Em 2015, quando o Benfica anunciou Rui Vitória como
treinador, o meu mundo ruiu. Rui Vitória era o último treinador que eu queria
na Luz. O seu Vitória tinha ganho uma Taça, mas o futebol era horrível, aos
repelões, de pontapé para a frente. O discurso e o tom eram básicos. O ar “humilde”
e a boa imprensa faziam-me detestá-lo há muito. A vinda dele para a Luz
parecia-me um ataque pessoal e temi o pior. O que, felizmente, não se confirmou.
O Benfica ganhou dois campeonatos, o primeiro dos quais talvez o mais saboroso
dos últimos anos. A lição, para um observador mais frio, é que, de facto, o
treinador não conta tudo.
Dizer que Rui Vitória é o melhor treinador português porque
ganhou os últimos dois campeonatos é como dizer que Roberto Di Matteo é dos dez
melhores treinadores da Europa porque foi dos últimos dez a ganhar a Champions:
não faz sentido. Já não me lembro quem foi o jogador inglês que disse – e bem –
que se todas as equipas da Premier fossem treinadas por gatos, um ia ser
campeão e as pessoas iam elogiá-lo. Foi o que aconteceu com Rui Vitória, com a
agravante do próprio se ter convencido disso.
Rui Vitória trouxe, além dos seus processos de treinos de
equipa de inter-turmas da Escola Joaquim Magalhães e de várias frases que fazem
com que seja mais provável vir a ser o próximo Gustavo Santos do que o próximo
Guardiola, a sua sorte absurda. A mesma, unida aos espectaculares plantéis do
Benfica (para quem não se lembra, Jonas passou 2015/2016 a lutar pela Bota de
Ouro), foram uma combinação avassaladora. Nunca, na minha vida, vi o Benfica
ter tanta sorte. Pegando no final de 2015/2016, é inacreditável que em tantos
jogos tenha havido tantos lances capitais a cair para o nosso lado: o golo de
Jonas no Bessa, o golo às 25 tabelas em Vila do Conde, o falhanço de Arnold isolado
seguido do remate do meio-campo ao lado sem ninguém na baliza (o Benfica com
que eu cresci levava essa bola à trave, batia no Lindelof e entrava), André
Almeida a tirar duas bolas na linha de baliza com o Vitória e, claro, o
falhanço de Bryan Ruiz. A certa altura, Rui Vitória parecia bom treinador
porque parecia um misto de Iemanjá com a nossa senhora de Fátima, abençoadas
pelo Nhaga. No ano pós-JJ, com a rivalidade com o Sporting nos píncaros, era
impossível explicar a alguém que o Benfica tinha sido campeão apesar de Rui
Vitória. E provavelmente continua a ser, mas – como vos disse no início – isto roça
o pessoal.
Imaginem que vamos a um bar com uns amigos e o que queremos
mesmo mais – porque somos casados, temos um filho e pelo interesse da metáfora –,
o grande objectivo da noite é que um amigo nosso (vamos chamar-lhe,
aleatoriamente, Rui) saque uma gaja. Disso depende a felicidade do grupo.
Chegamos ao bar e Rui não tomou banho e vestiu uma camisa rasgada (mas não tipo
grunge dos anos 90, mais estilo peguei-na-primeira
coisa-que-estava-no-armário). Rui atira-se à miúda mais gira do bar com uma
frase muito sua “Sabes, o meu nome é Rui, e estou aqui para fazer o meu
trabalhinho”. A gaja vira-lhe costas e manda TRÊS linguadões em Jorge, um
pintas que ali passava.
E nós: “Foda-se, Rui, não podias ter tomado banho? Cheiras
mal, porra!”.
- “Calma, vamos acreditar no meu processo”.
- “Qual processo? Não tomaste banho! Cheiras mal! Estás com
uma meia de cada cor, Rui!”
Rui coça os tomates, cheira, dá um high-five a Arnaldo,
aquele amigo de óculinhos e camisa apertada que parece o Crómio dos Morangos
com Açúcar, e diz: “Tomar banho não interessa, interessa é ela compreender-me
como ser humano.”
Miraculosamente, porque a miúda – e o plantel do Benfica –
se zangam com Jorge, porque ela tem o nariz entupido e não topa o cheiro,
porque a única pessoa no bar além de Rui e do ex-namorado Jorge é um cromo do
Porto chamado Peseiro que costuma levar éne gajas para casa, mas depois acaba
sempre por se esquecer das chaves, ela interessa-se. Naquela noite tudo corre
bem: Rui cita Gustavo Santos e ela gosta de Gustavo Santos. Rui não tem
dinheiro, mas o gajo do bar diz que estamos naquela hora específica em que não
se paga. Rui, cheirando mal, não tem carro para levar a miúda, não tem casa, não
tem preservativos, mas Jonas – o amigo fixe do grupo – trata de absolutamente
tudo.
E a miúda escolhe Rui. Beija Rui com ardor, para surpresa do
próprio Rui, envolve-o nos braços, mexe-lhe no cabelo chocando Arnaldo e
levando o grupo de amigos para os copos, no Marquês, até às tantas. Moral da
história: devia ou não ter Rui tomado banho? Eu acho que sim, mas quem sou eu?
Rui sacou a gaja, o grupo está bêbado e até vai levar o Arnaldo para a noite,
valerá a pena gritar: PORRA, BENFICA, PARA A PRÓXIMA SAÍMOS COM UM GAJO QUE
TOME BANHO?
Em 2016/2017, já com a equipa há um ano sem treinador, o
Benfica sofre uma descida brusca na sua qualidade de jogo. É quase difícil
encontrar uma boa exibição do Benfica na época passada até aos 5-0 do título.
Mas Rui Vitória volta a vencer e desta vez muito por inépcia dos rivais: JJ
perde o balneário após a derrota em Madrid e o FC Porto consegue encontrar o
único treinador português ao nível de RV. Mais, mesmo no azar, RV tem sempre
estrelinha. O treinador que “aposta na formação” só coloca Ederson a titular
depois de uma lesão de Júlio César na véspera de ir a Alvalade e nem assim
começa 16/17 com ele. Descobre Gonçalo Guedes – numa forma impossível – porque se
lesiona o nosso melhor jogador. Descobre Lindelof porque se lesionam todos os
centrais. É como se Rui Vitória andasse em casa a deixar cair taças e saíssem
de lá sempre bilhetes premiados do Euromilhões. Rui nem sequer tem de escolher
a chave. E nós vamos sair à noite com ele. Rui volta a não tomar banho, Rui já
nem escolhe uma camisa, vai de tronco nu.
A noite é absolutamente horrível. O bar é degradante, ninguém
se diverte, a música é péssima. O bar continua a ser incrivelmente mal
frequentado. Jorge, o ex-da miúda, está a fazer-se a uma Erasmus espanhola que lhe
está a roubar a carteira. Há um gajo do Porto, um Nuno, com ar ainda mais cromo
que o Arnaldo, com óculos de massa para parecer inteligente, que está a tentar
sacar a miúda do bar com desenhos, fazendo-se passar por artista. É um engate
sofrível, de chutão para frente. A miúda
do bar (é o campeonato, pessoal, não se percam na metáfora) já nem parece tão
bonita, com tão fracos candidatos. E nós, de fora, a torcer pelo Rui, de tronco
nu. O Rui, de tronco nu, contra o cromo dos óculos e dos desenhos. Pobre miúda.
Há ali um momento em que Rui se põe a falar de Paços de Ferreira, empatando, e
o cromo contra-ataca com uma empatada jornada em Setúbal. Já sofremos pela
miúda, outrora conquistada por galãs e agora tendo que escolher entre dois
cromos. Rui dá um traque à frente dela (aquele jogo em Moreira de Cónegos),
Nuno dá outro traque (em Belém). O cheiro é nauseabundo, mas a miúda tem de ser
de alguém e é conformada e triste que dá a mão a Rui, que olha vitorioso para
nós. Rui, que não tomou banho, Rui, que está de tronco nu. Rui que passa em
frente a Jorge, que viu a Erasmus rir-se do seu espanhol. E nós pegamos no
Arnaldo e vamos para o Marquês outra vez.
Este ano vamos sair com Rui outra vez. A mãe de Rui não lhe
deu tanto dinheiro para roupa, mas Rui também disse que não precisava. Para quê
tomar banho se eu saco sempre a gaja? Para quê levar camisa? Desta vez vou sem
calças! E os mais frios de nós, aqueles que queriam mesmo que isto corresse
bem, não podem deixar de detestar a mãe de Rui e ao mesmo tempo perceber que,
mais cedo ou mais tarde, uma noite horrível era inevitável. E está a ser uma
longa e humilhante noite: Rui entrou de cuecas no bar e foi rejeitado seis
vezes pelo grupo de Erasmus da mesa do canto. Nenhuma sequer sorriu ou o
empatou com uma desculpa qualquer. Zero. Mas Rui vem à nossa mesa e diz que foi
azar.
“Como azar, Rui? Estás de cuecas, caralho!”
“São umas esquisitas, pá. Tive azar, que tive mesmo comichão
quando estava a falar com ela e cocei os tomates. Deu mau aspecto e elas
cagaram. Infortúnios.”
“Porra, Rui, aconteceu-te isso com as SEIS?”
A noite está a ser muito difícil e adivinha-se longa. Jorge,
o ex-namorado, não se aproximou tanto da mesa das Erasmus. Há um Sérgio, do
Porto, que não fode com ninguém há 4 anos e está louco. E o Rui está de cuecas
a ler Gustavo Santos, à espera que a miúda vá falar com ele (“estou a fazer-me
difícil”). E o nosso problema, benfiquistas, é que a nossa felicidade depende
do facto de Rui sacar ou não a gaja.
Os defensores de Rui Vitória (normalmente pessoas que odeiam
Jorge Jesus) dirão que não há duas sem três. No fundo, acreditam que cheirar
mal é uma vantagem. Os mais frios que eu dirão que a culpa é da falta de
direcção da mãe de Rui, que podia ao menos comprar-lhe desodorizante. Eu não
acho impossível que Rui volte a sacar a miúda e percebo que a mãezinha do Rui
tem muita culpa. Mas podemos mesmo defender um cromo que sai à noite sem tomar
banho? Que acha que “o treino não é o mais importante”? Que diz que “há jogos que
têm de ser ganhos e outros que têm de ser jogados”? Que quando uma Erasmus suíça,
uma gaja feia como tudo, lhe dá cinco chapadas na tromba, diz que está bem com
a vida?
Porra, não gostavam de sair à noite com um amigo que tomasse
banho? Que não dissesse só umas frases feitas? Cujo melhor amigo tem um ar de
que nem a eleição para delegado de turma ganha?
Se dependesse de mim, Rui facturava todas as noites e o
grupo acabava sempre a rir e a comer um caldo verde e um pão com chouriço na
Merendeira depois de mais uma noite de glória. Mas custa-me que o cheiro de Rui
só vá ser comentado numa noite de celibato. Que esse dia chegue o mais tarde
possível. Até lá, todas as noitadas vão ser um sofrimento.




fdse, fiquei convencido
ResponderEliminarA sorte não explica tudo. Também houve momentos de azar, como aquela bola que foi ao poste, ressaltou para as costas do guarda-redes e deu golo...
ResponderEliminarAlém disso, como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho...
Pela minha parte não tenho razões de queixa do Rui. Aliás, desde o Erikson que não me lembro de outro que tivesse sido tão mal cheiroso...
O texto é brilhante e até será injusto destacara algo, mas isto é incontornável de tão real: "os defensores de Rui Vitória (normalmente pessoas que odeiam Jorge Jesus)"
ResponderEliminarMais uma vez um grande texto cheio de analogias deliciosas. Se quiseres olhar mais em pormenor para a componente tática, tens aqui um belo site de treinadores, www.epluribusunum.pt ao estilo Lateral Esquerdo mas só de Benfica :)
ResponderEliminarQue texto mais ridículo!
ResponderEliminarOs jogadores que colocou a jogar foi por sorte. Porque os titulares (há titulares?) se tinham lesionado. Não existiam, não treinavam, não tinham sido preparados, apareceram por geração espontânea!
Os golos que o Ronaldo marca também são sorte, a bola aparece-lhe aos pés e ele só tem de encostar ou rematar!
RV é apenas o melhor treinador em Portugal. Ele não treina sozinho, trabalha com uma vasta equipa técnica. Alguns já trabalhavam com o mestre da táctica.
O resto é conversa de gente que está de má fé. Porque tanto disparate não pode ser apenas ignorância.
“RV é o melhor treinador em Portugal.” Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah! Eh pá, tem paciência. Tu realmente não tens palas, tens uma venda.
EliminarGrande texto como sempre Manuel. Pena que agora escreves com menos regularidade mas é sempre com grande prazer que leio as tuas fantasticas cronicas.
ResponderEliminarÉ com agrado que leio este texto e vejo que afinal há benfiquistas que também conseguem ver perto da realidade. Sendo um adepto rival, apenas discordo que não tenha sido introduzido no texto uma referência qualquer a operações stop, que apenas multavam os competidores do Rui, ou mesmo ao facto de Rui ser muito católico e ir frequentemente à missa pedir a benesse aos padres. Com este último toque seria perfeito... Mas ainda assim gostei.
ResponderEliminarPois, há quem peça fruta e cheques de 2000 euros.
EliminarAntes de mais, e concorde-se ou não com a opinião expressa, acho que o texto está brilhante.
ResponderEliminarNada tenho contra o JJ, até porque lhe estou grato pelos títulos que conquistou e pela qualidade com que pôs a equipa a jogar...acho é que essencialmente são treinadores diferentes (JJ melhor taticamente e a ler o jogo durante o decurso da partida; Vitória, melhor condutor de homens (e a questão da liderança de pessoas parece-me decisiva num clube de futebol e noutras equipas de alta competição), embora, aqui e ali, com alguns percalços - ex. saída do Varela da baliza depois do Bessa)...
Mas, alinhando com o texto, é importante não esquecer que o Jorge, vestido com roupas de marca e bem perfumado, precisou de ir seis vezes ao bar para sacar a gaja por três vezes (O Vitória para ficar com a mesma percentagem tem de não sacar a gaja desta vez, nem da próxima que for ao bar). E quanto a Erasmus, o Jorge, bem vestido e perfumado, nas seis vezes em que foi ao bar, só por uma vez levou a gaja para a casa (leia-se oitavos da Champions); já o Rui em 3 idas ao bar, levou 2 vezes a gaja Erasmus para casa...é fazer as contas para ver quantas vezes tinha o Rui de não conseguir levar a gaja Erasmus para casa, para ficar com a mesma percentagem do Jorge...
E, correndo o risco de me vir a arrepender, não estou a ver o Rui (nu e sem tomar banho) a ficar a 20 e tal pontos do gajo que leva a gaja para casa, como o Jorge, bem vestido e perfumado, chegou a fazer...
Mais a sério, acho é que devemos estar gratos e apoiar, porque quer o Jorge quer o Rui têm as suas qualidades e já nos deram alegrias...
Caralho, que maravilha de texto!
ResponderEliminarE sim, pode sacar-se a gaja por sorte, não sei qual é o grande mistério disso. A sorte é que bate para onde bem lhe apetece. O Kelvin sacou a gaja nem sabe como, no maior chouriço da vida dele, mas depois nunca mais sacou nada. Repare-se, nem é "nunca mais sacou nada de jeito", é mesmo nunca mais sacou nada, e agora ainda a seco e a olhar para a secção de classificados do Correio da Manhã.
Agora, concordo que o falhanço do Bryan Ruiz foi a coisa mais saborosa de todo o sempre. Nem é por causa do Jorge, mas por causa do amigo do Jorge, um daqueles seres baixinhos, gordos, balofos, histéricos, insuportáveis, miseráveis, que mal nos fomos apresentados e já se está a gabar que saca três, quatro e cinco gajas, todas modelos de perfeição física, que lhes dá cinquenta orgasmos de seguida numa noite que nem lhe correu tão bem como é habitual. Fodasse para o caralho do amigo gordo do Jorge, mal o conheço e só tenho vontade de lhe mandar três murraças e um pontapé nos tomates.