quarta-feira, 26 de julho de 2017

O meu problema com Aboubakar

Não sei se por necessidade, não sei se por estratégia, não sei se por ambas de igual forma, o FC Porto de 2017/2018 não irá contratar muitos jogadores. E, porque falamos de uma equipa que não ganha há quatro anos, isso deixa-nos nervosos. Estamos no fim de julho e era suposto estarmos entusiasmados com o avançado goleador que chegou ou o novo extremo que faz muitas fintas nos treinos. Ainda por cima, olhamos para o lado e vemos muitas contratações, umas até sonantes, outras ameaçadoras, muitas só para emprestar jogadores e amealhar amigos.

E nós, nada. Um guarda-redes não sei bem porquê, talvez um médio e oremos, oremos muito, um avançado. Correndo o (pouco) risco de ainda vir aí um mês cheio de novidades, acho que já podemos constatar que o FCPorto de 2017/2018 vai ter mais reforços do que contratações. E, porque falamos de uma equipa que poucos jogadores tem potenciado nos últimos anos, isso deixa-nos nervosos. Temos laterais que cheguem, médios ofensivos de certas características também, mas esperamos que Danilo jogue todos os minutos de todos os jogos. E decidimos recuperar muitos. Os centrais suplentes são dos tais que não mostraram muito na primeira oportunidade e vamos acreditar que melhoraram. Os extremos são os mesmos e vamos acreditar que chegam. Há regressos desejados - Ricardo Pereira -, há regressos obrigados - Marega -, há regressos misteriosos - Sérgio Oliveira. Há de tudo e vamos ver o que acontece.

Ora, seja por necessidade, por estratégia, ou por ambas, isto resumidamente até me parece inteligente. Claro que preferia estar a ir buscar o avançado goleador ou o central revelação que daqui a um ano ou dois seria vendido por 40 milhões, mas também já estava na hora de se parar de contratar dezenas de flops por muitos euros. Não me oponho a regressos, desde que haja algum fundamento. Ou seja, desde que o treinador acredite sinceramente que pode melhorar aquele jogador e que, para o que quer da equipa, faz mesmo falta aquilo que ele lhe pode dar. Só que são tantos estes regressos que eu desconfio que o treinador não teve assim tanto por onde escolher. Mas pronto, uma coisa é certa: não vamos cometer muitos erros no mercado este ano.


O meu problema é lá à frente. Do que temos visto até agora, o treinador parece preferir jogar com dois avançados, com dois alas e ainda Óliver, o que significa que o FC Porto de 2017/2018 vai querer atacar muito, rematar muito, marcar muitos golos. O que vi atentamente nos primeiros 45 minutos de Guimarães foi muito do que já vi - preparem-se - com Jorge Jesus no benfica. Equipa lançada para a frente, velocidade, passes rápidos, remates de todo o lado. Uma tentativa de rolo compressor. Correndo o risco de isto ainda mudar muito, parece mais ou menos certo que esta equipa não vai empatar muitas vezes a 0, como na época passada. E eu não tenho grandes problemas com isso, se houver plantel para tal.

Acreditando que o pouco bom trabalho de Nuno Espírito Santo se mantém (a solidez defensiva) e colocando em Danilo todas as nossas esperanças de travar o meio-campo adversário, um ataque que signifique muitos golos é meio caminho andado para conseguir o título. O campeonato faz-se de muitos pontinhos ganhos quando não se joga nada, mas se marca aquele golito fulcral. E faz-se sobretudo contra equipas que só querem defender contra nós, por isso nada melhor do que dar-lhes o que querem e marcar logo um ou dois golos nos primeiros 20 ou 30 minutos para acabar com a questão. Vamos a isso, então, não é estratégia que em princípio me encante, mas ao fim de quatro anos sem ganhar juro que já nem sou esquisita!

Bem, Óliver para mim é indiscutível, Brahimi, por muito que me custe, é decisivo e, não havendo melhor, sou capaz de conviver com Otávio e Corona. André André poderá dar uma ajuda quando for preciso ganhar músculo, Herrera, por muito que me custe, poderá dar uma ajuda quando for preciso... entrar Herrera e João Teixeira não é horrível com os pés. Marega e Hernâni não sei o que dizer, é esperar. E, depois, os rapazes dos golos.

Sérgio Conceição manteve Soares e eu gosto daquele Soares combativo, que mete o corpo à frente dos outros, que até sabe ganhar aquela falta essencial, que discute com o bruto do central que já arrumou um morcão de um André Silva qualquer com dois toques na canela, que marca golos. Soares não é um poço de talento, não nasceu com pés fora do normal, nem é especialmente atraente a jogar. Não consigo, aliás, destacar-lhe uma característica física ou mental acima da média. Só que, no conjunto, Soares é um bom avançado e garante-nos golos. E eu não tenho nenhum problema com isso. O ano passado assustei-me quando as defesas contrárias pareceram começar a acertar na sua marcação e os golos diminuíram, mas quero acreditar que faltou treinador nesses momentos. Portanto, Soares, fixe. Siga.

André Silva saiu por um óptimo preço e era preciso arranjar alguém que completasse Soares. Aliás, que melhorasse Soares. Porque Soares, lá está, é bom, mas não pode ser a principal esperança de um FC Porto que quer, tem de, ser campeão. Vamos só fazer um exercício horrível de olhar para o lado: Bas Dost, Doumbia, Jonas, Mitroglou, Jimenez, um "Ic" qualquer que já marca... Assusta um bocado, certo? Não vamos lá com Depoitres, pois não?

E foi então que, ou por necessidade, ou por estratégia, ou por sabe-se lá o quê, decidimos recuperar Aboubakar. E é aqui que quase perco as palavras, confesso. Vou já quebrar o gelo: eu detesto o Aboubakar. Desculpem, não há outra maneira de dizê-lo. Uma coisa é uma pessoa fazer piadas com a falta de jeito de um Depoitre ou com as mil e uma asneiras de um Herrera, e a verdade é que parte de mim fica triste por eles, são jogadores do FC Porto e eu tenho uma queda natural para adoptá-los como membros da família e desejar-lhes sempre o melhor na vida... Outra coisa é ter de levar outra vez com o Aboubakar.

Sim, já sei. O Aboubakar tem tantas características de um bom jogador! Tem técnica, tem força, é rápido, sabe rematar, sabe passar, desmarca-se, marca golos! Uau! Eu sei disso! Eu já vi isso! O Aboubakar é o contrário do Soares: tem todos os pontinhos isolados, só lhe falta o conjunto. A sério, admitam lá: o Aboubakar é um bom avançado? Para o FCPorto? Desde quando? Não me digam que ele foi para a Turquia (foi para a Turquia? Ou Sibéria? Sei lá, foi merecido) e se transformou! O Aboubakar terá passado a ser um ponta-de-lança aniquilador e eu é que não reparei?

E não, não falo de marcar 40 golos por época tipo Jardel. O meu problema com o Aboubakar é outro. Já vamos em quatro anos sem ganhar e eu já não posso ver à frente meninos ingénuos que acreditam no Pai Natal azul e em unicórnios a apitar jogos. São quatro anos de muita malta que passou por aqui a dar uns toques, como se aquela camisola não valesse nada, como se cada golo, ou cada ponto, ou cada penálti roubado não fizesse sentir nada. É muito tempo a ver braços caídos, caras de derrota, olhos perdidos. Já não posso mais.

E sim, já sei que o treinador acredita nele, mas aos 25 anos já se devia ter mostrado o suficiente para não se ter de "acreditar", mas sim saber. E claro, que bom o treinador tê-lo convencido a ficar. CONVENCIDO! A FICAR! PORQUE É PRECISO CONVENCER UM JOGADOR MEDIANO QUE ANDA POR AÍ NUMA TURQUIA OU SIBÉRIA QUALQUER A QUERER FICAR NO FUTEBOL CLUBE DO PORTO! NO FUTEBOL CLUBE DO PORTO! NO MEU CLUBE, QUE TANTAS ALEGRIAS ME DEU E QUE TANTOS JOGADORES E EX-JOGADORES TEM ESPALHADOS PELO MUNDO A FALAR DE NÓS COMO O MELHOR CLUBE DO MUNDO! É NESSE CLUBE, NESSE ENORME CLUBE, NESSE CLUBE QUE ME FAZ PENSAR EM TODAS ESTAS COISAS QUE NÃO DEVIAM SER ASSIM TÃO IMPORTANTES NA MINHA VIDA, COMO SE O RICARDO PEREIRA DEVE OU NÃO SER ADAPTADO MAIS À FRENTE NO CAMPO, É NESSE CLUBE QUE O ABOUBAKAR TEM DE SER CONVENCIDO A FICAR! OH, POBRE ABOUBAKAR! PODIA ESTAR NESTA ALTURA NUM GRANDE CLUBE DA TURQUIA OU DA SIBÉRIA OU O C#/&!%# E ESTÁ NO FUTEBOL CLUBE DO PORTO! AINDA BEM QUE O CONVENCERAM A FICAR!

O Aboubakar, não sei se fui suficientemente clara, mas tem de mostrar muito para me convencer. Neste momento, ainda acredito que, se ele sofresse este penálti, ia levantar-se, abraçar o Lindelof, pedir-lhe desculpa por ter tentado passar por ele tão rápido e recordar-lhe todos aqueles bons tempos em que ele jogava no benfica, um grande clube de Portugal que o Aboubakar iria dizer que respeita muito e que obviamente que tinha merecido ser campeão quatro anos consecutivos, porque aquilo dos árbitros, continuaria ele a dizer, era um grande exagero e, afinal de contas, os erros também fazem parte do jogo.


Não dá, não me peçam para esquecer tudo o que já passei com este rapaz e agora acreditar, de repente, que ele vai tornar-se numa máquina de marcar golos que beija o símbolo do FC Porto e põe os adversários a tremer. Mas garanto-vos: se o Aboubakar fizer uma grande época, se marcar muitos golos, se formos campeões, se ele se atirar para o chão e sacar um penálti no Estádio da Luz e ainda conseguir que o vídeo-árbitro diga não só ao árbitro principal (o Manuel Mota) que o central do benfica tem de ser expulso, mas também, e passo a citar, "ACABOU-SE O COLINHO, QUEM MANDA AQUI É O FUTEBOL CLUBE DO PORTO!", então aí, prometo, venho aqui escrever um texto a pedir-lhe desculpa. Ou então a reclamar os louros de ter feito os adversários acreditarem que não tinham com que se preocupar. Logo veremos. 

Agora, por favor, não lhe mostrem isto. Vamos todos, por esses estádios fora, fazer de conta que isto não se passou. Vamos todos acreditar! 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Video killed the football star

26 de Maio de 1989. O Arsenal, há 18 anos sem ser campeão, precisa de ganhar por dois em Anfield Road para ser campeão. A vencer 0-1, um tal de Michael Thomas, nos descontos do campeonato, fez isto:
Podia pedir-vos para imaginarem o que sentiu um adepto do Arsenal, mas felizmente - oh, felizmente! - isso já foi feito por Nick Hornby no inigualável Fever Pitch, num capítulo que Hornby titularia - sem surpresas para qualquer adepto que se preze - The Greatest Moment Ever. E aqui, de facto, as pessoas que não gostam de futebol não podem perceber a emoção que se sente num momento destes e Hornby é um escritor tão brilhante a verbalizar o que nós, fanáticos, sentimos, que sou obrigado a transcrever uma página inteira (deliciem-se):

"What is the correct analogy for a moment like that? (...) The trouble with the orgasm as metaphor here is that the orgasm, though obviously pleasurable, is familiar, repeatable (within a couple of hours if you’ve been eating your greens), and predictable, particularly for a man – if you’re having sex then you know what’s coming, as it were. Maybe if I hadn’t made love for eighteen years, and had given up hope of doing so for another eighteen, and then suddenly, out of the blue, an opportunity presented itself … maybe in these circumstances it would be possible to recreate an approximation of that Anfield moment. Even though there is no question that sex is a nicer activity than watching football (no nil-nil draws, no offside trap, no cup upsets, and you’re warm), in the normal run of things, the feelings it engenders are simply not as intense as those brought about by a once-in-a-lifetime last-minute Championship winner. None of the moments that people describe as the best in their lives seem analogous to me. Childbirth must be extraordinarily moving, but it doesn’t really have the crucial surprise element, and in any case lasts too long; the fulfilment of personal ambition – promotions, awards, what have you – doesn’t have the last-minute time factor, nor the element of powerlessness that I felt that night. And what else is there that can possibly provide the suddenness? A huge pools win, maybe, but the gaining of large sums of money affects a different part of the psyche altogether, and has none of the communal ecstasy of football. There is then, literally, nothing to describe it. I have exhausted all the available options. I can recall nothing else that I have coveted for two decades (what else is there that can reasonably be coveted for that long?), nor can I recall anything else that I have desired as both man and boy. So please, be tolerant of those who describe a sporting moment as their best ever. We do not lack imagination, nor have we had sad and barren lives; it is just that real life is paler, duller, and contains less potential for unexpected delirium." 

É impossível explicar melhor do que isto. Em 2004, em plena febre do Europeu, lembro-me da T. (casada hoje com um grande Benfiquista), a caminho de um Bairro Alto em festa com a passagem de Portugal à final do Europeu, me perguntar: "Porquê? Porquê com futebol e por que não com basket ou outro desporto?". E o A., portista distante, explicou-lhe que o golo em futebol era uma coisa rara e completamente imprevisível, e que isso tornava este desporto diferente de todos. Haverá, com certeza, mais de um milhão de motivos para o futebol ser tão especial - as raízes históricas, a ligação às classes populares - mas o jogo em si tem este momento absolutamente genial, incrivelmente surpreendente e que parece mudar uma vida. Toda a gente sabe onde estava e como festejou o golo do Éder e lembrar os abraços, o que se sentiu quando a bola bateu na rede, o que sentiu naquele micro-segundo de silêncio antes de soltar tudo cá para fora, é futebol. É o futebol. E isso vai morrer com o vídeo-árbitro.

Os golos do Benfica decidem e mudam a minha vida, literalmente. Como tal, só festejo os golos do Benfica depois de ver o árbitro a apontar para o meio-campo (gesto para o qual estou treinadíssimo, mas que me atrasa às vezes uns 0,2 segundos em relação ao grito geral). Festejar plenamente um golo do Benfica e depois ver o golo anulado (como aconteceu no hóquei em patins) é mais ou menos o mesmo que o amor da nossa vida dizer-nos sim, que quer ficar connosco, e quando nos vai beijar dizer "Epá, esquece, vou ter com o meu marido" e o gajo chega e é um tipo enorme e mais bonito do que nós, e beija-a como nós nunca a vamos beijar e depois saem do carro os três filhos lindíssimos deles. E depois um autocarro atropela-nos. Ora, para evitar desgostos destes, as pessoas que sabem ver futebol jamais festejam um golo quando há um passe a rasgar sem imediatamente olharem para o fiscal-de-linha (as pessoas que gritam golo com o fiscal de bandeira levantada há cinco segundos deviam ser banidas do futebol para todo o sempre). 
Com o vídeo-árbitro, o que vai acontecer é que os festejos serão atrasados insuportavelmente, até o futebol ser tão asséptico que se vai tornar um desporto betos-friendly e dos espectadores ocasionais que perguntam a que horas são os jogos da Champions mesmo quando eles não se jogam em Kiev. Passo a explicar: acontecer-nos-à, a todos, festejar um golo com a equipa normalmente e esse golo ser retirado três minutos depois. Acontecerá tantas vezes que nos vamos habituar a ter que esperar sempre esses três minutos. Sempre. Remates de longe, pontapés de bicicleta, livres, cantos, contra-ataques. Nunca mais vamos festejar ao som da bola a bater na rede, a não ser que sejamos maluquinhos sem sentimentos, sem medo da rejeição que pode aí vir. Vai sempre dar para uma pausa, uma revisão, a ver se a meio do lance não houve nada. E pode sempre haver. Esse tempo de espera vai-se instalar dentro do jogo, dentro de nós. Com jeitinho, aproveitaremos o momento do golo - enquanto o vídeo-árbitro se decide ou não - para irmos à casa de banho. Ao futebol e aos golos retirarão a espontaneidade e emoção. E acreditem, se este deporto tem tanto sucesso ao fim de um século, é porque fotografias destas são impagáveis.


É óbvio - porque estamos em Portugal - que vão dizer que eu sou contra o VAR porque sou do Benfica. A vida é mesmo assim e vivemos tempos estranhos e tristes, onde o Futebol Clube do Porto ataca o Benfica por corrupção e o meu clube não tem uma resposta à altura, o que é mais ou menos do que o Bibi nos gritar "ÉS UM G`ANDA PEDÓFILO!" no meio do Chiado e uma pessoa baixar a cabeça.
Mas não, não sou contra o VAR por causa de Bruno de Carvalho. Sou contra o VAR porque acredito que a emoção é um factor mais precioso ao futebol do que a justiça absoluta (que nem sequer vai ser alcançada pelo VAR. Cá em casa, nem com 238287863 repetições concordamos com nenhum lance. Eu ainda acho que Katsouranis não fez falta no Anderson e acho que as pessoas que veem isso têm problemas visuais - o que justifica porque é que a minha mulher casou comigo). No dia em que o futebol deixar de me fazer gritar e eu tiver que esperar para saltar da cadeira, acho que o jogo não é o mesmo. Exceptuando coisas pontuais, como a tecnologia da linha de golo, o VAR transformará o futebol noutra coisa qualquer.

Vou mais longe: o golo do Kelvin foi o pior momento futebolístico da minha vida. Foi de uma violência literária que nem 4 campeonatos de seguida e o prazer de ver o FCP a jogar com Depoitre podem apagar. Aquela bola - aquela puta daquela bola - ficou-me atravessada para a vida e não há Benfiquista que não sinta hoje o baque daquela merda, a filhadaputa da rede a mexer e o mundo a desabar. Faz parte. Do outro lado, imagino que tenha sido um presente dos deuses. Adiar esse momento torná-lo-ia diferente, torná-lo-ia outra coisa qualquer, não tão marcante, não tão literária, não tão futebolística. Era como se a meio do sexo fossemos todos obrigados a parar e conferir os nossos cartões de cidadão. 


Aos portistas aconteceu, em 2014/2015, um golo ser anulado na Champions após cerca de 5 minutos do mesmo. Mais do que o ser ou não ser golo, a sensação do esperar, de ficar sem saber, é anti-clímax, é contra-natura num jogo de futebol e foi isso que a minha mulher descreveu. Ainda ontem, a viajarmos, ouvimos o Portugal-México e depois de um daqueles "Goooooooooooooooooooooolo" da rádio, seguiu-se um praticamente cómico: "Esperem, vídeo-árbitro". Para já, reina a sensação de irrealidade e uma certa permissividade porque é a Taça das Confederações, mas quando o jogo dos nossos clubes entrar neste modo de coito interrompido permanente e os miúdos começarem a pedir vídeo-árbitro no futebol de rua, talvez se apercebam que o que está em causa não é uma arma de arremesso entre clubes, mas o jogo em si. O problema do vídeo-árbitro é que traz consigo a melhor das intenções - que o jogo fique mais limpo e mais credível - mas tem o problema de o ferir na alma e o perigo de o tornar irreconhecível. É como se eu pedisse uma limpeza à minha casa e me colocassem num apartamento impecável, mas em Bucareste. Não era propriamente o que eu tinha pedido. Mais: como qualquer discussão em qualquer rede social vos mostrará, os defensores do VAR usam a moralidade como escudo e a maioria dos oponentes do VAR têm como argumentário as suas falhas. Mas a discussão é muito mais profunda e ideológica e não pode ser discutida à Pedro Guerra, Dolbeth e Serrão. Ser contra o VAR não é ser a favor dos roubos, não é querer o árbitro do nosso lado, mas é um assumir que a procura insana da justiça, do fora-de-jogo ao milímetro, vai retirar gritos, alegrias e tristezas. Não é o retirar a minha alegria para dar a outro (porque um lance foi invalidado) que está em causa, é que a minha alegria será diferente. 

Um jogo que proporcionou o melhor momento da vida de escritores não pode estar assim tão errado para o querermos mudar. Faria algum sentido ter que esperar 3 minutos antes de dar este berro? 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Questionário sobre corrupção

Se quer saber se o seu clube é corrupto e se está preparado, como adepto, para essa revelação, responda às seguintes perguntas e siga o caminho indicado até à resposta final:


1. O que pensa sobre a corrupção no desporto?

a) Sou contra, porque é moralmente incorrecto e enviesa os resultados obtidos (siga para a pergunta número 2)
b) Sou a favor, porque quero ganhar mais do que os outros (parabéns, é um excelente adepto e qualquer clube adoraria tê-lo, pode dar por terminado o inquérito)

2. O que pensa sobre emails que indiciam práticas de corrupção no desporto?

a) Que devem ser investigados (siga para a pergunta número 3)
b) Que, sendo os emails privados, deve averiguar-se os meios eventualmente ilegais em que foram obtidos (siga para a pergunta número 4)
c) Que, se envolverem o meu clube, nem me parecem indiciar nada além de um extremo bom gosto religioso sobre a prática de missas e a escolha de padres (siga para a pergunta número 5)

3. Quem deve investigar esses emails?

a) Uma equipa especial do Ministério Público que, de preferência, tenha uma boa relação com alguns jornalistas para nos ir dando conta da investigação e assim termos o que comentar com os amigos enquanto não há bola (siga para a pergunta número 5)
b) O Pedro Guerra e aquele senhor, o Fernando Santos, que uma vez ligou para a benfica TV a explicar aos energúmenos que o Luís Filipe Vieira é um excelente primeiro-ministro, perdão, presidente (siga para a pergunta número 10)

4. A maneira como são obtidos os emails é importante, porque...

a) Porque tenho um amigo do FCPorto que me disse que as escutas de conversas privadas eram ilegais e agora tendo a concordar com ele (siga para a pergunta número 5)
b) Porque tenho um amigo do Sporting que me disse que quando uma pessoa importante no clube age mal é em conta própria e o clube obviamente sai ileso e agora tendo a concordar com ele (siga para a pergunta número 8)

5. Qual é a sua opinião sobre o Apito Dourado?

a) O Pinto da Costa é feio como o João Mário (parabéns, o seu nível de argumentação está ao nível Bruno Carvalho, pode dar por terminado o inquérito e seguir já para a p#%a da gala)
b) O FCPorto foi extremamente beneficiado naqueles jogos contra o Beira-Mar e o Estrela da Amadora e só não vê quem não tem vídeo-árbitro (siga para a pergunta número 6)
c) Já achei que tivesse sido mais importante, por amor de Deus, o FCPorto ganhava tudo cá e na Europa e alguém acredita que fossem os árbitros? (siga para a pergunta número 8)

6. Durante o Apito Dourado, foi visto a dizer qual destas frases:

a) "Se isto fosse com o meu clube, eu deixava de torcer por ele" (porra, que estupidez, reveja lá isso)
b) "Se eu tivesse a menor suspeita de corrupção no meu clube, seria o primeiro a denunciá-lo" (siga para a pergunta número 8)
c) "As pessoas do Porto são todas corruptas, cheiram mal e as francesinhas nem sequer são melhores do que couratos" (siga para a pergunta número 7)

7. Qual é o seu maior medo em relação a emails que indiciam práticas de corrupção no desporto?

a) Que os resultados do meu clube fiquem associados a isso (siga para a pergunta número 8)
b) Medo? Eu não tenho medo. Sou muito homem (regresse à pergunta número 1, algo falhou)

8. Na remota hipótese de o seu clube ser visado em emails que indiciam práticas de corrupção no desporto, o que teria a dizer aos adeptos de outros clubes?
a) Que, obviamente, qualquer denúncia nesse sentido seria nada mais do que uma tentativa de distração dos seus problemas internos (siga para a pergunta número 9)
b) Que vão para o car@$&0 (parabéns, esta é sempre a melhor resposta, pode dar por terminado o inquérito)

9. Qual o seu principal desejo para a próxima época?

a) Que o meu clube seja campeão (parabéns, TAMBÉM EU!)
b) Que o vídeo-árbitro tenha sucesso (você é um choninhas, abandone este blog por favor)
c) Que os árbitros não sejam sujeitos a pressões e possam exercer o seu trabalho da melhor forma, principalmente o Jorge Ferreira, o Nuno Almeida, o Manuel Mota, o Vasco Santos, o Rui Silva, o Hugo Pacheco, o Bruno Esteves e o Paulo Baptista (siga para a pergunta número 10)

10. O seu clube é...

a) O do Calabote, dos vouchers, do "pode ser o João", do Kadhafi dos pneus, da porta 18, do Estorilgate, do Vale e Azevedo, do ... preencher com mais cenas ... (parabéns, cá estaremos para lhe ir dando conta da situação)
b) Um dos que não tem ganho, mas que vai dar luta (parabéns e viva o Futebol Clube do Porto!)
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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Carta a mim mesmo antes de ir ao Vietname

Pequeno M.,

Nunca vais ler esta carta, mas era bom que o mundo tivesse avançado tanto que o conseguisses. Estás em 1994, penso que é uma quarta-feira e estás sentado à mesa da cozinha a comer um papo-seco, sentado à cabeceira - no lugar que é do pai, mas estás a aproveitar ser hora do lanche e ele não estar - e estás a ouvir o fim do Gil Vicente - Benfica, a olhar para a rádio como se fosse uma televisão. Ficou 0-3, o Benfica ganhou o 30º título nacional e tu estás feliz, mas nem sequer estás louco de alegria porque já o comemoraste no 3-6 em Alvalade e depois no 2-1 do Marítimo ao Sporting, com golo do Vado. Não sei o que é que vais fazer até à noite, mas verás ainda um mini-resumo na RTP2, onde o comentador dirá que o 3º golo do Kulkov, a passe do JVP, é "a papel químico" do 4º golo em Leverkusen. És demasiado novo para perceberes os sinais de instabilidade que rondam o clube e és feliz. Tens 10 anos. Eu, que te escrevo, sou a tua pessoa com 33 anos. Não, não fui jogador do Benfica, lamento desiludir-te, se por acaso se abrir uma brecha temporo-espacial que te permita ler isso. Sou médico, vais ser médico. Não vamos jogar no Benfica, apesar de ainda sonhar com isso, 23 anos depois.

Pequeno M, escrevo para que te prepares. Hoje é o teu último dia feliz como Benfiquista até daqui a muitos anos. Não sabes, nem podes saber, o pesadelo inenarrável que vais passar, mas escrevo-te do outro lado, do fim de uma era de tal modo negra que é melhor esconderes esta carta do nosso pai, porque temo que ele não aguente. É assim, puto, não há maneira de te dizer isto sem te magoar, mas nos próximos 5 - sim, cinco - anos, o Porto vai ganhar sempre o campeonato. Vais odiar de morte - com uma raiva que nem sabias que tinhas - um brasileiro chamado Jardel, uns cabrões que hão-de jogar por nós - Zahovic e Drulovic, além desses carniceiros do Jorge Costa e Paulinho Santos. Vais odiar, ao ponto de teres calafrios, o som de uma corneta que faz assim:

"Nanananaaaaaaa!... Nanananaaaaaa! Nanananananananaaaaaaa!....", ao ritmo do "When the saints go marching in", mas muito mais rápido, mesmo à parolo. Vais aprender a tirar rapidamente o som à televisão e vais detestar esta imagem ao ponto de teres fantasias quase sexuais que alguém do Benfica festeje um dia um golo assim. 



E perguntarás: mas esse Jardel é assim tão bom que ganha ao Rui Costa, Paneira, JVP, Schwartz, Isaías, Mozer, Mostovoi, Kulkov e Iuran? (Suspiro) Pequeno M.: se tiveres força e poder, mesmo com 10 anos, por favor vai até Lisboa e tenta assassinar o nosso próximo treinador e internar as pessoas da direcção, porque os próximos anos vão ser uma sucessão de humilhações e o teu pequeno grande coração vai depositar níveis completamente anormais e irracionais de fé e esperança em pessoas que não têm nível para jogar no Benfica. Estás a ver aquele lateral cepo, o Pedro Henriques? Imagina que são todos como ele. Durante anos. Vais demorar anos a perceber, mas tu vais acreditar que gente completamente incapaz (daqui a uns vais ficar incrédulo, miúdo, a sério) pode ser campeã ou ganhar um jogo ao Porto. E mesmo quando esses incapazes se superarem, vai aparecer um árbitro e tu vais ficar louco de raiva e chorar e odiar futebol ainda mais. Vai ser horrível.

E depois? - perguntas tu. Depois vai acontecer uma coisa que tu achas impossível: o Sporting vai ser campeão. Sim, o Sporting. A sério. Eu sei que é uma quarta-feira, que esse pão te está a saber bem (é como se ainda me lembrasse do sabor), que a rádio te traz notícias maravilhosas e que achas que vais passar toda a tua vida sem ver aqueles gajos a ganhar um campeonato, mas desilude-te. Esse dia chegará. Duas vezes. (Sim, duas!). Miúdo, antes de voltares a ganhar, até o Boavista vai ser campeão. A lista de derrotas e traumas vai ser gigantesca: levar 5 do Porto na Luz, acabar um ano em sexto lugar, ficar dois anos sem ir à Europa. Para o ano vais ao S. Luís levar 4-1 do Farense com o King a titular (pelo Farense. Depois vamos nós comprá-lo). Vais perder dois jogos com o Gil Vicente, golos de um Mangonga. Vais odiar para sempre uma equipa chamada Celta de Vigo porque te vão dar 7-0 na Taça UEFA. Vais perder 3-0 com o Marítimo com hattrick de um tipo chamado Lagório. Vais ver o Tó Neves vestir a camisola do teu clube. Vais ser roubado em vários jogos que te vão fazer crer que o mundo inteiro está contra ti, incluindo um jogo no Bessa onde um avançado teu sofrerá perto de 30 faltas com o central que o marca a levar amarelo nos descontos - o árbitro desse jogo é hoje presidente da Liga. Vais ser crente ao ponto de sonhar que um tal de João Tomás é a solução para os problemas da tua vida. Vais ter o mesmo processo com Paulo Nunes, Donizete, Martin Pringle, Roger e Dean Saunders. O Cadete vai jogar no Benfica. O Marinho vai jogar no Benfica. O Vítor Paneira há-de marcar ao Benfica. O João Pinto há-de jogar e ser campeão no Sporting. Vais ver um desfile de treinadores interminável. Vais ter um presidente louco, que há-de criar uma equipa de polo aquático com o nome do Glorioso.

Vais entrar num desespero que numa determinada altura da tua vida vais ao cinema com o D. - que ainda não conheces - sempre que estiver a jogar com o Benfica, porque já não aguentam. Ao intervalo vão-se agarrar a uns telefones que andam que tu não sei se já viste nos filmes e vai estar lá escrito "Perdemos 0-2." - o jogo foi com o Alverca na Luz e vários milhares de pessoas que passaram aquilo que tu ainda vais passar gritaram "E ó Toni, mete o Mawete". Um dia perceberás o surrealismo de tudo isto. 


Puto, espero que estejas a ler isto sentado, mas vais ter que ver o Porto ganhar troféus europeus (mais do que um...). Vais achar que ganhar-lhes é impossível, vais desejar nunca ter gostado de futebol, vais sonhar vezes sem conta com essa mesa, com esse rádio, com esse papo seco, com esse momento. Vais querer fugir para esse canto, para essa equipa, milhares de vezes. Vais chorar muitas vezes no quarto sozinho porque hás-de não ter idade para chorar em público por causa de futebol. Agarrar-te-às à cassete do Record da época de 1993/94 ao ponto de saber partes de cor e de saberes dizer o onze do 3-6 em Alvalade como um mantra que te leva para um lugar futebolisticamente feliz: Neno, Veloso, Mozer, Hélder, Kennedy; Abel Xavier, Paneira, Isaías, Schwartz; Aílton e João Vieira Pinto.

Já estou num ponto onde só espero que não haja tecnologia no mundo que te faça ler isto, mas perguntarás: "Porque é que eu cresci ao ponto de ser um anormal tão grande que ache que preciso de ler isto assim? E quem é o Donizete?". Porque quero dizer-te que sei o que vais sofrer. Que vais guardar cicatrizes para a vida. Que aquele som da corneta ainda me atormenta. E porque quero dizer-te que - por muito que a determinada altura pareça impossível - vamos dar a volta. O Benfica vai voltar a levantar-se. Eu sei que ao som do corneteiro das Antas tudo parece impossível, mas ainda verás o Benfica tetracampeão.

Esse inferno, esse "Vietname" terá um epílogo (vai ao dicionário, pequeno M., anda lá) absolutamente trágico em 2013 - recuso-me a dizer-te o que vai acontecer - mas é numa época onde a esperança já é legítima. Eu escrevo-te já depois disso, de uma outra mesa, já sem rádio, mas com a felicidade com que tu estás. De campeão para campeão. 


Pequeno M., escrevo-te sobretudo por uma coisa. Na verdade não há nada que nem tu nem eu possamos fazer para evitar a tragédia que se vai abater sobre nós. Caber-te-à (ou coube-me a mim) crescer e viver a amar um clube no pior período da sua história. Num pântano de merda (sim, podem escrever-se palavrões, mas não digas à Mãe), como se fossemos um toxicodependente que está a ressacar no meio de uma viela e que teima em sonhar com a vida que já teve e que quer voltar a ter. Mas como tu nem eu podemos evitar essa trágica infância, adolescência e início de vida adulta, cabe-me a mim e aos da minha geração que jamais alguém a esqueça. O horror de equipas, o terror de ver o Benfica jogar e o gozo dos rivais. Os pequenos traumas (como um União de Leiria - Benfica onde o Tiago e o Bilro dão quatro pontapés no Sabry com o jogo interrompido sem o árbitro fazer nada) ou os grandes, como o estádio das Antas, o corneteiro, ou ganhar ao Boavista e ver o Sporting campeão.

Não há povo que sobreviva sem memória e o que te venho dizer é que nunca esquecerei o que vais viver. O meu sonho é vingar-te. É que o Benfica nos pague a dobrar em alegrias tudo o que viveste. Ainda falta muito, mas o principal é começar. Sempre que ganhamos penso em ti, pequeno M. Se leres esta carta, sonha com a alegria com que te escrevo agora. 

Um grande abraço de mim para mim,

M. adulto

PS: Não sei se te interessa, mas vais casar e ter pelo menos um filho. Mas não penses muito nisso agora, vai ver o golo do Kulkov.



Benfiquistas da minha geração, se o Tetra já vos deu estômago, cliquem neste vídeo do Memória Gloriosa. Estão por vossa conta e risco:



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Lorenzo, o último romântico

Agora que somos pais, a pergunta que mais nos fazem - quase imediatamente a seguir à idade, porque as pessoas perguntam sempre a idade dos bebés - é de que clube o nosso filho vai ser. Sorrimos, brincamos com o assunto e fica um silêncio desconfortável. A verdade é que o nosso filho não é sócio de nenhum e não dorme com pijamas de nenhum clube. Os ataques só devem começar quando ele for mais velho e aí um de nós sofrerá um desgosto enorme. Dado que desde o nascimento dele o único troféu de futebol que entrou no museu do FC Porto foi uma segunda liga conquistada pela equipa B (aliás, é o único troféu de futebol que ganharam desde a abertura do museu. A minha mulher rectifica-me e diz que ganharam um troféu - com nome estrangeiro e tudo - há pouco tempo. Pobrezinha, já está maluca de todo.), tenho a secreta esperança que o FC Porto desapareça durante a infância dele, ficando ele do Benfica porque a mãe já não tem clube.

Ora, o que as pessoas que não nos conhecem não sabem é que nós não imaginamos que o P. não seja ou do Benfica ou do Porto e que o nosso horror nem é que ele fique do Sporting - porque nem sequer colocamos essa hipótese, há limites - mas que ele seja, sei lá, do Chelsea. Ou do Paris-Saint-Germain. Ou de uma equipa chinesa que eu nem sei o nome. Ou do Red Bull Leipzig. O futebol do P. não vai ser ouvido na rádio, com jogos à mesma hora, vai ser o futebol dos trinta jogos na TV por fim-de-semana, em que o Belenenses lhe vai dizer menos do que o Manchester City. E isto põe-nos desconfortáveis, porque o futebol, cá em casa, é uma coisa mágica, que deve ser vivida com a família, com os amigos, com os colegas na escola. O futebol é a nossa máquina do tempo. Quero que ele se lembre de jogadores enquanto estava na primária, que recorde com exagero o primeiro golo que viu no estádio, que me pergunte quem são os cinco jogadores do Benfica que ganharam os quatro campeonatos do tetra e que imagine, por isso, o André Almeida como o melhor lateral de sempre do futebol português. Se o P. gostar do Real Madrid e do Ronaldo (Eusébio nos guarde), isso vai equivaler a uma daquelas simpatias estranhas, como gostar dos Charlotte Hornets na NBA. Ou seja, vai ser só estranho, artificial e sem graça nenhuma.

Numa era em que não há símbolos, onde se fala mais dos valores de ordenados e de comissões do que de jogadores de futebol - apesar de nunca ter havido tanto futebol tão acessível - o que nós queremos é que o P. ame um clube como Lorenzo ama o Torino. 

Lorenzo com o cromo de Belotti, o seu ídolo do Torino

A história já corre a internet, mas vale a pena pensar nela e esmiuçá-la: Lorenzo é o filho de Bonucci, central da Juventus. Bonucci é, para mim, o melhor central do mundo da actualidade. Sentido posicional ímpar, rápido, forte e com uns pezinhos de ouro para sair a jogar. É titular da selecção italiana, conquistou o título pela Juventus hexacampeã e vai jogar dentro de uns dias a final da Champions. E o filho mais velho é do Torino. Que ficou em nono na série A (fui ver ao google). Do Torino, que nenhuma pessoa em Portugal (tirando o Rui Tovar e mais três ou quatro doidos) deve conseguir dizer dois jogadores do onze titular. Lorenzo é fã de Belotti, que eu não reconheceria na rua. E se o Bonucci não tem poder para o filho dele ser do clube dele, não sei que poder teremos nós sobre o clube do P.


Lorenzo, durante a festa do scudetto da Juventus

Mas a imagem que nos fez apaixonar-nos por Lorenzo é a sua entrada em campo durante a festa do título da Juve. Lorenzo, vestido à Juventus, entra em campo cabisbaixo, humilhado. O irmão mais novo corre para o pai, recebe a medalha, goza aquilo que qualquer miúdo da Juventus dava um rim para viver. Lorenzo caminha como se estivesse nu, na escola, com toda a gente a olhar. Apaga as lágrimas, não olha para cima. Não veste uma camisola com o seu nome nem o do pai. Provavelmente pensa nos amigos do Torino que amanhã olharão para si, embaraçados. Não sabe o que lhes há-de dizer, como desculpar-se por ter que estar ali. Que culpa tem ele de ser filho de Bonucci? Não podia o pai ser bombeiro ou polícia ou advogado, como os pais dos outros meninos? 

Se o meu pai fosse um craque do Benfica, era provável que eu não conseguisse fazer a primária ou brincar ou viver, em geral. Não ia ser capaz de viver com a excitação. Um pequeno exemplo: o meu pai tem um amigo que é o Ricardo. Não tem clube, não percebe puto de futebol. Mas é um sósia de Ricardo Gomes. Quando eu tinha quatro anos e conheci o Ricardo, ia morrendo. O meu pai gozou o prato e disse que aquele era O Ricardo. Era, provavelmente, a única visita lá de casa a quem eu ligava. Pedia-lhe para dar toques e ele dizia que não podia. Chorava na escola quando não acreditavam em mim quando dizia que o Ricardo Gomes tinha lá jantado. Até ao dia de um Roma-Benfica (1-0, Voeller?) em que o Ricardo apareceu lá em casa e ruiu o mito. Foi das minhas desilusões de infância.

Se isto foi assim com Ricardo que nem era o Ricardo, se o meu pai fosse o Luisão, é provável que eu ainda estivesse na Luz, sozinho, a festejar o Tetra. Com uma alegria igual à de Matteo, o irmão mais novo de Lorenzo, que um dia vai ter um doente da Juventus a pedir-lhe todos os detalhes desta festa, a escavar-lhe a memória só para se aproximar um bocadinho deste dia, para sentir que também lá esteve.
Lorenzo, provavelmente, lembrar-se-á melhor da festa. Não só por ser mais velho, mas porque as recordações más são mais difíceis de apagar que as boas. Lorenzo vai-se lembrar dos cheiros, da impressão que lhe fez a camisola, da aberração dos cânticos, do nó do estômago que só passou quando chegou a casa e que só volta quando se lembra daquele dia. Para estar na pele de Lorenzo, tenho de me imaginar filho de um jogador do Porto ou do Sporting e ser assim. E ter que viver aquilo. Entrar em Alvalade com o Sporting campeão, as claques a cantarem, a alegria na cara de pessoas que eu quero ver sempre tristes. E aquela camisola horrível no meu corpo. As listas, aquele verde horroroso. Mesmo com uma camisola interior a proteger-me, é aquela camisola. E ter que andar naquele estádio, de mão dada, cheio de vergonha. Lorenzo, a tua dor é a minha. 

Lorenzo vê o Chelsea, o Leipzig, o PSG e não quer saber deles. Vê o pai a jogar na Juventus, pode ter os cromos da caderneta da Juventus todos assinados, pode ter camisolas, calções, botas, fatos de treino e meias da Juventus. Pode ir conhecer Buffon, Daniel Alves, pode pedir ao pai para trocar a camisola com Messi enquanto o marca. Mas Lorenzo quer ver o Torino-Sampdoria, quer tifar pelo seu Toro. Lorenzo escolheu o seu clube independentemente do pai, independentemente da lógica, independentemente de tudo. Lorenzo é um símbolo de resistência, um exemplo de que a paixão desinteressada por um clube, mesmo de que meio da tabela, é muito maior do que a lógica. O filho de LeBron será sempre do clube/franchise que o pai for. O filho de Cristiano Ronaldo será sempre do clube do pai, porque vai ver o pai acima de qualquer clube. Mas Lorenzo, o último romântico, é o Asterix que nos faz ter esperança. 

Enquanto houver Lorenzos, o futebol não morre. E é desse futebol que eu quero que o meu filho goste.

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Lorenzo, hoje, com Belotti, com o sorriso que nunca fará quando a Juve ganhar o campeonato


terça-feira, 23 de maio de 2017

O que eu quero do próximo treinador do FCPorto

Nuno saiu. Pronto, mais um. O balanço está feito e sinto que algo pode estar ainda profundamente pior do que eu esperava quando vejo portistas a festejar a saída de um treinador como se houvesse motivo de festa. A saída de Nuno, uma saída a bem e que nos deixou menos mal do que há um ano, devia ser motivo apenas de reflexão. Estamos tristes por termos perdido o campeonato da maneira que perdemos e podemos começar já a perder a próxima época ao alinhar na cartilha de alguns adversários que nos querem fazer crer que criticar o trabalho de Nuno é admitir que não perdemos sobretudo por causa das arbitragens.

Nuno saiu. Foi só mais um, mas já são muitos. E é preciso ir buscar outro rapidamente. Não podemos dar este ar de quem não sabe bem o que quer, de quem anda à procura mas não encontra. Mas também precisamos de pensar bem. Saber escolher. Não repetir erros. Definir, antes de um homem, um projecto. O que queremos do FCPorto? Ganhar. O que precisamos para estar mais perto disso? De ser o FCPorto. Qualquer homem, qualquer projecto, que se afaste da nossa linha, não é bem-vindo. Não quero ninguém que pense primeiro em si do que no clube que representa. Já cometemos esse erro com Lopetegui.

Mas o que é isso de ser o FCPorto? Nuno incutiu na equipa a tal raça, a tal união. E temos de, não só mantê-la, mas melhorá-la. Não chega ver a equipa a agradecer o constante apoio dos adeptos no fim do jogo. O que precisamos é que essa equipa se torne novamente a extensão dos adeptos em campo. De que me vale ver os rapazes muito unidos nas redes sociais se, quando um deles sofre um penálti, não vejo nenhum dos outros a ir lá lutar por ele, por nós? Excepção feita a Maxi Pereira, basta de meninos que sabem jogar bem à bola, mas que parecem autistas de tão alheados que estão do que acontece aos outros durante os 90 minutos. De que me vale irem juntos para os treinos se um deles sofre uma entrada dura, fica lesionado, e não vejo ninguém a não largar o adversário que o árbitro poupou? Se acham que isto é feio, então têm muito a aprender sobre o que é uma equipa.

Já achei que fosse só ingenuidade, agora parece-me mais que é uma trajectória que o clube pretende. E porquê? Se seremos menos bem interpretados do que outros que o fazem com tanta mestria? Claro, corremos esse risco. Mas queremos mesmo perder novamente por, como se diz na minha terra, sermos comidos? O que falta, então? Não basta levá-los ao museu. Os nossos troféus podem mostrar-lhes a nossa dimensão, mas não lhes contam a nossa história. Como é que, de repente, deixámos de ser os melhores a transmitir o que é este clube a quem chega? E como é que admitimos que, quem chega, nem queira saber disso? Brahimi, por exemplo. Excelente jogador. Tecnicamente, do melhor que vi. Muito útil num plantel a quem faltam estrelas. Mas ele está aqui para quê? Para nos dar títulos? Não me parece. Ao que tudo indica, e ele nunca o escondeu, está aqui para chegar a outro campeonato. E é isto que queremos? Sim, dependemos dos melhores jogadores e não os podemos excluir por serem estúpidos. Mas, em três anos de FCPorto (o que, hoje em dia, é uma eternidade), como é que ninguém lhe conseguiu passar nada? Com quem é que o Brahimi conversa todos os dias? Quantas vezes é que ele anda na rua e sente o que os adeptos sentem? E os capitães? Por que raio o FCPorto não tem um capitão como deve ser?

O futebol mudou, os jogadores mudaram muito, mas precisamos de alguém que assuma desde logo que só recuperando a nossa mística voltaremos a ganhar. Mas atenção: isso também não chega. Qualquer treinador que venha com o rótulo de São Salvador do Portismo e da Exigência de uma Entrega Sempre Absoluta, como se alguém ganhasse jogos só por querer muito, será apenas o repetir do erro deste ano.

A verdade é que a Liga portuguesa está cheia de bons treinadores. Este campeonato, aliás, fora os três grandes, teve jogos de futebol com uma qualidade fora do normal. Gosto desta nova geração, que quer jogar à bola, que arrisca, que não tem medo, nem estraga o jogo que tanto adoramos. Gosto de treinadores que estão a arrumar com os Josés Motas e Ulisses Morais desta vida. Gosto de treinadores que fazem qualquer Rúben Ribeiro parecer uma estrela, quando, na verdade, a estrela não é o Rúben Ribeiro, mas a equipa que o treinador construiu. Gosto muito disso: de uma ideia que transforma uma equipa e potencia os jogadores de forma a já nem sabermos bem quem é o melhor, quem é o pior, quem é o Brahimi, quem é o Depoitre. Mas a má notícia é que isso não chega. Não foi na altura ideal, é certo, mas Luís Castro pegou no FCPorto e não o conseguiu. Um falhanço que não tornou Luís Castro pior treinador, mas tornou o FCPorto um pior clube para alguém treinar. Não podemos voltar a cometer o erro de arriscar na inexperiência às cegas, porque nem todos os Villas Boas e Vítores Pereiras correm bem. Já cometemos esse erro com Paulo Fonseca.

Entretanto, arrancámos este ano com uma nova política de comunicação, que aproximou o clube dos adeptos ao mesmo tempo que nos tornou mais atentos. E temos de, não só mantê-la, mas melhorá-la. Basta de deixar os treinadores desprotegidos, a queixarem-se sozinhos, sem força, frágeis. Nuno já teve um pouco do que, por exemplo, tenho a convicção que teria feito do Lopetegui do primeiro ano campeão. Queremos mais, precisamos de mais. Mas o treinador não pode ser um mero espectador. Já cometemos esse erro este ano. Só que também não pode ser um lacaio. Precisamos de alguém que compreenda o jogo fora do relvado, mas que tenha a coragem de assumir tudo o que se passa dentro dele. É uma característica que parece de simples descrição, mas penso que até é a mais difícil de conseguir.

Dito isto, não faço a mínima ideia quem será o próximo treinador do FCPorto. Espero ter sido clara nas opções por mim a descartar. E espero que quem decide seja muito melhor do que eu nisto. E é, ainda tenho essa certeza. Sei que precisamos da Liga dos Campeões porque precisamos de dinheiro, precisamos de vender jogadores porque precisamos de dinheiro, precisamos de apostar nos jovens da casa porque precisamos de dinheiro, mas acho que está na hora de ver um bocadinho além disso. Precisamos de ganhar. Precisamos de derrubar o rival. Precisamos de ganhar!

E escolher o treinador que o consiga é só o primeiro passo. Precisamos de construir um plantel melhor. Precisamos de formar jogadores que conheçam o nosso clube. Precisamos de manter jogadores que se identifiquem connosco. Precisamos de transmitir-lhes o que queremos para o FCPorto, o que temos de ser para vencer. Precisamos de definir, de cima para baixo, qual é, afinal, o caminho que nos levará de volta às vitórias: se queremos ser o FCPorto regional, aguerrido e lutador, ou não. Precisamos de assumir responsabilidades e de afastar os inimigos internos, quando o são verdadeiramente e não quando confundimos quem está atento, quem não alinha na mensagem única, com os verdadeiros inimigos. Precisamos de ficar mais fortes, de dentro para fora, para que nos convençamos e convençamos os outros de que vamos dar muita luta. Precisamos de colocar o clube à frente de tudo e todos porque vêm aí anos muito difíceis. Por isso, precisamos de um treinador, de um plantel, de um presidente, de todos os adeptos. E lembrem-se: só estes últimos são insubstituíveis.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Carta aberta a Nuno Espírito Santo

Escrevo-te um dia depois do fim do quarto campeonato consecutivo que não vencemos. Escrevo-te, portanto, no teu primeiro dia de férias e só não peço desculpa pelo incómodo porque este também é o primeiro dia do FCPorto de 2017/18.

Já tenho ouvido muita coisa nas últimas horas e decidi voltar ao blog para reunir algumas delas e descartar outras. Mas vou directa ao assunto: acho que deves sair. E acho que deves sair rapidamente, porque o teu primeiro dia de férias é o primeiro dia do FCPorto de 2017/18 e nós não temos tempo a perder.

Com isto, Nuno, não fiques a pensar que és a única vítima do nosso quarto campeonato consecutivo sem ganhar. O que mais temos nos últimos anos são vítimas de algo que está profundamente errado no nosso clube, que acabam por ultrapassar o trauma que é passar por este FCPorto e regressar ao seu trabalho até com bons resultados.

Apesar da minha pressa em escrever-te, confesso-te que não pertenço àquela maioria que opta por apontar desde logo o dedo ao treinador, porque é sempre o alvo mais fácil. Sim, tive problemas com Paulo Fonseca (não estava claramente preparado para o desafio); sim, tive dúvidas em relação a Lopetegui (gostava da ideia, não da prática); sim, desconfiei de Peseiro (e ainda hoje não me sai da cabeça que perdeu uma Taça para o clube no qual se apresentou umas horas depois). Portanto, sim, pertenço àquela maioria que é sempre muito exigente com os treinadores do FCPorto e quanto a isso não me peças para mudar, porque no dia em que deixarmos de o ser estaremos, aí sim, no fim de um ciclo.

Ora, resumidamente, o que quero dizer-te é que não perdemos este campeonato por tua causa. Não vou esquecer-me do que andei a dizer a época toda e, sim, tentaram afastar-nos muito cedo da luta, para depois consumarem essa tentativa quando falhámos. O que vou recordar desta época é que estivemos na luta, apesar disso. Mas estivemos na luta, também, apesar de ti.

Vamos começar por tentar esquecer as primeiras jornadas, quando éramos um conjunto de miúdos a chutar a bola para a frente e ninguém percebia o que querias. Dou-te essa vantagem. A verdade é que depois vimos o FCPorto crescer, sobretudo através de uma defesa mais forte, mais concentrada, uma base para algo que podia ser construído a partir daí. Só que ficámos por aí.

Acabámos o ano sem saber quem é o teu meio-campo e o que querias fazer dele. Além de Danilo, provavelmente o único titular indiscutível à frente da defesa, preferias a criatividade de Óliver ou o risco de Otávio? Preferias a força de André André ou a decisão de Herrera? Preferias os médios a descair ou os extremos a rasgar a lateral? Preferias alguém a transportar a bola ou a passá-la rapidamente para a frente? Preferias o meio ou as alas? Não sei, continuo sem saber. Querias mais e melhores jogadores? Tinhas o que fazer com eles? Hum, prefiro não arriscar a resposta.

E chegamos, então, ao ataque, o terrível ataque. André Silva até começou bem a época, mas parecia sozinho e não acertavas com a companhia a dar-lhe até que Diogo Jota decidiu marcar uns golos na Madeira. Pronto, assunto resolvido, seria esse então. Mas André Silva continuou a parecer sozinho (que é o que se diz de um bom avançado que dificilmente será um bom ponta-de-lança) e Diogo Jota não mais marcou os golos da Madeira. 0-0 atrás de 0-0, não sabíamos o que fazer além de reclamar os penáltis por marcar. Até que chegou Soares.

E resolveu-se o problema: ele marcava golos. Foi a nossa melhor fase: a defesa continuava segura e o ataque já produzia efeito. Assunto resolvido, terás pensado. Vamos assim até ao fim, quisemos nós acreditar. Só que o futebol é tramado, porque a mesma receita e os mesmos ingredientes nem sempre dão o mesmo bolo. Soares perdeu o efeito-surpresa para as defesas adversárias e saltou à vista a falta de soluções, de alternativas além da entrada do Rui Pedro mais por crença do que por lógica. E tudo falhou.

Mas não fiquemos pelas tácticas e pelo que os jogadores fazem delas. Falhámos muito porque não soubeste estar à altura dos momentos que exigiam o FCPorto que eu conheço. Mas, antes disso, deixa-me elogiar-te. Conseguiste recuperar muito do que tínhamos perdido nos últimos anos (e não falo só dos quatro em que não ganhámos, falo de coisas importantíssimas que perdemos mesmo quando ganhávamos): raça, vontade, união. E não só dentro de campo, porque é fora dele que continuamos a ter mais feridas por sarar. Devo e vou agradecer-te sempre o fim dos assobiadores compulsivos, as bancadas cheias dos nossos adeptos. Foste tu que conseguiste isso e, felizmente, houve uma política de comunicação que se juntou e que nos tornou, se não mais fortes, pelo menos mais atentos.

Estamos mais vivos do que há um ano e, vá, obrigada por isso. Mas não chega. Não podias ter tremido naqueles momentos. Não podias ter-te calado em certos momentos. Se precisares de uma imagem que to explique, não podias ter levado um empurrão e ficado quieto e calado. Não naquele momento, não contra aquele adversário. Se por um lado estamos - e estamos mesmo - convencidos que nos estão constantemente a empurrar, não podemos estar do outro a dar-lhes os parabéns por isso.

Portanto, volto a reforçar: acho que só podes sair. Não sei o que aí vem e só de ouvir portistas a pedirem Marcos Silvas até me arrepio. Não sei se começar de novo não nos deixará mais para trás novamente. Não sei quem poderá pegar nisto com técnica, força, conhecimento e experiência suficientes para derrubar os enormes obstáculos que nos colocam (ou que nós nos colocamos) à frente. Não sei por onde vamos. Só sei que não é por aqui.