sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Conversa sobre árbitros

Como é que um casal de fanáticos, ele do Benfica e ela do Porto, vivem na mesma casa? Como é que gostam um do outro se detestam tanto o clube do outro? Como é que, nestes dias em que não se fala de outra coisa, não andam constantemente a discutir arbitragens?

Pois, a verdade é que grande parte do segredo desta relação está aqui: não discutir árbitros ou, não o conseguindo evitar, fazendo-o sempre no pressuposto de que o outro vai defender o contrário e não vai mudar de opinião. Não há fanático que o faça racionalmente, não há doente que admita um favorecimento nem há adepto que se esqueça que foi prejudicado.

Na verdade, se nos assumíssemos, a nossa vida seria basicamente isto:


M: Bom dia, C.

C: Colinho. Andas ao colinho.

M: Queres que te faça o pequeno-almoço? Talvez... fruta com café com leite?

C: Não preferes pagar ao Capela para ele mo fazer?

M: Apito Dourado.

C: Vá, M., faz lá isso que estou atrasada. Ao contrário do Maxi, que estava um bocadinho adiantado...

M: Estás atrasada? Mas vais a Penafiel? Lá podes andar à vontade que toda a gente considera que estás atrasada...

C: Calabote.

M: Pronto, vou despachar-me que tenho de ir trabalhar. Tu hoje vais à festa de despedida do Proença não é?

C: Eu e o Cardozo, que ainda se lembra daquelas duas mãos que deu no jogo que vocês tanto falam do Maicon.

M: Escutas.

C: Este fim de semana vamos para a tua casa no Algarve? Tipo Estoril?

M: Sim, mas não vamos pela Cosmos.

C: Rennie.

M: Achas que esta casa é segura? Ou é melhor chamares o Guarda Abel?

C: Vê lá se não faço um túnel no corredor...

M: Azia.

C: Ainda estou à espera que me expulses desta casa. O Cosme demora muito?

M: Calma, não és assim tão caceteira como o Jorge Costa, Paulinho Santos, Bruno Alves, Casemiro...

C: Só choradinho.

M: O Jorge Sousa é dos Super Dragões.

C: O fiscal-de-linha do Guimarães-FCPorto gosta da página de Facebook do Benfica.

M: Andor. Temos de ir trabalhar.

C: Kompensan.

M: Amo-te.

C: Amo-te.



Gostávamos de agradecer aos nossos leitores que enchem a caixa de comentários com argumentos deste género pela preciosa ajuda nesta conversa imaginária.

Também gostaríamos, neste cenário, que alguém do Sporting pudesse viver cá em casa só para acrescentarmos a estes poderosos argumentos os que temos guardados para eles. Mas, infelizmente, como toda a gente sabe, só Benfica e Porto estão unidos pelo casamento. O nosso, portanto. Vamos então tentar mantê-lo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Acordaram o monstro

Foram anos muito bons. De vitórias, de humilhações aos outros, de gozo constante. Ganhar é sempre bom, mas sabe melhor quando é assim. A eles. Obviamente, não podia durar para sempre. É futebol, dizem. Escusávamos, digo eu, de lhes entregar de bandeja um ano completamente perdido.

- Um ano muito mau não apaga os anos anteriores muito bons.

Bem, é verdade...

- Aquela derrota em casa não é o fim do mundo.

Sim, sim, está bem...

- O título está ao nosso alcance, calma.

Hum, ok, ok, eu aguento...

A verdade é que não aguentava mais. Não eram tanto os pontos de distância para cima, era a distância a que estávamos do FCPorto que eu conheci. No Dragão, os assobios, os comentários maldosos, as pipocas. E os rapazes em campo a deixarem-se comer pelo apito. Não pode ser, não pode ser. Ninguém lhes diz nada? Ninguém os avisa? Eles não vêem o que está montado desde a primeira jornada deste campeonato? Sou só eu que estou maluca???

Felizmente, não. Já em Penafiel os tinha visto. Naquele batatal, numa noite gelada, a correrem, a suarem, a darem tudo. Sem esquisitices, sem os penteados da moda a atrapalhar, sem a cabeça a pensar na selfie que iam tirar no balneário. O treinador, à chuva, sempre perto deles. E eles, ainda mais encharcados do que eu, a lutar, a lutar, a lutar... Não foi bonito. Não, não foi. Nem por linhas tortas consigo defender que foi o melhor jogo da época. Mas fez-me ter esperança em algo mais do que três pontos: de que está a construir-se uma equipa. À Porto, se for possível.

O que aconteceu em Braga não nos surpreende. Sabemos o que nos espera este fim-de-semana, para o outro, para o outro ainda e até ao fim.

- Os árbitros erram para todos os lados.

Bem, há uns que se têm safado...

- Os outros jogam bem e estão muito fortes.

Sim, sim, com alguma ajuda...

- Têm que mostrar que são melhores.

Hum, ok, ok, mas também têm de nos deixar...

Ontem, mostrámos isso e muito mais. Em campo, a garra emocionou-me. Helton, desculpa todas as vezes que escrevi que um guarda-redes do FCPorto não pode sofrer um golo na luz por estar a ajudar o Maxi a levantar-se (e não pode, porra, tu sabes que não pode). Acho que, a certa altura, soltei um “amo-te”. É uma palavra forte, eu sei. Demorei mais tempo a dizê-la ao M. do que às tuas defesas de ontem. Mas algo me diz que não fui a única. Obrigada e volta, estás perdoado!

Todos, juntos, foram uns heróis. Aquilo não era para qualquer um. Quando o treinador ameaçou ir embora, eu já estava de malas feitas. Ficar, sofrer, aguentar é que foi difícil. Parabéns. E obrigada. Obrigada por me terem feito acreditar no que aí vem. Apesar de tudo, apesar de todos, eu acredito. Acredito em vocês. Acredito na bancada que ontem tanto vos apoiou. Eu sei que sou uma menina e choro com todos os filmes foleiros, mas fiquei de lágrimas nos olhos ao acompanhá-los, ao longe. Nós, no estádio ou no sofá, os que batem palmas e os que assobiam, os que gastam tanto dinheiro e abdicam de tanta coisa por um jogo e os que comem pipocas, estávamos todos lá. Todos. E temos de continuar a estar. Eles precisam de nós.

Porque ontem, quando ouvi aquele apito final, percebi. Senti. Não teve nada a ver com aquela competiçãozinha, com aquele resultado, com aquele ou o real adversário. Ontem, quando ouvi aquela bancada, soube que o FCPorto está de volta. Acordaram-nos. Obrigada por isso. Agora vão ter que levar connosco.