segunda-feira, 19 de junho de 2017

Video killed the football star

26 de Maio de 1989. O Arsenal, há 18 anos sem ser campeão, precisa de ganhar por dois em Anfield Road para ser campeão. A vencer 0-1, um tal de Michael Thomas, nos descontos do campeonato, fez isto:
Podia pedir-vos para imaginarem o que sentiu um adepto do Arsenal, mas felizmente - oh, felizmente! - isso já foi feito por Nick Hornby no inigualável Fever Pitch, num capítulo que Hornby titularia - sem surpresas para qualquer adepto que se preze - The Greatest Moment Ever. E aqui, de facto, as pessoas que não gostam de futebol não podem perceber a emoção que se sente num momento destes e Hornby é um escritor tão brilhante a verbalizar o que nós, fanáticos, sentimos, que sou obrigado a transcrever uma página inteira (deliciem-se):

"What is the correct analogy for a moment like that? (...) The trouble with the orgasm as metaphor here is that the orgasm, though obviously pleasurable, is familiar, repeatable (within a couple of hours if you’ve been eating your greens), and predictable, particularly for a man – if you’re having sex then you know what’s coming, as it were. Maybe if I hadn’t made love for eighteen years, and had given up hope of doing so for another eighteen, and then suddenly, out of the blue, an opportunity presented itself … maybe in these circumstances it would be possible to recreate an approximation of that Anfield moment. Even though there is no question that sex is a nicer activity than watching football (no nil-nil draws, no offside trap, no cup upsets, and you’re warm), in the normal run of things, the feelings it engenders are simply not as intense as those brought about by a once-in-a-lifetime last-minute Championship winner. None of the moments that people describe as the best in their lives seem analogous to me. Childbirth must be extraordinarily moving, but it doesn’t really have the crucial surprise element, and in any case lasts too long; the fulfilment of personal ambition – promotions, awards, what have you – doesn’t have the last-minute time factor, nor the element of powerlessness that I felt that night. And what else is there that can possibly provide the suddenness? A huge pools win, maybe, but the gaining of large sums of money affects a different part of the psyche altogether, and has none of the communal ecstasy of football. There is then, literally, nothing to describe it. I have exhausted all the available options. I can recall nothing else that I have coveted for two decades (what else is there that can reasonably be coveted for that long?), nor can I recall anything else that I have desired as both man and boy. So please, be tolerant of those who describe a sporting moment as their best ever. We do not lack imagination, nor have we had sad and barren lives; it is just that real life is paler, duller, and contains less potential for unexpected delirium." 

É impossível explicar melhor do que isto. Em 2004, em plena febre do Europeu, lembro-me da T. (casada hoje com um grande Benfiquista), a caminho de um Bairro Alto em festa com a passagem de Portugal à final do Europeu, me perguntar: "Porquê? Porquê com futebol e por que não com basket ou outro desporto?". E o A., portista distante, explicou-lhe que o golo em futebol era uma coisa rara e completamente imprevisível, e que isso tornava este desporto diferente de todos. Haverá, com certeza, mais de um milhão de motivos para o futebol ser tão especial - as raízes históricas, a ligação às classes populares - mas o jogo em si tem este momento absolutamente genial, incrivelmente surpreendente e que parece mudar uma vida. Toda a gente sabe onde estava e como festejou o golo do Éder e lembrar os abraços, o que se sentiu quando a bola bateu na rede, o que sentiu naquele micro-segundo de silêncio antes de soltar tudo cá para fora, é futebol. É o futebol. E isso vai morrer com o vídeo-árbitro.

Os golos do Benfica decidem e mudam a minha vida, literalmente. Como tal, só festejo os golos do Benfica depois de ver o árbitro a apontar para o meio-campo (gesto para o qual estou treinadíssimo, mas que me atrasa às vezes uns 0,2 segundos em relação ao grito geral). Festejar plenamente um golo do Benfica e depois ver o golo anulado (como aconteceu no hóquei em patins) é mais ou menos o mesmo que o amor da nossa vida dizer-nos sim, que quer ficar connosco, e quando nos vai beijar dizer "Epá, esquece, vou ter com o meu marido" e o gajo chega e é um tipo enorme e mais bonito do que nós, e beija-a como nós nunca a vamos beijar e depois saem do carro os três filhos lindíssimos deles. E depois um autocarro atropela-nos. Ora, para evitar desgostos destes, as pessoas que sabem ver futebol jamais festejam um golo quando há um passe a rasgar sem imediatamente olharem para o fiscal-de-linha (as pessoas que gritam golo com o fiscal de bandeira levantada há cinco segundos deviam ser banidas do futebol para todo o sempre). 
Com o vídeo-árbitro, o que vai acontecer é que os festejos serão atrasados insuportavelmente, até o futebol ser tão asséptico que se vai tornar um desporto betos-friendly e dos espectadores ocasionais que perguntam a que horas são os jogos da Champions mesmo quando eles não se jogam em Kiev. Passo a explicar: acontecer-nos-à, a todos, festejar um golo com a equipa normalmente e esse golo ser retirado três minutos depois. Acontecerá tantas vezes que nos vamos habituar a ter que esperar sempre esses três minutos. Sempre. Remates de longe, pontapés de bicicleta, livres, cantos, contra-ataques. Nunca mais vamos festejar ao som da bola a bater na rede, a não ser que sejamos maluquinhos sem sentimentos, sem medo da rejeição que pode aí vir. Vai sempre dar para uma pausa, uma revisão, a ver se a meio do lance não houve nada. E pode sempre haver. Esse tempo de espera vai-se instalar dentro do jogo, dentro de nós. Com jeitinho, aproveitaremos o momento do golo - enquanto o vídeo-árbitro se decide ou não - para irmos à casa de banho. Ao futebol e aos golos retirarão a espontaneidade e emoção. E acreditem, se este deporto tem tanto sucesso ao fim de um século, é porque fotografias destas são impagáveis.


É óbvio - porque estamos em Portugal - que vão dizer que eu sou contra o VAR porque sou do Benfica. A vida é mesmo assim e vivemos tempos estranhos e tristes, onde o Futebol Clube do Porto ataca o Benfica por corrupção e o meu clube não tem uma resposta à altura, o que é mais ou menos do que o Bibi nos gritar "ÉS UM G`ANDA PEDÓFILO!" no meio do Chiado e uma pessoa baixar a cabeça.
Mas não, não sou contra o VAR por causa de Bruno de Carvalho. Sou contra o VAR porque acredito que a emoção é um factor mais precioso ao futebol do que a justiça absoluta (que nem sequer vai ser alcançada pelo VAR. Cá em casa, nem com 238287863 repetições concordamos com nenhum lance. Eu ainda acho que Katsouranis não fez falta no Anderson e acho que as pessoas que veem isso têm problemas visuais - o que justifica porque é que a minha mulher casou comigo). No dia em que o futebol deixar de me fazer gritar e eu tiver que esperar para saltar da cadeira, acho que o jogo não é o mesmo. Exceptuando coisas pontuais, como a tecnologia da linha de golo, o VAR transformará o futebol noutra coisa qualquer.

Vou mais longe: o golo do Kelvin foi o pior momento futebolístico da minha vida. Foi de uma violência literária que nem 4 campeonatos de seguida e o prazer de ver o FCP a jogar com Depoitre podem apagar. Aquela bola - aquela puta daquela bola - ficou-me atravessada para a vida e não há Benfiquista que não sinta hoje o baque daquela merda, a filhadaputa da rede a mexer e o mundo a desabar. Faz parte. Do outro lado, imagino que tenha sido um presente dos deuses. Adiar esse momento torná-lo-ia diferente, torná-lo-ia outra coisa qualquer, não tão marcante, não tão literária, não tão futebolística. Era como se a meio do sexo fossemos todos obrigados a parar e conferir os nossos cartões de cidadão. 


Aos portistas aconteceu, em 2014/2015, um golo ser anulado na Champions após cerca de 5 minutos do mesmo. Mais do que o ser ou não ser golo, a sensação do esperar, de ficar sem saber, é anti-clímax, é contra-natura num jogo de futebol e foi isso que a minha mulher descreveu. Ainda ontem, a viajarmos, ouvimos o Portugal-México e depois de um daqueles "Goooooooooooooooooooooolo" da rádio, seguiu-se um praticamente cómico: "Esperem, vídeo-árbitro". Para já, reina a sensação de irrealidade e uma certa permissividade porque é a Taça das Confederações, mas quando o jogo dos nossos clubes entrar neste modo de coito interrompido permanente e os miúdos começarem a pedir vídeo-árbitro no futebol de rua, talvez se apercebam que o que está em causa não é uma arma de arremesso entre clubes, mas o jogo em si. O problema do vídeo-árbitro é que traz consigo a melhor das intenções - que o jogo fique mais limpo e mais credível - mas tem o problema de o ferir na alma e o perigo de o tornar irreconhecível. É como se eu pedisse uma limpeza à minha casa e me colocassem num apartamento impecável, mas em Bucareste. Não era propriamente o que eu tinha pedido. Mais: como qualquer discussão em qualquer rede social vos mostrará, os defensores do VAR usam a moralidade como escudo e a maioria dos oponentes do VAR têm como argumentário as suas falhas. Mas a discussão é muito mais profunda e ideológica e não pode ser discutida à Pedro Guerra, Dolbeth e Serrão. Ser contra o VAR não é ser a favor dos roubos, não é querer o árbitro do nosso lado, mas é um assumir que a procura insana da justiça, do fora-de-jogo ao milímetro, vai retirar gritos, alegrias e tristezas. Não é o retirar a minha alegria para dar a outro (porque um lance foi invalidado) que está em causa, é que a minha alegria será diferente. 

Um jogo que proporcionou o melhor momento da vida de escritores não pode estar assim tão errado para o querermos mudar. Faria algum sentido ter que esperar 3 minutos antes de dar este berro? 

2 comentários:

  1. Era mais fácil dar logo o exemplo do Kelvin. O do Ademir também servia.

    Podemos vir a ter um desporto com menos erros - o que eu duvido - mas vamos é ter que lhe arranjar outro nome. O futebol como o conhecemos acabou.

    A boa notícia é que a experiência, num campeonato mais a sério e longo, vai ser efectuada em Portugal e para se verificar que não vai melhorar em nada a polémica não há melhor. E que daqui a um ano a FIFA esteja a dizer que a experiência foi muito bonita, mas que não resultou em nenhuma melhoria do jogo e que acaba por ali.

    PS: Nada contra a introdução de tecnologia que permita em tempo real a tomada de decisões. Seja a tecnologia de linha de golo, seja um sistema XPTO com chips nas caneleiras / no emblema / ... e na bola que permita aferir o fora de jogo em tempo real - e não me chocava que se alterasse a lei do fora de jogo para a ajustar a uma tecnologia que funcionasse em tempo real. Agora VAR não, obrigado!


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