segunda-feira, 27 de abril de 2015

Uma semana

Boa noite, caro leitor. Enquanto lhe escrevo estou a ouvir uma música triste. Comecei a fazer isto quando tinha desgostos amorosos com rapazes. Agora tenho um marido maravilhoso, por isso posso finalmente fazê-lo só quando tenho desgostos amorosos com o meu clube.

É que eu levo isto mesmo muito a sério. Quando o FCPorto ganha, o meu pensamento não é “vou gozar o meu marido”, embora isso tornasse este blog (e este casal) muito mais interessante. Quando o FCPorto ganha, eu fico mesmo é feliz. Sou mais eu, não sei explicar. Quando o FCPorto perde, eu venho escrever-lhe porque nem sequer consigo dormir. E eu, caro leitor, gosto mesmo de dormir. Quase tanto como do FCPorto.

Mas tenho de admitir que há uma semana quase que vim aqui escrever-lhe. Não sei o que me travou, caro leitor. Provavelmente, o saber que tudo podia mudar em breve. Não arrisquei ouvir uma música mais alegre, dançar até um bocadinho, e agora estou arrependida. Devia ter aproveitado. Devia ter dançado. Devia ter escrito.

Vamos lá imaginar o que teria saído. Que o FCPorto fez um jogão. Que estou mesmo feliz. Que o Lopetegui é a nossa melhor contratação. Que o Jackson é o melhor do mundo. Que o Quaresma está feito um jogador de equipa. Que estes rapazes querem mesmo. Que só podemos acreditar. Caro leitor, seja sincero: a música alegre deixa-me mais estúpida ou ainda se lembra que isto era mesmo assim?

Hoje, a música é outra. Tenho de escrever que já vi amigáveis mais emocionantes do que este clássico. Que eles não jogam nadinha. Que nós não quisemos nadinha. Que não festejo épocas sem títulos. Que não me revejo em beijos e abraços a rivais. Que estou triste e não é só pelo desgosto do empate. É porque temo, caro leitor, que esta história esteja a tornar-se repetitiva.

Há uns anos, a verdade é que eu não teria hesitado em escrever. Há uns anos, o FCPorto também não teria hesitado em vencer. Falhámos os dois. Não adianta, caro leitor, pensar muito sobre quem tem mais culpa. Se eu, por ter mudado de texto numa semana, se o FCPorto, por ter mudado de vontade numa semana. O mundo não vai acabar por causa disso. O campeonato, muito provavelmente.

domingo, 26 de abril de 2015

Dia de exame

Em primeiro lugar: perdoem a longa ausência. Devido às vicissitudes da vida de médico, os últimos meses da minha vida foram um longo período de hibernação para fazer um exame. Já está feito, correu bem, mas agora falta o mais importante. Falta o exame de hoje, Benfica.

Quando alguém descobria que eu estava em Medicina, um dos primeiros comentários era, quase invariavelmente, que nós estudávamos muito e que sacrificávamos muita coisa. Dá para contornar a afirmação de várias maneiras, e há, sobretudo, muitas histórias para a confirmar: enquanto estudava para Anatomia em Junho/Julho de 2003, se me esquecia do telemóvel ligado, acordava quase sempre com os meus amigos a ligarem-me da noite, pelas 5h da manhã ou coisa assim. Uma pessoa só queria estar umas horas a dormir sem decorar coisas e, se se distraía, acordava com a música do MacGyver, que era a música que fechava a noite num bar em Faro. Portanto, sim, quando acordava de madrugada a saber que os meus amigos estavam bebedíssimos e eu tinha que acordar daí a umas horas para ir estudar a articulação do cotovelo ou uma coisa assim que agora não me lembro, punha em causa se teria feito as melhores escolhas na minha vida.

Mas uma das minhas maiores dores, ou a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro dos sacrifícios que fiz durante o curso e o internato, é a quantidade de vezes que tive que pôr a Medicina à frente do Benfica, ou, vá, empatada. Faltei ao clássico de 2003/2004 (1-1, Costinha para eles, Simão para nós) por ser véspera do exame de Neuroanatomia. Ouvi os quartos de final da taça desse mesmo ano na rádio, o Benfica-Nacional que ganhámos 2-1 no fim, já com o Argel a ponta de lança, por ter frequência de Bioquímica no dia a seguir. Perco as contas às deslocações que não fiz por ficar a marrar. Quando alguém me pergunta pelos sacrifícios por estar em Medicina, normalmente espera que eu diga: "Oh, sim, dorme-se pouco e estuda-se muito. Quem me dera estar mais tempo com a família e amigos!". Mas eu, como sou doente, penso que foi por causa deste curso e desta vida que não vi o último título de andebol no pavilhão (o D. e o T. mandaram-me mensagens de alegria desde lá), ou que estava a estagiar em Salamanca nas meias-finais com a Juventus do ano passado. 

E nestas épocas de hibernação - insultuosamente frequentes em Medicina - em que estamos fechados em casa, afastados de contactos sociais ao ponto de depois termos alguma dificuldade em interagir com as pessoas normais quando temos ordem de soltura (eu não sei quais são as últimas tendências de literatura, música ou de basicamente nada. No entanto, sei a epidemiologia de linfoma de células do manto, que não interessa a ninguém), o Benfica sempre foi a minha pausa de estudo, o último reduto da saúde mental (ahah, saúde mental e Benfica na mesma frase, a ironia). Em 2008, a estudar para o exame da especialidade, assisti à tímida ascensão e estrondosa queda da equipa cujo treinador era Quique Flores (estive para escrever "era treinada por Quique Flores", mas apercebi-me que são afirmações de valor diferente), em 2006 cheguei a levar uma tabela de qualquer coisa que me estava sempre a esquecer para o intervalo de um jogo, onde a li mais uma vez inutilmente. E, nestes meses, os dias de Benfica eram os dias no meu calendário de estudo (sim, aos 31 anos ainda fiz calendários de estudo e isto é triste) onde não estava lá quase nada porque eu sei que a minha disponibilidade mental nos dias de Benfica é zero e eu penso mais movimentações do Gaitan a vir receber ao meio do que na fisiopatologia de doenças de plaquetas. Não faltei aos jogos na Catedral e enervei-me muito em todos os jogos fora, especialmente nos que correram mal e sabendo que no dia a seguir tinha que voltar a fechar-me com os livros e não podia ir para o Seixal ensinar ao Jardel a sair melhor a jogar quando está apertado.

Quando me disseram a data deste exame, a minha alegria imediata foi saber que foi marcado para antes do clássico. Seria impossível conciliar as duas coisas, tal é o meu estado de nervos. Aliás, o meu habitual pessimismo para estes jogos agrava-se com o facto de eu não ter conseguido ter ficado (muito) nervoso para este clássico nos últimos dias porque estou tão cansado do pós-exame que só consigo dormir.  
Benfica, em Setembro escrevi-te que esta seria a nossa época de exame. Hoje é dia do exame final. É dia de fazeres com que todos os sacrifícios valham a pena, é dia de fazeres valer todas as noites em que não foste sair, ou todas as tardes em que estava a dar um derby de Manchester e ficaste a trabalhar. É hoje o dia, Benfica. Pelos que se sacrificam por ti, pelos que sonham com a festa pós-exame, pelos que se enervaram todos os fins-de-semana, como aqueles alunos que vão às teóricas todas. Força, rapazes. Tirem boa nota.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Reportagem no Porto Canal

A reportagem no Porto Canal comigo, com outros emigrantes em Lisboa e com o momento mais alto da vida do M.: quando ele passou por portista durante um segundo.