quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Nada para dizer

Pedimos desculpa por não escrevermos quase nada neste blog há uns meses. É verdade que sou capaz de uma vez ter mandado a piada ao M. de que me divorciava dele quando o benfica ganhasse dois campeonatos seguidos, porque na altura me pareceu o mesmo que prometer-lhe o divórcio caso fôssemos viver para Júpiter, mas não se preocupem que o amor foi mais forte e ainda cá estamos.

O único problema deste casal é que estamos com algum receio de não ter nada para dizer. Não sei se vocês têm visto a época dos nossos clubes, mas hão de entender que não andamos propriamente com muita vontade de nos picarmos um ao outro. Para ser sincera, os nossos diálogos futebolísticos por estes meses resumem-se basicamente a isto:


“M.: Não jogamos nada.
C.: Pois, nós também.”


Bem, talvez esteja a exagerar. Não estamos assim tão desanimados que não nos permitamos umas análises um bocadinho mais profundas. Preparem-se, que vêm aí assuntos para os quais foram necessárias muitas horas de concentração e que parecem roubados do trabalho de vários olheiros dos nossos adversários:


“M.: Não sabemos construir uma saída de bola.
C.: Pois, e nós não sabemos marcar um canto.”


No fundo, nesta casa há dois monólogos muito semelhantes sobre duas equipas muito diferentes. E escrever aqui apenas torna mais real a nossa angústia:


“M.: O que é que eles farão nos treinos além de chutar para a frente?
C.: Pois, nós é mais passar para trás.”



A nossa rivalidade está adormecida pela nossa impotência enquanto treinadores de bancada. Às vezes, vocês imaginem lá tal é o desespero, até damos por nós a elogiar o outro lado:


“M.: Bem, pelo menos o Lopetegui tem uma ideia de jogo.
C.: Pois, mas pelo menos o Rui Vitória não anda há dois anos a cometer os mesmos erros.”



E isto é a pior coisa que um adepto pode ouvir. Se o outro lado gosta, está tudo ainda pior do que imaginávamos. É por isso que, agora, até damos por nós a ver e comentar os jogos juntos:


“M.: Repara bem que o Talisca num minuto é ala-esquerdo, no outro é número 8 e depois passa a segundo avançado. Apenas talvez não tenha sido ainda experimentado como empregada doméstica.
C.: Pois, e tu vê bem esta saída do lateral-direito, indo o lateral-esquerdo para lateral-direito, o central para lateral-esquerdo e o médio defensivo para central. Parece um jogo de subbuteo em que de repente alguém mexeu no campo e os jogadores caíram todos de um lado para o outro.”



Não é fácil de acompanhar, eu sei. Talvez não tenhamos estudos para isto. Nem nós, nem os poucos que se vão safando:


“M.: Coitado do Gaitán, está mais sozinho no futebol com qualidade do que o deputado do PAN no Parlamento.
C.: Pois, já os meus são tão choninhas que o André André e o Maxi me parecem dois belos jihadistas do Estado Islâmico.”


Portanto, já perceberam por que é que mais vale estarmos calados. Entretanto, se conhecerem um terapeuta de casais-adeptos, estamos preparados:


M.: Porque, se fosse fácil, não era para nós.
C.: Pois, e vamos com muchas ganas e mucha ilusion!