quinta-feira, 4 de junho de 2015

1993

Nota prévia: este texto é todo escrito assumindo a ida de Jorge Jesus para o Sporting. Já se confirmou que não fica no Sport Lisboa e Benfica, 34 vezes campeão de Portugal, e tudo indica que irá para os verdes. 

Eu adorava o homem. Sabia do feitio doente, da sobranceria e do ego quase ridículo para quem faz madeixas no cabelo. Suportei os erros de português, a incoerência, humilhações duras (2010/2011, Eusébio me faça esquecer), percebi muito depressa que não íamos ganhar sempre (mas foram metade das vezes), mas senti o salto qualitativo. O futebol. A equipa alinhada a defender, imprevisível a atacar, as bolas paradas trabalhadas, o treino a saltar-nos para os olhos em cada jogo. Aquela disciplina táctica, a jogar com 9 em Turim, num momento de alta pressão, como o aluno que já sabe tudo e que já nem precisa de pensar para saber a resposta.


JJ, num clube de loucos, tornou-nos competitivos, perigosos, manhosos, temidos. Passámos a contar para o totobola. Aprendi muito sobre futebol a ver o Benfica de JJ, para o bem ou para o mal. Defendi a sua continuidade até em Maio de 2013 e queria mais. Queria (e espero) que Vieira tenha feito tudo para o manter cá. Estava relativamente preparado para a sua saída para o estrangeiro, mas - apesar de já conhecer os rumores - não para os verdes.

Para que isto fique bem claro: JJ não passa a mau treinador por ir para o Sporting, não vai desaprender nada, não me vão ler que ele afinal é o José Mota. Mas, para mim, é persona non grata. É um traidor. Sim, um traidor. Oh, mas ele sempre foi do Sporting! Caguei, amigos. Jorge Jesus, génio da linha defensiva, ia continuar a treinar Bragas e afins não fosse a oportunidade de vestir o manto sagrado do Benfica. E o mínimo dos mínimos que eu peço a quem veste esta camisola é que nunca vá para os rivais (a não ser que sejas o Pesaresi). Chegará o dia, quando eu for presidente do Benfica, que qualquer funcionário do Glorioso será capaz de citar todos os nossos títulos, os dois 11 campeões da Europa e o número de golos do Eusébio no Benfica (773). Mas, até lá, o mínimo dos mínimos, os serviços quase-zero que eu exijo, é não jogar depois num rival. O pai dele, ai o pai dele, que é tão do Sporting e ele foi sempre do Sporting! Então nunca tinha assinado. Ficava um lagarto orgulhoso a treinar o Belenenses, a ficar em 6º lugar e treinar as transições defensivas perfeitinhas no Restelo ou no Bonfim ou em Felgueiras (e sim, talvez ninguém reparasse nele. O homem já treinava na primeira divisão desde 1997 ou assim e ainda ninguém o tinha agarrado). Mas não, veio para o Benfica. Quem vem para o Benfica, deve sentir-se orgulhoso. Deve amar cada canto do clube, cada centímetro quadrado do estádio da Luz. Deve pensar: "Porra, estou no mesmo clube onde jogou o Coluna" e chorar de emoção. O mínimo é não ir para um rival a seguir. 



Vou explicar-vos: eu tenho amigos do Sporting. Grandes amigos, grandes sportinguistas, pessoas que eu adoro. Mas, para mim, é como se elas não fossem do Sporting. Eu não concebo o bem no Sporting, o meu cérebro entra em dissociação cognitiva. A minha sogra diz-me, olhos nos olhos, que acha que eu e o meu Pai somos demasiado boas pessoas para ser do Benfica. Eu adoro a minha sogra e adoro-a mais por dizer isto. Eu percebo: quando nós somos malucos por um clube, não somos selvagens que não conseguimos comer à mesa com pessoas de outro clube. Mas há algo no nosso cérebro que separa as duas coisas, retirando essa característica daquela pessoa de quem gostamos. (And that, kids, is how I met your mother).

O Benfica é um clube que foi fundado por gente pobre e que, anos após aparecer, viu um clube de gente rica roubar-lhe jogadores. Era um clube que no primeiro ano da fundação não tinha militância para jogar futebol, só para fazer bailes. Para jogar futebol, teve de nos roubar jogadores. Esse clube, com um equipamento metade cor de ranho, metade a imitar a cor dos calções do Benfica, nasceu em oposição a nós. É o nosso nemesis, o nosso rival, o nosso oposto. Se o Sporting gosta de carne, eu gosto de peixe. Se o Sporting pensa de uma maneira, eu penso de outra. Imediata e automaticamente. E eles igual. É assim, sempre há-de ser. Nós bons, bonitos, altos e fortes. Eles maus, feios, baixos e fracos. Nós espectaculares, eles uma merda. Eu não consigo perceber como é que alguém com mais de 5 anos e 3 neurónios aceita ser do Sporting quando tudo isto é evidente. 
Jorge Jesus, exímio explorador daquele corredor entre a ala e o corredor central (apanha a quina da grande área), quando assinou por nós em 2009, devia ter percebido uma coisa: uma vez nosso, devia ter sido sempre nosso. Podia sair para o Zenit, para o Austria de Viena ou para o Real Madrid. Mas não para eles (nem para os de azul, claro). Chama-se ética, chama-se respeito, chama-se futebol. Ah, e o Simão? O Simão foi um grande jogador mal formado, que cuspiu no prato que o fez crescer e que agora está à procura de tacho no Benfica. Não é dos meus, meus. Nunca foi. Foi o melhor jogador de uma equipa do Benfica? Sim, mas nunca teve o meu amor. 


Isto parece estúpido, estamos em 2015, mas sim, eu sinto aqueles roubos de 1907 do clube dos Holtremans como se fossem hoje. E os do Verão de 1993. É uma coisa imperdoável, histórica, que pode ter mil anos que nós nunca vamos perdoar. Tivemos a pequena vingança de um dia comprarmos um júnior deles do Sporting de Lourenço Marques, mas se ali ficasse, Eusébio nosso senhor ia ser mordomo de um Ricciardi ou assim. Se JJ assinou em 2009 connosco, assina pelo nosso lado da história (o correcto, claro) e, para mim, não pode voltar atrás. Não aceito, não quero saber de mais nada. Se assinar pelo Sporting, Jorge Jesus é dos outros e a partir daqui é um alvo como eles. E temos de trabalhar agora para o derrotar, recordando sempre que o Benfica é um clube que se fez na adversidade, é um clube que se tornou grande porque era de gente orgulhosa, mas que trabalhava, enquanto os vizinhos tudo tinham. 

Eu não acho - não sou assim tão totó - que o ADN do Benfica seja o mesmo da sua fundação, nem sequer de há 20 anos. Longe vão os tempos em que jogadores como Paneira, depois do Verão quente de 1993, queriam marcar o sétimo em Alvalade porque queriam vingar um resultado menos feliz num derby de uma equipa que nos deu uma dobradinha. Mas é esse ADN que é preciso ir buscar para voltarmos a ganhar. Andávamos alegres e contentes, mas a realidade bateu-nos à porta. É hora de trabalhar, de ir buscar forças, competência, dedicação. Ser do Benfica, ser Benfica. Sim, eu sei, eu sei, isto parece só conversa fiada. Mas a história já nos provou que pode não ser só conversa. Se fosse só isso, se fosse impossível, não havia Benfica. 

Da minha parte, Jesus nem um obrigado levará se assinar por eles. Eu adorava o homem. Mas lembrei-me que ele é do Sporting e não há boas pessoas do Sporting.