quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Venham mais cinco


James Rodriguez é um futebolista colombiano de 27 anos que joga atualmente no Bayern de Munique. Ontem, em pleno Estádio da Luz, além de uma boa exibição e de uma assistência para golo, fez um gesto ao público: levantou a mão e exibiu cinco dedos enquanto era substituído debaixo de um coro de assobios. Mais tarde, confirmou o que já esperávamos: fê-lo para lembrar aquele dia em que o Benfica levou 5-0 do FCPorto no Estádio do Dragão. Podia tê-lo feito em alusão ao falhado penta, ou ainda aos aspersores avariados daquele mesmo local, mas afinal foi bastante específico e não andou para aí a gozar com tudo ao mesmo tempo. E ainda justificou: porque é portista.





James esteve três anos connosco. Foi tricampeão, ganhou uma Liga Europa e cresceu muito como jogador de classe mundial (em plantéis que hoje nos parecem tão distantes, de tanta qualidade que tinham), mas também viveu os melhores anos desta rivalidade. Não foram só os 5-0. James foi campeão na Luz e brincou com as luzes apagadas e o sistema de rega, James festejou o golo do Kelvin aos 92, James lembra-se daquela reviravolta para a Taça. Se James se tivesse esquecido do que é ser do FCPorto, seria estranho. Mas, se James se tivesse esquecido - ali, em plena Luz, ao ouvir a reação que ainda lhes provoca - do que significou ganhar tanto ao Benfica, então seria mesmo doido.

O que eu vejo naquele gesto é muito simples: rivalidade. FCPorto e Benfica são rivais, todos os dias, em todas as competições, e devem sê-lo para todos os profissionais que entendam estes clubes. E, já agora, para todos os adeptos dignos disso mesmo. Não se trata de desrespeitar o futebol. Trata-se, sim, de senti-lo verdadeiramente. Ao levantar aquela mão, James deu-nos uns segundos de pureza no meio de uma competição em que os grandes estão cada vez mais enormes, em que FCPorto e Benfica têm cada vez menos hipóteses, em que os sentimentos dos adeptos pouco importam quando comparados aos interesses dos clientes. James provocou, mas James, sobretudo, fez-nos (e fê-los) sentir vivos.

Mas, claro, entendo que do outro lado não tenham gostado. O M., pessoa mais calma do mundo quando ninguém está a provocar o Benfica, tornou-se um hooligan. E eu percebo isso. Se fosse comigo, com o meu clube, ficaria igual. E é aqui que isto se confunde tudo. Quando entra a brigada da moral e dos bons costumes e nos separa. Porque só um ex-jogador do FCPorto seria capaz de fazer aquilo. Porque só um adepto do Benfica seria capaz de querer bater-lhe. Epa, parem com isso, a sério. Não estraguem a beleza daquele momento. Se fosse ao contrário, não só o M. ficaria orgulhoso com o ex-jogador do Benfica, como eu viraria uma hooligan. Sabem porquê? Porque somos rivais. E vivemos muito bem com isso.

O que eu não percebo é esta necessidade de “limpeza” no futebol. Agora, de repente, parece que temos de ser todos amigos, dar as mãos e cantar uma canção sobre a paz mundial durante um clássico. Parece que o grau de satisfação do adepto deve medir-se apenas na quantidade de Coca-Colas e pipocas disponíveis e nunca em vitórias nossas e derrotas dos outros. Parece que pagamos bilhete para apreciar aquele movimento do Lewandowski no primeiro golo do Bayern, mesmo que seja contra nós. Parece que é normal levantarmo-nos para aplaudir um golo do adversário, só porque é bonito (no caso de Renato Sanches, até posso tentar compreender por ser um miúdo da casa, porque o jogo já estava perdido e porque as palmas seriam mais para o pedido de desculpa. Mas recordem-se do que aconteceu após o golo de Cristiano Ronaldo em Turim no ano passado). Parece que nos querem, a todos os adeptos, iguais, certinhos, respeitadores, bons pagadores de bilhetes, a bater palmas ou a cantar para ficar bonito na televisão, mas sempre sem interferir com o espetáculo que nos querem vender. Parece que nos tratam como clientes. E parece que muitos gostam disso.

Quem não percebe o quão genuíno é aquele gesto de James só pode viver num de dois mundos: ou é incapaz de perceber a incoerência que seria aquilo acontecer ao contrário e ter a reação exatamente oposta, ou é precisamente um produto desta nova mentalidade. Quanto aos primeiros, nunca fui de perder tempo com esses. Quanto aos segundos, espero que ainda possamos ir a tempo de salvar alguns. Porque pode ser só ignorância. Se, por exemplo, acharem que são adeptos de futebol, mas nunca foram ver um Benfica-FCPorto ou um FCPorto-Benfica para o lado dos visitantes, se nunca foram insultados ou insultaram só por estarem de um lado da bancada, se nunca festejaram um golo com ar de grunho para aquele desconhecido que está do outro lado da grade com outra camisola, se nunca chegaram ao trabalho numa segunda-feira e foram gozados por um rival, bem, para mim falta-vos alguma coisa. E não falo de violência, falo sempre de rivalidade. Falta-vos viver isso, perceber isso, sentir isso.

E quando, numa quarta-feira à noite qualquer, num jogo da Liga dos Campeões em que nem está a vossa equipa, um ex-jogador vosso lembrar aos adeptos do vosso clube rival que um dia já lhes espetámos 5-0 e foi incrível, então vocês vão perceber rapidamente o que está ali em causa. Não é uma atitude pequenina, não é um desrespeito ao futebol. É provocador, porque nos provoca emoções. Não usa palavras ou gestos feios, mas desperta memórias negativas. Não bate ou maltrata alguém, mas faz-lhes mal pensar naquilo. Para mim, para nós, para o nosso lado, foi uma declaração de amor. E é, a meu ver e de quem consegue apreciar um momento destes, uma ótima maneira de nos lembrar que FCPorto e Benfica são rivais ali, dentro do campo, sempre.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Mulher, feminista e louca por futebol

"Não sou sexista, mas penso que as mulheres não deviam falar sobre futebol. Não estão aptas"
Sinisa Mihajlovic

(Não sei se a frase é verdadeira, mas é um bom ponto de partida para o que tenho para vos dizer.)



Já perdi a conta à quantidade de vezes que me perguntaram como é possível ter casado com um benfiquista doente. Mais do que um casal de clubes diferentes (porque, felizmente, há muitos), compreendo que, para quem nos lê, seja difícil entender como é que dois adeptos tão fanáticos conseguem conviver. Ao longo dos anos, temos dado várias respostas, mas, na verdade, só uma é exatamente fiel ao que se passa cá em casa: nós adoramos futebol, amamos os nossos clubes, mas isso nunca nos impediu de gostarmos um do outro. Porque o futebol, e os nossos clubes, até são capazes de nos definir em parte, mas as coisas que temos em comum além disso são muito mais importantes na nossa relação.

Por exemplo, eu não poderia casar com alguém que até simpatize com umas ideias do PNR, que não goste lá muito de negros, ciganos ou homossexuais, que vote para os pobres ficarem mais pobres, ou que ache que as mulheres não deviam falar sobre futebol. Nisto, eu e o M. estamos sempre do mesmo lado e é muito por causa disto que cá em casa está tudo tão bem, apesar de eu ser campeã nacional e ele estar prestes a jogar na segunda divisão. E, com isto, vejam que comecei um texto sobre as mulheres no futebol a falar do meu marido. Que cena de gaja.

Sim, somos ambos loucos por futebol. Há, no entanto, uma grande diferença entre nós: eu sou mulher. E, por muito que achem que estamos em 2018 e no nosso grupo de amigos até somos todos muito cool e tolerantes e pra frentex, só esse simples facto deixa-me em desvantagem várias vezes cá em casa: as mulheres portuguesas, por exemplo, ganham menos 17% do que os homens, gastam pelo menos o dobro do tempo em tarefas domésticas e ainda têm de aturar os homens que não percebem nada de futebol e lhes falam com aquele tom de voz paternalista, como se nos estivessem a ensinar alguma coisa só porque têm uma pilinha.

(Por outro lado, somos nós que ficamos grávidas e, por isso, apesar de a ausência do trabalho nos poder prejudicar a carreira, apesar de termos de sacrificar a nossa vida e o nosso corpo durante 9 meses mais todos os outros em que os bebés dependem tanto da mãe, apesar de NÃO PODERMOS BEBER ÁLCOOL NO CASAMENTO DA NOSSA MELHOR AMIGA, somos nós que podemos ficar em casa a ver todos os jogos do Mundial, por isso a vida deles não é assim tão perfeita.)

Eu e o M. escrevemos há muitos anos sobre futebol, que é um tema que suscita bastante inconsciência e alarvidade, portanto estamos habituados a lidar com comentários negativos, insultuosos, ofensivos. Curiosamente, há coisas que ele nunca teve de ouvir, como por exemplo que devia ir para a cozinha e que era melhor ir passar a ferro. O que é injusto, porque a mim ninguém me precisa de lembrar para ir para a cozinha ou passar a ferro e ao M. é preciso, várias vezes, informá-lo de que há algo para fazer cá em casa. Ou seja, se é para nos avisarem, e obrigada por isso, incluam-no também nesses alertas úteis. Além disso, como eu sou mulher, provavelmente consigo ir para a cozinha, passar a ferro e falar de futebol ao mesmo tempo, portanto estes conselhos acabam por não funcionar na mesma.

Entre as observações machistas de que nós, mulheres que se atrevem a gostar e falar sobre futebol, somos alvo, também estão precisamente as relacionadas com os nossos maridos. Por exemplo, a julgar pela quantidade de "o teu marido deve ser corno" que eu leio, parece que uma mulher que tenha uma opinião futebolística tem várias vezes maior probabilidade de trair o marido. Reparem: não é de ser traída, deixando-nos emocionalmente devastadas, porque o adultério, quando cometido pelo homem, é obviamente um sinal de grande machice. É de sermos nós as traidoras! Imaginem, o horror! Portanto, por momentos até parece que o M. é que é a vítima deste comentário, mas, na verdade, sou eu, mulher que tem uma opinião sobre futebol, que sou capaz de ser uma grande porcalhona, ao ponto de enganar o meu marido. Bem visto.

Outro dos meus comentários preferidos é "como é possível teres marido...". Porque, como se sabe, uma mulher que não seja casada ou não esteja emocionalmente envolvida com um homem é o buraco negro da nossa sociedade. Deus nos livre dessas solteironas vadias que andam aí a fazer o que bem lhes apetece, vivendo sozinhas, saindo à noite, bebendo álcool e podendo fazer tudo aquilo que um bom marido não nos permite! Que cenário dantesco. Por outro lado, é quase bonito ver a sensibilidade com que tratam o M. nesta análise, como uma espécie de palmadinha nas costas de admiração pelo que ele atura. Apesar de ele ter uma mulher que fala sobre futebol, ainda assim, fica com ela. Fogo, vocês homens podem ser de uma grandiosidade incrível!

Não me entendam mal: vocês têm todo o direito de me insultar. Eu escrevo coisas bastante provocadoras e, tal como estou no meu direito de o fazer, há bastante gente que pode e deve não gostar. O problema é que poucas vezes me insultam por ser portista, por ser portuense, por gostar mais do Marega do que do Ronaldo. Normalmente, insultam-me por ser mulher. E é aí que isso passa a não ter piada (aliás, até há piadas machistas que me fazem rir, o problema é que não são estas). E vocês, machistas, têm de perceber uma coisa: não nos metem medo. Aliás, um machista que tem necessidade de escrever isto numa rede social dificilmente é algo mais do que precisamente uma pessoa com medo. Sim, há muitos homens que têm medo das mulheres, mesmo em coisas tão básicas como o futebol. Sentem-se ameaçados, querem calar-nos e fazer xixi naquele território só deles. E podem, e devem, ser insultados por isso.

"Men are afraid that women will laugh at them. Women are afraid that men will kill them."
Margaret Atwood, autora de The Handmaid's Tale

Agora, a juntar a estes, já podemos ter a alegada citação do novo treinador do Sporting. Porque o que nos faltava era precisamente uma voz machista no futebol! Não bastava, por exemplo, os clubes praticamente não terem mulheres em altos cargos, a Federação e a Liga idem aspas, as jornalistas desportivas serem vistas como caras bonitas, as atletas serem desvalorizadas e as nossas opiniões estarem em minoria em todos os painéis. Faltava esta desculpa. Agora já posso ler que o Mihajlovic é que tinha razão. IUPIIIIIIIIIII!!!

É por isso que lamento ver pessoas inteligentes a desvalorizar a imagem machista que o treinador do Sporting trouxe. Sim, o que interessa são as suas competências técnicas, ele até pode achar que as mulheres deviam ser proibidas de entrar nos estádios (já agora, as mulheres iranianas passaram agora a poder fazê-lo, viva!) que isso não influencia nada o seu trabalho. Claro que não, só influencia estes trogloditas que o vão citar para nos atingir.

Começa sempre assim: surge um maluco (machista, racista, o que for), diz umas coisas disparatadas, nós rimo-nos e gozamos com ele, os meios de comunicação social ridicularizam-no e dão-lhe o tempo de antena que ele precisa e depois lá há um momento em que alguém se identifica e pumbas. Trump quer construir um muro na fronteira com o México? AH! AH! AH! Que estupidez! E lá começam a surgir milhares de comentários nas redes sociais sobre como, afinal de contas, até pode ser uma boa ideia. E, de repente, ele é presidente dos Estados Unidos.

Não quero, com isto, comparar o treinador do Sporting ao presidente norte-americano, até porque para isso já há o presidente (suspenso?) do mesmo clube. Nem quero, assim, reduzir este tema a um problema de um dos meus rivais. Mas sim, quero desde já declarar que não vou tolerar este tipo de atitude - seja de um protagonista do nosso futebol, seja de um anónimo com tempo demais para escrever comentários no Facebook - sem dar luta.

Chega! Chega de filmar as mulheres na bancada e dos comentários sobre o jogo estar, assim, mais bonito! Há milhares de mulheres que vão à bola só porque gostam de futebol e muitas delas até são feias. Chega de entrar em campo com mulheres semi-despidas ao lado dos árbitros e dos jogadores! Porra, às vezes está um frio do caraças! Chega de fazer sorteios com decotes e sorrisos! Só queremos ver com qual equipa calha a nossa e torcer para que os rivais se lixem!

E viva! Viva todas as mulheres que têm de os aturar! Viva as mulheres que gostam de futebol! Viva as mulheres que vão ao estádio! Viva a Helena Costa que sabe mais do que muitos comentadores juntos! Viva as poucas que trabalham nos clubes e nas organizações ligadas ao futebol! Viva as jornalistas desportivas! Viva as atletas, as treinadoras e as árbitras! Viva as mulheres que têm opinião desportiva! Viva a minha avó, que não pode ver os jogos mais importantes porque se enerva! Viva a minha mãe e as minhas tias, que qualquer dia não podem ver os jogos mais importantes porque se enervam! E viva a nossa futura filha, que será mulher, feminista e, se tudo correr bem, louca por futebol!


terça-feira, 19 de junho de 2018

Omam-Biyik e Busunge

Com o nosso filho finalmente a dormir, depois de cozinharmos, darmos-lhe o jantar, banho e depois de ter contado a história do Nemo, a história da baleia e a história do pinguim (que o nosso filho exige religiosamente antes de dormir e sempre por esta ordem), eu e a C. conseguimos finalmente pousar no sofá e ver um episódio da série de documentários sobre os Mundiais. A C. escolheu o Itália 90 sabendo de antemão que era um erro. O Itália 90 está para mim como a histórias do Nemo, da baleia e do pinguim estão para o P.: sabemos aquilo de cor. Há várias coisas que eram importantes para a minha a vida académica e que são para a profissional que eu nunca consegui decorar e que sou obrigado a ir a uma cábula sempre que me deparo com elas. Há outras coisas, igualmente úteis, que nunca consigo lembrar-me ou que nunca chegam ao ponto de eu as saber para as poder esquecer em seguida. E estamos a falar de coisas mundanas, grandes: no outro dia tive que perguntar à minha mulher onde é que se guardava a tábua de engomar e descobri que era num sítio incrivelmente visível no T2 que habitamos há ano e meio. Mas estas coisas podiam ocupar espaço na minha cabeça e impedir-me de dizer Argentina 0 Camarões 1, golo de Omam-Biyik, após um salto impressionante e com notável colaboração do guarda-redes Pumpido, que depois se veio a lesionar (dando entrada Goycochea, um dos heróis daquele torneio). Foi neste território de domínio absoluto e quase tétrico que a C. assistiu ao documentário. Com a minha narração, com as minhas antecipações (das quais destaco a minha imitação da dança de Chris Waddle com a camisola da Bélgica após os oitavos de final antes do médio inglês aparecer no ecrã) e com os meus acrescentos (é inenarrável que um documentário sobre o Itália 90 não mostre Diego Armando Maradona a dizer “hijos de puta” durante os assobios italianos ao hino argentino na final). Foi o meu regresso ao meu Mundial, ao Mundial que me fez amar os Mundiais.



O Itália 90, que segundo os críticos foi um dos piores mundiais de sempre (talvez ajude uma final paupérrima e a pior média de golos por jogo) foi o meu primeiro. E o primeiro Mundial ou os Mundiais que vivemos entre os 6 e os 12-14 anos são inigualáveis. Em 1990 eu tinha só 6 anos, mas descobri, no dia 8 de Junho (esta fui ver à Wikipedia) que havia um país chamado Camarões. Como é que um miúdo não fica deslumbrado com um torneio onde aparece um país com nome de animal, com jogadores que dançavam na bandeirola de canto quando marcavam? Este tipo de emoção, esta sensação de primeira vez, ainda por cima associada a uma idade de realismo mágico e a uma era em que os jogos eram raros, é marcante. É como se fosse uma tatuagem na personalidade. Aquele torneio, que eu vi sozinho, sem escola, sem ter que contar as histórias do Nemo, da baleia e do pinguim, entrou-me pelos olhos e nunca mais saiu. Os empates e a violência das faltas não me afastaram, aliás, a hipótese de mais meia hora de jogo e da emoção dos penalties só me viciou mais.
O meu Maradona é aquele, já decadente. Gascoigne será sempre o das lágrimas e qualquer pessoa com o mínimo de decência estética admitirá que todos os equipamentos daquele Mundial são obras de arte.



Depois de 1990 veio o Mundial de 1994, de Baggio e Romário, que também devorei (os meus pais, premiando-me pelas boas notas, iam acordar-me para ver os jogos de madrugada). Em 1998, adolescente, fui jogar à bola depois dos penalties do Itália-França, mas também consigo dizer esse Mundial praticamente todo (beneficiando das férias de Verão e da minha total inaptidão social para querer sair à noite e fazer coisas que os miúdos de 14 anos costumam querer fazer). 2002 já me apanha a estudar para os exames nacionais, fazendo-me perder vários jogos. No Alemanha 2006 a época de exames também é um empecilho e, por exemplo, só vi o prolongamento do mítico Alemanha-Itália. A perda é inexorável e exponencial e em 2010 perco uma meia-final inteira por estar a trabalhar e é numa urgência completamente vazia que consigo ver o golo de Iniesta. Um estágio em Espanha em pleno 2014 tira-me alguns jogos na fase de grupos e tenho sérias dificuldades em lembrar-me, por exemplo, do primeiro jogo da Argentina (só me lembro do Irão e da Nigéria).


Não vos quero enganar, o Mundial continua a ser um marco fulcral na minha vida, um acontecimento que eu sigo com toda a atenção e entrega que consigo. O problema é que, entretanto, se meteu a vida – os estudos, o trabalho, obrigações familiares – e a atenção e a entrega que eu consigo são menores. Em 1990 eu não tinha obrigações nenhumas, como qualquer criança ocidental de classe média (lembrei-me, a Argentina jogou o primeiro jogo com a Bósnia em 2014). A minha vida foi devorar todos os jogos que a televisão portuguesa e espanhola (sim, nós tínhamos Canal Sur e TVE) deram, gravar a cassete com o programa resumo do Mundial da TVE e vê-la ao ponto de associar comentários em espanhol aos lances mais míticos. Hoje, em 2018, posso admitir-vos que perdi o penalty falhado de Messi contra a Islândia porque tive que montar móveis do IKEA, nomeadamente uma estante Belly para livros, uma cama Busunge onde foi colocado depois um colchão Nattsmyg, cuja fonética que me remeteu para Matts Magnusson e para o Suécia-Brasil de 1990, com 6 jogadores do Benfica. E é por isto que eu amo – e vou amar sempre – o Itália 90. Porque podia aprender países novos, descobrir equipamentos e apaixonar-me por jogadores. Porque tinha tempo para isso, porque a minha vida era isso. Nós não deixamos de amar os Mundiais, mas é como se as relações passassem a ser à distância e cada vez maior. O Rússia 2018 fará parte de mim também e vou associá-lo a esta fase da minha vida, a não conseguir ver os jogos porque estou a dar banho ao P. e a inventar diálogos entre os bonecos dele e estou certo que um dia também terei saudades dele porque me vou lembrar do meu filho pequeno e pensar que foi montar uma cama dele que me tirou a desilusão de ver o meu jogador preferido falhar um penalty no Mundial. O problema vai ser daqui a uns anos, quando me sentir um completo ignorante a ver o resumo deste Campeonato do Mundo, incapaz de dizer um jogador de Marrocos. Omam-Biyik vai estar sempre na minha memória, mas é provável que do Rússia 2018 eu me lembre sempre daquele médio islandês, o Busunge, que afinal era uma cama extensível de 160cm para 200cm.

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

O golo de Ronaldo não é só um espetáculo. É o fim

Antes de começarmos, quero que saibam que o que vão ler aqui tem muito pouco a ver com o pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo contra a Juventus. Foi um golaço, vamos vê-lo mil vezes e, daqui a muitos anos, vamos dizer onde estávamos e qual foi a nossa reação quando o vimos. Até aqui não temos nenhum problema, o futebol existe para nos dar momentos destes e ainda bem que hoje não se fala de outra coisa.

Portanto, estamos todos de acordo que o golo de Ronaldo foi um espetáculo. O salto, o gesto técnico, a força. Tudo perfeito. E logo nuns quartos de final da Liga dos Campeões, a melhor competição de clubes do mundo, vista por milhões em todo o planeta. É difícil imaginar melhor palco, melhor momento. Para ele, para a sua equipa, para os seus adeptos e para os amantes de futebol. A não ser que olhemos para tudo o que estava à volta e ao que nos levou até ali.

Não sei quantas vezes assisti num estádio a jogos da Liga dos Campeões, mas ainda hoje me arrepio com aquele hino. E não é propriamente por apreciar música clássica. O hino da Champions toca-me porque me diz: “Estás aqui, o teu clube está entre os melhores”. E, naquele momento, não penso em quantos milhões podem entrar no nosso cofre em caso de vitória. Nem quero saber dos patrocínios, dos likes no Facebook ou de quem está do outro lado. Seja o Schalke, o Real Madrid ou um surpreendente Carcavelinhos; seja um Ronaldo, um Messi ou o equivalente a um Marega no adversário. O que eu quero mesmo, mesmo, mesmo é ganhar. Seja de pontapé de bicicleta, com a mão ou com um golo na própria baliza.

Mas hoje, quando toca o hino da Liga dos Campeões, já sei o que nos espera. Lutamos muito na fase de grupos, chegamos aos oitavos e ficamos todos entusiasmados com o sorteio, porque vamos a um estádio lá fora cheio de público e vamos receber em nossa casa um Salah qualquer que nos habituamos a ver na televisão a marcar grandes golos. É uma sensação incrível, aquela de andar a ver voos baratos para acompanhar a nossa equipa na Liga dos Campeões. “Estás aqui, o teu clube está entre os melhores”. VAMOS A ELES! NÓS ACREDITAMOS! ESTAMOS JUNTOS!

Ora, o problema é que a Liga dos Campeões só nos quer até esse exato momento. Nós apenas servimos para ser eliminados por um Liverpool qualquer, quando temos a sorte de não nos calhar logo um dos serial killers. Agora, o que aquele hino nos está a dizer é: “Boa sorte para não seres goleado”. E lá ficamos de braços caídos quando tal acontece, ou saímos de cabeça erguida quando a Juventus só nos ganha a jogar com mais um. Uau, que grande prestação nossa! Que orgulho! Os nossos rivais nem nos podem gozar porque nunca chegariam até aqui! Somos incríveis! Coitados deles que nem puderam ver ao vivo aquela grande exibição do Dybala! Que privilégio!

E depois passamos a ver os jogos na televisão e, enquanto ouvimos o hino, vemos esses Liverpool ou Juventus alinhados, com o mesmo ar de nós contra eles: “Boa sorte para não seres goleado”. Surpresa das surpresas, normalmente são. A Liga dos Campeões precisa deles porque valem muitos milhões, mas as meias-finais estão já aí e Deus nos livre de não ter os melhores jogadores do mundo e as equipas que interessam lá. Real Madrid, Barcelona, Bayern. Agora o Manchester City, mas idealmente o PSG também, às vezes uma Juventus ou um Dortmund e de vez em quando um “pequeno” para isto parecer uma competição. Está feito, agora lutem entre vocês, digladiem-se lá os Ronaldos e os Messis, queremos ver escorrer o sangue das centenas de milhões de euros que valem os vossos plantéis, não interessam os 4x3x3 ou 4x4x2, se defendem bem ou pressionam em equipa, o que rende é sentirmos que estamos a ver o melhor futebol do mundo, quando na verdade estamos a ver o fim dele.

O golo de Ronaldo é um espetáculo, o efeito Messi no Barcelona é um espetáculo, o Manchester City de Guardiola é um espetáculo. Só que é só para alguns. É só para os clubes milionários, que já olham para os campeonatos nacionais como uma série de amigáveis entre os jogos da Liga dos Campeões e o mercado de transferências. E é só para os adeptos ricos, que têm dinheiro para ir ver os jogos a preços exorbitantes. Também nos chega a nós, que vemos aquele pontapé de bicicleta na televisão e comentamos para o lado: “Foda-se, que golaço”. E esse é o maior privilégio que nos deixam ter: vê-lo, partilhá-lo nas redes sociais. Mas dificilmente o poderemos viver.

A Liga dos Campeões tornou-se o recreio de três ou quatro equipas que nos deixam bater-lhes palmas ao longe. Ou então temos o azar de ser adeptos de um dos clubes que consegue chegar mais longe. E aí, se tivermos dinheiro para ir ao jogo, se os bilhetes não forem todos para patrocinadores, empresas e conhecidos, temos duas hipóteses: ou vemos Ronaldo marcar um golo de pontapé de bicicleta e nos esquecemos do que a nossa família nos ensinou o que é o nosso clube, de todas as picardias na escola e no trabalho com os adeptos de outros clubes, de tudo o que significa apoiar e sentir um clube todos os dias da nossa vida, e aí sim, levantamo-nos, batemos palmas e comentamos para o adepto ao lado, que está a chorar porque estamos a perder: “Foda-se, que golaço”. Ou então deixamos cair os braços, as lágrimas vêm-nos aos olhos porque a eliminatória está resolvida e ainda gritamos a pedir falta sobre o defesa devido à altura do pé. Porque o nosso clube está sempre à frente de qualquer golaço.

O que me custa é que os adeptos (?) da Juventus que optaram pela primeira hipótese hoje também seriam os adeptos (?) do FCPorto que aplaudiriam aquele golaço de Cristiano Ronaldo, ainda no Manchester United, contra nós. Por momentos, não só se esqueceriam de um fator essencial no futebol (há uns que jogam contra outros, de facto), como ainda iriam ficar contentes por ter lá estado naquele momento inesquecível. Porque querem o espetáculo, a ópera, um bom filme, em vez de ganhar. Ao contrário de outros, malucos como eu, que o iriam insultar e pedir falta no início da jogada (já nem me lembro bem, mas tenho a certeza que seria admissível).

Já não somos muitos, e temo que sejamos cada vez menos. Hoje vejo as nossas crianças a torcerem pelo Real Madrid como se tivessem nascido na capital espanhola, sabem o plantel e os números nas camisolas da mesma maneira que sabem quantos milhões custaram, ou quanto vale a cláusula de rescisão, ou quantos seguidores têm nas redes sociais. E eu adoro que haja futebol a toda a hora nas televisões, computadores ou tablets, adoro o acesso massificado a este desporto, mas torcer? Torcer a sério? Nem sabem o que significa. Ninguém lhes diz, mas na verdade não têm clube. Têm espetáculo. Não vão a Paços de Ferreira debaixo de um temporal porque a essa hora o Ronaldo pode estar a marcar um hattrick a uns coitados que têm o azar de ele estar a aquecer para a Liga dos Campeões. E sim, é muito mais provável que, ao ficarem em casa, possam ver um pontapé de bicicleta de um dos melhores jogadores do mundo, em vez de arriscarem esperar por um gesto técnico de excelência do Marega. Mas estão a perder o melhor.

Adoro futebol, mas amo o meu clube. Tenho imenso prazer ao ver Messi, mas só sofro com o meu FCPorto. Aprecio o golaço de Ronaldo, mas celebrarei com certeza mais um canto ganho na próxima jornada. Vou querer ver os melhores no Mundial, mas estarei mais atenta às transferências dos meus. Hoje vou falar muito do pontapé de bicicleta, mas ninguém vem ter comigo a dizer: “Viste aquele golaço?”. Não, já sei que vão perguntar-me se já recuperei do Restelo, ou gozar por já não estar em primeiro no campeonato. Aparentemente, eu não sirvo para comentar grandes lances de futebol, mas sou a amiga ou colega perfeita para desabafar sobre o FCPorto. E acreditem que fico muito orgulhosa com isto.

Portanto, resumindo, a Liga dos Campeões está a caminhar irremediavelmente para uma NBA, em que muitos querem participar, mas na verdade já sabemos que só dois ou três interessam, em que os anúncios já são tão ou mais importantes quanto o desporto, em que meia dúzia de Globetrotters fazem uns afundanços e o pessoal se levanta e dá gritinhos de excitação e em que os “adeptos” não são mais do que clientes que vão adquirir camisolas, pipocas e fotografias para as redes sociais. Não interessa se são do Real Madrid, da Juventus, turistas estrangeiros ou grandes empresários de marcas associadas à competição. O que interessa é que batam palmas quando o Cristiano Ronaldo resolver uma eliminatória sozinho com um pontapé de bicicleta e ainda vão contentes para casa porque lhes deram o que queriam: espetáculo, não paixão.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Um derby moderno

Começa tudo no “Vamos abanar as cartolinas” que o speaker tem que gritar dezenas de vezes antes da entrada das equipas. Cartolinas colocadas pelo clube, compondo painéis completamente banais e sem graça, como se estivéssemos a mandar uma mensagem para o espaço e não a receber um Benfica-Sporting. É um Benfica-Sporting, jogo de rivais, de histórias mil, de várias contas para ajustar. E nós estamos com umas cartolinas na mão, o speaker grita para nós a abanarmos (para quê? Para fazer vento? Não percebo) e há uma música dos Da Weasel a tocar que é tão má, tão má, tão má, que achava justa a interdição da Luz por 2 jogos só por aquilo tocar. Os lagartos cantam qualquer coisa, a Luz quer responder, mas tudo se perde debaixo da batida irritantemente alta da música. Ninguém perde tempo com picardias antes do jogo – é inútil, a música não deixa. É como se metêssemos música alto no meio de um momento mais tenso de uma cimeira israelo-árabe para disfarçar.
Depois voa a águia – que já nem é a mesma águia – até aterrar no emblema, gesto já repetido mil vezes, que imagino que possa ser especial para o turista chinês que está no Estádio da Luz, mas que de tão repetido já nem motiva sequer uma assobiadela dos rivais. Repetimos a piada misturada com sonho de imaginar que a águia passa por cima dos lagartos e os metralha de fezes, mas ouvimo-nos mal, o speaker está a gritar.




Em 2014 fomos à Argentina, de lua-de-mel, eu e a C. (este esclarecimento foi deveras importante, não fossem vocês achar que eu tinha tido outra lua-de-mel) e fomos a um San Lorenzo – Rosario com um guia, no meio de alguns turistas (porque só assim arranjámos bilhetes). O guia era porreiríssimo, do Boca e daqueles gajos que curtia o jogo e tinha a ingrata tarefa de levar gringos a uma coisa que os argentinos vivem com uma intensidade maradoniana, que é o futebol. Conversa puxa conversa (a selecção não me diz nada e outros temas recorrentes entre doentes) e o guia diz-me que teve que levar um grupo como o nosso ao Monumental no dia em que o River desceu.
“Tu estavas lá? No Monumental?"
“Sim”
“Melhor dia da tua vida?”
“Sim. Foi incrível. Não trocava a descida do River por uma Libertadores do Boca. Mas durante o jogo era impossível estar feliz. Havia gente a chorar. Velhos a chorar. Tive que explicar aos turistas que iam comigo que não podiam manifestar-se, que não podiam tirar fotos. Seria como tirar fotos num funeral. Aquilo era um funeral.”

O senhor do Chelsea que filmou o vídeo acima não levou sequer um “fuck off”. Os adeptos do Sporting que festejaram o golo ao pé de mim também não. E isso, para mim, é começar aos berros no meio de um funeral. Em 2013, vi um New Orleans Pelicans – Oklahoma City Thunder no pavilhão, em New Orleans. O Durant fez uma jogada brilhante que culminou com um afundanço e o pavilhão aplaudiu-o. Nunca mais me esqueci. Apeteceu-me levantar-me e gritar “Fechem isto! Vocês estão a fazer tudo mal! Isto é um desporto, porra, comportem-se como tal!”. Sempre que alguém diz que o futebol se devia transformar na NBA é daqueles aplausos que me lembro. Eu só concebo bater palmas a um golo de um adversário do Benfica se for um pontapé de bicicleta do meio campo, com o resultado em 7-0 para nós, no último jogo do campeonato, em que o título já nos está entregue. E mesmo assim vou refilar primeiro com o guarda-redes, que estava adiantado estupidamente.
Vários adeptos do Sporting na Luz – no meio de adeptos do Benfica - festejaram o golo, tiraram fotos e selfies. Vai-se ao futebol como se vai um festival. Fotografa-se a Luz, num derby, como se fotografa o último prato do restaurante da moda antes de se colocar numa rede social. Há um cheiro a turismo no ar que nos torna a nós, os doentes, os que quando pensam num Benfica-Sporting dizem imediatamente Neno-Veloso-Mozer-Hélder-Kennedy-Abel Xavier-Paneira-Schwartz-Isaías-João Vieira Pinto-Aílton ridículos. Somos a fauna que vem ser fotografada. No golo do Sporting há saltos, como se o artista preferido estivesse a tocar o último single. Não há sequer aquele grito descontrolado de um adepto sportinguista que visse a equipa a ganhar no estádio do rival, é tudo asséptico, limpinho, desapaixonado. Fico doente a olhar para estas pessoas. No primeiro Betis-Sevilla que vi ao vivo, um gajo do Sevilla, de cachecol, sentou-se no meio da bancada dos sócios do Betis abaixo de onde eu estava. Ninguém lhe bateu, ninguém lhe chamou nomes. Mas toda a bancada despejava o lixo em cima do senhor: os copos com as pipas espanholas, os maços de tabaco fumados, tudo. Era o lixo da bancada. Quando foi golo do Sevilla o homem parecia uma estátua.



(Ronaldo festeja um golo em Camp Nou e há telemóveis no ar)


(Maneira correcta de reagir a golo adversário)

Isto que vos escrevo não é uma ameaça de “vou bater-vos se voltarem a fazer isso” – a última vez que andei à porrada devia ter 8 anos, tenho 70 Kg, sou um lingrinhas com um filho e não particularmente corajoso. É só uma questão de respeito. É um pedido de educação. Pedir a alguém que não festeje um golo contra o Benfica no Estádio da Luz é como ter que explicar que não se arrota à mesa ou que não se come de boca aberta. Nunca me ocorreria tirar selfies no jogo de descida do River, nunca me ocorreria festejar um golo do Benfica na central do Dragão ou Alvalade. E digo isto não só por gostar de ter a dentição completa, é porque considero que é o mínimo de educação. Dizer isto não significa não saber conviver com civismo e urbanidade (e é tão triste ter sublinhar isto): durmo todos os dias com a maior portista que existe no planeta Terra e tenho um filho que herdou 50% dos seus genes dela. Como gosto dela e respeito o que ela gosta do seu clube, era incapaz de celebrar um golo decisivo contra o FC Porto à frente dela, no estádio dela, sem ser na bancada visitante.

Há neste problema também uma questão de classe social. Diz-me a minha mulher que os bilhetes para não sócios do próximo jogo do clube dela podem custar trinta euros. Demasiado caro para um adepto normal ir ver um jogo tão normal. O futebol deixou de ser um espectáculo para as massas – e são as massas que gostam de futebol e que sabem comportar-se em futebol e transformaram o jogo no mais lindo do mundo. O que distingue o futebol dos restantes não é a sua beleza estética, não é o seu ritmo, é a paixão que ali está empregue e não existe em mais desporto nenhum. Se enchemos o estádio de pessoas que não percebem isto, o futebol morre. Basta pensar no ridículo que são os concertos pré-jogos importantes (finais de Mundial, finais europeias, etc). Quem é que, antes de um Benfica-Sporting, quer ver um concerto? Podiam por Dave Matthews Band a tocar com o Springsteen e os Radiohead que eu ia estar a marimbar-me. Os concertos, o fogo de artifício e os speakers são para esta nova “geração” que descobriu agora o jogo e que acha tudo aquilo pitoresco. Nós queremos cachecóis no ar, uma frase que metaforize a mensagem “GANHEM COMO FOR” e um ambiente que faça os nossos galvanizarem-se e os outros borrarem-se nas cuecas.


(Jogo de forte rivalidade na NBA)



(só mais um jogo na Argentina)

- Marca o canto, caralho! P´ra cima deeeeeles! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA! BEN-FI... Então, caralho? Marca o canto!
- Está a consultar o VAR – dizem atrás de mim. Seguem-se questões, rápidos consensos que, a existir qualquer lance, é óbvio que fica (mais um) penalty por assinalar contra o Benfica. Há tentativas frustres de consultar a net, há conversas paralelas, há um repetido “já merecíamos”, até que há um silêncio. Um silêncio certamente breve para quem for um espectador alheio. Uma pausa que nem se deve ter notada na televisão. E, em silêncio, há um apito, o árbitro manda marcar o canto – e rápido, que já se perdeu muito tempo – e a bola é batida em silêncio e um jogador do Sporting qualquer alivia sem problemas. Um canto em silêncio num derby, numa altura de massacre, pequena metáfora de um caminho até a um novo futebol.
Dizia o Diego Armés já há algum tempo que o VAR é uma coisa para adeptos de sofá. Para quem vai ao estádio, há ali uma pausa absurda, um desconto de tempo, uma coisa anti-futebol que não se percebe, que é anti-natural no mundo das cervejas das roulottes, no mundo das pessoas que sabem de cor os 11, que dizem vezes sem conta “odeio estes filhos da puta” referindo-se ao clube de amigos, vizinhos e familiares. Mas é o nosso mundo. Talvez estas pausas sejam lógicas na cabeça de quem come pipocas no estádio, na cabeça do adepto do Benfica que olhou para mim chocado quando eu gritei ao Coentrão um levezinho “FICA NO CHÃO, FILHO DE UMA GRANDESÍSSIMA PUTA, ATÉ O NATAL PASSAS AÍ, CABRÃO DO CARALHO.” (o jogo estava só nos minutos iniciais, portanto ainda estava subir de forma). Na cabeça desse adepto – do Benfica, repito – eu fui extremamente mal-educado e poderei ter ferido os sentimentos do pobre Fábio. Na cabeça deste senhor, aquela paragem não faz mal nenhum. Qual é a diferença de marcar um canto com o estádio todo aos berros ou em silêncio? Nenhuma. Assim ninguém está a chamar nomes a ninguém. É o futebol limpinho, onde somos todos amigos. Onde desejamos sorte aos adversários nas competições europeias, onde cumprimentamos os rivais pela excelente forma do seu avançado centro, como se ele tivesse escrito um ensaio literário. 

As pessoas riem-se de mim quando eu digo isto, mas isto é irreversível e é só o princípio. No estádio não há repetições? Entram cheerleaders. Há um silêncio? Vamos meter aquela música horrível dos Da Weasel outra vez. Não têm com que se entreter? Entra um adepto que vai tentar marcar um golo do meio-campo! Se conseguir, ganha uma tshirt! E vamos fazer uma kiss cam e se apanharmos um casal com ele à Benfica e ela à Sporting, ainda melhor! E mais turistas virão, e mais pessoas que festejam golos na bancada virão e o número de likes na hashtag #ligaportugal vai subir.
É a gentrificação do futebol. Assim como Lisboa, Porto, Barcelona, Budapeste, Praga e Paris têm milhares de turistas nos seus centros pejados de hostels e Starbucks, já sem locais a lá morar, afastados pelos preços das rendas, também os estádios se vão tornar sítios de turistas locais e estrangeiros, afastando as pessoas que sempre ali tiveram lugar, que iam sempre à mesma roulotte. Que sempre ali moraram. Qualquer dia só lá estão estes:


(Matem-me se eu um dia vestir uma camisola assim)

Cheguei a casa chateado com o empate, mas irritado por perceber que o caminho é irreversível. Na quarta-feira chamou-me a atenção o número inacreditável de pessoas ao meu lado que tiveram um comportamento que eu considero desadequado ao jogo. Desadequado. Se eu, no meio de um espectáculo de ópera, me levantasse e gritasse “Ó GORDO DO CARALHO, NÃO CANTAS UMA MEEEEEEEERDA!” isso seria desadequado e o mínimo era o internamento. Eu percebo isso. Mas isto é futebol. Em futebol, gritar a um adversário que ele é uma merda é como respirar. Desadequado é o contrário.
O futebol é um desporto do povo, que já foi para o povo. Os bilhetes caros, o VAR, as barraquinhas de comida gourmet são passos inexoráveis para a esterilização. Para um futebol onde os estádios vão ser cada vez mais confortáveis, mais caros, os tempos publicitários cada vez maiores e que hão-de estar tão cheios de gajos que lá vão com convites das empresas que ainda vamos ter sectores reservados para “verdadeiros adeptos”, daqueles de antigamente, a quem caberá a tarefa de dar aquele toque de autenticidade que vai ficar bem nas fotos no Instagram. Pelo menos assim o espero. Quer dizer que, ao menos, ainda há espaço para mim.