sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Azul e branco

O futebol desilude-me quase todos os dias. Não falo só do meu clube, mas mesmo do todo. Acho que com este blog já foi dando para perceber que eu não vou muito na onda da pipoca e bebida na bancada, das marcas multinacionais pintadas nas cadeiras e do ir ao estádio alegremente para ver a super-estrela daquela equipa espanhola ou alemã que infelizmente nos calhou.

Sou, neste aspecto, o chamado Velho do Restelo. Esta é, aliás, uma expressão que me recorda o momento em que percebi mais nitidamente que eu e este futebol não somos compatíveis. Não sei se já vos aconteceu mas, de repente, dei por mim numa bancada, totalmente alheada do que estava a acontecer à minha volta, e a pensar “Mas o que é que eu estou aqui a fazer? E quem são aqueles no campo?”. Bem, isto escrito não fica assim tão bem, mas prometo tentar, até ao fim do texto, tirar-vos da cabeça essa sensação de que enlouqueci de vez.

Belenenses-FCPorto, 17 de Maio de 2015. Certamente se lembram das condicionantes da partida: tínhamos de ganhar para evitar que o rival fosse campeão. Não adianta espremermos muito isto, porque ainda me dói, ok? Voltemos apenas por breves segundos àquele momento em que uma equipa irreconhecível nos borra de vergonha e perde não só um título, mas uma velha máxima portista: podes não ganhar sempre, mas nunca desistes de lutar.

E foi assim que dei por mim a insultar 11 marmanjos que ainda achavam que mereciam palmas no fim. Felizmente, estavam vestidos de cor-de-rosa. É-me muito difícil insultar assim pessoas equipadas à Porto. Apesar de ter desgraçado a minha vida ao casar com um benfiquista, ainda acredito que quem veste uma camisola do meu clube é melhor pessoa só por isso. Vejam o Maxi, por exemplo. Não vou voltar a lembrar-vos do que pensava dele antes, mas apenas sublinhar que, de azul e branco, acho que é o melhor lateral-direito do mundo (mister Lopetegui, aproveite e anote bem a posição dele, não vá dar-lhe para trocar tudo outra vez).

De azul e branco, tudo e todos ficam melhor. Ora, e se não me pode ser assim tão difícil aceitar que, às vezes, é possível que outra equipa, numa tentativa ridícula de se aproximar do melhor clube do mundo, escolha as mesmas cores para se representar, obrigando-nos, por isso, a ter um equipamento alternativo, mais insólito é um Velho do Restelo adaptar-se a um futebol onde são precisos dois equipamentos de cores diferentes todos os anos e que ainda por cima são bastante usados.

Chamam-lhe o futebol moderno, a necessidade de vender camisolas e de fazer crescer uma “marca”, sendo que nem estão a falar da marca que efectivamente faz um bom dinheiro com as camisolas, mas do meu clube. O meu clube, uma marca. É assim que funciona agora, eu sei, porque os grandes clubes têm de ser grandes marcas. E não podemos ficar para trás, claro, porque ao Velho do Restelo também não interessa um clube muito fiel aos seus princípios que perca sempre.

Estamos, portanto, perante um dilema. Por um lado, não podemos ter sempre o mesmo equipamento, o mesmo azul e branco, as mesmas riscas, as mesmas meias, a mesma gola. Não devíamos sequer não ter patrocinador, embora esta seja uma bênção dos deuses para o Velho do Restelo que quer uma camisola “limpa”. Não podemos ignorar o mundo à nossa volta e acreditar que, se estivessem vestidos à Porto, aqueles mesmos 11 marmanjos se iam arranhar todos por uma vitória num jogo que muito provavelmente nem serviria para nada. Mas, por outro lado, seja de cor-de-rosa ou de castanho, a verdade é que eles parecem estar cada vez mais distantes de nós.

E escrevo isto porque tenho tido alguma dificuldade em ver o FCPorto a jogar de azul e branco. Não sei se é da época natalícia, mas tenho reparado que a minha equipa joga de seguida com outras cores, nem que seja em casa ou com um adversário verde e amerelo. Parecemos uma espécie de Black Friday, a acenar vividamente aos consumidores: “Vejam este castanhinho, tão lindo e que cai tão bem, é para o menino e para a menina, e por apenas muitos e muitos euros”.

Peço desculpa aos vanguardistas deste futebol, mas isto também é culpa nossa. A única camisola que tenho do FCPorto que não é azul e branca é roxa e foi-me oferecida por ir à meia-final na Corunha. Bem podem fazer toda uma campanha à volta do camuflado que não me convencem que sou mais guerreira por isso. Oh, e a tentativa de me fazer comprar uma coisa cor-de-rosa (uma cor que fica ao lado do vermelho na paleta, por amor de Pinto da Costa!) só porque sou mulher, que falhanço.

Mas, esperem, estas camisolas vendem muito. Se as vejo na bancada é porque são um sucesso. Pois é, e isto funciona porque as pessoas compram. Não adianta andarmos todos a fazer de conta que somos Velhos do Restelo se depois aderimos ao kit “Venha ser um Adepto-Consumidor” num instante. E não falo só de moda, isto é uma questão de atitude. De que serve exigirmos aos nossos jogadores que lutem como um João Pinto, se passamos a semana a falar de direitos televisivos? Há adeptos fanáticos a celebrar direitos televisivos! E há outros adeptos fanáticos a criticá-los! E há outros adeptos fanáticos a quererem igual! Salvem-me! Tirem-me daqui! Quero voltar às semanas a criticar o Tonel por aquele penálti! Metam-me numa máquina do tempo e façam-me voltar ao Domingo Desportivo e aos resumos sem necessidade de HD para constatar que “O meu clube é mais roubado pelos árbitros do que o teu”!

Desculpem a efusividade, mas isto incomoda-me mesmo. E incomoda o meu avô, que é o maior portista do mundo, portanto temos mesmo de parar com isto. Acho que até já vos contei aqui o célebre episódio, passado há muitos e muitos anos, em que o meu avô - que, curiosamente, também é o maior anti-benfiquista do mundo - torceu uns minutos pelo benfica em Vidal Pinheiro porque nunca pensou que os vermelhos pudessem ser os bons. Aquele momento em que João Vieira Pinto cai na área, numa das suas milhares de tentativas de sacar um penálti, e o meu avô grita “PENÁLTI!”, com absoluta convicção de que o Salgueiros estava obviamente a ser roubado, é não só uma das recordações familiares mais contadas em cada Natal, como também é um bom exemplo da problemática que hoje nos ocupa.

O meu avô foi enganado, talvez um bocadinho pelo equipamento alternativo e muito pelos óculos que deviam estar com a graduação errada. Mas isto aconteceu uma vez, há muitos e muitos anos. Só que agora somos todos enganados. Tanto que, no passado fim-de-semana, num jogo de andebol em que o FCPorto se apresentou com o equipamento alternativo, o meu avô esteve sempre a torcer pelos azuis contra “os filhos da puta de castanho”. E desculpem se é por gostar tanto do meu avô – e de também eu ter problemas de visão - que o compreenda perfeitamente. Não faz sentido um mundo em que, constantemente, os azuis são os maus e “os filhos da puta de castanho” são, afinal, o nosso clube.

Não sei se ainda vou a tempo, mas é por isso que venho pedir encarecidamente que, até ao Natal, ainda me seja possível ver umas quantas vezes os meus rapazes vestidos à Porto. Já não peço que, só por isso, eles se vão tornar 11 Andrés Andrés, com camisola e sangue portistas, mas pelo menos assim o meu avô poderá continuar a torcer por eles. Porque para ele, para mim, para qualquer Velho do Restelo, o nosso coração só tem uma cor: azul e branco.

5 comentários:

  1. Ou entrar no Dragão para um jogo da champions e achar que estou a ver o marselha-bastia...

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  2. Esta merda tem de acabar. Não sou azul mas compreendo-te perfeitamente. No meu clube até já inventaram um azul á Benfica. As nossa cores, e daqui depreende-se todos os clubes, são as nossas cores. Mas infelizmente, já existem os adeptos que não conhecem a história do próprio clube e gostam muito de "modas", alinhando nos rosas, castanhos, amarelos florescentes, etc. Respeitem-nos por favor. Cumprimentos Catarina e nunca deixes de ser a adepta que és (sei que esta última frase era escusada).

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  3. Torcer por um clube sem ter que humilhar os outros em Portugal é obra.Parabéns.

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  4. Os próximos passos são a excursão de turistas chineses aos estádios e o aumento do preço dos bilhetes... Vai ser casa cheia todos os fins de semana e cada jogada documentada por milhares de Ipads! Nem um "fdp" o árbitro vai ouvir durante 92'

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  5. Uma luta de todos os apaixonados pelo seu clube independentemente de qual seja, uma luta contra o futebol moderno/negócio e uma luta contra os adeptos modernos também!!

    Viva o Sport Lisboa e Benfica!!!! 1904

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