sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Um treinador sem tomar banho entra num bar (parem-me se já tiverem ouvido esta)

Em 2015, quando o Benfica anunciou Rui Vitória como treinador, o meu mundo ruiu. Rui Vitória era o último treinador que eu queria na Luz. O seu Vitória tinha ganho uma Taça, mas o futebol era horrível, aos repelões, de pontapé para a frente. O discurso e o tom eram básicos. O ar “humilde” e a boa imprensa faziam-me detestá-lo há muito. A vinda dele para a Luz parecia-me um ataque pessoal e  temi o pior. O que, felizmente, não se confirmou. O Benfica ganhou dois campeonatos, o primeiro dos quais talvez o mais saboroso dos últimos anos. A lição, para um observador mais frio, é que, de facto, o treinador não conta tudo.
Dizer que Rui Vitória é o melhor treinador português porque ganhou os últimos dois campeonatos é como dizer que Roberto Di Matteo é dos dez melhores treinadores da Europa porque foi dos últimos dez a ganhar a Champions: não faz sentido. Já não me lembro quem foi o jogador inglês que disse – e bem – que se todas as equipas da Premier fossem treinadas por gatos, um ia ser campeão e as pessoas iam elogiá-lo. Foi o que aconteceu com Rui Vitória, com a agravante do próprio se ter convencido disso.

Rui Vitória trouxe, além dos seus processos de treinos de equipa de inter-turmas da Escola Joaquim Magalhães e de várias frases que fazem com que seja mais provável vir a ser o próximo Gustavo Santos do que o próximo Guardiola, a sua sorte absurda. A mesma, unida aos espectaculares plantéis do Benfica (para quem não se lembra, Jonas passou 2015/2016 a lutar pela Bota de Ouro), foram uma combinação avassaladora. Nunca, na minha vida, vi o Benfica ter tanta sorte. Pegando no final de 2015/2016, é inacreditável que em tantos jogos tenha havido tantos lances capitais a cair para o nosso lado: o golo de Jonas no Bessa, o golo às 25 tabelas em Vila do Conde, o falhanço de Arnold isolado seguido do remate do meio-campo ao lado sem ninguém na baliza (o Benfica com que eu cresci levava essa bola à trave, batia no Lindelof e entrava), André Almeida a tirar duas bolas na linha de baliza com o Vitória e, claro, o falhanço de Bryan Ruiz. A certa altura, Rui Vitória parecia bom treinador porque parecia um misto de Iemanjá com a nossa senhora de Fátima, abençoadas pelo Nhaga. No ano pós-JJ, com a rivalidade com o Sporting nos píncaros, era impossível explicar a alguém que o Benfica tinha sido campeão apesar de Rui Vitória. E provavelmente continua a ser, mas – como vos disse no início – isto roça o pessoal.



Imaginem que vamos a um bar com uns amigos e o que queremos mesmo mais – porque somos casados, temos um filho e pelo interesse da metáfora –, o grande objectivo da noite é que um amigo nosso (vamos chamar-lhe, aleatoriamente, Rui) saque uma gaja. Disso depende a felicidade do grupo. Chegamos ao bar e Rui não tomou banho e vestiu uma camisa rasgada (mas não tipo grunge dos anos 90, mais estilo peguei-na-primeira coisa-que-estava-no-armário). Rui atira-se à miúda mais gira do bar com uma frase muito sua “Sabes, o meu nome é Rui, e estou aqui para fazer o meu trabalhinho”. A gaja vira-lhe costas e manda TRÊS linguadões em Jorge, um pintas que ali passava.
E nós: “Foda-se, Rui, não podias ter tomado banho? Cheiras mal, porra!”.
- “Calma, vamos acreditar no meu processo”.
- “Qual processo? Não tomaste banho! Cheiras mal! Estás com uma meia de cada cor, Rui!”
Rui coça os tomates, cheira, dá um high-five a Arnaldo, aquele amigo de óculinhos e camisa apertada que parece o Crómio dos Morangos com Açúcar, e diz: “Tomar banho não interessa, interessa é ela compreender-me como ser humano.”
Miraculosamente, porque a miúda – e o plantel do Benfica – se zangam com Jorge, porque ela tem o nariz entupido e não topa o cheiro, porque a única pessoa no bar além de Rui e do ex-namorado Jorge é um cromo do Porto chamado Peseiro que costuma levar éne gajas para casa, mas depois acaba sempre por se esquecer das chaves, ela interessa-se. Naquela noite tudo corre bem: Rui cita Gustavo Santos e ela gosta de Gustavo Santos. Rui não tem dinheiro, mas o gajo do bar diz que estamos naquela hora específica em que não se paga. Rui, cheirando mal, não tem carro para levar a miúda, não tem casa, não tem preservativos, mas Jonas – o amigo fixe do grupo – trata de absolutamente tudo.
E a miúda escolhe Rui. Beija Rui com ardor, para surpresa do próprio Rui, envolve-o nos braços, mexe-lhe no cabelo chocando Arnaldo e levando o grupo de amigos para os copos, no Marquês, até às tantas. Moral da história: devia ou não ter Rui tomado banho? Eu acho que sim, mas quem sou eu? Rui sacou a gaja, o grupo está bêbado e até vai levar o Arnaldo para a noite, valerá a pena gritar: PORRA, BENFICA, PARA A PRÓXIMA SAÍMOS COM UM GAJO QUE TOME BANHO?



Em 2016/2017, já com a equipa há um ano sem treinador, o Benfica sofre uma descida brusca na sua qualidade de jogo. É quase difícil encontrar uma boa exibição do Benfica na época passada até aos 5-0 do título. Mas Rui Vitória volta a vencer e desta vez muito por inépcia dos rivais: JJ perde o balneário após a derrota em Madrid e o FC Porto consegue encontrar o único treinador português ao nível de RV. Mais, mesmo no azar, RV tem sempre estrelinha. O treinador que “aposta na formação” só coloca Ederson a titular depois de uma lesão de Júlio César na véspera de ir a Alvalade e nem assim começa 16/17 com ele. Descobre Gonçalo Guedes – numa forma impossível – porque se lesiona o nosso melhor jogador. Descobre Lindelof porque se lesionam todos os centrais. É como se Rui Vitória andasse em casa a deixar cair taças e saíssem de lá sempre bilhetes premiados do Euromilhões. Rui nem sequer tem de escolher a chave. E nós vamos sair à noite com ele. Rui volta a não tomar banho, Rui já nem escolhe uma camisa, vai de tronco nu.
A noite é absolutamente horrível. O bar é degradante, ninguém se diverte, a música é péssima. O bar continua a ser incrivelmente mal frequentado. Jorge, o ex-da miúda, está a fazer-se a uma Erasmus espanhola que lhe está a roubar a carteira. Há um gajo do Porto, um Nuno, com ar ainda mais cromo que o Arnaldo, com óculos de massa para parecer inteligente, que está a tentar sacar a miúda do bar com desenhos, fazendo-se passar por artista. É um engate sofrível, de chutão para frente.  A miúda do bar (é o campeonato, pessoal, não se percam na metáfora) já nem parece tão bonita, com tão fracos candidatos. E nós, de fora, a torcer pelo Rui, de tronco nu. O Rui, de tronco nu, contra o cromo dos óculos e dos desenhos. Pobre miúda. Há ali um momento em que Rui se põe a falar de Paços de Ferreira, empatando, e o cromo contra-ataca com uma empatada jornada em Setúbal. Já sofremos pela miúda, outrora conquistada por galãs e agora tendo que escolher entre dois cromos. Rui dá um traque à frente dela (aquele jogo em Moreira de Cónegos), Nuno dá outro traque (em Belém). O cheiro é nauseabundo, mas a miúda tem de ser de alguém e é conformada e triste que dá a mão a Rui, que olha vitorioso para nós. Rui, que não tomou banho, Rui, que está de tronco nu. Rui que passa em frente a Jorge, que viu a Erasmus rir-se do seu espanhol. E nós pegamos no Arnaldo e vamos para o Marquês outra vez.



Este ano vamos sair com Rui outra vez. A mãe de Rui não lhe deu tanto dinheiro para roupa, mas Rui também disse que não precisava. Para quê tomar banho se eu saco sempre a gaja? Para quê levar camisa? Desta vez vou sem calças! E os mais frios de nós, aqueles que queriam mesmo que isto corresse bem, não podem deixar de detestar a mãe de Rui e ao mesmo tempo perceber que, mais cedo ou mais tarde, uma noite horrível era inevitável. E está a ser uma longa e humilhante noite: Rui entrou de cuecas no bar e foi rejeitado seis vezes pelo grupo de Erasmus da mesa do canto. Nenhuma sequer sorriu ou o empatou com uma desculpa qualquer. Zero. Mas Rui vem à nossa mesa e diz que foi azar.
“Como azar, Rui? Estás de cuecas, caralho!”
“São umas esquisitas, pá. Tive azar, que tive mesmo comichão quando estava a falar com ela e cocei os tomates. Deu mau aspecto e elas cagaram. Infortúnios.”
“Porra, Rui, aconteceu-te isso com as SEIS?”
A noite está a ser muito difícil e adivinha-se longa. Jorge, o ex-namorado, não se aproximou tanto da mesa das Erasmus. Há um Sérgio, do Porto, que não fode com ninguém há 4 anos e está louco. E o Rui está de cuecas a ler Gustavo Santos, à espera que a miúda vá falar com ele (“estou a fazer-me difícil”). E o nosso problema, benfiquistas, é que a nossa felicidade depende do facto de Rui sacar ou não a gaja.

Os defensores de Rui Vitória (normalmente pessoas que odeiam Jorge Jesus) dirão que não há duas sem três. No fundo, acreditam que cheirar mal é uma vantagem. Os mais frios que eu dirão que a culpa é da falta de direcção da mãe de Rui, que podia ao menos comprar-lhe desodorizante. Eu não acho impossível que Rui volte a sacar a miúda e percebo que a mãezinha do Rui tem muita culpa. Mas podemos mesmo defender um cromo que sai à noite sem tomar banho? Que acha que “o treino não é o mais importante”? Que diz que “há jogos que têm de ser ganhos e outros que têm de ser jogados”? Que quando uma Erasmus suíça, uma gaja feia como tudo, lhe dá cinco chapadas na tromba, diz que está bem com a vida?
Porra, não gostavam de sair à noite com um amigo que tomasse banho? Que não dissesse só umas frases feitas? Cujo melhor amigo tem um ar de que nem a eleição para delegado de turma ganha?


Se dependesse de mim, Rui facturava todas as noites e o grupo acabava sempre a rir e a comer um caldo verde e um pão com chouriço na Merendeira depois de mais uma noite de glória. Mas custa-me que o cheiro de Rui só vá ser comentado numa noite de celibato. Que esse dia chegue o mais tarde possível. Até lá, todas as noitadas vão ser um sofrimento.