sexta-feira, 8 de maio de 2015

Prazer e guerra

Quando Leo Messi dobrou Boateng e o mandou ao chão, encontrando, pela enésima vez, o pé de apoio do adversário e fintando-o para esse lado (o lado do pé preso), levantei-me do sofá. Uma onda de prazer já me tinha percorrido o corpo, mas torci para que a obra de arte ficasse completa - uma finta daquelas tem de dar golo - mas nunca pensei que Messi, sempre à frente do mundo inteiro, resolvesse fazer um chapéu com o seu pé "mau", quando Neuer e todos nós esperávamos algo daquele pé esquerdo. Messi faz-me ter prazer a ver bola. É o jogador por quem eu torço, o homem que me faz feliz a ver futebol. É o jogo pelo jogo. Messi é futebol. O futebol. Perfeito, irreverente, imprevisível, genial. Todas as palavras são poucas, mas as melhores que vi foram estas:


Quando Suljemani, num gesto muitíssimo inteligente, centrou em vez de chutar no primeiro golo em Barcelos, o meu coração parou meio segundo com medo que Jonas e Maxi se atrapalhassem e a bola não entrasse. Fiquei aflito, dobrado já pela dor que seria desperdiçar tão soberana oportunidade em tão importante jogo. O meu festejo foi o de sempre no primeiro golo do Benfica contra estas equipas pequenas: um grunho de sílabas que soa qualquer coisa como "GOOOOOOOOOOOOOAAAHAAAARAAAGHAHCARALHOOOOFODA-SEBORAAAAAAAAAAHHHHHLOOOOOOOOOO". É um misto de alívio, sofrimento (porque já marcámos o 1-0, mas eles agora podem fazer o 1-1 e a equipa desmoraliza e falta o Salvio, e a falta que o Enzo faz! Defende JJ! Não, ainda não, que se eles empatam mesmo depois não temos ninguém para meter para a frente! `Bora Benfica! Grande Maxi! Defender! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA!) e uma dose exagerada de irracionalidade. Um bocadinho distante de comparações com pinturas de Picasso. É um misto de cobardia, sofrimento e alívio. No segundo golo o meu coração já consegue festejar um bocadinho e admito que festejei o quinto golo acima das minhas possibilidades, cometendo a loucura de acreditar que, com longos 15 minutos por disputar, o penúltimo classificado Gil Vicente já não ia conseguir marcar 5 golos ao Benfica. O mais estúpido é que assim que eu festejo os 3 pontos, algo em mim sussurra: "Se eles empatarem, a culpa é tua".

É também por isso que eu adoro ver Leo Messi. Os jogos do Benfica são para ver contraído, com concentração máxima, como se eu fosse um soldado americano no meio do Vietname, sempre com medo de pisar uma mina. Artur Semedo, que era um sofredor como eu, dizia que se punha debaixo da mesa quando o Benfica jogava. A maioria das pessoas não percebe que não há ali metáfora nenhuma. O homem metia-se debaixo da mesa com os nervos, esmagado pelo peso do jogo. Quando eu vejo Leo Messi, não tenho que me esconder debaixo da mesa. Posso deitar-me no sofá, descalço, de pernas cruzadas, e sei que é como abrir um bom livro. Se correr mal, fecho o livro e pronto, espero pelo próximo. Quando corre bem, só me apetece contar o livro a toda a gente. Eu não gosto de falar do Benfica às 2ª feiras, depois do jogo, porque, exceptuando algumas vitórias demasiado doces para não serem partilhadas, os jogos do Benfica são para mim demasiado sérios para serem discutidos com leviandade enquanto se põe açúcar no café. O Benfica é para ser discutido com correlegionários, com pessoas que também sentem o campeonato como uma guerra, quer o enfrentem com coragem ou se ponham debaixo da mesa. 

Leo Messi não. Leo Messi é a ópera, a literatura, é brincar na praia com os meus sobrinhos. Messi é o prazer descomprometido, o futebol onde cada passe é para ser apreciado, onde cada finta é uma sobremesa. É ler uma crónica do Lobo Antunes, um livro do Saramago. As fintas de Messi, como aquela coisa que ele fez a Boateng (por amor de Eusébio, aquilo é tão bonito) criam a antecipação que eu tinha quando era miúdo antes de abrir uma carteirinha de cromos. Messi é o último cromo da caderneta, é marcar o golo decisivo no intervalo da escola, é toda a alegria do mundo. 
Não deixa de ser curioso que esta minha alegria com o mago argentino só possa acontecer porque ele não é do Benfica. Se Messi fosse do Benfica (vamos fazer uma pausa para pensarmos nisto. Suspiro), eu não ia ter este prazer todo. Ia-me zangar quando uma finta saísse mal ("dá a bola, porra!", "Foda-se, tu hoje não estás bem!"), ia passar-me quando os companheiros não o percebessem ("não passes a bola a esse burro!") e ia perder a distância que me permite admirá-lo tanto. 

Escrevo isto para vos dizer, com alguma vergonha, que falei sem parar sobre o golo de Messi nas últimas 48 horas. Foi o acontecimento mais bonito de 2015, em todas as artes. Mas festejei mais aquele encostar do Maxi, e faria desaparecer aquele drible para garantir que amanhã ganhávamos com um golo do Eliseu, de barriga. E escrevo isto por me sentir culpado. Enquanto o Benfica não for campeão, não nos devemos distrair com nada. Estamos no Vietname. Não há tempo para artes, para descobrir a penicilina, para apreciar escultura. Temos é de ganhar ao Penafiel. Eu amo futebol, adoro ver Messi com a bola colada ao pé esquerdo, mas o meu amor pelo Benfica é maior. Pelo Benfica, eu queimava a Guernica e partia a escultura de Miguel Ângelo. A minha doença pelo Benfica fazia cair dez Boatengs. Força, rapaziada. Ganhem a guerra, que não há maior prazer no mundo.

Correcção: O acontecimento mais bonito de 2015 foi a recepção do Jonas contra o Braga. O golo de Messi fica num honroso segundo lugar.


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