segunda-feira, 11 de julho de 2016

Enquanto dormias

Às 20.35 do dia 10 de Julho de 2016, com o jogo Portugal-França a caminhar para o fim da primeira parte, o nosso filho adormeceu. Caiu no sono com ar de quem era capaz de dormir 12 horas, o que num bebé significa mais ou menos 3h de descanso para os pais. Enquanto o nosso filho dormia, a sucessão de eventos mais improvável e surrealista do desporto português aconteceu. Cristiano Ronaldo lesionou-se, a sempre patriota C. atirou um "só bolinha" na primeira repetição, um muito saudável "isto está tudo feito, este gajo só faz isso para as câmaras" quando Ronaldo tentou entrar em campo outra vez e eu disse umas três vezes "já está" quando os franceses ainda pensavam ser possível bater Rui Patrício. Os teus pais, P., não vibram muito com a selecção. 


Quando eu vi a primeira participação de Portugal numa grande competição - 1996 - vibrei e sofri muito, porque era a primeira vez (e a sensação de raridade faz-nos querer beber os pormenores todos). Fiz a colecção de bonecos de plástico d`"A Bola" - que guardo religiosamente e que tem o problema de ser tacticamente desequilibrada: Baía, P.Santos, Hélder, F.Couto (que cai para trás, devido ao peso do cabelo), Oceano, Paulo Sousa, JVP, Figo, Rui Costa, Sá Pinto e Domingos, obrigavam-me a adaptar Oceano a lateral e a dispor a equipa num arriscado 4-1-3-2 que anos mais tarde daria 3 campeonatos ao meu clube. Fiquei chateado cerca de 10 minutos com o golo do Poborsky e depois acabou e voltei ao sofrimentos dos anos 90 do Benfica. Sofreria duas vezes mais com a selecção na minha vida: o Alemanha-Portugal de Marc Batta, que vi colado à televisão com o meu primo N. e que me chateou profundamente, e com os quartos de final com a Inglaterra em 2004 (em 2000 disse logo que era penalty do Abel Xavier e tentei culpar Vitor Baía por ter largado a bola no lance, desconhecendo que 14 anos depois ele estaria sentado ao meu lado, com uma simpatia esmagadora, na apresentação do nosso livro). A selecção, P., sempre me passou ao lado. E isto não é uma coisa hipster para me armar em mais benfiquista do que os benfiquistas que sofrem por Portugal. É uma coisa que me aconteceu, como se o meu amor futebolístico tivesse sido todo canalizado para o vermelho da Luz. 


Espero que um dia percebas, no entanto, que o futebol é muito maior do que as nossas paixões. Às vezes emocionam-me relatos que não têm nada a ver comigo, por vezes fico com vontade de estar em bancadas só porque quero sentir aquele festejo de golo e acontece-me a mim e a muitas pessoas sonhar acordado com jogos, com emoções que nunca vamos sentir só porque sim, só porque o jogo nos permite isso. E apesar da selecção dizer pouco aos teus pais - podemos admitir publicamente que o golo de Éder foi o único que festejámos no torneio e já explico porquê adiante - é impossível uma pessoa não se emocionar com o país inteiro à nossa volta, como se toda a gente descobrisse um jogo que nos leva a loucuras há tantos anos. E, sobretudo, é impossível não ficar feliz pelas pessoas de quem gostamos e que estavam verdadeiramente felizes com a possibilidade de Portugal ser campeão europeu (o teu avô materno estava nervoso antes do prolongamento e a tua tia paterna telefonou-me hoje e contou a maneira como viveu o jogo e deixou os teus primos negligentemente à solta). Os teus pais podem ser doidos, mas não são nenhuns monstros: podemos chamar nomes ao Ronaldo e ao Adrien, mas também podemos estar contentes pela família e amigos (talvez este tenha sido o momento mais condescendente da história futebolística da internet, mas adiante).


O que é certo é que enquanto tu dormias, daquela maneira tranquila, amorosa e ao mesmo tempo falsa dos bebés de 3 meses, aconteceu um jogo absolutamente mítico. Rui Patrício fez uma exibição para os livros de história, Pepe tirou tudo o que havia para tirar, João Moutinho encheu o campo com inteligência com a sua entrada e o Éder transformou-se numa lenda. E foi por causa do Éder - que não é amigo nem é da família  - que os teus pais ficaram genuína e entusiasticamente felizes. Há muito que o teu pai - o mesmo pai que disse que Rui Vitória nem com o plantel do Bayern seria campeão português ou que Renato Sanches não era a solução para os problemas do Benfica (tendo Renato Sanches, após essa frase escrita pelo teu pai, sido campeão nacional, titular e campeão Europeu e nomeado Comendador pelo Presidente da República) - tem uma história para gozar consigo mesmo aqui no blog: quando o Benfica contratou o Lima - na altura com 29 anos, salvo erro - o idiota do teu pai confessou a dois ou três amigos que duvidava daquela contratação, porque o Lima já estava quase nos 30 e não parecia assim tão bom. Quem é que o teu pai achava que tinha mais potencial? O Éder, que jogava na Académica. Ora, o Lima transformou-se numa máquina de golos, assistências, bom futebol e deu dois títulos de campeão ao Benfica, e o Éder era só o ponta de lança mais gozado de sempre na internet. A história do meu palpite, que mais não servia do que para me rir para mim próprio, hoje seria ainda mais risível. 



Não sei se na altura em que tiveres idade para ler isto ainda existirão os registos, mas é quase impossível mostrar-te quão gozado e menosprezado era o Éder. O Éder tinha sido assobiado num amigável, havia uma petição on-line para o Éder não ser convocado para o Europeu e ir um civil e quando o André Silva marcou dois golos ao Braga na final da Taça perdida pelo clube da tua mãe em 2016, a opinião geral (incluindo dos teus dois pais) era que o miúdo de 19 anos merecia mais a convocatória do que o Éder. Basicamente, antes do Europeu, tu - com 3 meses - parecias um ponta de lança mais promissor do que o Éder. O mais fabuloso - e talvez isto não encontres logo quando quiseres saber coisas sobre o jogo - foi a maneira brutal como o Éder entrou na final (e só tinha entrado - e mal - nos dois primeiros jogos do grupo). Ganhou todas as bolas, segurou e deu com classe aos colegas. Apareceu muito bem num canto e quase resolvia a final antes do prolongamento. Fez uma mão estúpida, o árbitro achou que foi do francês e o Guerreiro mandou a bola à barra num livre. Confiante, astuto, descomplexado. Surpreendente.
"Estou pelo Éder", disse a tua mãe. E tu dormias, ignorando a História - com agá muito grande - que passava na televisão perto de ti. Eu e a tua mãe entrámos no espírito selecção (vamos esquecer a acusação que a tua mãe fez do Ronaldo ter simulado uma lesão no início do jogo para parecer mais heróico) e, sobretudo, entrámos no espírito Éder. Estávamos por ele. 


De repente - e oxalá que quando tu cresceres este flagelo que é o desfasamento entre televisões já tenha desaparecido - há um grito maravilhoso na rua. Um grito de estádio, daqueles que vem do fundo. Aquele grito do golo surpreendente, decisivo, maravilhoso, que marca vidas e do qual toda a gente vai falar a vida toda. Um grito de bancada argentina, misturado com o YEEEEEAAAAHHHH dos ingleses. Mas português e dali do lado. E quando os teus pais olham para a televisão, já sabem que não podem gritar golo porque tu estás a dormir. O Moutinho dá a bola ao Éder e eu digo à tua mãe "Vai ser do Éder!". Ela olha para mim e ri-se nervosa e eu ainda imagino que ele vá dar a alguém que vai aparecer na direita, mas ele chuta mesmo - com intenção, com certeza, à ponta de lança. História. História do patinho feio, história da equipa que se uniu com a saída do craque, história do futebol do nosso país. O Éder. 1-0, à França (a quem Portugal não ganhava há 41 anos - e que me lembrava derrotas infinitas em meias-finais e amigáveis, como aquele 3-2 no Parque dos Príncipes com golo do Rui Costa ao mítico Lama), em Paris, na final de um Europeu. Apeteceu-me que acordasses e que crescesses depressa, para eu te contar tudo. Mas felizmente tu acordaste só mesmo com o apito final, espreguiçaste-te daquela maneira irresistível e olhaste tranquilo para mim e para a tua mãe, com ar de quem pergunta se se passou alguma coisa de importante enquanto tu dormias.

P., enquanto tu dormias, aconteceu um conto de fadas de futebol. O dia em que o patinho feio ficou o cisne eterno. Um dia contamos-te tudo.