quarta-feira, 25 de março de 2015

Atenção, crianças

Antes de mais nada, deixem-me pedir-vos desculpa por este interregno tão prolongado na nossa escrita. Não se preocupem: cá em casa está tudo bem (apesar do último fim-de-semana atribulado), não houve divórcio (apesar de ter quase a certeza que o meu marido gosta mais de um árbitro qualquer do que de mim) e sobretudo não deixámos de ser estupidamente doentes (apesar de os nossos clubes teimarem em tornar-nos doentiamente estúpidos).



Jogo em casa. Domingo à noite. Frio e ameaça de chuva. Atrás de mim, pai e filho conversam. O Ronaldo perdeu, o Messi está a jogar muito, o Chelsea que não sai lá de trás por causa do Mourinho, o PSG, coitado, sem o Ibra. Já vai longo o debate e nós no campo a sofrer. “E o City, que desilusão”, diz ele. “E o Arouca, que perigo”, temo eu.

Sofro de cada vez que ouço aquele “Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Dói-me que ele lute pelos comandos da Playstation para escolher primeiro o Bayern. Confunde-me aquela camisola do Neymar tão desejada e imaculada lá no armário.

“Ele até gosta do FCPorto, mas torce mesmo é pelo Real Madrid”. Eu até compreendo, mas acho mesmo é que vocês são idiotas. Eu até desculpo, mas espero mesmo é que vocês não se reproduzam mais. Eu até partilho o mesmo planeta convosco, mas desejo mesmo é não estar na mesma bancada.

Oh, mas o Bayern tem tantos jogadores bons que é impossível não querer jogar com eles na consola. É o Neuer, é o Robben, é o Ribéry, é o Muller. “Ele sabe todos, até os números nas camisolas”. Uau, que prodígio. Isso serve para alguma coisa além de facilitar os insultos nos quartos-de-final da Champions? Quero vê-lo a ter coragem de mandar o Schweinsteiger para o #!”%!%#. Aí sim, tinham valido a pena todos os dias fechado em casa a jogar sem esfolar os joelhos.

Bem, mas afinal quem é que não quer uma camisola do Neymar? “Ele tem estilo...” E tem instagram, e facebook, e twitter, e cenas. #neymarélindo #neymaréomelhordomundo #neymarlevou7daalemanha #neymarselevasodaniloemboratemosproblemas. Pelo menos a camisola é para usar num campeonato de inter-turmas que abrange craques desde o Barcelona ao Ramaldense? “Não, cruzes, foi tão cara, não é para sujar”.

Como é que chegámos até aqui? Como é que, de repente, passámos das bancadas molhadas para o coração seco de um miúdo que sabe citar todos os golos, todas as assistências e todos os penteados do Cristiano Ronaldo? Como é que o tempo passou tão depressa desde aquela taça nas mãos do João Pinto até um hino da Liga dos Campeões que é música para os ouvidos de tantos mini-adeptos do PSG? Como é que não lhes soubemos mostrar que, por mais belo que seja o futebol mundial, é a bola lá da rua que nos distingue?

Queixamo-nos que o futebol já não nos dá valor, que pagamos bilhetes caros, que não temos ídolos nos nossos clubes. Tudo verdade. Tudo mudou. O espectáculo virou moda e a moda virou vaidade. Os jogadores são galácticos, as equipas são montras e para quê insistir na paixão se é o dinheiro que nos move?

Vamos desistir, então. Vamos deixar que as nossas crianças cresçam a saber escrever Lewandowski, mas sem saber o que é a traição de sair para o rival. Vamos deixá-las invejar as tatuagens de um Ibrahimovic, sem perceberem a diferença entre uma Juventus, um Barcelona ou um PSG. Vamos entretê-las com o duelo Ronaldo-Messi, sem as levarmos ao estádio para sentirem, para aprenderem, para sofrerem.

Ou então vamos dar luta. Vamos pegar nelas e ensinar-lhes o que é ter clube, ter uma identidade, apoiar os nossos. Vamos dar-lhes aquele cachecol antigo, vamos cantar-lhes aquela música mais ou menos insultuosa para com os tristes coleguinhas que não partilham este bem comum. Vamos explicar-lhes tudo o que não tem sentido nisto e vamos deixá-las descobrir como só torcer assim faz sentido. Vamos mostrar-lhes que, por muito que tentem afastar-nos das estrelas, dos golos, das vitórias, das derrotas, do futebol... nós nunca vamos separar-nos deste nosso amor.

A nós, casal de doentes de clubes diferentes, perguntam-nos muitas vezes como iremos fazer com um filho. É um drama, já se sabe. Será que vai ser um lampião detestável só para agradar ao pai? Ou será que vai ser um portista exemplar só porque vai gostar de ganhar mais e, vá, para deixar a mãe em êxtase? Não sei, não faço ideia. Tenho um desejo, admito, e prometo tentar tudo para que se realize. Mas de uma coisa tenho a certeza: seja com o M. ou comigo, e apesar de toda a lavagem cerebral que vai levar para decorar toda a história do futebol mundial, o raio da criança nunca irá, durante um jogo essencial com um Arouca, incomodar um verdadeiro adepto com estas merdas. Haja respeito.