sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O nosso caminho


A hora e meia de treino talvez seja o menos importante - Rui Vitória, 15 de Agosto de 2015, em entrevista ao Expresso 
http://expresso.sapo.pt/desporto/2015-08-15-As-vezes-um-jogador-precisa-de-um-abraco-outras-de-uma-marretada-nas-costas

Eu fiz tudo para não vir escrever a quente depois da derrota em Aveiro com o Arouca. Achei que deixar passar uns dias, analisar com calma e reflectir me iam fazer ver as coisas de outra maneira. Às vezes é preciso distância e sabe Eusébio nosso Senhor o quão irascível e maldoso eu me torno após uma derrota do Benfica. Afastar-me do teclado parecia-me uma excelente opção.

Eu juro que tento ser um tipo mais saudável: corro, leio, tento ser bom médico e bom marido. Tento relativizar as derrotas e lembrar-me que eu não sou um homem da bola, que aquilo são onze contra onze idiotas e até tive a decência de evitar ouvir as declarações do nosso treinador, essa personificação da banalidade, esse monumento aos medíocres, que doravante poderão sempre sonhar com alguma coisa que não merecem.



O problema é que o mundo de hoje mudou e eu, como tantos outros humanos, tenho facebook e twitter, o que é uma maneira simpática de trocar ideias, ler notícias, descobrir coisas novas. Suponho que é isso que as pessoas fazem com as redes sociais. Eu uso-as para discutir ainda mais o Benfica, como se não bastassem todas as horas que passo a pensar no meu clube. E foi nestas que descobri a resposta a uma questão que, durante o Arouca-Benfica, no meio de todo o desespero e das trevas nas quais entra o meu cérebro enquanto não estamos a ganhar 4-0, e intrigado com a quantidade de vezes que o Arouca ia entrar na nossa área com a bola dominada, coloquei a mim mesmo: será o nosso treinador diabético? Então porque raio está o homem sempre a beber água? Como é óbvio, não me preocupei muito mais com isso - era só um palpite, e parecia-me bem mais fácil controlar a diabetes do que os contra-ataques do Arouca, portanto esqueci a pergunta.
Eis senão quando, na manhã seguinte, ao abrir o facebook, li um desabafo do ilustre boloposte, que adiantava que o nosso mister bebia água assim porque - segundo uma daquelas facilmente esquecíveis entrevistas de pré-época, uma vez, como treinador do Fátima (este toque de misticismo arrepia-me pelas piores razões) bebeu água num lance de perigo contrário e a bola não entrou. Vai daí, o bom do Rui decidiu começar sempre a beber água quando há um lance contrário.

Há coisas que têm de ser modificadas, estamos a modifica-las, mas esse é um caminho que vamos percorrer. Este caminho vai ser feito, estamos a começar um caminho longo. - Rui Vitória, 10 de Agosto de 2015, após perder a Supertaça 
http://www.maisfutebol.iol.pt/benfica/sporting/rui-vitoria-se-calhar-se-isto-fosse-facil-nao-era-para-mim

Uma pessoa tenta aguentar-se, não vir escrever, não parecer um daqueles tolinhos que parece que querem que a coisa corra mal (eu juro-vos, pela minha saúde, que se há coisa que eu quero é ver Rui Vitória com oito campeonatos consecutivos conquistados ao serviço do meu clube e a rir-se de mim no meio do estádio da Luz. Até pode incitar a cânticos "O M. é burro allez! O M. é burro allez! O M. é um burro allez allez allez..."). Mas este toque de curandeiro, de gajo que acredita mais em beber água do que na hora e meio de treino, matou-me. Estou há quatro dias com isto atravessado, a pensar no que havemos de fazer para, como diz o outro, seguirmos o nosso caminho. Mas aguentei tanto a raiva como o Benfica aguenta a posse de bola com perigo. É que pelo número de lances perigosos que nós sofremos em todos os jogos, a minha sugestão é colocar Rui Vitória a soro e talvez algaliá-lo, dada a quantidade de água necessária para manter a nossa baliza a zeros.


Temos de continuar o nosso caminho - Rui Vitória, 17 de Agosto de 2015, após a vitória de 4-0 sobre o Estoril 
http://www.publico.pt/desporto/noticia/rui-vitoria-depois-do-primeiro-golo-soltaramse-as-amarras-1705201

É óbvio que o plantel é fraco e que assim não há milagres. Se alguém da direcção do Benfica estiver a ler, fica aqui o recado: faltam três dias para fechar o mercado. Falta um lateral esquerdo, um lateral direito (notícia de última hora: Nélson Semedo não é um bom defesa direito para o Benfica. Regressamos agora para estúdio), um médio centro (falta-nos tanto um médio centro como faltou um ponta de lança a sério à selecção portuguesa nos anos 90) e um extremo. E o Gaitan não sair. O mercado fecha a 31 de Agosto, caros senhores da direcção. É melhor meterem um lembrete no telemóvel. Mas eu até vivia à espera dos bons negócios do fecho de mercado se achasse que depois iríamos fazer algo com eles: eu esperei por Jonas com paciência porque sabia que ele depois ia encaixar. O meu problema é que mesmo com dois laterais bons, Rui poderá não saber muito bem o que fazer com eles - talvez os mande comprar água - e isso não vai chegar. Dei por mim a ver o sorteio da Champions com um medo permanente: todas as equipas me pareciam colossos inultrapassáveis e a razão não é a nossa costumeira fase de grupos merdosa, é que se nos tivesse saído um grupo com o Estoril, o Arouca e Pinhalnovense, eu não tenho a certeza que passássemos em primeiro.

A bola parece que batia em tudo o que é adversário e não dava golo. Queremos dizer que o nosso caminho vai continuar e vamos preparar já o próximo jogo - Rui Vitória, 23 de Agosto de 2015, após a derrota com o Arouca em Aveiro por 1-0 
http://www.record.xl.pt/futebol/nacional/1a-liga/benfica/detalhe/rui-vitoria-fizemos-o-suficiente-para-ganhar-970620.html


Voltando à garrafa de água: eu tolero a superstição ocasional. No que ao Benfica diz respeito, eu sou a pessoa com mais hábitos estranhos, com mais camisolas, amigos e bifanas que dão sorte que este mundo já viu. Mas eu não sou treinador do Benfica, eu sou médico. E aí não há superstições: ou se sabe ou não se sabe. Tem alguma graça - do ponto de vista estritamente humorístico - imaginar um médico que bebesse água antes de uma reanimação  ("uma vez estava a beber água, o doente parou e consegui salvá-lo!"). O que nós temos hoje no banco é um treinador que se vira de costas nos penalties, que bebe água nos contra-ataques, mas que não consegue pôr a equipa a jogar à bola. Eu admito que este pormenor só me irrita porque não jogamos futebol. Se nós jogássemos como o Barça de Guardiola, eu permitia que o bom do Rui cagasse junto à linha lateral e desse murros aos apanha-bolas "porque dá sorte nos lançamentos laterais do lado esquerdo, a meio do meio-campo". Mas Rui, nós não jogamos como o Barça do Guardiola. Longe disso. Tinhas que beber o oceano Atlântico em garrafas de água para nos aproximares disso, Rui.

Aliás, uma das coisas que mais me tem intrigado nas várias observações aos jogos do Benfica, é que muitos analistas acusam Rui de não estar a impor as suas ideias. Eu acho justamente o contrário: as ideias dele estão lá todas e sempre foram estas: zero. E não me venham agora com as desculpas dos jogadores do Benfica fora de forma. Jonas parece mau porque está mais isolado do jogo que um autista. Deve passar horas em introspecção, esquecendo-se inclusive que está a jogar futebol. Pizzi falha todos os passes porque ninguém está no sítio certo. Todos os nossos defesas parecem do Sporting de Vercauteren porque agora, em vez de uma linha defensiva, fazemos três ou quatro. Sabem quem é que tem sobressaído individualmente no "modelo de jogo" (chamemos-lhe assim, eufemisticamente) de Rui Vitória? Júlio César. O nosso caminho tende a pô-lo em evidência.


São três adversários diferentes, mas o Benfica tem uma palavra a dizer. Temos consciência do nosso valor, queremos fazer o nosso caminho. - Rui Vitória, 28 de Agosto de 2015, comentando o sorteio da Champions
http://www.sabado.pt/ultima_hora/detalhe/rui_vitoria_adversarios_na_champions_benfica_tera_uma_palavra_a_dizer.html


Nestes quatro dias afastado do teclado, martelaram-me na cabeça as horríveis justificações de Rui Vitória para a derrota em Aveiro. Qualquer coisa como cruzámos muito e chutámos muito: já não se via uma interpretação tão primitiva sobre um jogo de futebol desde que o Marcelo Rebelo de Sousa deixou de escrever n`"A Bola". E durante estes quatro dias, debati-me com as duas justificações possíveis (ambas assustadoras) para estas palavras:

1. Rui Vitória acha mesmo que cruzar muito e chutar muito é bom futebol e que estivemos de facto muito perto de fazer muitos golos. Qualquer pessoa racional consegue rever o Arouca - Benfica e percebe que, exceptuando a defesa ao cabeceamento de Mitroglou, Bracalli teve uma exibição fácil. Bastou não se desviar de nenhum dos infrutíferos remates de longe e com 34 pares de pernas pelo meio para ficar com uma estatística avassaladora. Eu próprio teria feito a mesma exibição. Júlio César, por outro lado, levou com avançados sozinhos na sua cara, a poderem pensar na lista de compras antes de rematar. Se Rui Vitória conta que este tipo de remates ou de cruzamentos a 40 metros vão funcionar, estamos perante um homem que acha que a probabilidade de ganhar o Euromilhões é de cerca de 50% e que mais dia menos dia lhe vai sair. Eu quero lembrar que para se ser campeão em Portugal é preciso uma percentagem de vitórias que ronde os 80% (este ano talvez menos). O nosso método - ou a ausência dele - garante-nos até agora uma percentagem de 33%, com uma perda de um troféu pelo meio. A jogar assim e a achar que é assim que se deve jogar, o fim de semana nem foi mau, já que não perdemos pontos para o Braga na luta pelo terceiro.

2. Rui Vitória sabe que não jogamos um caracol, mas está a tentar mostrar-nos as coisas boas, passando-nos a mão pelo pêlo. É como se ele próprio soubesse que isto é mau, mas que não vai mudar porque isso envolvia um processo de treino mais complicado do que beber água. Vai daí, Rui Vitória tenta animar-nos. É como se um soldado japonês, depois de Hiroshima, viesse dizer: "ainda assim, fizemos uma agradável exibição em Pearl Harbour". É o encolher de ombros a pedir que ninguém se zangue com ele, uma coisa ainda mais choninhas do que a cara dele. Pior só aquela tentativa de justificação pelos árbitros "Houve dois lances que...", rapidamente interrompida por um qualquer sentido de moralidade estranho "mas não quero entrar por aí", porque Rui quer continuar a ser bom rapaz e se atacar os árbitros depois pode vir a perder o seu local de comentador no Grande Área lá para Novembro. 

Apesar de acreditar mais na primeira hipótese - Rui é mesmo incapaz de identificar o bom e o mau futebol (quanto mais fazer-nos jogar o bom) - há uma coisa que salta à vista na segunda justificação que é o que mais me irrita no nosso treinador, mas que poderá vir a ser a nossa salvação. Rui Vitória está habituado a ouvir elogios. Não que alguém alguma vez tenha dito que ela era um génio, mas aquele elogio quase salazarista de "é um rapaz esforçado", "compensa com trabalho aquilo que lhe falta em talento", etc. Ou seja, Rui Vitória parece-me um homem habituado a ter boas críticas, a ser levado em conta. E é esse ar de pânico que detectamos quando Luisão se aproxima dele, a meio da primeira parte: "eu vou perder os elogios", "estas pessoas não vão gostar de mim", "quero voltar para o Vilafranquense, quando o Armando Sá me achava um génio"



(imagem escandalosamente roubada ao Bnrb.com: https://www.facebook.com/BnrB.fb?fref=ts)

E é esse ego do Rui que nos pode valer. Vieira não vai assumir o erro e, quando a evidência for tão grande e já não houver água engarrafada no Estádio da Luz, Vieira vai lembrar-se de Fernando Santos, da sua amargura por ter despedido o engenheiro demasiado cedo e vai proteger o treinador que acha que a hora e meia de treino não é o mais importante. Mas aí, faltarão a Rui aquelas palavras que se habituou a ler, aqueles elogios condescendentes, aqueles sorrisos no café e acho que o homem vai desistir. 

Quero deixar bem claro que não é uma derrota que nos vai desviar do nosso caminho. Temos o nosso caminho bem feito. - Rui Vitória, 28 de Agosto de 2015, na antevisão do Benfica-Moreirense



Até lá, não nos resta mais do que apoiar, esperar que alguém lhe meta qualquer coisa na água e o homem fique mais esperto. Eu vou desabafar por aqui e vou parecer maluquinho no trabalho. A minha preocupação, confesso, já vai em 2016/2017 e em quem nos vai orientar para o ano. Tinha muito a escrever sobre o que quero e quem quero para próximo treinador do Benfica, mas nesta altura só queria alguém que considerasse os treinos mais importantes que a hidratação. Até lá, seguiremos o nosso caminho. 

PS: uma hora e meia de treino não é muito pouco?

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A arte de ser um bom rapaz

Sísifo é uma personagem que, segundo a mitologia grega, estava condenado a empurrar uma pedra até ao cimo de uma montanha. Quando o conseguia, a pedra rolava de novo até cá abaixo, tornando todo o seu esforço infrutífero.

Eu tenho 31 anos. Se me perguntassem quais eram os meus objectivos de vida aos 10 anos ou aos 15 ou aos 18 ou aos 20 ou aos 25 ou aos 31 a minha resposta ia mudar com várias nuances. Aos 10 anos queria ser jogador do Benfica, aos 18 queria entrar em Medicina, aos 25 queria viajar pelo mundo, etc. Mas, em todas essas idades, em todos os dias desta vida, um dos meus 5 principais objectivos de vida (para não dizer o primeiro, que ficava mal) era ver o Benfica bem. Durante toda a minha existência da qual me lembro, o meu maior desejo - o mais profundo, o mais sentido, aquele à qual dediquei mais tempo a pensar - era em ver o Benfica bem. Como é óbvio, já dediquei mais tempo ao Benfica do que a qualquer outro assunto na minha vida: para cada segundo em que eu penso na minha relação com a C., dedico cerca de 22 horas a analisar o meu clube (acho que é esta a proporção).

Eu, como Sísifo, dediquei horas a empurrar uma pedra imaginária até ao cimo de uma montanha. E depois a pedra caía. Sempre. Muito provavelmente porque eu não tenho nada a ver com a pedra: nenhuma das minhas análises, conclusões e planos podia superar o duro facto de que a pedra ficar lá em cima ou cair em cima de mim como um golo aos 92 não dependia absolutamente nada de mim. E a pedra foi caindo, mas eu, como qualquer estúpido de bola, tentei sempre. Até que a pedra ficou.

O Benfica era bicampeão (apesar do sofrível futebol do segundo campeonato), tinha um treinador que é um filho da puta, mas já cá estava há 6 anos, e - depois de 20 anos inenarráveis e mais uns 7 ou 8 incrivelmente penosos (porra da pedra que caía sempre com estrondo) - o clube parecia mais ou menos estável. Não quer isto dizer que o Benfica fosse ficar bem ou que eu fosse tornar-me num optimista (ahah!), mas eu achei que podia dobrar a atenção que dou à C. e subir a proporção para dois segundos para ela e 21horas, 59 minutos e 59 segundos para o Benfica. Obviamente, a pedra rolou cá para baixo, batendo-me consecutivamente com todo o seu peso na minha cabeça.



Odeio perder com o Sporting. Em primeiro lugar, porque não estou habituado. Foi a segunda vez desde 2009 e ambas com roubo (ontem há um penalty por assinalar a nosso favor. No golo "mal anulado" a bola passou por fora da linha, da Via do Infante e da Ria Formosa antes de regressar ao campo de jogo). Em segundo lugar porque se o ano passado já foi estranho não lhes ser superior (e isto é um simpático eufemismo para o jogo de Alvalade), ontem eles foram tão melhores do que nós que o próprio Rui Gomes da Silva é capaz de ter algumas dificuldades em não o ver. E muito disto porquê? Por Rui Vitória.

Eu não gosto do Rui Vitória. Nunca gostei e já o tinha escrito em 2013. É o professorzinho de Educação Física, é o gajo porreiro, que faz óptimas conferências de imprensa e é o único homem em Portugal que consegue falar mais tempo e dizer menos do que o António Costa. 
Rui Vitória é aquele gajo que, depois de apontarmos os 150 mil erros que o Benfica cometeu ontem, vai ser defendido por alguém com o sólido argumento "mas ele é boa pessoa". E isso enerva-me porque o "mas ele é boa pessoa" quer dizer "apesar da sua gritante incompetência, falta de carisma, ideias, inteligência, sentido de humor ou beleza ou qualquer outra qualidade, ele nem é um tipo mau".

Rui Vitória tem ar de ser um divertido professor de Educação Física que dá carolos aos alunos que chegam atrasados, que lhes diz "meu g`anda malandro!" com ar cúmplice antes de distribuir as equipas de mata e meter cunha à professora de Matemática para não chumbar o gajo que tem 18 anos e está no sexto ano, porque ele dá um jeitaço nas inter-turmas. Infelizmente, treinar o Benfica é um bocado mais difícil do que o inter-escolas de Alverca.

Rui Vitória tem todo o ar de gajo que debita 350 banalidades por segundo. Se perguntarem a Paulo Fonseca o que é que ele pensa da Premier League, provavelmente ele responder-vos-à que o Bayern de Munique é favorito, mas depois até corrigirá e vai dizer 3 ou 4 coisas que qualquer um de nós - leigos da bola - nunca pensou. A Rui, imagino-o no seu restaurante do costume, onde come sempre  o mesmo, a dizer ao empregado: "A Premier League é muito forte. Tem grandes equipas como o  Chelsea, Man Utd e Man City, e qualquer um pode ganhar". A frase, fictícia, não está ao nível desta pérola filosófica, que, ao contrário da minha frase imaginária, é bem real: "No meu caso, sou por natureza uma pessoa que, por norma, não se desequilibra com nada. Mas isso não significa que não seja humano. " - pag.89 d` "A arte da guerra - para treinadores" do próprio Rui Vitória. Ou desta, que é todo um tratado filosófico e que vos vai surpreender pela pujança e originalidade: "Quando penso na relação que tenho com os membros da equipa técnica sei que, de facto, tem de funcionar muito bem". Esperemos pelas traduções em grego, para quando ele estiver a treinar o Panionios daqui a dois anos.


(Acho que agora podias dedicar-te ao treino, Rui)

E agora vocês dizem: porra, M., não é muita porrada para um homem só e apenas depois de um jogo? Não, óbvio que não. Era um derby importante e que tinha de ser ganho nem que fosse preciso mandar atropelar o autocarro do Sporting na A2. E a Margarida Rebelo Pinto dos treinadores achou que entrámos "um pouco receosos" e que foi um jogo equilibrado, isto apesar de termos mudado de táctica umas 5 vezes, de não haver processo ofensivo nem defensivo de equipa grande nem sequer de média. O que eu vi foram os chutões para a frente do Guimarães para o Baldé, depois para o Mazzou e - num gesto de argúcia táctica infinita - para a corrida do Hernâni, serem agora chutões para o Jonas. Não sei como é que se chamam os filhos do Jonas, mas sei que o futebol que se adequa ao Jonas não é o do pontapé para a frente ("Lá em casa também sabemos de táctica" - vai ser o título do meu livro). Talvez o problema de Jonas seja a falta de leitura: "Todos os jogadores têm de ser muito combativos nos duelos individuais." O problema de Jonas é ser somente inteligente e ter bons pés, quando Rui procura "uma visão total do jogador" - daí que Jonas agora tenha de ser mais estimulado, buscando longas bolas nas alturas. Rui Vitória, em tom mais confessional, diz que "até me inclino para os aspectos psicológicos e contextuais excessivamente" e aqui a minha dúvida é como é que ele insistiu no Talisca, dado o contexto psicológico daquele penteado.




(um aparelho que pode ser útil a Jonas durante a época)

Eu sei, eu sei, é cedo. O campeonato começa para a semana e toda a gente tem zero pontos. Mas o que eu vi ontem foi um regresso aos tempos das conferências de imprensa de Quique Flores, de eyeliner, entrevistas porreiras e tantos problemas na equipa que dava para escrever um livro. Rui vai brindar-nos com aquelas frases super irritantes como "temos o nosso caminho" ou "perdemos este jogo com o Arouca, mas ganhámos uma equipa". Talvez a nossa grande vitória da época vá ser uma convocatória à selecção do Nélson Semedo lá para Março, num amigável. 

Talvez a culpa nem seja dele (ele até é bom rapaz!), seja de quem o pôs lá. Talvez até vá correr tudo bem (depois de ontem até aquele ministro iraquiano fica com vontade de desistir, mas pronto), mas eu confesso que odeio este tipo de personagem incompetente, sem qualquer prova dada (não, aquela Taça não conta, ao Benfica pós-Kelvin e pós-Chelsea até o Sporting do Vercauteren teria ganho) seja dado não o benefício da dúvida, mas a responsabilidade social mais importante do planeta que é ser treinador do Benfica. 

Este texto, como já viram, foi escrito a quente, depois de meses lixado por termos ido buscar um treinador a quem sempre tive um ódio particular e depois de perdermos um derby. Talvez não tenha sido a pessoa mais justa do mundo. Talvez esteja só cansado de andar a carregar uma pedra que acaba sempre por cair lá para baixo. Em todo o caso, fica já aqui prometido que, se formos campeões com este gajo, compro 20 exemplares d`"A arte da guerra - para treinadores". 

Porque, como diria Rui Vitória, na sua espectacular obra e naquele seu estilo de quem vai dar um excelente comentador: "para ganhar um jogo é preciso marcar golos".