quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Os milhões

"O que se passa no futebol não é nada diferente do que se passa noutras áreas de actividade no nosso país. As estatísticas mostram que as grandes fortunas aumentam e o grosso da população cada vez tem maiores dificuldades. Quando todos os meios são canalizados para poucas pessoas ou entidades, é evidente que não sobra nada para os restantes"


Chegou o dia: finalmente citei um grande filósofo da actualidade, capaz de misturar as frases mais complexas de Camões com as teorias mais evidentes de Marx. Falo, claro, de Manuel Machado. O treinador do nacional foi questionado, depois de um jogo até muito bom da sua equipa, sobre os contratos que os três grandes assinaram com duas operadoras de televisão, o que, só por si, diz muito da loucura generalizada a que temos assistido nos últimos dias. A pergunta é pertinente, claro, porque é o assunto do momento e os clubes mais pequenos têm uma palavra a dizer. O problema é que nós, adeptos (?), andamos demasiado obcecados com isto.

Claro que não sou ingénua. Quando se fala destes valores astronómicos, trata-se de uma injecção nunca antes vista nos três grandes, com óbvios reflexos no futebol português da próxima década. E sim, acho muito bem que estes se discutam. E foi isso que Manuel Machado fez. Só que, curiosamente, não é esta a conversa que estamos a ter na bancada. Entre adeptos (?), o que interessa agora é saber se o meu milhão é maior do que o teu. De repente, parece que o cachecol se levantou da cadeira azul, vermelha ou verde e se sentou à mesa de negócios. Parece que decidimos trocar todos o equipamento pelo fato e gravata e já todos falamos de "sponsors" e "direitos de exploração" de um canal com a mesma paixão daquele penálti por assinalar ou fora-de-jogo mal tirado.

Mas está tudo maluco? Andamos aqui a queixar-nos tanto de como os nossos clubes se esqueceram de nos tratar como adeptos e, afinal, queremos todos ser clientes? Queremos tanto que os rapazes suem as camisolas e, afinal, estamos mortinhos por vestir uma da Meo ou da NOS? Pagamos tanto por bilhetes de maus espectáculos de futebol e, afinal, estamos dispostos a pagar mais para ficar no sofá com a operadora que assinar contrato com o nosso clube? Vendemo-nos por 400 ou 500 milhões? Vá lá, até o Banif vai custar bem mais do que isso.

Claro que se me dissessem assim "C., nos próximos 10 anos o teu clube vai ganhar mais dinheiro com a transmissão dos jogos e, ao mesmo tempo, as bancadas vão ter mais 400 ou 500 milhões de adeptos ferrenhos" a conversa era outra. Nada me parte tanto o coração de adepta como bancadas vazias ou repletas de assobiadores/pipoqueiros/clientes profissionais. Isso é que me preocupa. Se os três grandes assinassem um contrato para proibir a debandada de clientes que saem aos 80 minutos de um jogo por resolver só para não apanhar trânsito, isso sim, seria aplaudido por mim. Se os clubes pequenos assinassem um contrato para baixar os preços dos bilhetes e que proibisse os treinadores de jogarem todo o santo campeonato para o empate, isso sim, seria de louvar.

Eu bem sei que os tempos não estão fáceis para falarmos de futebol. O novo ano está aí à porta e são demasiado poucos os jogos que nos ficaram na memória até agora pela qualidade. Não há nenhuma equipa que nos deixe de boca aberta, de treinadores então é melhor nem falarmos e, nesta altura, escolher o melhor jogador do campeonato é basicamente distinguir aquele que, entre os maus desempenhos colectivos, mais conseguiu resolver as coisas sozinho. Tudo isto é feio, não entusiasma e tira pessoas das bancadas para as discussões nas redes sociais sobre contratos televisivos.

Por isso é que a culpa não é só destes adeptos (?). Há muito tempo que digo que os clubes querem isto. Faltam três dias para o jogo mais importante da época até agora, entre dois rivais que precisam desesperadamente de ser campeões este ano por razões diferentes e com protagonistas que, mal ou bem, provocam muitas paixões e muitos ódios e, mesmo assim, parece que anda tudo adormecido com os milhões. Não tenho dúvidas que, no sábado, nas bancadas de alvalade, vão estar milhares de adeptos ferrenhos a puxar pelas suas equipas (no caso do FCPorto, com a enorme vantagem de não jogar com os adeptos (?) do Dragão). Mas no campo, nos bancos e nas tribunas VIP já não confio. Se me querem como cliente, a adepta torce pelo seu clube, sempre, mas não pelo futebol que vocês querem.

Vou resistir até não poder mais aos contratos milionários, aos sponsors e aos namings. Não vou comprar camisolas de outras cores e formatos. Vou fechar a boca às pipocas e à Coca-Cola. Não vou participar nos concursos de selfies ou na "kiss cam" (até porque teria de beijar outro homem que não o meu marido e seria eventualmente chato). Vou continuar a esperar que o meu clube se lembre que em 2014 fiz 25 anos de sócia. Não me vou importar de ficar para trás neste mundo das marcas, das operadoras e dos likes nas redes sociais. Já há muita gente paga nos clubes para se preocupar com isso, e sei que tem de ser assim. Agora a mim, a nós, não nos deviam arrastar para isto.

Por isso, fica o apelo: não vão com a corrente. Libertem-se das amarras do futebol moderno e voltem às discussões estúpidas e irracionais sobre o penálti e o fora-de-jogo. Imaginem o que será o campeonato nos próximos 10 anos, disputado mais entre duas operadoras do que entre três rivais. Lembrem-se daqueles domingos na bancada, com o rádio colado ao ouvido e a ansiedade de chegar a casa para ver os resumos. Vão lá buscar o álbum de fotografias ao baú para recordarem a vossa primeira camisola ou cachecol e mostrem-no aos vossos filhos, que neste momento têm tanta vontade de ser do vosso clube como do Barcelona ou do real madrid. Saiam do sofá e vão à bola, não para assobiar ou recordar o momento no instagram, mas para exigir que não nos tirem a paixão. Porque, meus caros, sem ela, não há milhão que nos salve.

1 comentário:

  1. Welcome to reality! Já o digo há muitos anos, porque é isso que sinto: somos clientes. Adeptos?! Já era. No Benfica, é exactamente isso que sinto.
    Como é que isto tudo se salva?! Sinceramente, não é fácil responder. Mas, a bem ou a mal, vai mudar, nem que seja mesmo à força. Até lá, muita coisa se vai perder pelo caminho, muitos adeptos (?) vão abandonar. O pessoal que acompanhava comigo na bola é cerca de metade do que era há 10 anos atrás. E a tendência é que seja cada vez menos...
    Está tudo cansado dos paineleiros desta vida, que assumem incompreensivelmente cada vez mais papeis de destaque; dos jogadores mercenários que trocam a honra por meia dúzia de patacos; de presidentes que mentem com todos os dentes que têm na boca e se perpetuam no poder; de treinadores e dirigentes fracos, amadores; das guerras de palavras; dos milhões esbanjados e que alguém no futuro os irá pagar...
    O futebol é cada vez mais isto. E, sinceramente, estou cada vez mais farto.
    Sou Bi-Campeão, mas tudo isto que aqui escrevo, tira cada vez mais brilho à magia de o ser...

    P.S.: Boa posta. Também já era tempo do marido escrever qualquer coisa, nem que seja a dizer mal do Rui Vitória, mais uma vez...

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