sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016, o ano em que o Benfica ganhou um derby à Porto

"a silent slash in the middle of them the only concession to the calendar used elsewhere in the western world. We get drunk on New Year’s Eve, just as everyone else does, but really it is after the Cup Final in May that our mental clock is wound back, and we indulge in all the vows and regrets and renewals that ordinary people allow themselves at the end of the conventional year." - Nick Hornby, Fever Pitch

A citação serve de desculpa para este texto: fazer balanços a meio da época é estúpido, mas tendo tempo para escrever no blog (o que tem sido raro), aproveito-me do facto de celebrarmos mais uma volta completa da Terra à volta do Sol para fazer um apanhado de 2016, ou, mais concretamente, daquilo que 2015/2016 representou para mim como benfiquista: uma vitória de um sabor inestimável, polvilhada de orgulho, sorte e raiva. Um campeonato que eu - por ter sido tão pessimista e crítico - tive quase vergonha de festejar (nunca acreditei e parte de mim passou o que restou de 2016 a tentar perceber o que se passou).  Uma vitória que eu nunca tinha sentido na minha vida adulta (1993/1994 tem um certo paralelismo com 2015/2016, mas eu festejei-a de uma maneira muito mais ingénua e pura).

Quando 2016 começa, o Benfica está a 5 pontos do Sporting, se a memória não me falha. Sporting esse que jogava o melhor futebol em Portugal, roubou o melhor treinador português ao Benfica e iniciará 2016 com uma vitória sobre o Porto e com uma reviravolta de 0-2 para 3-2 frente ao Braga que parecia...à campeão. O ano abria com a pior das previsões: tudo indicava que os lagartos iam ser campeões. Este é um drama com o qual eu sou obrigado a viver anualmente - a mera possibilidade angustia-me e deixa-me profundamente triste - mas 2015/2016 traria esta desgraça (para a qual eu estou sempre a tentar preparar-me) amplificada por mil: eles ganhariam com um tiro no pé nosso (deixar fugir JJ) e depois de já  nos terem vilipendiado três vezes, uma das quais por 0-3 no nosso próprio santuário. Ou seja, não fez sentido fazer o balanço de 2016 sem ser por épocas e os dois primeiros dois números de 15/16 tinham sido particularmente maus. Adivinhava-se em Maio o pior, como se estivéssemos a ver o Titanic, já sabendo que o barco ia afundar, mas em vez do Leonardo DiCaprio se apaixonar pela actriz-que-agora-não-me-lembro-do-nome, passasse a primeira parte do filme a levar porrada do outro gajo rico no intervalo de estar a trabalhar na sala de máquinas do barco, antes de morrer afogado, sozinho, com tuberculose e sem amor nenhum.


A 2 de Janeiro de 2016, o Benfica ganhou 0-1 em Guimarães, com um pontapé cheio de força de Renato Sanches, depois de fazer um jogo absolutamente horrível. E é aqui que reside a particularidade de se ter que homenagear este ano: foram 44 vitórias em 54 jogos e em vários não sabemos como é que a coisa aconteceu. O Benfica envolveu-se num misticismo muito difícil de explicar depois de ser três - três! - vezes derrotado pelo seu principal adversário: o Benfica não só acreditou que ia ganhar, mas jogou com uma confiança e crença tão obscenas e às vezes tão dissonantes da sua qualidade de jogo, que parecia que não colocava outra hipótese que não a de ser campeão. Isto, meus amigos, era uma característica que eu só tinha visto nos nossos adversários de azul-e-branco. Aquela confiança irritante, em combustão pela qualidade intrínseca dos seus jogadores, mas com aquele condimento de ódio que dá uma vantagem monstruosa tantas vezes, aquela confiança e fé que, no dia certo, à hora certa - ao pôr-do-sol como os cowboys - se vai puxar o revólver primeiro e vencer o duelo. 

Para isto contribuíram decisivamente dois factores: em primeiro lugar, a entrada de Renato Sanches no onze titular. Sabemos todos, desde 2009/2010, que a posição 8 no nosso 4-4-2 é a mais crucial e mais difícil de desempenhar. É uma posição bizarra e talvez com pouco paralelismo com o que se joga pela Europa fora, e exige um jogador muito específico, com força para passar em corrida linhas adversárias, com capacidade de passe suficiente para não perder a bola em zonas de risco e com a força mental necessária para enfrentar 2 e 3 adversários em emboscada como os velociraptors no Jurassic Park, enquanto os jogadores com a camisola igual à sua estão muito longe, ou abertos na ala ou já tão à frente que estão marcados. Para dar um exemplo da solenidade da questão: Pablo Aimar, naquele seu estilo paternalista de vir buscar a bola aos centrais, era várias vezes afogado sem ser capaz de fazer a magia, como se de cada vez que Gabriel Garcia Marquez fosse escrever lhe entrassem três paramilitares americanos pela janela, com granadas de fumo e muita berraria, só para lhe amachucar a folha de rascunho (ou partir o computador, vá). Quais foram os melhores nr. 8 que o Benfica teve? Indivíduos com uma saúde física invejável e inversamente proporcional à sua intenção de fazer do futebol uma arte como Aimar e Iniesta: Enzo e Renato Sanches. Renato tinha o poder físico que era necessário, mas, além disso, teve o condão de puxar Pizzi para interior direito, onde se associou a Jonas como ninguém, tendo ainda a inteligência de corrigir - juntamente com Fejsa - as loucuras posicionais do nosso Forrest Gump de 35 milhões. Aliando a capacidade de ir e vir de Renato à arte de Pizzi e Jonas, o Benfica tornou-se uma máquina de marcar golos imparável na realidade portuguesa, fazendo do massacre sucessivo a equipas pequenas uma longa espera pelo derby com o Sporting. Exceptuando o clássico com o Porto, 2016 foi uma sucessão de vitórias inenarrável, com uma precisão de relógio suiço, que lá para Fevereiro colocou a pergunta fatal no coração e na cabeça do Sporting: "E se nós ainda perdemos isto?".



Se a fraqueza do Benfica é a sua fanfarronice e bazófia, a do Sporting é a sua capacidade infinita para se auto-destruir. O Sporting é a única equipa do mundo que, depois de ter ganho 1-0 em casa ao Manchester City e de estar a ganhar fora 0-2 ao intervalo, consegue com que todos os seus jogadores pensem "Epá, se levarmos quatro golos ainda somos eliminados". No caso levaram três e o quarto não entrou por acaso, mas a moral da fábula é que o Sporting - sobretudo quando confrontado com o Benfica (como o Benfica, sobretudo confrontado com o Porto) - tem um complexo terrível, um nihilismo corrosivo, como as pessoas que levam muitos cafés cheios num tabuleiro até à sua mesa sabendo de antemão que, mais cedo ou mais tarde, os vão entornar. E dia 5 de Março de 2016, o Benfica ganhou um derby à Porto.
Quando digo que o Benfica foi campeão à Porto, não estou a falar de árbitros, estou a falar de ódio. A capacidade de querer mal a um adversário é um catalisador que eu vi utilizado contra o meu clube tantas vezes com sucesso que não sou capaz de as contar todas. O Benfica nunca tinha usado isso, porque o Benfica é o clube mais feliz do mundo, onde o estádio da Luz vai abaixo só porque o Mantorras vai aquecer, e onde o amor pelo Benfica se confunde com uma admiração gigantesca, como se ficasse toda a gente esmagada pelo tamanho do Benfica, sem capacidade para mais nada. Acontece que, neste ano em particular, fomos picados pelo Sporting, o que é, pelo DNA do clube, uma coisa inadmissível. Explicará Eusébio porque é que permitimos todos os desaforos do Porto e nenhum do Sporting, ou talvez isto dos clubes tenha mesmo uma idiossincrasia inexplicável, o que é certo é que após Jorge Jesus ter dito que Rui Vitória não era treinador (será JJ um leitor do blog? Tenho aqui uns livros para lhe oferecer), depois do ataque horrível de Bruno Carvalho, pedindo a certidão de nascimento a Renato Sanches, havia na Luz uma vontade monstra de ser campeão. Vi várias pessoas a festejarem o tri no facebook com a citação "É por nós, não é contra ninguém" da qual discordo veementemente. 2015/2016 foi um longo e violento derby e o Benfica ganhou-o. E ganhou-o porque queria ganhar ao Sporting, e até nos podiam ter dito a meio do campeonato que no fim nem vinha um troféu para o museu, que era só um diploma, que já nada mais interessava. E isso, meus amigos, é para mim um motivo de grande orgulho. Acho que, em futebol, uma equipa equer muito mal a outra não é pecado nenhum Mas isto sou eu, que nunca andei na catequese.


Em Alvalade, a 5 de Março, só a vitória nos punha à frente, mas sublinho que havia entre todos os benfiquistas a ideia de que até o empate serviria (convencidos que o Sporting perderia pontos algures - Dragão, Braga, o que nem veio a acontecer). O Benfica jogou vinte minutos (onde Jonas e Mitroglou foram absolutamente imperiais) e não deixou que houvesse jogo durante os outros setenta. O Sporting merecia certamente empatar (sobretudo no eterno falhanço de Bryan Ruiz, que teve o duplo efeito de não fazer golo e de ter mergulhado o costa-riquenho numa depressão catatónica que muito nos convém), mas desde o início que viveu o derby com um nervosismo excessivo, de quem estudou muito mas se preparou mal mentalmente para o exame. Como se a resposta estivesse ali, mesmo debaixo da língua, com o Benfica cercado, mas não conseguisse sair. Era como se o Sporting soubesse que não ia ser o seu dia desde há muito (desde os falhanços em Guimarães), embebido por um fatalismo inexplicável para quem esmagara o rival na Luz. Vou-vos ser sincero: até eu estava optimista para este derby. Obviamente que não o disse a ninguém, que não o escrevi (provavelmente terei até dito e escrito o contrário) e que provavelmente não o admitiria nem torturado. Mas lembro-me da própria C. me ter topado e dito: tu achas que vocês vão ganhar. Isto, para mim, é como uma impossibilidade física: acreditar e estar certo a um nível que não é lógico, que se vai ganhar. O Benfica passou-me essa impressão, o Sporting confirmou-a com o empate na jornada anterior. 
O meu clube deixou-me orgulhoso pelo seu jogo feio, sujo e à campeão. Como o Porto fizera em 92/93, na Luz, segurando um 0-0 precioso para manter a sua vantagem, ou como quando nos venceu por 2-3 no ano anterior, cinicamente e com um penalty sobre o Rui Filipe que caiu para aí no meio-campo. Às vezes, ser melhor não basta. A vida já me ensinara isso várias vezes. Foi preciso chegar a 2016 para aplicarmos a lição já tantas vezes estudada.

Seguiram-se nove vitórias (com contornos de surrealismo no Bessa, Coimbra, Vila do Conde e em casa com o Setúbal) e pudemos todos cantar a Bailando que estava encravada desde 2015. Ganhámos uma Supertaça, já vamos em primeiro outra vez, Portugal foi campeão da Europa e 21 dias depois daquele derby nasceu uma criança, mas isso são contas para outros textos. Para mim, o resumo de 2016 (ou 2015/2016, vá) foi um longo e cansativo derby que eu, confesso, nunca pensei que acabasse assim. 
Rezam as lendas que alguém terá ouvido um benfiquista já muito velhinho ter dito que foi o campeonato que mais gozo lhe deu na vida. Acredito. O ódio, às vezes, é uma coisa muito bonita.


PS: Amanhã já sabem, as 12 passas pelo tetra. Não gastem com saúde (há sempre um familiar que pede isso para todos) nem com taças nem com nada.

2 comentários:

  1. Excelente!
    Bom ano para vocês! Que assistam os três ao tetra do Benfica.

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  2. Muito bom, parabéns doutor.. Feliz 2017!
    Eu sabia que era você mas quando lhe perguntei o nome, percebi mal e fiquei na duvida.. :)

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