinar pelo Sporting, Jorge Jesus é dos outros e a partir daqui é um alvo como eles. E temos de trabalhar agora para o derrotar, recordando sempre que o Benfica é um clube que se fez na adversidade, é um clube que se tornou grande porque era de gente orgulhosa, mas que trabalhava, enquanto os vizinhos tudo tinham. 

Eu não acho - não sou assim tão totó - que o ADN do Benfica seja o mesmo da sua fundação, nem sequer de há 20 anos. Longe vão os tempos em que jogadores como Paneira, depois do Verão quente de 1993, queriam marcar o sétimo em Alvalade porque queriam vingar um resultado menos feliz num derby de uma equipa que nos deu uma dobradinha. Mas é esse ADN que é preciso ir buscar para voltarmos a ganhar. Andávamos alegres e contentes, mas a realidade bateu-nos à porta. É hora de trabalhar, de ir buscar forças, competência, dedicação. Ser do Benfica, ser Benfica. Sim, eu sei, eu sei, isto parece só conversa fiada. Mas a história já nos provou que pode não ser só conversa. Se fosse só isso, se fosse impossível, não havia Benfica. 

Da minha parte, Jesus nem um obrigado levará se assinar por eles. Eu adorava o homem. Mas lembrei-me que ele é do Sporting e não há boas pessoas do Sporting. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os velhos

Tinha 2 ou 3 anos e estava a passar férias com a família. Estava calor, íamos a caminhar e tudo o que eu queria era chegar ao local onde podia brincar. Tinha, portanto, toda a motivação que um pequeno humano consegue juntar para andar depressa. No entanto, os meus avós iam connosco. Os meus avós tinham, nessa altura, a capacidade física do Obikwelu, mas eu estava convencida que eles não iam muito além do Mestre Yoda (sábios, muito sábios, mas já não dispostos a grandes aventuras). Conta a minha mãe que tentou acalmar a minha falta de paciência (há quem diga que não mudei muito neste aspecto, um ultraje) dizendo que era preciso “esperar” pelos avós e que era “natural” que eles andassem mais devagar. Ao que parece, a minha mãe acreditava em ser racional com uma criança de 2 ou 3 anos. Mas eu, que não me orgulho muito deste momento, virei-me para trás, olhei furiosa para os meus avós e desabafei:

“Rais’ parta os velhos!”

Os meus avós, que como todos os avós já não tinham a pressão de educar uma criança mas só de a estragar, desataram a rir-se. Riram-se tanto que me atrasaram ainda mais, enfim. A frase eternizou-se na família e é daquelas que repetimos a todos os aniversários e Natais, sempre que é necessário lembrar a alguém que está a demorar muito a fazer algo.

No que diz respeito ao FCPorto, a minha pressa é ganhar. Admito-o: estou habituada a tal e não tenho muita paciência para tudo o que não seja conquistar títulos. Já não sou tão radical como aos 2 ou 3 anos, é certo, mas continuo a ter a mesma motivação para chegar lá o mais rápido possível.

Já aqui o tinha escrito e todos sabíamos: o campeonato estava entregue. Nem que tivéssemos largado tudo e desatado a correr, ele não seria nosso. Agora que somos adultos, não adiantava “esperar” outro cenário, porque um golo de Kelvin aos 92 minutos é tudo menos “natural”. Ora, o problema é que eu acho que um adepto tem a inteligência emocional de uma criança de 2 ou 3 anos. Só isso explica que, perante uma reunião de família a um domingo, o M. tenha faltado para ir a Guimarães, mas, pior ainda, eu tenha saído mais cedo para ir a Belém. Se, no primeiro caso, o cérebro de qualquer humano é capaz de reconhecer a perseguição da felicidade e do prazer em momentos raríssimos, no segundo é mais difícil explicar o que me levou ali.

Não vou chatear-vos com a conversa do ser portista a ganhar ou a perder. Se estão a ler este blog, confio que sabem o que isso é e que partem sempre desse princípio. Se não, podem ter vindo parar aqui porque “Lá em casa mando eu” soa a blog de culinária, mas convido-vos a ficar na mesma.

Eu não fui ao Restelo só por causa dessas lamechices. Fui porque a minha pressa é tanta que já estava a pensar mais à frente. Se eles tivessem corrido, se tivessem tentado andar mais depressa pelo menos, eu teria ficado satisfeita. Mesmo perdendo, conseguiria perceber que estaríamos mais perto da meta: ganhar. Parece estúpido, eu sei. Como é que, a perder, alguém pode pensar que se aproximou de ganhar? Vou tentar explicar como a uma criança de 2 ou 3 anos: o FCPorto, o meu FCPorto, só sabe, só pode ganhar à Porto. Se não corrermos, se não quisermos, estaremos sempre mais longe disso.

Infelizmente, vivemos numa época em que nós, os adeptos e os portistas como eu os entendo, estamos em vias de extinção. A culpa não é só nossa. O futebol, lá em cima, quer-nos assim: a pagar muito e a sentir pouco. Enquanto nós, na bancada, gritávamos a plenos pulmões pelo FCPorto, eles, no campo, ficavam para trás. Devagar. A atrasar-nos.

“Rais’ parta os velhos!”

Senti-me insultada quando, no final, ainda acharam que podiam virar-se para nós, à espera de palmas. Aquela gente (vestida de cor-de-rosa, felizmente, porque se estivessem de azul e branco às riscas eu podia tê-los confundido com o meu clube) vive em que mundo? O que é que lhes passou pela cabeça para não saírem dali depressa, com vergonha do que fizeram, e não terem pedido desculpa imediatamente a seguir, quando usaram os microfones para falar de contratos em vez de portismo? Eles insultaram-me, insultaram-nos e insultaram o nosso clube. Eles, os de cor-de-rosa, e todos os que acham que o caminho é este. Que mais importante do que correr no Restelo é correr para apanhar o comboio de uma Liga dos Campeões repleta de dinheiro, de clubes mercenários e de adeptos que preferem uma Coca-Cola e um 5-5 do que apanhar chuva na bancada e ganhar “meio a zero”.

Neste assunto, sei que não evoluí muito em relação àquele tempo em que era uma criança de 2 ou 3 anos. Continuo a preferir ver os rádios colados no ouvido em Belém, do que as pipocas coladas à boca no Dragão. Até gosto que os telemóveis nos dêem os onzes mesmo antes do aquecimento, mas não percebo que nos tirem selfies quando acabámos de perder não só um campeonato, mas sobretudo a dignidade. Compreendo que um adepto se sente no sofá a apreciar um Barcelona-Bayern, mas nunca que não lhe passe pela cabeça ir sofrer para Penafiel numa noite de temporal. Sei que o mundo mudou, mas não sou obrigada a gostar dele.

“Rais’ parta os velhos!”

Eu sei, eu sei, é uma luta inglória. Vamos sempre perder, não adianta. Mas foi por isso que fui ver o último jogo da época. O meu clube sabe que não o deixo, a ganhar ou a perder, lá está o cliché. Mas, se não sabe devia saber, também não o vou deixar ir por este caminho sem dar luta. Bem podem tentar apanhar-me naquela espécie de “kiss cam” que procura os adeptos com uma Coca-Cola na mão para lhes dar um lugar privilegiado no estádio, que vão sempre encontrar-me, como em Belém, num maldito zoom, a cantar que foram uma vergonha. Peço desculpa pela falta de paciência, mas, se não valorizam os poucos que assim restam, aviso já que vai ser difícil verem-se livres destes, porque são os mesmos que, depois de Munique, vão à luz, a Setúbal e ao Restelo, seja à sexta ou ao domingo, faça chuva ou faça sol, corram os de cor-de-rosa ou não corram.

Mas talvez estejamos errados. Talvez não estejamos a perceber que, mesmo no jogo em que já não há nada para ver, se possa meter umas fotos do Reyes e do Herrera no Facebook, com legenda em espanhol, e ganhar mais uns likes mexicanos. Talvez isso seja mais importante do que aqueles malucos que estiveram calados e que foram assobiados ao cantar o hino. O hino... Os malucos parece que sabem a letra... E sentem-na... Talvez o caminho não seja esse e bom, bom, era se fôssemos todos como o atrasado mental atrás de mim, que passou o ano a tratá-los mal, a chamar-lhes nomes, a ser muito “exigente” porque pagou bilhete, mas que, neste jogo, batia palmas a cada passe para trás, naquele sistema que há umas semanas apelidava de “uma p$%/ de uma pouca vergonha”. Esse não o vi no Restelo, não sei porquê. Nem em Penafiel, sem conseguir insultá-los em voz alta porque a roupa encharcada, parecendo que não, afecta a projecção da voz. A esse não o vejo levantar-se e cantar o hino, não percebo...

Bom, bom, é se conseguirmos vender uns quantos jogadores e meter na cabeça aos que ficam que o que é preciso é passar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Se continuarmos assim, de certeza que isto vai correr bem. Qual é o problema do rival ser bicampeão, afinal? Para o atrasado mental atrás de mim, nenhum, porque ele foi mais agressivo com os malucos que protestaram em silêncio neste jogo do que com o Maxi Pereira, que fez à vontade o lançamento para o primeiro golo na linha que fica mesmo à nossa beira. O estádio parecia um cemitério sem os malucos a cantar, mas, para ele, a vergonha foram os malucos, como eu, terem saído mais cedo só neste jogo, em protesto, e não o que aconteceu no Restelo, na luz e na Madeira, onde os mesmos malucos apoiaram o clube até ao fim. Porque bom, bom, são os que saem mais cedo para não apanhar trânsito e jantar mais cedo. E desengane-se quem pensa que o atrasado mental é só um atrasado mental: ele é um reflexo do que este futebol, lá em cima, quer que ele seja.

Mas, com ele, de certeza que vamos longe. Com ele, vamos em frente, e depressa, como uma criança de 2 ou 3 anos que quer ir brincar. Enquanto houver dinheiro para as pipocas, lá estará ele na linha da frente. Enquanto houver likes nas redes sociais, ele não dormirá mal por perdermos. Enquanto houver um “Somos Porto” ou “Sempre Preparados” para os de camisola cor-de-rosa usarem sem saberem o que significa, não precisaremos de nos preocupar com nada. E, para trás, ficarão todos os que, mais do que as derrotas, vão demorar a aceitar a falta do Futebol Clube do Porto.

“Rais’ parta os velhos!”




sábado, 23 de maio de 2015

O mea culpa do pessimista

Um pessimista é um homem que olha para os dois lados antes de atravessar a estrada - Laurence J Peter em "O princípio de Peter"
Nunca acreditei. Mesmo quando tudo já parecia decidido, quando toda a evidência já me devia estar a entrar pelos olhos, eu mantive-me no meu confortável casulo do pessimista, como aqueles soldados japoneses que foram encontrados mais de 20 anos depois da II Guerra Mundial ter acabado. Dois anos depois, talvez o minuto 92 tenha ficado um bocadinho mais para trás. 2 campeonatos vencidos de seguida talvez me façam agora ver que aquele minuto acabou. Nunca será esquecido - e grande parte deste bicampeonato está aí - mas pode ser ultrapassado. Mas depois daquele golo do Kelvin, onde se provou que Deus não existe (exceptuando Eusébio e Coluna, mas esses têm um estatuto muito superior à divindade, como me parece óbvio e universalmente aceite), era impossível não olhar duas, três, quatro vezes para cada lado da estrada. 
Não há nada pior para um paranóico do que ser, efectivamente, perseguido. Quando a época começou, com o Benfica a vender tudo, o Porto a reforçar-se a sério e Jackson a anunciar a renovação, temi - como sempre, é verdade - o pior. Não acreditei que aguentássemos a super equipa deles. Posso-vos dizer que o meu pessimismo era sincero e honesto. Não sou gajo para depois ficar a chatear toda a gente com "eu disse-vos! Eu disse-vos!". O meu pessimismo é a minha preparação para a infinita tristeza que se abate sobre mim quando o Benfica perde. Ainda bem que eu não tinha razão. Li uma vez, numa discussão de facebook: "Quanto ao Benfica, não faço questão de ter razão". É uma frase brutal. É brutal porque em tudo o resto quero ter razão, quero acertar, quero validar a minha opinião. Quero estar do lado político correcto, quero acertar eticamente nas decisões difíceis.  Mas quanto ao Benfica não. Só quero que o Benfica ganhe. Não interessa se com o onze ou táctica que eu acho melhor. Nem me interessa se com X ou Y a presidente. Eu quero que o Benfica ganhe. Felizmente para mim, falhei a minha previsão. Oxalá seja sempre assim.
Acho que também há aqui um fundamento cristão, o que é irónico num ateu como eu. Estou plenamente convencido que esta minha humildade, que os meus frequentes elogios ao Porto (que são sentidos, juro), que a constante procura por limpar os nossos pecados – procurando incessantemente os nossos defeitos, como se muitos tweets sobre o assunto os pudessem mudar – abrem-me as portas do céu (no caso, de campeonatos). Isto não quer dizer que eu, na verdade, seja um bazófias como o benfiquista irritante de café que diz “P`RA CIMA DELES!” nem que estejamos a jogar com o Bayern em Munique, eu sinto que o meu papel de adepto é este. É o ser crítico, é o de encontrar elogios nos rivais para os copiarmos e defeitos em nós para os corrigirmos. Para a maioria das pessoas, o futebol é uma festa, mas para mim é uma missão.
Escrevo-vos hoje para dizer alegremente que errei. Que as minhas previsões deram para o torto, que sou o José Peseiro do totobola. Escrevo-vos para dizer que o Velho do Restelo (não o Tiago Caeiro, o dos Descobrimentos, seus ignorantes que só pensam em bola) não tinha razão, e que sim, que os navegadores vão chegar à Índia. Escrevo hoje, feliz, para vos dizer que afinal Jonas é melhor que Rodrigo e que Samaris pode ser um bom 6, apesar de nunca vir a ser um Matic. Que o Pizzi só serve para os jogos em casa, mas não faz mal (ou faz, mas depois falamos disso).
O Benfica, felizmente, não é composto por pessimistas crónicos como eu (se bem que teria a sua graça ouvir a Luz em uníssono a cantar “Alinha com os outros três da defesa, Eliseu!”, em vez do “Glorioso SLB”). É feito daquela gente que ocupou todas as pontes do Porto a Guimarães só para levantar o cachecol aos que viajavam. O Benfica é aquela multidão enlouquecida no Aeroporto do Porto, que não precisou de andaimes nem de colunas para sair à rua. O que eu mais gosto no Benfica é, quando ganhamos, de ver as festas em todas as aldeolas, de ver a festa em Cabo Verde, em Paris, de ver o Benfica na rua. Este ano até um vídeo de 6 malucos a acenderem tochas na República Checa vi. O Benfica, popular, universal, louco, é a maior alegria do mundo.
É por querer, mais do que tudo, essa alegria, que eu todos os anos me preparo para a tristeza de não a ter. Porque eu a quero mesmo muito. Para o ano, vou olhar outra vez seis, sete vezes para cada lado da estrada antes de a atravessar. Vou antecipar perigos, sofrer antecipadamente, ver cada defeito nosso na ânsia de que se corrija. E oxalá – oxalá! – não tenha razão outra vez.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Lo-pe-te-gui

A época correu mal. Não pode tirar-se outra conclusão quando se trata do FCPorto e, por isso, se trata de ganhar. Não há desculpas, não há atenuantes: a época correu mal porque não ganhámos.

Reconhecer o óbvio não pode passar, no entanto, pelo esquecimento. A “desculpa”, dizem, são as arbitragens. Recorremos a elas para justificar um pedaço do falhanço. Mas lembremo-nos sempre que, a determinado momento, quando o primeiro classificado tremia, foram cruciais. Ainda assim, o FCPorto chegou a cinco jornadas do fim com a possibilidade de ir ao estádio do rival discutir o título. “Ainda assim”, aqui, é a expressão fundamental.

Mais. A “atenuante” foi a maneira como chegámos lá. Com uma carreira muito boa na Liga dos Campeões, por um lado, e uma derrota tão humilhante quanto esperada, por outro. Estávamos cansados, fisicamente e de espírito. Ninguém se pode esquecer daqueles 3-1 ao Bayern, pois está claro. Nem dos 6-1.

Recorrer a estas “desculpas” e “atenuantes” é pouco para o que estamos habituados. Ganhar contra tudo e contra todos, lembram-se? O mínimo que tinha de exigir-se naquele jogo decisivo era o que sempre se exigiu ao FCPorto: meter mais o pé, querer mais. Nada disto aconteceu. Bater palmas àquilo envergonha-nos.

Do outro lado, um vazio. O campeão em título podia ter acabado com uma equipa de miúdos, desmotivados pela goleada sofrida, de rastos. Imaginem o cenário ao contrário: no Dragão, o FCPorto que viria a ser bicampeão tinha esmagado o rival. O KO desta época não seria um amigo gil vicente ou guimarães, não mais se falaria em capelas, não seriam necessários mais bate-bocas nem trocas de nomes. Seria um murro em cheio nas “desculpas” e “atenuantes” dos outros. É a isso que estamos habituados. Eles não.

A nós, no entanto, interessa-nos a lição a tirar de duas épocas seguidas sem sermos campeões. O que aconteceu depois daquele golo do Kelvin? Fácil: enquanto nós dançávamos, eles agarraram-se às feridas e voltaram à luta. Não venderam tanto quanto precisavam, seguraram o treinador falhado. E nós a dormir. O 92 sempre na nossa cabeça. Fomos buscar um “treinador da moda”, um daqueles que os comentadores tornam no melhor do mundo mas depois fazem de conta que não ficaram surpreendidos com o fracasso. Não construímos um plantel. No FCPorto, até um Paulo Fonseca é campeão. Não foi, claro.

As feridas, desta vez, eram nossas, e eram muitas. Como também estamos habituados, a estratégia mudou, e para melhor. Fomos à luta. Fomos buscar um treinador, um daqueles que ninguém gosta, e é chato, e é arrogante, e fala muito, e mexe-se ainda mais. Incomoda. Ainda por cima fala espanhol. “O basco”. Que horror. Fomos buscar uma ideia. Fomos buscar jovens, talentosos, com vontade de se mostrar e de jogar bom futebol. Fizemos um esforço raramente visto e conseguimos manter Jackson. Boa. Vamos a eles, então.

Eu não me esqueço das expectativas, assim como não me esqueço do que falhou. No início, faltou criar um 11. Depois, faltou conhecer bem o campeonato português. Já antes, tinha faltado o que nos falta há uma década. Faltou-nos pegar neles e explicar-lhes o que isto é. Faltou-nos algum dos nossos entre eles. Faltou-nos o que os maluquinhos como eu ainda acham possível neste futebol global dos likes no facebook e equipamentos cor-de-rosa. Faltou-nos Porto.

Coube ao treinador disfarçar isso. Foi ele que nos defendeu, foi ele que falou, foi ele que foi à luta. Cada vez que o ouvi a falar de arbitragens, a virar-se contra jornalistas e rivais, quis e quero acreditar que o fazia e faz por perceber o que é o FCPorto. Contra tudo e contra todos, lá está. A equipa cresceu, melhorou, levou-nos a gostar dela e de futebol, outra vez. Mas falhou, outra vez, caraças. Falhou na Madeira e na luz. Ensinou-nos, espero, que o FCPorto não luta só em conferências de imprensa. Luta, sobretudo, em campo.

Resumo assim o ponto onde ficamos: estamos muito melhores do que há um ano, mas muito piores do que o FCPorto nos habituou. Temos de ir à luta, outra vez. Entre as vendas inevitáveis, os empréstimos e as manias das estrelas que querem “dar o salto”, temos de encontrar o nosso equilíbrio. Temos de crescer, mas crescer à Porto. Não podemos querer ganhar a Liga dos Campeões para mostrar ao mundo o que é o Porto e ao mesmo tempo não ir a casa do rival mostrar-lhes quem somos.

Não se pode ganhar sempre, mas também não se pode perder sempre da mesma maneira. O ano passado perdemos por falta de comparência, este ano perdemos com “desculpas”, “atenuantes” e erros que não podemos repetir. Não podemos voltar a ficar surpreendidos com equipas pequenas que só defendem, dão pau e perdem tempo. Não podemos voltar a ficar indignados cá fora, mas uns anjinhos lá dentro. Não podemos assobiar quando se está a tentar construir alguma coisa, nem podemos bater palmas quando se destruiu tudo. Também precisamos de encontrar esse equilíbrio na bancada, já agora.

Porque o benfica vai ser bicampeão. Não o benfica dos 15-0, mas também não o benfica dos 5-0 no Dragão, nem o que nos deixou ser campeões em sua casa. Nem sequer o benfica do Maicon e do Kelvin. O benfica que vai ser bicampeão é o benfica que Jorge Jesus demorou quatro anos a construir. É um benfica esperto mas saloio, feio mas duro. É um benfica que goleia mortos, mas que não tem coragem de nos matar. É um benfica que já percebeu que nós não somos o FCPorto a que nos habituámos, mas que também já percebeu que eles não são o benfica que apregoam.

E Jorge Jesus vai ser campeão pela terceira vez em seis anos. No benfica, temos de admitir que é um feito. E vai sê-lo porque aprendeu com os erros. Deixou de gostar de futebol, abdicou de tudo pelo resultado. Em seis anos, mudou muito. Só continua o mesmo asco. O mesmo que quando ganha diz “eu”, mas quando perde diz “nós” ou “eles”. O mesmo que nunca admite um erro, mas dá raspanetes públicos a qualquer “Manel”. O mesmo que agride jogadores adversários ou funcionários do seu clube, o mesmo que não fala mal só porque não sabe falar, mas sobretudo porque não diz nada de jeito. O mesmo que não teve a coragem de vencer este campeonato contra o FCPorto, mas que precisou de vir cá para fora tentar humilhar quem não teve a coragem de vencer o campeonato contra ele.

É Jorge Jesus no seu “melhor”. O treinador que achou que ia ser considerado o melhor do mundo no belenenses nunca poderia acertar no nome do treinador que lhe pediu satisfações. Não podia ficar calado quando, dias depois, sentiu finalmente o título no papo. O Jorge Jesus que foi humilhado de mil maneiras diferentes pelo FCPorto não provocou só Lopetegui, provocou-nos a todos. Não é um nome ou uma época que estão em causa. É que, quando ganha uma luta desta forma, Jorge Jesus esquece-se não só do manto protector que o cobriu, mas sobretudo do manto sagrado da ver-go-nha. Ou Governha. Ou Nhavergo. Como quiserem.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Prazer e guerra

Quando Leo Messi dobrou Boateng e o mandou ao chão, encontrando, pela enésima vez, o pé de apoio do adversário e fintando-o para esse lado (o lado do pé preso), levantei-me do sofá. Uma onda de prazer já me tinha percorrido o corpo, mas torci para que a obra de arte ficasse completa - uma finta daquelas tem de dar golo - mas nunca pensei que Messi, sempre à frente do mundo inteiro, resolvesse fazer um chapéu com o seu pé "mau", quando Neuer e todos nós esperávamos algo daquele pé esquerdo. Messi faz-me ter prazer a ver bola. É o jogador por quem eu torço, o homem que me faz feliz a ver futebol. É o jogo pelo jogo. Messi é futebol. O futebol. Perfeito, irreverente, imprevisível, genial. Todas as palavras são poucas, mas as melhores que vi foram estas:


Quando Suljemani, num gesto muitíssimo inteligente, centrou em vez de chutar no primeiro golo em Barcelos, o meu coração parou meio segundo com medo que Jonas e Maxi se atrapalhassem e a bola não entrasse. Fiquei aflito, dobrado já pela dor que seria desperdiçar tão soberana oportunidade em tão importante jogo. O meu festejo foi o de sempre no primeiro golo do Benfica contra estas equipas pequenas: um grunho de sílabas que soa qualquer coisa como "GOOOOOOOOOOOOOAAAHAAAARAAAGHAHCARALHOOOOFODA-SEBORAAAAAAAAAAHHHHHLOOOOOOOOOO". É um misto de alívio, sofrimento (porque já marcámos o 1-0, mas eles agora podem fazer o 1-1 e a equipa desmoraliza e falta o Salvio, e a falta que o Enzo faz! Defende JJ! Não, ainda não, que se eles empatam mesmo depois não temos ninguém para meter para a frente! `Bora Benfica! Grande Maxi! Defender! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA!) e uma dose exagerada de irracionalidade. Um bocadinho distante de comparações com pinturas de Picasso. É um misto de cobardia, sofrimento e alívio. No segundo golo o meu coração já consegue festejar um bocadinho e admito que festejei o quinto golo acima das minhas possibilidades, cometendo a loucura de acreditar que, com longos 15 minutos por disputar, o penúltimo classificado Gil Vicente já não ia conseguir marcar 5 golos ao Benfica. O mais estúpido é que assim que eu festejo os 3 pontos, algo em mim sussurra: "Se eles empatarem, a culpa é tua".

É também por isso que eu adoro ver Leo Messi. Os jogos do Benfica são para ver contraído, com concentração máxima, como se eu fosse um soldado americano no meio do Vietname, sempre com medo de pisar uma mina. Artur Semedo, que era um sofredor como eu, dizia que se punha debaixo da mesa quando o Benfica jogava. A maioria das pessoas não percebe que não há ali metáfora nenhuma. O homem metia-se debaixo da mesa com os nervos, esmagado pelo peso do jogo. Quando eu vejo Leo Messi, não tenho que me esconder debaixo da mesa. Posso deitar-me no sofá, descalço, de pernas cruzadas, e sei que é como abrir um bom livro. Se correr mal, fecho o livro e pronto, espero pelo próximo. Quando corre bem, só me apetece contar o livro a toda a gente. Eu não gosto de falar do Benfica às 2ª feiras, depois do jogo, porque, exceptuando algumas vitórias demasiado doces para não serem partilhadas, os jogos do Benfica são para mim demasiado sérios para serem discutidos com leviandade enquanto se põe açúcar no café. O Benfica é para ser discutido com correlegionários, com pessoas que também sentem o campeonato como uma guerra, quer o enfrentem com coragem ou se ponham debaixo da mesa. 

Leo Messi não. Leo Messi é a ópera, a literatura, é brincar na praia com os meus sobrinhos. Messi é o prazer descomprometido, o futebol onde cada passe é para ser apreciado, onde cada finta é uma sobremesa. É ler uma crónica do Lobo Antunes, um livro do Saramago. As fintas de Messi, como aquela coisa que ele fez a Boateng (por amor de Eusébio, aquilo é tão bonito) criam a antecipação que eu tinha quando era miúdo antes de abrir uma carteirinha de cromos. Messi é o último cromo da caderneta, é marcar o golo decisivo no intervalo da escola, é toda a alegria do mundo. 
Não deixa de ser curioso que esta minha alegria com o mago argentino só possa acontecer porque ele não é do Benfica. Se Messi fosse do Benfica (vamos fazer uma pausa para pensarmos nisto. Suspiro), eu não ia ter este prazer todo. Ia-me zangar quando uma finta saísse mal ("dá a bola, porra!", "Foda-se, tu hoje não estás bem!"), ia passar-me quando os companheiros não o percebessem ("não passes a bola a esse burro!") e ia perder a distância que me permite admirá-lo tanto. 

Escrevo isto para vos dizer, com alguma vergonha, que falei sem parar sobre o golo de Messi nas últimas 48 horas. Foi o acontecimento mais bonito de 2015, em todas as artes. Mas festejei mais aquele encostar do Maxi, e faria desaparecer aquele drible para garantir que amanhã ganhávamos com um golo do Eliseu, de barriga. E escrevo isto por me sentir culpado. Enquanto o Benfica não for campeão, não nos devemos distrair com nada. Estamos no Vietname. Não há tempo para artes, para descobrir a penicilina, para apreciar escultura. Temos é de ganhar ao Penafiel. Eu amo futebol, adoro ver Messi com a bola colada ao pé esquerdo, mas o meu amor pelo Benfica é maior. Pelo Benfica, eu queimava a Guernica e partia a escultura de Miguel Ângelo. A minha doença pelo Benfica fazia cair dez Boatengs. Força, rapaziada. Ganhem a guerra, que não há maior prazer no mundo.

Correcção: O acontecimento mais bonito de 2015 foi a recepção do Jonas contra o Braga. O golo de Messi fica num honroso segundo lugar.