segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Final dos anos 90, são vocês?

Confesso-vos que sofro mais por antecipação do que com os acontecimentos em si. Estou mentalmente preparado para os maiores desastres do Benfica (retirando o golo do Kelvin, porque esse já nem a mente mais sã e racional podia adivinhar). Sou um benfiquista que fez o ciclo durante o penta do Porto e o liceu durante os títulos dos lagartos e do Boavista, portanto esta coisa de estar afastado do título antes do dia das Bruxas - qual Natal qual quê (piada do D.) - é só um regresso à infância. Muito obrigado, Benfica! Agora metam o Dartacão a dar na televisão e tirem-me as 40 horas (ahah) de trabalho semanais.


Voltando ao sofrimento: a minha antecipação da dor é muito superior ao impacto. Vejo as coisas e o futebol com uma perspectiva lógica e procuro razões. Sou um adepto com alma de treinador. Se estamos a jogar mal, se os resultados não aparecem persistentemente, é porque há causas. E são essas causas (que eu adivinho que venham a causar dissabores) que me doem. É óbvio que levar 3 do Sporting em casa tende a acentuar ligeiramente esse sentimento de merda e é nestas alturas que se deve vir escrever. É o porreiro de ter um blog e não ser da direcção do Benfica: eu posso decidir a quente (até porque se a minha opinião contasse, Rui Vitória não seria treinador do Benfica, mas Lima talvez não tivesse sido contratado e tínhamos ido buscar o Éder). 

Por mistérios insondáveis que eu não consigo discernir, o Benfica resolveu mudar. Eu, na minha humilde opinião (aqueles anos do penta e os seguintes fizeram-me assim, pobre de espírito e contente com pouco), achei que o rumo estava bem traçado: tínhamos um bom treinador e comprávamos bons jogadores (parece fácil, não é?). O bicampeonato parecia mostrar que estava tudo bem (talvez esta frase soe fácil agora. Prognósticos no fim do jogo são mais fáceis, eu sei, mas tenho ideia de que a direcção do Benfica, quando resolveu planear a época no Verão de 2015, estava vagamente ao corrente dos feitos de Maio de 2014 e de 2015. Corrijam-me se estiver enganado). Vai daí, a direcção do Benfica, não contente com o rumo das coisas - lá terão as suas razões - decide mudar. É como se um tipo tivesse ganho a lotaria, visse que tinha a chave vencedora na mão e dissesse que queria outro talão.
E o decidir mudar não passa apenas por deixar JJ ir embora (vou dar outra vez de borla que ninguém imaginou que ele fosse treinar aqueles montes de cocó), mas - e isto já se tinha verificado o ano passado - também em deixar de investir na equipa principal. O extraordinário feito de 2014/2015 (campeões contra um Porto muito mais forte do que nós) terá toldado a análise dos nossos dirigentes, que passaram a acreditar que as camisolas do Benfica seriam campeãs desde que vestidas por pessoas com capacidades motoras mínimas e mais de 18 anos no cartão de cidadão, de preferência com berço no Seixal e até com um cadáver a treinador. Talvez em Outubro - eu sei, eu sei, prognósticos só no fim do jogo - já se possa suspeitar que não.

Vou atalhar: isto não vai lá com o Renato Sanches (sim, eu ouvi, à saída do Estádio da Luz, dois adeptos do Benfica a imaginarem o Renato Sanches a resolver um derby em que levámos 3 secos na Luz). Porque é que é estúpido apostar nos jovens só porque sim? Em primeiríssimo lugar porque os nossos jovens não são os do Barcelona - as nossas escolas não são suficientemente boas para fornecer 11 jogadores com qualidade suficiente para o Benfica (talvez um por ano. Mais do que isso é romper as probabilidades). E basta pensar em probabilidades: onde é que é mais provável encontrar um médio centro ao nível de Enzo Perez? 
Hipótese 1: em toda a América do Sul, América Central, América do Norte, África, Europa, Oceânia, no Campeonato Nacional de Séniores.
Hipótese 2: no Seixal, num dos 3 médios centros com mais de 17 anos. 


Talvez eu esteja errado, mas eu tenderia a ir pela hipótese 1 (sou de ciências). Podem dizer que a hipótese 2 é mais barata. Verdade, mas é como comparar uma rifa dos escuteiros de Alcabideche contra 3/4 das combinações do Euromilhões. Mais: os jovens do Benfica estavam a ter o percurso de sonho para mim: rendiam 15 milhões aos cofres e nem jogavam (e, logo, não faziam muita merda, como o Ivan Cavaleiro, quando fez estupidamente a falta que deu o 3-3 ao Sporting na Luz na Taça. Luisão fez o 4-3 por baixo das pernas do Patrício). Sim, Bernardo é a excepção que confirma a regra. 
Há um clube, que não mora longe de nós, que durante 30 anos teve como bandeira a formação. Ganhou dois campeonatos, um com Mário Jardel e JVP, o outro com André Cruz, Schmeichel e Acosta. A obsessão com os jovens é uma filosofia estúpida e que importa combater. Seria como um director clínico de um hospital meter os alunos de faculdade a fazerem cirurgias sozinhos. Era pedagógico, mas vá, vagamente perigoso. Sei lá, era como meter o Roderick num jogo decisivo. Imaginem!

Ou então é culpa do BES. Mas o presidente disse que não, portanto não deve ser.

Luís Filipe Vieira, obcecado com a sua obra do Seixal, e talvez ainda lixado com o dinheiro que perdemos com o Bernardo, resolveu ver nos putos a solução para todos os males (eu, quando jogava Football Manager, também insistia nos gajos que eu tinha comprado mesmo quando eles se revelavam ser uma merda). Não fosse este rumo já mau, ficou tudo complementado com o nosso abandono do mercado futebolístico. Passo a explicar: eu habituei-me a que o Benfica visse fugir os seus craques. Mas sempre com esperança que viessem outros. Partiu Cardozo, veio Jonas. Foi-se Saviola, veio Lima. Foi Matic e tentámos Fejsa e depois Samaris. Umas vezes corria bem, outras pior. A surpresa é que abandonámos o mercado e fomos buscar as rifas aos escuteiros: lesiona-se Salvio, fica o Guedes. Sai Maxi, fica Semedo. Enzo partiu em Dezembro e não fomos buscar ninguém. Desde a partida de Enzo, em jogos fora para o campeonato, o Benfica ganhou em Penafiel, Madeira, Moreira de Cónegos, Arouca e Belém (as três últimas muito sofridas). Perdeu em Paços, com o Rio Ave, em Aveiro com o Arouca, no Dragão e empatou em Alvalade e em Guimarães. Fizemos menos 3 pontos que o FCP desde a saída de Enzo e acabámos a gritar um golo do Belenenses. 
Mais, depois da saída de JJ, achei que o mínimo era que todos os benfiquistas tivessem que hipotecar todas as suas posses (inserir aqui piadas com um euro) para irmos comprar o Messi e construirmos uma máquina do tempo que nos permitisse jogar em Alvalade com o Maradona de 1986. Temo que, mesmo com esses, Rui Vitória não conseguisse grande coisa, mas pelo menos tínhamos mais hipóteses. Mas não: fomos buscar um marroquino que a única coisa que pode ganhar na vida é o Biggest Loser e optámos por esperar pela evolução do Talisca (e de dois cactos. Estão empatados em termos de progressão, mas as fotografias de Instagram dos cactos são menos assustadoras). É como declarar guerra ao nosso pior inimigo e aparecer lá sem roupa e com duas peças de dominó como armas.


Não dá para retirar aquele passe de merda do André Almeida, mas dá para rever a próxima planificação. Isto não foi uma questão de sorte. Sorte tivemos nós em Madrid, onde um Jackson Martinez normal nos tinha marcado um poker. Madrid sim, foi um acidente. Ontem foi um atropelo.
Agora vou voltar ao futebol da minha infância: ver jogos sem a esperança mais importante, a de ser campeão, distrair-me a ler livros e a estudar e começar a sofrer por antecipação pelo próximo ano, à espera que nos saia a lotaria. Ou que, pelo menos, se preencha o boletim.