sábado, 23 de maio de 2015

O mea culpa do pessimista

Um pessimista é um homem que olha para os dois lados antes de atravessar a estrada - Laurence J Peter em "O princípio de Peter"
Nunca acreditei. Mesmo quando tudo já parecia decidido, quando toda a evidência já me devia estar a entrar pelos olhos, eu mantive-me no meu confortável casulo do pessimista, como aqueles soldados japoneses que foram encontrados mais de 20 anos depois da II Guerra Mundial ter acabado. Dois anos depois, talvez o minuto 92 tenha ficado um bocadinho mais para trás. 2 campeonatos vencidos de seguida talvez me façam agora ver que aquele minuto acabou. Nunca será esquecido - e grande parte deste bicampeonato está aí - mas pode ser ultrapassado. Mas depois daquele golo do Kelvin, onde se provou que Deus não existe (exceptuando Eusébio e Coluna, mas esses têm um estatuto muito superior à divindade, como me parece óbvio e universalmente aceite), era impossível não olhar duas, três, quatro vezes para cada lado da estrada. 
Não há nada pior para um paranóico do que ser, efectivamente, perseguido. Quando a época começou, com o Benfica a vender tudo, o Porto a reforçar-se a sério e Jackson a anunciar a renovação, temi - como sempre, é verdade - o pior. Não acreditei que aguentássemos a super equipa deles. Posso-vos dizer que o meu pessimismo era sincero e honesto. Não sou gajo para depois ficar a chatear toda a gente com "eu disse-vos! Eu disse-vos!". O meu pessimismo é a minha preparação para a infinita tristeza que se abate sobre mim quando o Benfica perde. Ainda bem que eu não tinha razão. Li uma vez, numa discussão de facebook: "Quanto ao Benfica, não faço questão de ter razão". É uma frase brutal. É brutal porque em tudo o resto quero ter razão, quero acertar, quero validar a minha opinião. Quero estar do lado político correcto, quero acertar eticamente nas decisões difíceis.  Mas quanto ao Benfica não. Só quero que o Benfica ganhe. Não interessa se com o onze ou táctica que eu acho melhor. Nem me interessa se com X ou Y a presidente. Eu quero que o Benfica ganhe. Felizmente para mim, falhei a minha previsão. Oxalá seja sempre assim.
Acho que também há aqui um fundamento cristão, o que é irónico num ateu como eu. Estou plenamente convencido que esta minha humildade, que os meus frequentes elogios ao Porto (que são sentidos, juro), que a constante procura por limpar os nossos pecados – procurando incessantemente os nossos defeitos, como se muitos tweets sobre o assunto os pudessem mudar – abrem-me as portas do céu (no caso, de campeonatos). Isto não quer dizer que eu, na verdade, seja um bazófias como o benfiquista irritante de café que diz “P`RA CIMA DELES!” nem que estejamos a jogar com o Bayern em Munique, eu sinto que o meu papel de adepto é este. É o ser crítico, é o de encontrar elogios nos rivais para os copiarmos e defeitos em nós para os corrigirmos. Para a maioria das pessoas, o futebol é uma festa, mas para mim é uma missão.
Escrevo-vos hoje para dizer alegremente que errei. Que as minhas previsões deram para o torto, que sou o José Peseiro do totobola. Escrevo-vos para dizer que o Velho do Restelo (não o Tiago Caeiro, o dos Descobrimentos, seus ignorantes que só pensam em bola) não tinha razão, e que sim, que os navegadores vão chegar à Índia. Escrevo hoje, feliz, para vos dizer que afinal Jonas é melhor que Rodrigo e que Samaris pode ser um bom 6, apesar de nunca vir a ser um Matic. Que o Pizzi só serve para os jogos em casa, mas não faz mal (ou faz, mas depois falamos disso).
O Benfica, felizmente, não é composto por pessimistas crónicos como eu (se bem que teria a sua graça ouvir a Luz em uníssono a cantar “Alinha com os outros três da defesa, Eliseu!”, em vez do “Glorioso SLB”). É feito daquela gente que ocupou todas as pontes do Porto a Guimarães só para levantar o cachecol aos que viajavam. O Benfica é aquela multidão enlouquecida no Aeroporto do Porto, que não precisou de andaimes nem de colunas para sair à rua. O que eu mais gosto no Benfica é, quando ganhamos, de ver as festas em todas as aldeolas, de ver a festa em Cabo Verde, em Paris, de ver o Benfica na rua. Este ano até um vídeo de 6 malucos a acenderem tochas na República Checa vi. O Benfica, popular, universal, louco, é a maior alegria do mundo.
É por querer, mais do que tudo, essa alegria, que eu todos os anos me preparo para a tristeza de não a ter. Porque eu a quero mesmo muito. Para o ano, vou olhar outra vez seis, sete vezes para cada lado da estrada antes de a atravessar. Vou antecipar perigos, sofrer antecipadamente, ver cada defeito nosso na ânsia de que se corrija. E oxalá – oxalá! – não tenha razão outra vez.



2 comentários:

  1. Pois... um dos problemas do Porto (não dos adeptos mas da famosa estrutura e sobretudo do treinador) este ano foi o ser "optimista" demais e não compreender que quando se erra é fundamental perceber onde se errou pra não voltar a fazer o mesmo...
    Eu também acho que houve algum colinho mas não foi só por isso que o Benfica foi campeão: foi por demérito do Porto e mérito do Benfica.
    Infelizmente para nós portistas, o Benfica dos últimos anos deita menos a culpa das suas derrotas para os outro e tem (um pouco) menos o rei na barriga.
    Espero que o terem ganho o bi lhes dê de novo a volta à cabeça e que o Porto tenha aprendido a lição.
    Os parabéns este ano são para ti; pro próximo espero dar os parabéns à C. :-)

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  2. Li o teu post e revi-me nele. Eu também sou uma benfiquista que vê sempre o copo meio vazio. Mas depois, quando se confirma que afinal não tinha razão, a alegria é tão, mas tão maior. E é nessas alturas que também não me importo de não ter razão e de perder as apostas parvas que se vão fazendo (este ano vou ter de pagar um almoço :-) ). Porque ver o meu/nosso Benfica ganhar é tão bom....

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