domingo, 26 de abril de 2015

Dia de exame

Em primeiro lugar: perdoem a longa ausência. Devido às vicissitudes da vida de médico, os últimos meses da minha vida foram um longo período de hibernação para fazer um exame. Já está feito, correu bem, mas agora falta o mais importante. Falta o exame de hoje, Benfica.

Quando alguém descobria que eu estava em Medicina, um dos primeiros comentários era, quase invariavelmente, que nós estudávamos muito e que sacrificávamos muita coisa. Dá para contornar a afirmação de várias maneiras, e há, sobretudo, muitas histórias para a confirmar: enquanto estudava para Anatomia em Junho/Julho de 2003, se me esquecia do telemóvel ligado, acordava quase sempre com os meus amigos a ligarem-me da noite, pelas 5h da manhã ou coisa assim. Uma pessoa só queria estar umas horas a dormir sem decorar coisas e, se se distraía, acordava com a música do MacGyver, que era a música que fechava a noite num bar em Faro. Portanto, sim, quando acordava de madrugada a saber que os meus amigos estavam bebedíssimos e eu tinha que acordar daí a umas horas para ir estudar a articulação do cotovelo ou uma coisa assim que agora não me lembro, punha em causa se teria feito as melhores escolhas na minha vida.

Mas uma das minhas maiores dores, ou a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro dos sacrifícios que fiz durante o curso e o internato, é a quantidade de vezes que tive que pôr a Medicina à frente do Benfica, ou, vá, empatada. Faltei ao clássico de 2003/2004 (1-1, Costinha para eles, Simão para nós) por ser véspera do exame de Neuroanatomia. Ouvi os quartos de final da taça desse mesmo ano na rádio, o Benfica-Nacional que ganhámos 2-1 no fim, já com o Argel a ponta de lança, por ter frequência de Bioquímica no dia a seguir. Perco as contas às deslocações que não fiz por ficar a marrar. Quando alguém me pergunta pelos sacrifícios por estar em Medicina, normalmente espera que eu diga: "Oh, sim, dorme-se pouco e estuda-se muito. Quem me dera estar mais tempo com a família e amigos!". Mas eu, como sou doente, penso que foi por causa deste curso e desta vida que não vi o último título de andebol no pavilhão (o D. e o T. mandaram-me mensagens de alegria desde lá), ou que estava a estagiar em Salamanca nas meias-finais com a Juventus do ano passado. 

E nestas épocas de hibernação - insultuosamente frequentes em Medicina - em que estamos fechados em casa, afastados de contactos sociais ao ponto de depois termos alguma dificuldade em interagir com as pessoas normais quando temos ordem de soltura (eu não sei quais são as últimas tendências de literatura, música ou de basicamente nada. No entanto, sei a epidemiologia de linfoma de células do manto, que não interessa a ninguém), o Benfica sempre foi a minha pausa de estudo, o último reduto da saúde mental (ahah, saúde mental e Benfica na mesma frase, a ironia). Em 2008, a estudar para o exame da especialidade, assisti à tímida ascensão e estrondosa queda da equipa cujo treinador era Quique Flores (estive para escrever "era treinada por Quique Flores", mas apercebi-me que são afirmações de valor diferente), em 2006 cheguei a levar uma tabela de qualquer coisa que me estava sempre a esquecer para o intervalo de um jogo, onde a li mais uma vez inutilmente. E, nestes meses, os dias de Benfica eram os dias no meu calendário de estudo (sim, aos 31 anos ainda fiz calendários de estudo e isto é triste) onde não estava lá quase nada porque eu sei que a minha disponibilidade mental nos dias de Benfica é zero e eu penso mais movimentações do Gaitan a vir receber ao meio do que na fisiopatologia de doenças de plaquetas. Não faltei aos jogos na Catedral e enervei-me muito em todos os jogos fora, especialmente nos que correram mal e sabendo que no dia a seguir tinha que voltar a fechar-me com os livros e não podia ir para o Seixal ensinar ao Jardel a sair melhor a jogar quando está apertado.

Quando me disseram a data deste exame, a minha alegria imediata foi saber que foi marcado para antes do clássico. Seria impossível conciliar as duas coisas, tal é o meu estado de nervos. Aliás, o meu habitual pessimismo para estes jogos agrava-se com o facto de eu não ter conseguido ter ficado (muito) nervoso para este clássico nos últimos dias porque estou tão cansado do pós-exame que só consigo dormir.  
Benfica, em Setembro escrevi-te que esta seria a nossa época de exame. Hoje é dia do exame final. É dia de fazeres com que todos os sacrifícios valham a pena, é dia de fazeres valer todas as noites em que não foste sair, ou todas as tardes em que estava a dar um derby de Manchester e ficaste a trabalhar. É hoje o dia, Benfica. Pelos que se sacrificam por ti, pelos que sonham com a festa pós-exame, pelos que se enervaram todos os fins-de-semana, como aqueles alunos que vão às teóricas todas. Força, rapazes. Tirem boa nota.


1 comentário:

  1. Blá blá blá... espero que logo fiques menos contentinho do que na última quinta-feira! Sim, eu sei, a inveja é uma coisa cocó!
    *Marta

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