quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os velhos

Tinha 2 ou 3 anos e estava a passar férias com a família. Estava calor, íamos a caminhar e tudo o que eu queria era chegar ao local onde podia brincar. Tinha, portanto, toda a motivação que um pequeno humano consegue juntar para andar depressa. No entanto, os meus avós iam connosco. Os meus avós tinham, nessa altura, a capacidade física do Obikwelu, mas eu estava convencida que eles não iam muito além do Mestre Yoda (sábios, muito sábios, mas já não dispostos a grandes aventuras). Conta a minha mãe que tentou acalmar a minha falta de paciência (há quem diga que não mudei muito neste aspecto, um ultraje) dizendo que era preciso “esperar” pelos avós e que era “natural” que eles andassem mais devagar. Ao que parece, a minha mãe acreditava em ser racional com uma criança de 2 ou 3 anos. Mas eu, que não me orgulho muito deste momento, virei-me para trás, olhei furiosa para os meus avós e desabafei:

“Rais’ parta os velhos!”

Os meus avós, que como todos os avós já não tinham a pressão de educar uma criança mas só de a estragar, desataram a rir-se. Riram-se tanto que me atrasaram ainda mais, enfim. A frase eternizou-se na família e é daquelas que repetimos a todos os aniversários e Natais, sempre que é necessário lembrar a alguém que está a demorar muito a fazer algo.

No que diz respeito ao FCPorto, a minha pressa é ganhar. Admito-o: estou habituada a tal e não tenho muita paciência para tudo o que não seja conquistar títulos. Já não sou tão radical como aos 2 ou 3 anos, é certo, mas continuo a ter a mesma motivação para chegar lá o mais rápido possível.

Já aqui o tinha escrito e todos sabíamos: o campeonato estava entregue. Nem que tivéssemos largado tudo e desatado a correr, ele não seria nosso. Agora que somos adultos, não adiantava “esperar” outro cenário, porque um golo de Kelvin aos 92 minutos é tudo menos “natural”. Ora, o problema é que eu acho que um adepto tem a inteligência emocional de uma criança de 2 ou 3 anos. Só isso explica que, perante uma reunião de família a um domingo, o M. tenha faltado para ir a Guimarães, mas, pior ainda, eu tenha saído mais cedo para ir a Belém. Se, no primeiro caso, o cérebro de qualquer humano é capaz de reconhecer a perseguição da felicidade e do prazer em momentos raríssimos, no segundo é mais difícil explicar o que me levou ali.

Não vou chatear-vos com a conversa do ser portista a ganhar ou a perder. Se estão a ler este blog, confio que sabem o que isso é e que partem sempre desse princípio. Se não, podem ter vindo parar aqui porque “Lá em casa mando eu” soa a blog de culinária, mas convido-vos a ficar na mesma.

Eu não fui ao Restelo só por causa dessas lamechices. Fui porque a minha pressa é tanta que já estava a pensar mais à frente. Se eles tivessem corrido, se tivessem tentado andar mais depressa pelo menos, eu teria ficado satisfeita. Mesmo perdendo, conseguiria perceber que estaríamos mais perto da meta: ganhar. Parece estúpido, eu sei. Como é que, a perder, alguém pode pensar que se aproximou de ganhar? Vou tentar explicar como a uma criança de 2 ou 3 anos: o FCPorto, o meu FCPorto, só sabe, só pode ganhar à Porto. Se não corrermos, se não quisermos, estaremos sempre mais longe disso.

Infelizmente, vivemos numa época em que nós, os adeptos e os portistas como eu os entendo, estamos em vias de extinção. A culpa não é só nossa. O futebol, lá em cima, quer-nos assim: a pagar muito e a sentir pouco. Enquanto nós, na bancada, gritávamos a plenos pulmões pelo FCPorto, eles, no campo, ficavam para trás. Devagar. A atrasar-nos.

“Rais’ parta os velhos!”

Senti-me insultada quando, no final, ainda acharam que podiam virar-se para nós, à espera de palmas. Aquela gente (vestida de cor-de-rosa, felizmente, porque se estivessem de azul e branco às riscas eu podia tê-los confundido com o meu clube) vive em que mundo? O que é que lhes passou pela cabeça para não saírem dali depressa, com vergonha do que fizeram, e não terem pedido desculpa imediatamente a seguir, quando usaram os microfones para falar de contratos em vez de portismo? Eles insultaram-me, insultaram-nos e insultaram o nosso clube. Eles, os de cor-de-rosa, e todos os que acham que o caminho é este. Que mais importante do que correr no Restelo é correr para apanhar o comboio de uma Liga dos Campeões repleta de dinheiro, de clubes mercenários e de adeptos que preferem uma Coca-Cola e um 5-5 do que apanhar chuva na bancada e ganhar “meio a zero”.

Neste assunto, sei que não evoluí muito em relação àquele tempo em que era uma criança de 2 ou 3 anos. Continuo a preferir ver os rádios colados no ouvido em Belém, do que as pipocas coladas à boca no Dragão. Até gosto que os telemóveis nos dêem os onzes mesmo antes do aquecimento, mas não percebo que nos tirem selfies quando acabámos de perder não só um campeonato, mas sobretudo a dignidade. Compreendo que um adepto se sente no sofá a apreciar um Barcelona-Bayern, mas nunca que não lhe passe pela cabeça ir sofrer para Penafiel numa noite de temporal. Sei que o mundo mudou, mas não sou obrigada a gostar dele.

“Rais’ parta os velhos!”

Eu sei, eu sei, é uma luta inglória. Vamos sempre perder, não adianta. Mas foi por isso que fui ver o último jogo da época. O meu clube sabe que não o deixo, a ganhar ou a perder, lá está o cliché. Mas, se não sabe devia saber, também não o vou deixar ir por este caminho sem dar luta. Bem podem tentar apanhar-me naquela espécie de “kiss cam” que procura os adeptos com uma Coca-Cola na mão para lhes dar um lugar privilegiado no estádio, que vão sempre encontrar-me, como em Belém, num maldito zoom, a cantar que foram uma vergonha. Peço desculpa pela falta de paciência, mas, se não valorizam os poucos que assim restam, aviso já que vai ser difícil verem-se livres destes, porque são os mesmos que, depois de Munique, vão à luz, a Setúbal e ao Restelo, seja à sexta ou ao domingo, faça chuva ou faça sol, corram os de cor-de-rosa ou não corram.

Mas talvez estejamos errados. Talvez não estejamos a perceber que, mesmo no jogo em que já não há nada para ver, se possa meter umas fotos do Reyes e do Herrera no Facebook, com legenda em espanhol, e ganhar mais uns likes mexicanos. Talvez isso seja mais importante do que aqueles malucos que estiveram calados e que foram assobiados ao cantar o hino. O hino... Os malucos parece que sabem a letra... E sentem-na... Talvez o caminho não seja esse e bom, bom, era se fôssemos todos como o atrasado mental atrás de mim, que passou o ano a tratá-los mal, a chamar-lhes nomes, a ser muito “exigente” porque pagou bilhete, mas que, neste jogo, batia palmas a cada passe para trás, naquele sistema que há umas semanas apelidava de “uma p$%/ de uma pouca vergonha”. Esse não o vi no Restelo, não sei porquê. Nem em Penafiel, sem conseguir insultá-los em voz alta porque a roupa encharcada, parecendo que não, afecta a projecção da voz. A esse não o vejo levantar-se e cantar o hino, não percebo...

Bom, bom, é se conseguirmos vender uns quantos jogadores e meter na cabeça aos que ficam que o que é preciso é passar a fase de grupos da Liga dos Campeões. Se continuarmos assim, de certeza que isto vai correr bem. Qual é o problema do rival ser bicampeão, afinal? Para o atrasado mental atrás de mim, nenhum, porque ele foi mais agressivo com os malucos que protestaram em silêncio neste jogo do que com o Maxi Pereira, que fez à vontade o lançamento para o primeiro golo na linha que fica mesmo à nossa beira. O estádio parecia um cemitério sem os malucos a cantar, mas, para ele, a vergonha foram os malucos, como eu, terem saído mais cedo só neste jogo, em protesto, e não o que aconteceu no Restelo, na luz e na Madeira, onde os mesmos malucos apoiaram o clube até ao fim. Porque bom, bom, são os que saem mais cedo para não apanhar trânsito e jantar mais cedo. E desengane-se quem pensa que o atrasado mental é só um atrasado mental: ele é um reflexo do que este futebol, lá em cima, quer que ele seja.

Mas, com ele, de certeza que vamos longe. Com ele, vamos em frente, e depressa, como uma criança de 2 ou 3 anos que quer ir brincar. Enquanto houver dinheiro para as pipocas, lá estará ele na linha da frente. Enquanto houver likes nas redes sociais, ele não dormirá mal por perdermos. Enquanto houver um “Somos Porto” ou “Sempre Preparados” para os de camisola cor-de-rosa usarem sem saberem o que significa, não precisaremos de nos preocupar com nada. E, para trás, ficarão todos os que, mais do que as derrotas, vão demorar a aceitar a falta do Futebol Clube do Porto.

“Rais’ parta os velhos!”




1 comentário:

  1. Grande C,

    Embora subscreva toda a tua crónica, não posso deixar de te dizer que os sinais neste defeso vão já no sentido contrário: o de ter o Portismo nos jogadores, custe o que custar. Mesmo nos que vieram de fora.

    Posso ser eu, optimista incorrigível, mas daqueles que também está lá, que nunca tirou uma selfie no Dragão - tirei sim, umas fotos à minha filha de 7 anos que foi pela primeira vez ao Dragão e que adormece com o hino do FC Porto, abençoada pelo autógrafo do Óliver no cartaz que ela fez para lhe mostrar - e que, no entanto, acredita sempre até ao fim. Um treinador passado com a inércia em campo deixa-me esperançado. Bem como o regresso à base de quem sabe de que massa aquela merda é feita, carago!

    E sim, por falar em massa, a verdade é que eu também acho que a SAD foi a primeira a ter o discurso de que falas, e isso passou para os jogadores. Quando se põe Bilbao à frente da Taça, não se pode esperar outra coisa...

    Não percas a esperança, porque parece que o dinheiro que se vai ganhar vai para trazer Portistas a sério, e assim eu e tu vamos poder vibrar com os Portistas que temos no campo e dizer:

    - Isto é que é Porto à Porto carago!

    Porque contra o Setubal com -54º não havia pipoqueiros. Isso é um epifenómeno. E passa.

    Importante é que eu, tal como o teu Pai contigo, já estou a criar uma Portista de gema em casa, apesar de partilhar o teu fado de estar casado com uma benfas e estar a ouvir festejos todo o #%&# do dia na minha própria casa.

    Enfim, "contigo até ao fim, tu és o nosso Amor"

    Abraço Azul e Branco,

    Jorge Vassalo | Porto Universal

    ResponderEliminar