quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Não foi, mas podia ter sido...

Rui Costa bem tentou. Aquele golo anulado ao Brahimi aos 62 minutos tinha tudo para nos estragar a noite. Um Porto que não fosse Porto teria cruzado os braços e deixado os rivais fugir na luta pelo título. Um Porto que não fosse Porto não teria lutado nem acreditado até ao fim. Mas esse, como sabemos, não é o FCPorto de 2015/2016, nem nunca foi o FCPorto de João Pinto, Jorge Costa, Vítor Baía ou Paulinho Santos, nem nunca deixará de ser um FCPorto centrado na sua mística, que sabe bem a importância de colocar a identidade à frente dos números.

Ora, e nem sei por que divaguei tanto por este cenário irreal. Voltemos, então, àquele golo anulado de maneira tão ridícula que até o Pedro Guerra teve de admitir, na segunda-feira, e passo a citar, que “o Porto realmente é muito roubado pelos árbitros e eu sou realmente demasiado gordo para caber nas vossas televisões”, tendo depois abandonado o estúdio numa atitude de grande elevação moral que aproveito para aplaudir. Bem, mas o que o árbitro fez, naquele lance, sem querer, foi acordar-nos.

A maneira como todos os nossos jogadores o rodearam, de peito feito, aos gritos, fez-me acreditar que ainda pode haver fé na Humanidade e que nem todos os rapazes da minha geração se conformam perante tamanhas injustiças. Talvez Aboubakar tenha exagerado naquela chapada ao fiscal-de-linha, mas ele é assim, intempestivo, incontrolável, e vamos lá admitir: quem é que não quis fazer exactamente o mesmo naquele momento? E devemos ser penalizados por exteriorizarmos assim as nossas emoções, quando ainda por cima temos razão? Confesso apenas que não estava à espera que até Iker Casillas, um símbolo do futebol mundial, um gentleman, fosse cuspir no único jogador adversário que não fugiu daquela horda de homens corajosos e irreverentes, mas, provavelmente, após ter visto Sara Carbonero na bancada, grávida, a insultar o hijo de puta do árbitro, percebeu que também tinha de dar o exemplo aos mais novos.

Muitos dirão: não foi um momento bonito de futebol. Não, não foi propriamente o equivalente a um golo do Ricardinho contra a Sérvia em futsal, admito. Mas tenho a certeza que, se nos tivéssemos deixado comer naquele momento, nunca mais tínhamos ganho aquele jogo e iríamos agora à luz com seis vergonhosos pontos de desvantagem. Infelizmente, não estou a conseguir encontrar no YouTube as imagens deste episódio para que nunca se esqueçam do que acontece quando se metem com o Porto, mas deixo-vos aqui um outro exemplo, igualmente belo, de uma grande roubalheira que não passou impune:



Estava, então, dado o mote para uma noite de raça. O habitual, aliás, no Estádio do Dragão, onde qualquer adversário, seja o Arouca ou o Bayern de Munique, tem medo de entrar. O mérito, na verdade, não foi apenas do nosso aguerrido plantel. A forma como o público se levantou da cadeira, correu para a primeira fila e atirou tudo o que estava à mão (moedas, telemóveis, filhos, a merda das pipocas que só servem mesmo para isto, etc) para cima do fiscal-de-linha também terá inspirado os artistas. Aos 62 minutos daquele domingo não houve selfies para o concurso do Instagram, se bem que aquela que o Aboubakar tirou com um telemóvel que tinha sido atirado para o relvado e onde se vê ele a sorrir e, atrás, o fiscal-de-linha a gemer de dores no chão bem merecia ganhar.

Mas ainda havia muito por jogar. E quem diria que, apenas uns minutos depois, nos íamos distrair tanto e deixar que um central nosso ficasse perante dois adversários tão perto da nossa área. Felizmente, esse central era Maicon, o nosso grande capitão, que sabe muito bem que um erro daqueles pode acontecer a qualquer um, mas que é o que acontece a seguir que separa os coninhas dos heróis. Ora, também não estou a encontrar no YouTube as imagens do lance, mas curiosamente o M. publicou um muito semelhante, e igualmente belo, no texto anterior:



Maicon foi expulso, claro, porque Rui Costa continuou a ser um grande ladrão, mas o Walter não conseguiu passar, o Arouca falhou o livre e o capitão saiu do relvado com uma ovação de pé dos adeptos. Só mesmo no nosso Porto ainda existe esta comunhão perfeita entre o que nós sentimos na bancada e o que eles lutam lá dentro. Talvez, vá, Maicon tenha ido longe demais quando deu uma cabeçada ao irmão Maurides, que estava no banco de suplentes do Arouca sossegado mas com cara de quem não concordava com aquele bonito gesto do irmão, só que nestas coisas do futebol já se sabe que “a única família que importa é o nosso clube”, como escreveu a mulher do Maicon nas redes sociais. Sábia senhora.

Tal como no caso do ligeiro toque do Secretário ao João Vieira Pinto, o avançado Walter sobreviveu, mas neste caso ainda bem, porque ninguém estava à espera que ele marcasse aquele golo na própria, que levou até Casillas - um gentleman, lembrem-se - a pedir-lhe desculpa, ironicamente, na sua conta do Instagram. Este guarda-redes espanhol saiu-me cá um maluco! É impressionante como eles chegam cá, vindos de qualquer lugar e em qualquer altura da vida, e ficam logo com a cassete azul e branca. Ora, às tantas não é muito comum ver a equipa e os adeptos do FCPorto a festejar tanto uma vitória em casa contra o Arouca, mas a verdade é que houve ali um segundo, após o golo mal anulado ao Brahimi, em que todos tínhamos visualizado o que podia ter acontecido se fôssemos uns morcões.

Naquele segundo, vimos um Porto conformado, uma equipa desistente, uns adeptos com chama apenas quando se trata de queimar os nossos e não os outros. Vimos não só os rivais mais longe, mas todos nós mais distantes desse clube com o qual seria impossível identificarmo-nos. O que seria de um Porto que agora iria à luz já derrotado, porque desistir de ganhar é a maior derrota de todas? O que seria de um Porto sem raça, sem heróis? O que seria de um clássico contra o benfica sem ódio, sem rivalidade? Bem, foi só um segundo a imaginar isto, mas foi terrível, daí tantos festejos no fim. Até Pinto da Costa, sempre presente nos bons e nos maus momentos, fez questão de vir mostrar que a fina ironia está bem viva, quando lhe perguntaram pela actuação do árbitro e ele respondeu: "Rui Costa? A única coisa que fez bem na vida foi aquele golo à Inglaterra no Euro 2004..."

Felizmente, vamos à luz a depender de nós próprios para sermos campeões, o que, como toda a gente sabe, é motivo mais do que suficiente para eles tremerem de medo. Não que eles precisem de olhar para a tabela para isso, pois chega a ser embaraçosa a memória do jogo do ano passado, quando três jogadores vermelhos fizeram xixi nas cuecas só de verem a estratégia demolidora de Lopetegui e quando Maxi Pereira, na altura o caceteiro do defesa direito do benfica, saiu do relvado a chorar e a chamar pela mãe, porque estava farto de ser gozado pelo Brahimi. Ai ai, que belas lembranças. Pena termos empatado, mas também fomos tão roubados que foi impossível fazer mais. Valeu pela reacção do Óliver e do treinador a mais uma expulsão injusta, quem diria que aquele pequenote os podia irritar tanto! Não estou a encontrar as imagens (não sei o que se passa hoje no YouTube) mas deixo aqui um momento muito parecido, com Yuran e Robson, a partir do minuto 1:05, só para que sexta-feira saibam no que se vão meter:

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Um clássico é sempre um clássico, "se calhar"

Temos escrito menos, muito menos, mas temos boas novas para as quatro pessoas que ainda clicam neste blog: em breve seremos três e, cá em casa, já manda ele. É impressionante o que um ser humano que ainda não está cá fora ocupa: entre berço, carrinho e roupa, os meus pertences estão reduzidos a um espaço cada vez menor. Talvez tenha de sair de casa, como o Maicon. Mas vem aí um Benfica-Porto e cá vimos, explicar-lhe por que sofrem tanto os pais e por que telefonam tanto os avós nesta altura.

Em primeiro lugar, é extremamente injusto que o meu filho cresça na barriga da C. É como jogar no sector visitante nove meses. Suponho que saia sob escolta e que já tenha graffitado a placenta toda com inscrições como "BENFICA CAMPEÃO", "1904", "AWAY DAYS: 7 MESES AND COUNTING", etc. É óbvio que já fez a mãe vomitar e enjoar porque percebeu que era uma azul, só depois de eu o informar que era a mãe dele é que ele parou e a C. passou a ter uma vida mais calma. Suponho que eles resolvam as coisas quando ele sair cá para fora.


Depois do União da Madeira - Benfica, uma das piores exibições de sempre da equipa de futebol profissional do meu clube e quando uma jogada de futebol me parecia um sonho inalcançável, assumi que 2016 seria o ano da paternidade (além do Europeu e Jogos Olímpicos) e, confesso, escapa-me o milagre que sucedeu. O que é certo é que o Benfica arrancou, passou a jogar um futebol apoiado (muito longe daquela coisa que fazíamos no princípio da época), mais seguro e com um ataque demolidor (já decidimos o nome e tenho a dizer-vos, com alguma pena e surpresa, que Jonas Pistolas não foi aceite pela C. A criança ainda não nasceu, mas talvez se o Jonas ganhar a Bota de Ouro ela se convença). Serve isto para dizer ao meu futuro filho que, numa época de crise e em que eu devia estar a poupar para o infantário e brinquedos, é possível que o pai (eu) tenha prometido comprar 20 livros do Rui Vitória se o Benfica for campeão. Além da enorme alegria que isso me vai dar, espero que os livros sejam o suficiente para o ensinar a ler e entreter, porque não sei se vai haver depois dinheiro para brinquedos e escola. Se o Benfica for campeão, eu e o gajo que comprou o Taarabt vamos ficar felicíssimos, mas com aquele sentimento de culpa de quem gastou um dinheiro que não devia.   

Mas, para sermos campeões, muito passa por sexta-feira, dia de clássico, um clássico que o nosso filho ainda não vai viver. O Benfica-Porto dele não vai ser o clássico da minha infância, que se resume neste lance:


Foi contra esta malta que eu tive que crescer. Há aqui várias coisas a salientar: a impunidade era tal, que Secretário fez esta entrada já com cartão amarelo. Vamos fazer uma pausa para tentar imaginar como é que o Secretário teria entrado à bola se não tivesse ainda nenhum cartão. Depois, Preud`Homme a correr para ver se JVP está vivo, claramente sem ainda ter percebido o futebol português, enquanto Paneira, heróico, afasta a equipa daqueles animais todos. Paulinho Santos empurra Domingos para cima do Pratas sem motivo aparente e Rui Jorge, que tem um ar de quem nem na reunião de condomínio levanta a voz, metido ao barulho. E, no fim, a indignação de Mourinho e das Antas. Em boa verdade, não temos acesso ao primeiro amarelo e talvez tenha sido injusto. Se calhar - como dizia o comentador - é por isto que eu detesto o Porto.

(A tua mãe está a ver este vídeo e a dizer que tem saudades destes jogadores. Espero que ela não tenha qualquer influência na tua educação porque é óbvio que ela não tem bons valores a passar-te)

O Benfica-Porto é uma luta, uma guerra, aquelas tretas todas de "mais do que um jogo". Queria que o meu filho crescesse a admirar Paneira por ser frio nestas situações, a querer ser como o Isaías, que partiu os rins ao Couto e a odiar aquela malta toda de azul. O problema é que o Benfica-Porto já pouco tem disto, já não é entendido e jogado a sério. Não que eu tenha saudades daquele Porto, prefiro mil vezes este, que tem um capitão que sai a meio de um jogo em que fez asneira. Mas tenho saudades do Benfica mais Benfica, não quero amar o Jonas e perdê-lo para o ano, quero que ele jogue cá épocas e épocas para sentir estes jogos como nós e jogá-los também por nós. O Benfica-Porto hoje parece jogar-se mais nos negócios com a NOS, nos painéis de comentadores, nos likes no facebook. Falta-me um Mozer a lixar a cabeça ao Couto. Até aqueles animais do vídeo acima me merecem mais respeito que o Maicon. 

Eu detesto o Porto e quero ganhar todos os Benfica-Portos muito por coisas como este vídeo. Porque se o Benfica-Porto é uma luta do Bem contra o Mal, não há maneira deste vídeo não o demonstrar. Eu julgo que é pacífico dizer que derrotar isto é lutar pela civilização. As razões de ordem humanitária para a NATO invadir as Antas nos anos 90 eram evidentes e foi um escândalo que não o fizessem.

Meu querido filho, quando um dia vires este vídeo - e não sei se vou esperar pelos teus 18 anos, dada a violência das imagens, ou se to mostre à nascença e te vacine contra eles para todo o sempre - perceberás que este jogo é para ganhar sempre. Esta sexta-feira, porque pode ser um passo importante para um título, mas noutro dia qualquer porque somos o Benfica e o Benfica não esquece. Não me interessa se eles estão em crise, se já não têm estes animais. Não há perdão nem se um dia eles forem todos tão bonzinhos que até batam palmas se nós marcarmos um golo. Sentir um Benfica-Porto é sentir este clássico, mesmo que tenha sido antes de tu nasceres, é amar Paneira, Isaías e Mozer e odiar João Pinto, Jorge Costa e essa quadrilha. 

Se um dia o meu filho me perguntar "Pai, porque é que odiamos o Porto?" é este vídeo que lhe vou mostrar. E é este vídeo que todos os adeptos e jogadores do Benfica deviam ver antes de entrarem em campo para que não hesitem em correr aquele centímetro a mais, para que os adeptos gritem um bocado mais pelos nossos. 

Sexta-feira, é pelo 35, mas é também pelo meu filho e por todos os "se calhares" que sofremos. Vamos a eles, Benfica!

PS: já agora, se um jogador do Benfica, ainda sem amarelo, puder fazer uma entrada destas ao Maxi - mesmo correndo o risco de levar o amarelo injusto que o Secretário levou - também me parece um vídeo didáctico.