sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016, o ano em que o Benfica ganhou um derby à Porto

"a silent slash in the middle of them the only concession to the calendar used elsewhere in the western world. We get drunk on New Year’s Eve, just as everyone else does, but really it is after the Cup Final in May that our mental clock is wound back, and we indulge in all the vows and regrets and renewals that ordinary people allow themselves at the end of the conventional year." - Nick Hornby, Fever Pitch

A citação serve de desculpa para este texto: fazer balanços a meio da época é estúpido, mas tendo tempo para escrever no blog (o que tem sido raro), aproveito-me do facto de celebrarmos mais uma volta completa da Terra à volta do Sol para fazer um apanhado de 2016, ou, mais concretamente, daquilo que 2015/2016 representou para mim como benfiquista: uma vitória de um sabor inestimável, polvilhada de orgulho, sorte e raiva. Um campeonato que eu - por ter sido tão pessimista e crítico - tive quase vergonha de festejar (nunca acreditei e parte de mim passou o que restou de 2016 a tentar perceber o que se passou).  Uma vitória que eu nunca tinha sentido na minha vida adulta (1993/1994 tem um certo paralelismo com 2015/2016, mas eu festejei-a de uma maneira muito mais ingénua e pura).

Quando 2016 começa, o Benfica está a 5 pontos do Sporting, se a memória não me falha. Sporting esse que jogava o melhor futebol em Portugal, roubou o melhor treinador português ao Benfica e iniciará 2016 com uma vitória sobre o Porto e com uma reviravolta de 0-2 para 3-2 frente ao Braga que parecia...à campeão. O ano abria com a pior das previsões: tudo indicava que os lagartos iam ser campeões. Este é um drama com o qual eu sou obrigado a viver anualmente - a mera possibilidade angustia-me e deixa-me profundamente triste - mas 2015/2016 traria esta desgraça (para a qual eu estou sempre a tentar preparar-me) amplificada por mil: eles ganhariam com um tiro no pé nosso (deixar fugir JJ) e depois de já  nos terem vilipendiado três vezes, uma das quais por 0-3 no nosso próprio santuário. Ou seja, não fez sentido fazer o balanço de 2016 sem ser por épocas e os dois primeiros dois números de 15/16 tinham sido particularmente maus. Adivinhava-se em Maio o pior, como se estivéssemos a ver o Titanic, já sabendo que o barco ia afundar, mas em vez do Leonardo DiCaprio se apaixonar pela actriz-que-agora-não-me-lembro-do-nome, passasse a primeira parte do filme a levar porrada do outro gajo rico no intervalo de estar a trabalhar na sala de máquinas do barco, antes de morrer afogado, sozinho, com tuberculose e sem amor nenhum.


A 2 de Janeiro de 2016, o Benfica ganhou 0-1 em Guimarães, com um pontapé cheio de força de Renato Sanches, depois de fazer um jogo absolutamente horrível. E é aqui que reside a particularidade de se ter que homenagear este ano: foram 44 vitórias em 54 jogos e em vários não sabemos como é que a coisa aconteceu. O Benfica envolveu-se num misticismo muito difícil de explicar depois de ser três - três! - vezes derrotado pelo seu principal adversário: o Benfica não só acreditou que ia ganhar, mas jogou com uma confiança e crença tão obscenas e às vezes tão dissonantes da sua qualidade de jogo, que parecia que não colocava outra hipótese que não a de ser campeão. Isto, meus amigos, era uma característica que eu só tinha visto nos nossos adversários de azul-e-branco. Aquela confiança irritante, em combustão pela qualidade intrínseca dos seus jogadores, mas com aquele condimento de ódio que dá uma vantagem monstruosa tantas vezes, aquela confiança e fé que, no dia certo, à hora certa - ao pôr-do-sol como os cowboys - se vai puxar o revólver primeiro e vencer o duelo. 

Para isto contribuíram decisivamente dois factores: em primeiro lugar, a entrada de Renato Sanches no onze titular. Sabemos todos, desde 2009/2010, que a posição 8 no nosso 4-4-2 é a mais crucial e mais difícil de desempenhar. É uma posição bizarra e talvez com pouco paralelismo com o que se joga pela Europa fora, e exige um jogador muito específico, com força para passar em corrida linhas adversárias, com capacidade de passe suficiente para não perder a bola em zonas de risco e com a força mental necessária para enfrentar 2 e 3 adversários em emboscada como os velociraptors no Jurassic Park, enquanto os jogadores com a camisola igual à sua estão muito longe, ou abertos na ala ou já tão à frente que estão marcados. Para dar um exemplo da solenidade da questão: Pablo Aimar, naquele seu estilo paternalista de vir buscar a bola aos centrais, era várias vezes afogado sem ser capaz de fazer a magia, como se de cada vez que Gabriel Garcia Marquez fosse escrever lhe entrassem três paramilitares americanos pela janela, com granadas de fumo e muita berraria, só para lhe amachucar a folha de rascunho (ou partir o computador, vá). Quais foram os melhores nr. 8 que o Benfica teve? Indivíduos com uma saúde física invejável e inversamente proporcional à sua intenção de fazer do futebol uma arte como Aimar e Iniesta: Enzo e Renato Sanches. Renato tinha o poder físico que era necessário, mas, além disso, teve o condão de puxar Pizzi para interior direito, onde se associou a Jonas como ninguém, tendo ainda a inteligência de corrigir - juntamente com Fejsa - as loucuras posicionais do nosso Forrest Gump de 35 milhões. Aliando a capacidade de ir e vir de Renato à arte de Pizzi e Jonas, o Benfica tornou-se uma máquina de marcar golos imparável na realidade portuguesa, fazendo do massacre sucessivo a equipas pequenas uma longa espera pelo derby com o Sporting. Exceptuando o clássico com o Porto, 2016 foi uma sucessão de vitórias inenarrável, com uma precisão de relógio suiço, que lá para Fevereiro colocou a pergunta fatal no coração e na cabeça do Sporting: "E se nós ainda perdemos isto?".



Se a fraqueza do Benfica é a sua fanfarronice e bazófia, a do Sporting é a sua capacidade infinita para se auto-destruir. O Sporting é a única equipa do mundo que, depois de ter ganho 1-0 em casa ao Manchester City e de estar a ganhar fora 0-2 ao intervalo, consegue com que todos os seus jogadores pensem "Epá, se levarmos quatro golos ainda somos eliminados". No caso levaram três e o quarto não entrou por acaso, mas a moral da fábula é que o Sporting - sobretudo quando confrontado com o Benfica (como o Benfica, sobretudo confrontado com o Porto) - tem um complexo terrível, um nihilismo corrosivo, como as pessoas que levam muitos cafés cheios num tabuleiro até à sua mesa sabendo de antemão que, mais cedo ou mais tarde, os vão entornar. E dia 5 de Março de 2016, o Benfica ganhou um derby à Porto.
Quando digo que o Benfica foi campeão à Porto, não estou a falar de árbitros, estou a falar de ódio. A capacidade de querer mal a um adversário é um catalisador que eu vi utilizado contra o meu clube tantas vezes com sucesso que não sou capaz de as contar todas. O Benfica nunca tinha usado isso, porque o Benfica é o clube mais feliz do mundo, onde o estádio da Luz vai abaixo só porque o Mantorras vai aquecer, e onde o amor pelo Benfica se confunde com uma admiração gigantesca, como se ficasse toda a gente esmagada pelo tamanho do Benfica, sem capacidade para mais nada. Acontece que, neste ano em particular, fomos picados pelo Sporting, o que é, pelo DNA do clube, uma coisa inadmissível. Explicará Eusébio porque é que permitimos todos os desaforos do Porto e nenhum do Sporting, ou talvez isto dos clubes tenha mesmo uma idiossincrasia inexplicável, o que é certo é que após Jorge Jesus ter dito que Rui Vitória não era treinador (será JJ um leitor do blog? Tenho aqui uns livros para lhe oferecer), depois do ataque horrível de Bruno Carvalho, pedindo a certidão de nascimento a Renato Sanches, havia na Luz uma vontade monstra de ser campeão. Vi várias pessoas a festejarem o tri no facebook com a citação "É por nós, não é contra ninguém" da qual discordo veementemente. 2015/2016 foi um longo e violento derby e o Benfica ganhou-o. E ganhou-o porque queria ganhar ao Sporting, e até nos podiam ter dito a meio do campeonato que no fim nem vinha um troféu para o museu, que era só um diploma, que já nada mais interessava. E isso, meus amigos, é para mim um motivo de grande orgulho. Acho que, em futebol, uma equipa equer muito mal a outra não é pecado nenhum Mas isto sou eu, que nunca andei na catequese.


Em Alvalade, a 5 de Março, só a vitória nos punha à frente, mas sublinho que havia entre todos os benfiquistas a ideia de que até o empate serviria (convencidos que o Sporting perderia pontos algures - Dragão, Braga, o que nem veio a acontecer). O Benfica jogou vinte minutos (onde Jonas e Mitroglou foram absolutamente imperiais) e não deixou que houvesse jogo durante os outros setenta. O Sporting merecia certamente empatar (sobretudo no eterno falhanço de Bryan Ruiz, que teve o duplo efeito de não fazer golo e de ter mergulhado o costa-riquenho numa depressão catatónica que muito nos convém), mas desde o início que viveu o derby com um nervosismo excessivo, de quem estudou muito mas se preparou mal mentalmente para o exame. Como se a resposta estivesse ali, mesmo debaixo da língua, com o Benfica cercado, mas não conseguisse sair. Era como se o Sporting soubesse que não ia ser o seu dia desde há muito (desde os falhanços em Guimarães), embebido por um fatalismo inexplicável para quem esmagara o rival na Luz. Vou-vos ser sincero: até eu estava optimista para este derby. Obviamente que não o disse a ninguém, que não o escrevi (provavelmente terei até dito e escrito o contrário) e que provavelmente não o admitiria nem torturado. Mas lembro-me da própria C. me ter topado e dito: tu achas que vocês vão ganhar. Isto, para mim, é como uma impossibilidade física: acreditar e estar certo a um nível que não é lógico, que se vai ganhar. O Benfica passou-me essa impressão, o Sporting confirmou-a com o empate na jornada anterior. 
O meu clube deixou-me orgulhoso pelo seu jogo feio, sujo e à campeão. Como o Porto fizera em 92/93, na Luz, segurando um 0-0 precioso para manter a sua vantagem, ou como quando nos venceu por 2-3 no ano anterior, cinicamente e com um penalty sobre o Rui Filipe que caiu para aí no meio-campo. Às vezes, ser melhor não basta. A vida já me ensinara isso várias vezes. Foi preciso chegar a 2016 para aplicarmos a lição já tantas vezes estudada.

Seguiram-se nove vitórias (com contornos de surrealismo no Bessa, Coimbra, Vila do Conde e em casa com o Setúbal) e pudemos todos cantar a Bailando que estava encravada desde 2015. Ganhámos uma Supertaça, já vamos em primeiro outra vez, Portugal foi campeão da Europa e 21 dias depois daquele derby nasceu uma criança, mas isso são contas para outros textos. Para mim, o resumo de 2016 (ou 2015/2016, vá) foi um longo e cansativo derby que eu, confesso, nunca pensei que acabasse assim. 
Rezam as lendas que alguém terá ouvido um benfiquista já muito velhinho ter dito que foi o campeonato que mais gozo lhe deu na vida. Acredito. O ódio, às vezes, é uma coisa muito bonita.


PS: Amanhã já sabem, as 12 passas pelo tetra. Não gastem com saúde (há sempre um familiar que pede isso para todos) nem com taças nem com nada.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta... enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).

Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta... enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).


Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto se grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta, enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).


Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Longos são os dias sem Jonas

A primeira vez que vi o Jonas jogar foi pelo telemóvel. Estávamos a viajar e enquanto a C. via um Porto-Braga (3-1?) no iPad, eu tive que sofrer com um Benfica-Arouca que esteve 0-0 até aos 70 minutos até Talisca (que se Eusébio quiser vai passar 2018/2019 a treinar com a equipa B de lançamento do peso, com a devida escolta de elementos ligados às claques do Benfica, que o levarão ao carro depois dos treinos) abrir a lata. Jonas entrou, marcou de cabeça e correu a apontar para Ola John - desconhecendo ainda que aquele centro perfeito vinha num pacote que incluía uma atitude imperdoável para os adeptos (eu ainda tenho esperanças no Ola John, vejam lá). Em primeiro lugar, notem que tive que ver o jogo no telemóvel e a C. num ecrã maior - roubados, outra vez - e em segundo: Jonas foi uma paixão imediata e assolapada, que dura até hoje. Pesquiso todos os dias novidades sobre a sua lesão, desespero por notícias como se fosse uma mulher da época dos Descobrimentos cujo marido partiu para enfrentar o Adamastor.

É-me difícil gostar mesmo de um jogador do Benfica. Já gostei de vários, mas a percentagem que me ganha é baixa. Embirro com Fejsa porque está sempre a sair da posição, não suporto quando o Salvio ou o Guedes não levantam a cabeça. Renato Sanches parecia-me tecnicamente inferior a mim mesmo, Di Maria era intrinsecamente estúpido, Lisandro é um perigo, Raul Jimenez joga com demasiada pressa. Sou uma pessoa horrível para estar ao lado a ver futebol. Acho sempre que a galinha do vizinho é sempre melhor. Na verdade, o meu pessimismo leva-me a achar que a galinha do vizinho é um dinossauro gigante com a inteligência de um robot do ano 2380 e armas que nós desconhecemos. Sou uma pessoa que desesperou pela partida de Jackson Martinez do futebol português, rumo à brilhante e feliz carreira internacional que lhe vaticinei. 


No Benfica vejo sempre defeitos, coisas a corrigir, fraquezas que os rivais vão explorar sem piedade. Mas em Jonas vejo a paz, o farol que ilumina todo o nosso jogo, a voz da calma no meio do pânico que é a minha cabeça quando o meu clube joga. O que eu mais amo em Jonas - e é "amo", não é "gosto", não é "adoro" nem "venero" - são os braços dele a dar indicações. Jonas várias vezes desce no terreno, recebe e começa com os braços a posicionar os colegas, com uma paciência paternal de quem ensina os filhos a fazer os trabalhos de casa.
Por exemplo: neste vídeo, Jonas parece dar apenas um toque para isolar Gaitan no tempo certo. Mas o que este vídeo não mostra, mas outros disponíveis na net na altura e que eu agora não encontro mostravam, é que Jonas, antes de receber de Raul, tem Renato na sua linha de passe. E grita-lhe e aponta com o braço que deve sair dali e correr para a frente. Renato, bem mandado, avança e leva o defesa (como se vê na imagem), a linha de passe abre, Jonas recebe e assiste. O golo é dele, por esse grito, por essa ordem.
Jonas é o treinador que eu sempre quis o banco. Passo os jogos a gritar indicações: "Abre!", "Olha o Hortinha, Grimaldo!", "MATA, JARDEL, MATA!", "Olha o Liedson ali, olha o Liedson, caralho! Foda-se, quero lá saber se estamos a atacar, olha o Liedson!", etc. Com Jonas, sinto que me posso poupar, sinto que ele faz isso por mim.


A imagem anterior mostra isso mesmo: o Benfica precisa de ganhar ao Setúbal e numa entrada generosa e muito anos 90, resolve sofrer um golo no primeiro minuto. Os próximos 20 minutos são de pressão intensa, mas com algumas precipitações. Jonas faz o empate, vai buscar a bola à baliza e no caminho dá indicações aos colegas. Jonas é o amor: é tudo o que queremos na vida, porque faz o golo do empate, e é ternurento e paciente, aceitando o erro, corrigindo, perdoando a Salvio cada vez que ele não toca a bola no tempo certo, acertando agulhas com Pizzi - com quem se entende às mil maravilhas - gritando horrores a Elizeu. Nunca grito a Jonas quando erra, não lhe peço nada, limito-me a confiar.
Não sei se vai ser um símbolo do Benfica, se sente ou não a camisola, mas digo-vos que pouco me interessa. Porque não lhe posso pedir mais. Eu sofria com Cardozo, sentia os falhanços dele como se fossem meus, mas não confiava em Cardozo. Tinha uma fé inabalável, mas sabia que muito daquilo estava misturado com a minha devoção. O meu amor por Jonas não é fé, é ciência. Se Jonas não tentou aquele passe que eu queria, era porque não dava e eu aceito isso. 


Tinha acabado de trabalhar quando li online que Jonas se lesionara, há uns tempos atrás. Dei um gritinho e senti-me todo a tremer. E agora? Em quem confiar? Quem é que vai conduzir os ataques, quem é que vai organizar a equipa meticulosamente até ao golo? Quem vai finalizar com classe, tabelar, pausar e acelerar? Terei outra vez que gritar para o campo? Sim. E sofrer? Muito. E até quando? Não sabemos. Vejo diariamente notícias à espera da sua recuperação, acredito nas capas do Correio da Manhã, dos desportivos - mesmo quando se contradizem - e de utilizadores do twitter com 4 seguidores. Acho que em todos os jogos vamos perder pontos. Em todas as jogadas sinto a falta dele e acho que sempre que corre mal é porque Jonas não está, e há um "se ele estivesse cá" recorrente, a martelar-me a cabeça. Fujo sempre da pergunta "e quando ele não estiver?" sem ter coragem da resposta.
A equipa - quiçá treinada por ele? - tem-se aguentado bem, conquistado pontos e cimentado a confiança. Mas o inimigo é feroz e a luta é longa. Para a vencermos precisamos de Jonas. Do Jonas inteligente, matador, traiçoeiro, espertíssimo, sempre no lugar e tempo certo. Precisamos do Jonas que é Cardozo e às vezes é Aimar. Preciso que ele esteja em campo para voltar a confiar, para voltar a ter um mínimo de tranquilidade, para saber que tudo se desmonta com paciência, que não há nada a temer. Preciso de tê-lo em campo e anseio por vê-lo trocar a bola com Rafa.

Diz-se por aí que tudo o que nós queremos na vida é o amor. Eu quero o Jonas no ataque do Benfica. Porque amor é o que sinto quando ele tem a bola nos pés e a mete dentro da baliza. Até ao seu regresso, a vida será uma soma de inquietações que temos de vencer com a ajuda de tudo o que ele nos ensinou. Longos são os dias sem ti. Regressa rápido, Pistolas. Um abraço de coração apertado, à tua espera.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Carta da Maria ao Luisão

A nossa sobrinha mais velha, a Maria, que tem 9 anos e que a C. caracterizou como uma pequena Rui Gomes da Silva, é fã do Luisão. Quando pediu uma camisola do Benfica, disse que queria o número 4. 
"Porquê, Maria?" 
"Porque é o número do Luisão e ele é o chefe!"
  
Só por este episódio, a partir de agora, os capitães do Benfica deviam ser chefes, que é muito melhor.
Ora, a Maria está triste e preocupada com a saída do chefe e pediu esta manhã a morada do Estádio da Luz (que ela já visitou) para enviar uma carta ao Luisão. O blog dos tios, comprometido a ajudar, imprime a missiva deste jovem preocupada, espantada (porque quererá Luisão sair do melhor clube do mundo) e exigente (quer uma resposta).

Os tios adoram-te, Maria! 



segunda-feira, 11 de julho de 2016

Enquanto dormias

Às 20.35 do dia 10 de Julho de 2016, com o jogo Portugal-França a caminhar para o fim da primeira parte, o nosso filho adormeceu. Caiu no sono com ar de quem era capaz de dormir 12 horas, o que num bebé significa mais ou menos 3h de descanso para os pais. Enquanto o nosso filho dormia, a sucessão de eventos mais improvável e surrealista do desporto português aconteceu. Cristiano Ronaldo lesionou-se, a sempre patriota C. atirou um "só bolinha" na primeira repetição, um muito saudável "isto está tudo feito, este gajo só faz isso para as câmaras" quando Ronaldo tentou entrar em campo outra vez e eu disse umas três vezes "já está" quando os franceses ainda pensavam ser possível bater Rui Patrício. Os teus pais, P., não vibram muito com a selecção. 


Quando eu vi a primeira participação de Portugal numa grande competição - 1996 - vibrei e sofri muito, porque era a primeira vez (e a sensação de raridade faz-nos querer beber os pormenores todos). Fiz a colecção de bonecos de plástico d`"A Bola" - que guardo religiosamente e que tem o problema de ser tacticamente desequilibrada: Baía, P.Santos, Hélder, F.Couto (que cai para trás, devido ao peso do cabelo), Oceano, Paulo Sousa, JVP, Figo, Rui Costa, Sá Pinto e Domingos, obrigavam-me a adaptar Oceano a lateral e a dispor a equipa num arriscado 4-1-3-2 que anos mais tarde daria 3 campeonatos ao meu clube. Fiquei chateado cerca de 10 minutos com o golo do Poborsky e depois acabou e voltei ao sofrimentos dos anos 90 do Benfica. Sofreria duas vezes mais com a selecção na minha vida: o Alemanha-Portugal de Marc Batta, que vi colado à televisão com o meu primo N. e que me chateou profundamente, e com os quartos de final com a Inglaterra em 2004 (em 2000 disse logo que era penalty do Abel Xavier e tentei culpar Vitor Baía por ter largado a bola no lance, desconhecendo que 14 anos depois ele estaria sentado ao meu lado, com uma simpatia esmagadora, na apresentação do nosso livro). A selecção, P., sempre me passou ao lado. E isto não é uma coisa hipster para me armar em mais benfiquista do que os benfiquistas que sofrem por Portugal. É uma coisa que me aconteceu, como se o meu amor futebolístico tivesse sido todo canalizado para o vermelho da Luz. 


Espero que um dia percebas, no entanto, que o futebol é muito maior do que as nossas paixões. Às vezes emocionam-me relatos que não têm nada a ver comigo, por vezes fico com vontade de estar em bancadas só porque quero sentir aquele festejo de golo e acontece-me a mim e a muitas pessoas sonhar acordado com jogos, com emoções que nunca vamos sentir só porque sim, só porque o jogo nos permite isso. E apesar da selecção dizer pouco aos teus pais - podemos admitir publicamente que o golo de Éder foi o único que festejámos no torneio e já explico porquê adiante - é impossível uma pessoa não se emocionar com o país inteiro à nossa volta, como se toda a gente descobrisse um jogo que nos leva a loucuras há tantos anos. E, sobretudo, é impossível não ficar feliz pelas pessoas de quem gostamos e que estavam verdadeiramente felizes com a possibilidade de Portugal ser campeão europeu (o teu avô materno estava nervoso antes do prolongamento e a tua tia paterna telefonou-me hoje e contou a maneira como viveu o jogo e deixou os teus primos negligentemente à solta). Os teus pais podem ser doidos, mas não são nenhuns monstros: podemos chamar nomes ao Ronaldo e ao Adrien, mas também podemos estar contentes pela família e amigos (talvez este tenha sido o momento mais condescendente da história futebolística da internet, mas adiante).


O que é certo é que enquanto tu dormias, daquela maneira tranquila, amorosa e ao mesmo tempo falsa dos bebés de 3 meses, aconteceu um jogo absolutamente mítico. Rui Patrício fez uma exibição para os livros de história, Pepe tirou tudo o que havia para tirar, João Moutinho encheu o campo com inteligência com a sua entrada e o Éder transformou-se numa lenda. E foi por causa do Éder - que não é amigo nem é da família  - que os teus pais ficaram genuína e entusiasticamente felizes. Há muito que o teu pai - o mesmo pai que disse que Rui Vitória nem com o plantel do Bayern seria campeão português ou que Renato Sanches não era a solução para os problemas do Benfica (tendo Renato Sanches, após essa frase escrita pelo teu pai, sido campeão nacional, titular e campeão Europeu e nomeado Comendador pelo Presidente da República) - tem uma história para gozar consigo mesmo aqui no blog: quando o Benfica contratou o Lima - na altura com 29 anos, salvo erro - o idiota do teu pai confessou a dois ou três amigos que duvidava daquela contratação, porque o Lima já estava quase nos 30 e não parecia assim tão bom. Quem é que o teu pai achava que tinha mais potencial? O Éder, que jogava na Académica. Ora, o Lima transformou-se numa máquina de golos, assistências, bom futebol e deu dois títulos de campeão ao Benfica, e o Éder era só o ponta de lança mais gozado de sempre na internet. A história do meu palpite, que mais não servia do que para me rir para mim próprio, hoje seria ainda mais risível. 



Não sei se na altura em que tiveres idade para ler isto ainda existirão os registos, mas é quase impossível mostrar-te quão gozado e menosprezado era o Éder. O Éder tinha sido assobiado num amigável, havia uma petição on-line para o Éder não ser convocado para o Europeu e ir um civil e quando o André Silva marcou dois golos ao Braga na final da Taça perdida pelo clube da tua mãe em 2016, a opinião geral (incluindo dos teus dois pais) era que o miúdo de 19 anos merecia mais a convocatória do que o Éder. Basicamente, antes do Europeu, tu - com 3 meses - parecias um ponta de lança mais promissor do que o Éder. O mais fabuloso - e talvez isto não encontres logo quando quiseres saber coisas sobre o jogo - foi a maneira brutal como o Éder entrou na final (e só tinha entrado - e mal - nos dois primeiros jogos do grupo). Ganhou todas as bolas, segurou e deu com classe aos colegas. Apareceu muito bem num canto e quase resolvia a final antes do prolongamento. Fez uma mão estúpida, o árbitro achou que foi do francês e o Guerreiro mandou a bola à barra num livre. Confiante, astuto, descomplexado. Surpreendente.
"Estou pelo Éder", disse a tua mãe. E tu dormias, ignorando a História - com agá muito grande - que passava na televisão perto de ti. Eu e a tua mãe entrámos no espírito selecção (vamos esquecer a acusação que a tua mãe fez do Ronaldo ter simulado uma lesão no início do jogo para parecer mais heróico) e, sobretudo, entrámos no espírito Éder. Estávamos por ele. 


De repente - e oxalá que quando tu cresceres este flagelo que é o desfasamento entre televisões já tenha desaparecido - há um grito maravilhoso na rua. Um grito de estádio, daqueles que vem do fundo. Aquele grito do golo surpreendente, decisivo, maravilhoso, que marca vidas e do qual toda a gente vai falar a vida toda. Um grito de bancada argentina, misturado com o YEEEEEAAAAHHHH dos ingleses. Mas português e dali do lado. E quando os teus pais olham para a televisão, já sabem que não podem gritar golo porque tu estás a dormir. O Moutinho dá a bola ao Éder e eu digo à tua mãe "Vai ser do Éder!". Ela olha para mim e ri-se nervosa e eu ainda imagino que ele vá dar a alguém que vai aparecer na direita, mas ele chuta mesmo - com intenção, com certeza, à ponta de lança. História. História do patinho feio, história da equipa que se uniu com a saída do craque, história do futebol do nosso país. O Éder. 1-0, à França (a quem Portugal não ganhava há 41 anos - e que me lembrava derrotas infinitas em meias-finais e amigáveis, como aquele 3-2 no Parque dos Príncipes com golo do Rui Costa ao mítico Lama), em Paris, na final de um Europeu. Apeteceu-me que acordasses e que crescesses depressa, para eu te contar tudo. Mas felizmente tu acordaste só mesmo com o apito final, espreguiçaste-te daquela maneira irresistível e olhaste tranquilo para mim e para a tua mãe, com ar de quem pergunta se se passou alguma coisa de importante enquanto tu dormias.

P., enquanto tu dormias, aconteceu um conto de fadas de futebol. O dia em que o patinho feio ficou o cisne eterno. Um dia contamos-te tudo.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O homem que mudou o jogo

"Ideas are bulletproof" 
(Alan Moore - V for Vendetta)

A minha primeira memória de Cruyff é má e serve este texto para lhe pedir desculpa e para me penitenciar. Estamos em Abril de 1992 e o Benfica joga o apuramento para a final da Taça dos Campeões Europeus em Barcelona, enfrentando o Dream Team. Perdemos 2-1, com uma exibição horrível de José Carlos, e chorei como chorava sempre que o Benfica perdia. Cruyff, aquele senhor de casaco longo (quase sempre de gabardina), era o mentor de uma derrota do Benfica e isso fez-me não gostar dele (eu tinha 8 anos e a minha cabeça funcionava assim. Em parte ainda funciona, mas menos) e não compreendi como é que o meu pai torceu pelo Barça na final contra a Sampdoria (1-0, Koeman, de livre, com Vialli no banco a tapar a cabeça para não ver). 


Só anos mais tarde percebi que o Benfica tinha enfrentado história. História de futebol, história do jogo, uma ideia peregrina. Não que isso tivesse mitigado a minha dor na altura - lembro-me perfeitamente da minha excitação antes do jogo, de pedir à minha mãe para ir mais cedo para casa e do lancinante choro no 2-0 - mas teria aceitado a derrota com outra dignidade e, sobretudo, não tinha guardado rancor a uma personagem cujas ideias criaram um futebol que me dá prazer, que me arrepia como nenhuma música faz, que me faz sentir bem com o mundo. 

Há uns dias, a ver o Atleti-PSV para a Champions no sofá e à beira de ser pais, disse à C. que uma coisa que eu me lembro de invejar muitíssimo no meu pai era quando, num jogo que estivéssemos a ver, filmavam o treinador e ele dizia: "Este gajo era grande jogador". Eu invejava-o por nunca ter visto aquele tipo. E o exemplo que estava na minha cabeça era Cruyff. A C. completou, dizendo que um dia vamos dizer isso do Simeone e o nosso filho vai ter de ir vê-lo ao youtube. Mas mesmo se Simeone é hoje treinador do Atletico e foi um craque ou se Zidane é treinador do Real Madrid e foi campeão do Mundo e o melhor jogador do mundo, nenhum deles mudou o jogo como Cruyff mudou. Como jogador e depois como treinador. Porque é esse o seu legado, a sua ideia à prova de bala à qual todos aqueles amam o jogo têm de agradecer: o futebol é dos melhores. E os melhores são os mais inteligentes. E porra, a morte de Johan Cruyff chateia-me porque sublinha essa inveja: eu nunca o vi jogar nem sequer era suficientemente inteligente para o apreciar quando o enfrentámos. E agora, como é que eu lhe agradeço tudo?


Johan Cruyff foi 3 vezes Bola de Ouro, líder da mítica Laranja Mecânica e louco o suficiente para não ir ao Mundial de 1978 (por rebelião contra a ditadura ou por pressão da mulher, depende das versões). Fez a sua homenagem à Catalunha quando baptizou o filho como Jordi (em homenagem ao santo padroeiro da Catalunha), nome que era proibido pelo franquismo. Símbolo do Barça, símbolo do Ajax, mas mais do que isso: o génio que mudou o jogo. 
Até Pep Guardiola e Messi provarem ao mundo que não, o futebol era um jogo físico, para atletas, para corredores. Para os mais altos, para os mais fortes, para os que chegavam mais longe. Apesar de Cruyff já ter dito que não várias vezes: 

- We must make sure their worst players get the ball the most. You’ll get it back in no time.
- There is only one ball, so you need to have it.
Technique is not being able to juggle a ball 1000 times. Anyone can do that by practicing. Then you can work in the circus. Technique is passing the ball with one touch, with the right speed, at the right foot of your team mate.
There’s only one moment in which you can arrive in time. If you’re not there, you’re either too early or too late.

Estava lá tudo e Cruyff já o tinha visto antes. Mas talvez tenha chegado demasiado cedo a esta ideia, o senhor da gabardina. E nós chegámos todos tarde. A verdade é que hoje, no FC Barcelona, os treinos começam com aquele meinho que Cruyff sonhou. Os mais inteligentes (Busquets, Xavi e Iniesta, esse meio campo dos deuses) são preferidos aos mais fortes. A onda alastrou para a Alemanha e para o mundo, que precisou de ver resultados antes de acreditar no holandês que perdeu uma final por 4-0 contra o Milan de Capello. O futebol que Cruyff sonhou está todo nesta conversa com Xavi, um almoço para o qual eu dava tudo para estar presente:



Um dia, com o meu filho ao colo, hei-de ver um jogo com Guardiola no banco. Talvez ele esteja concentrado num jogador qualquer que admira, talvez até seja contra o Benfica e o P. estará demasiado nervoso a compor a nossa defesa para reparar quando eu disser: "Este gajo era grande jogador" quando filmarem Pep. Talvez o faça já no Bayern-Benfica, apesar de achar que, para um recém-nascido, já vai ser suficientemente complicado perceber à primeira porque é vamos abdicar dos dois avançados. Mas o que interessa é que um dia vou explicar ao P. quem foi Guardiola, como é que aquele senhor que fala as línguas todas mudou o jogo. Mas para isso vou falar-lhe de Cruyff. Porque foi Cruyff quem sonhou isto tudo. Quem pensou primeiro. Quem teve esta ideia, à prova de bala e à prova de matulões, "que o futebol se joga com os pés e as pernas estão lá para ajudar". Foi Cruyff o mentor deste maravilhoso mundo onde agora Messi se diverte. 
E eu, a primeira vez que o vi, não percebi isso. As minhas desculpas ao senhor da gabardina. As minhas desculpas ao senhor que mudou o jogo. Obrigado, muito obrigado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Não foi, mas podia ter sido...

Rui Costa bem tentou. Aquele golo anulado ao Brahimi aos 62 minutos tinha tudo para nos estragar a noite. Um Porto que não fosse Porto teria cruzado os braços e deixado os rivais fugir na luta pelo título. Um Porto que não fosse Porto não teria lutado nem acreditado até ao fim. Mas esse, como sabemos, não é o FCPorto de 2015/2016, nem nunca foi o FCPorto de João Pinto, Jorge Costa, Vítor Baía ou Paulinho Santos, nem nunca deixará de ser um FCPorto centrado na sua mística, que sabe bem a importância de colocar a identidade à frente dos números.

Ora, e nem sei por que divaguei tanto por este cenário irreal. Voltemos, então, àquele golo anulado de maneira tão ridícula que até o Pedro Guerra teve de admitir, na segunda-feira, e passo a citar, que “o Porto realmente é muito roubado pelos árbitros e eu sou realmente demasiado gordo para caber nas vossas televisões”, tendo depois abandonado o estúdio numa atitude de grande elevação moral que aproveito para aplaudir. Bem, mas o que o árbitro fez, naquele lance, sem querer, foi acordar-nos.

A maneira como todos os nossos jogadores o rodearam, de peito feito, aos gritos, fez-me acreditar que ainda pode haver fé na Humanidade e que nem todos os rapazes da minha geração se conformam perante tamanhas injustiças. Talvez Aboubakar tenha exagerado naquela chapada ao fiscal-de-linha, mas ele é assim, intempestivo, incontrolável, e vamos lá admitir: quem é que não quis fazer exactamente o mesmo naquele momento? E devemos ser penalizados por exteriorizarmos assim as nossas emoções, quando ainda por cima temos razão? Confesso apenas que não estava à espera que até Iker Casillas, um símbolo do futebol mundial, um gentleman, fosse cuspir no único jogador adversário que não fugiu daquela horda de homens corajosos e irreverentes, mas, provavelmente, após ter visto Sara Carbonero na bancada, grávida, a insultar o hijo de puta do árbitro, percebeu que também tinha de dar o exemplo aos mais novos.

Muitos dirão: não foi um momento bonito de futebol. Não, não foi propriamente o equivalente a um golo do Ricardinho contra a Sérvia em futsal, admito. Mas tenho a certeza que, se nos tivéssemos deixado comer naquele momento, nunca mais tínhamos ganho aquele jogo e iríamos agora à luz com seis vergonhosos pontos de desvantagem. Infelizmente, não estou a conseguir encontrar no YouTube as imagens deste episódio para que nunca se esqueçam do que acontece quando se metem com o Porto, mas deixo-vos aqui um outro exemplo, igualmente belo, de uma grande roubalheira que não passou impune:



Estava, então, dado o mote para uma noite de raça. O habitual, aliás, no Estádio do Dragão, onde qualquer adversário, seja o Arouca ou o Bayern de Munique, tem medo de entrar. O mérito, na verdade, não foi apenas do nosso aguerrido plantel. A forma como o público se levantou da cadeira, correu para a primeira fila e atirou tudo o que estava à mão (moedas, telemóveis, filhos, a merda das pipocas que só servem mesmo para isto, etc) para cima do fiscal-de-linha também terá inspirado os artistas. Aos 62 minutos daquele domingo não houve selfies para o concurso do Instagram, se bem que aquela que o Aboubakar tirou com um telemóvel que tinha sido atirado para o relvado e onde se vê ele a sorrir e, atrás, o fiscal-de-linha a gemer de dores no chão bem merecia ganhar.

Mas ainda havia muito por jogar. E quem diria que, apenas uns minutos depois, nos íamos distrair tanto e deixar que um central nosso ficasse perante dois adversários tão perto da nossa área. Felizmente, esse central era Maicon, o nosso grande capitão, que sabe muito bem que um erro daqueles pode acontecer a qualquer um, mas que é o que acontece a seguir que separa os coninhas dos heróis. Ora, também não estou a encontrar no YouTube as imagens do lance, mas curiosamente o M. publicou um muito semelhante, e igualmente belo, no texto anterior:



Maicon foi expulso, claro, porque Rui Costa continuou a ser um grande ladrão, mas o Walter não conseguiu passar, o Arouca falhou o livre e o capitão saiu do relvado com uma ovação de pé dos adeptos. Só mesmo no nosso Porto ainda existe esta comunhão perfeita entre o que nós sentimos na bancada e o que eles lutam lá dentro. Talvez, vá, Maicon tenha ido longe demais quando deu uma cabeçada ao irmão Maurides, que estava no banco de suplentes do Arouca sossegado mas com cara de quem não concordava com aquele bonito gesto do irmão, só que nestas coisas do futebol já se sabe que “a única família que importa é o nosso clube”, como escreveu a mulher do Maicon nas redes sociais. Sábia senhora.

Tal como no caso do ligeiro toque do Secretário ao João Vieira Pinto, o avançado Walter sobreviveu, mas neste caso ainda bem, porque ninguém estava à espera que ele marcasse aquele golo na própria, que levou até Casillas - um gentleman, lembrem-se - a pedir-lhe desculpa, ironicamente, na sua conta do Instagram. Este guarda-redes espanhol saiu-me cá um maluco! É impressionante como eles chegam cá, vindos de qualquer lugar e em qualquer altura da vida, e ficam logo com a cassete azul e branca. Ora, às tantas não é muito comum ver a equipa e os adeptos do FCPorto a festejar tanto uma vitória em casa contra o Arouca, mas a verdade é que houve ali um segundo, após o golo mal anulado ao Brahimi, em que todos tínhamos visualizado o que podia ter acontecido se fôssemos uns morcões.

Naquele segundo, vimos um Porto conformado, uma equipa desistente, uns adeptos com chama apenas quando se trata de queimar os nossos e não os outros. Vimos não só os rivais mais longe, mas todos nós mais distantes desse clube com o qual seria impossível identificarmo-nos. O que seria de um Porto que agora iria à luz já derrotado, porque desistir de ganhar é a maior derrota de todas? O que seria de um Porto sem raça, sem heróis? O que seria de um clássico contra o benfica sem ódio, sem rivalidade? Bem, foi só um segundo a imaginar isto, mas foi terrível, daí tantos festejos no fim. Até Pinto da Costa, sempre presente nos bons e nos maus momentos, fez questão de vir mostrar que a fina ironia está bem viva, quando lhe perguntaram pela actuação do árbitro e ele respondeu: "Rui Costa? A única coisa que fez bem na vida foi aquele golo à Inglaterra no Euro 2004..."

Felizmente, vamos à luz a depender de nós próprios para sermos campeões, o que, como toda a gente sabe, é motivo mais do que suficiente para eles tremerem de medo. Não que eles precisem de olhar para a tabela para isso, pois chega a ser embaraçosa a memória do jogo do ano passado, quando três jogadores vermelhos fizeram xixi nas cuecas só de verem a estratégia demolidora de Lopetegui e quando Maxi Pereira, na altura o caceteiro do defesa direito do benfica, saiu do relvado a chorar e a chamar pela mãe, porque estava farto de ser gozado pelo Brahimi. Ai ai, que belas lembranças. Pena termos empatado, mas também fomos tão roubados que foi impossível fazer mais. Valeu pela reacção do Óliver e do treinador a mais uma expulsão injusta, quem diria que aquele pequenote os podia irritar tanto! Não estou a encontrar as imagens (não sei o que se passa hoje no YouTube) mas deixo aqui um momento muito parecido, com Yuran e Robson, a partir do minuto 1:05, só para que sexta-feira saibam no que se vão meter: