sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Um derby moderno

Começa tudo no “Vamos abanar as cartolinas” que o speaker tem que gritar dezenas de vezes antes da entrada das equipas. Cartolinas colocadas pelo clube, compondo painéis completamente banais e sem graça, como se estivéssemos a mandar uma mensagem para o espaço e não a receber um Benfica-Sporting. É um Benfica-Sporting, jogo de rivais, de histórias mil, de várias contas para ajustar. E nós estamos com umas cartolinas na mão, o speaker grita para nós a abanarmos (para quê? Para fazer vento? Não percebo) e há uma música dos Da Weasel a tocar que é tão má, tão má, tão má, que achava justa a interdição da Luz por 2 jogos só por aquilo tocar. Os lagartos cantam qualquer coisa, a Luz quer responder, mas tudo se perde debaixo da batida irritantemente alta da música. Ninguém perde tempo com picardias antes do jogo – é inútil, a música não deixa. É como se metêssemos música alto no meio de um momento mais tenso de uma cimeira israelo-árabe para disfarçar.
Depois voa a águia – que já nem é a mesma águia – até aterrar no emblema, gesto já repetido mil vezes, que imagino que possa ser especial para o turista chinês que está no Estádio da Luz, mas que de tão repetido já nem motiva sequer uma assobiadela dos rivais. Repetimos a piada misturada com sonho de imaginar que a águia passa por cima dos lagartos e os metralha de fezes, mas ouvimo-nos mal, o speaker está a gritar.




Em 2014 fomos à Argentina, de lua-de-mel, eu e a C. (este esclarecimento foi deveras importante, não fossem vocês achar que eu tinha tido outra lua-de-mel) e fomos a um San Lorenzo – Rosario com um guia, no meio de alguns turistas (porque só assim arranjámos bilhetes). O guia era porreiríssimo, do Boca e daqueles gajos que curtia o jogo e tinha a ingrata tarefa de levar gringos a uma coisa que os argentinos vivem com uma intensidade maradoniana, que é o futebol. Conversa puxa conversa (a selecção não me diz nada e outros temas recorrentes entre doentes) e o guia diz-me que teve que levar um grupo como o nosso ao Monumental no dia em que o River desceu.
“Tu estavas lá? No Monumental?"
“Sim”
“Melhor dia da tua vida?”
“Sim. Foi incrível. Não trocava a descida do River por uma Libertadores do Boca. Mas durante o jogo era impossível estar feliz. Havia gente a chorar. Velhos a chorar. Tive que explicar aos turistas que iam comigo que não podiam manifestar-se, que não podiam tirar fotos. Seria como tirar fotos num funeral. Aquilo era um funeral.”

O senhor do Chelsea que filmou o vídeo acima não levou sequer um “fuck off”. Os adeptos do Sporting que festejaram o golo ao pé de mim também não. E isso, para mim, é começar aos berros no meio de um funeral. Em 2013, vi um New Orleans Pelicans – Oklahoma City Thunder no pavilhão, em New Orleans. O Durant fez uma jogada brilhante que culminou com um afundanço e o pavilhão aplaudiu-o. Nunca mais me esqueci. Apeteceu-me levantar-me e gritar “Fechem isto! Vocês estão a fazer tudo mal! Isto é um desporto, porra, comportem-se como tal!”. Sempre que alguém diz que o futebol se devia transformar na NBA é daqueles aplausos que me lembro. Eu só concebo bater palmas a um golo de um adversário do Benfica se for um pontapé de bicicleta do meio campo, com o resultado em 7-0 para nós, no último jogo do campeonato, em que o título já nos está entregue. E mesmo assim vou refilar primeiro com o guarda-redes, que estava adiantado estupidamente.
Vários adeptos do Sporting na Luz – no meio de adeptos do Benfica - festejaram o golo, tiraram fotos e selfies. Vai-se ao futebol como se vai um festival. Fotografa-se a Luz, num derby, como se fotografa o último prato do restaurante da moda antes de se colocar numa rede social. Há um cheiro a turismo no ar que nos torna a nós, os doentes, os que quando pensam num Benfica-Sporting dizem imediatamente Neno-Veloso-Mozer-Hélder-Kennedy-Abel Xavier-Paneira-Schwartz-Isaías-João Vieira Pinto-Aílton ridículos. Somos a fauna que vem ser fotografada. No golo do Sporting há saltos, como se o artista preferido estivesse a tocar o último single. Não há sequer aquele grito descontrolado de um adepto sportinguista que visse a equipa a ganhar no estádio do rival, é tudo asséptico, limpinho, desapaixonado. Fico doente a olhar para estas pessoas. No primeiro Betis-Sevilla que vi ao vivo, um gajo do Sevilla, de cachecol, sentou-se no meio da bancada dos sócios do Betis abaixo de onde eu estava. Ninguém lhe bateu, ninguém lhe chamou nomes. Mas toda a bancada despejava o lixo em cima do senhor: os copos com as pipas espanholas, os maços de tabaco fumados, tudo. Era o lixo da bancada. Quando foi golo do Sevilla o homem parecia uma estátua.



(Ronaldo festeja um golo em Camp Nou e há telemóveis no ar)


(Maneira correcta de reagir a golo adversário)

Isto que vos escrevo não é uma ameaça de “vou bater-vos se voltarem a fazer isso” – a última vez que andei à porrada devia ter 8 anos, tenho 70 Kg, sou um lingrinhas com um filho e não particularmente corajoso. É só uma questão de respeito. É um pedido de educação. Pedir a alguém que não festeje um golo contra o Benfica no Estádio da Luz é como ter que explicar que não se arrota à mesa ou que não se come de boca aberta. Nunca me ocorreria tirar selfies no jogo de descida do River, nunca me ocorreria festejar um golo do Benfica na central do Dragão ou Alvalade. E digo isto não só por gostar de ter a dentição completa, é porque considero que é o mínimo de educação. Dizer isto não significa não saber conviver com civismo e urbanidade (e é tão triste ter sublinhar isto): durmo todos os dias com a maior portista que existe no planeta Terra e tenho um filho que herdou 50% dos seus genes dela. Como gosto dela e respeito o que ela gosta do seu clube, era incapaz de celebrar um golo decisivo contra o FC Porto à frente dela, no estádio dela, sem ser na bancada visitante.

Há neste problema também uma questão de classe social. Diz-me a minha mulher que os bilhetes para não sócios do próximo jogo do clube dela podem custar trinta euros. Demasiado caro para um adepto normal ir ver um jogo tão normal. O futebol deixou de ser um espectáculo para as massas – e são as massas que gostam de futebol e que sabem comportar-se em futebol e transformaram o jogo no mais lindo do mundo. O que distingue o futebol dos restantes não é a sua beleza estética, não é o seu ritmo, é a paixão que ali está empregue e não existe em mais desporto nenhum. Se enchemos o estádio de pessoas que não percebem isto, o futebol morre. Basta pensar no ridículo que são os concertos pré-jogos importantes (finais de Mundial, finais europeias, etc). Quem é que, antes de um Benfica-Sporting, quer ver um concerto? Podiam por Dave Matthews Band a tocar com o Springsteen e os Radiohead que eu ia estar a marimbar-me. Os concertos, o fogo de artifício e os speakers são para esta nova “geração” que descobriu agora o jogo e que acha tudo aquilo pitoresco. Nós queremos cachecóis no ar, uma frase que metaforize a mensagem “GANHEM COMO FOR” e um ambiente que faça os nossos galvanizarem-se e os outros borrarem-se nas cuecas.


(Jogo de forte rivalidade na NBA)



(só mais um jogo na Argentina)

- Marca o canto, caralho! P´ra cima deeeeeles! BEN-FI-CA! BEN-FI-CA! BEN-FI... Então, caralho? Marca o canto!
- Está a consultar o VAR – dizem atrás de mim. Seguem-se questões, rápidos consensos que, a existir qualquer lance, é óbvio que fica (mais um) penalty por assinalar contra o Benfica. Há tentativas frustres de consultar a net, há conversas paralelas, há um repetido “já merecíamos”, até que há um silêncio. Um silêncio certamente breve para quem for um espectador alheio. Uma pausa que nem se deve ter notada na televisão. E, em silêncio, há um apito, o árbitro manda marcar o canto – e rápido, que já se perdeu muito tempo – e a bola é batida em silêncio e um jogador do Sporting qualquer alivia sem problemas. Um canto em silêncio num derby, numa altura de massacre, pequena metáfora de um caminho até a um novo futebol.
Dizia o Diego Armés já há algum tempo que o VAR é uma coisa para adeptos de sofá. Para quem vai ao estádio, há ali uma pausa absurda, um desconto de tempo, uma coisa anti-futebol que não se percebe, que é anti-natural no mundo das cervejas das roulottes, no mundo das pessoas que sabem de cor os 11, que dizem vezes sem conta “odeio estes filhos da puta” referindo-se ao clube de amigos, vizinhos e familiares. Mas é o nosso mundo. Talvez estas pausas sejam lógicas na cabeça de quem come pipocas no estádio, na cabeça do adepto do Benfica que olhou para mim chocado quando eu gritei ao Coentrão um levezinho “FICA NO CHÃO, FILHO DE UMA GRANDESÍSSIMA PUTA, ATÉ O NATAL PASSAS AÍ, CABRÃO DO CARALHO.” (o jogo estava só nos minutos iniciais, portanto ainda estava subir de forma). Na cabeça desse adepto – do Benfica, repito – eu fui extremamente mal-educado e poderei ter ferido os sentimentos do pobre Fábio. Na cabeça deste senhor, aquela paragem não faz mal nenhum. Qual é a diferença de marcar um canto com o estádio todo aos berros ou em silêncio? Nenhuma. Assim ninguém está a chamar nomes a ninguém. É o futebol limpinho, onde somos todos amigos. Onde desejamos sorte aos adversários nas competições europeias, onde cumprimentamos os rivais pela excelente forma do seu avançado centro, como se ele tivesse escrito um ensaio literário. 

As pessoas riem-se de mim quando eu digo isto, mas isto é irreversível e é só o princípio. No estádio não há repetições? Entram cheerleaders. Há um silêncio? Vamos meter aquela música horrível dos Da Weasel outra vez. Não têm com que se entreter? Entra um adepto que vai tentar marcar um golo do meio-campo! Se conseguir, ganha uma tshirt! E vamos fazer uma kiss cam e se apanharmos um casal com ele à Benfica e ela à Sporting, ainda melhor! E mais turistas virão, e mais pessoas que festejam golos na bancada virão e o número de likes na hashtag #ligaportugal vai subir.
É a gentrificação do futebol. Assim como Lisboa, Porto, Barcelona, Budapeste, Praga e Paris têm milhares de turistas nos seus centros pejados de hostels e Starbucks, já sem locais a lá morar, afastados pelos preços das rendas, também os estádios se vão tornar sítios de turistas locais e estrangeiros, afastando as pessoas que sempre ali tiveram lugar, que iam sempre à mesma roulotte. Que sempre ali moraram. Qualquer dia só lá estão estes:


(Matem-me se eu um dia vestir uma camisola assim)

Cheguei a casa chateado com o empate, mas irritado por perceber que o caminho é irreversível. Na quarta-feira chamou-me a atenção o número inacreditável de pessoas ao meu lado que tiveram um comportamento que eu considero desadequado ao jogo. Desadequado. Se eu, no meio de um espectáculo de ópera, me levantasse e gritasse “Ó GORDO DO CARALHO, NÃO CANTAS UMA MEEEEEEEERDA!” isso seria desadequado e o mínimo era o internamento. Eu percebo isso. Mas isto é futebol. Em futebol, gritar a um adversário que ele é uma merda é como respirar. Desadequado é o contrário.
O futebol é um desporto do povo, que já foi para o povo. Os bilhetes caros, o VAR, as barraquinhas de comida gourmet são passos inexoráveis para a esterilização. Para um futebol onde os estádios vão ser cada vez mais confortáveis, mais caros, os tempos publicitários cada vez maiores e que hão-de estar tão cheios de gajos que lá vão com convites das empresas que ainda vamos ter sectores reservados para “verdadeiros adeptos”, daqueles de antigamente, a quem caberá a tarefa de dar aquele toque de autenticidade que vai ficar bem nas fotos no Instagram. Pelo menos assim o espero. Quer dizer que, ao menos, ainda há espaço para mim.

7 comentários:

  1. PKP...Até me custa dizer isto, mas desta vez estou de acordo com um lampião (vá, meio, que és casado com uma grande portista…)! Viva o futebol de paixão e amor à camisola...odeio este sistema que está a ser controlado por um grupo de gananciosos mentecaptos que enriquece às custas dos clubes, dos verdadeiros adeptos e dos novos clientes que vão para lá comer pipocas e sair a 10 minutos do fim para não apanharem transito!

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  2. Canso-me de tentar explicar isso a outras pessoas, chocadissimas quando vibro com derrotas dos rivais. Quero que percam sempre. Rivalidade é mesmo isso carago! Algum dia um adepto do Inter iria querer que o Milan ganhasse? Idem para Liverpool e Manchester? Fico doente... cá em casa acontece ao contrário de vocês, eu sou portista e a minha mulher benfiquista. Disse-lhe que se algum dia ela me visse a desejar sequer que o Benfica conseguisse, vá, sequer empatar, que se divorciasse na hora. Ou que me mandasse internar. Belo texto M.

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  3. Larga a central e vem pá Sagres piso 3. Lá é um autêntico concurso de ofensas ao adversário, quem se sente mal é que fica calado!

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  4. VERDADE!!
    Sou do Sporting, e assino por baixo!!
    Velhos Tempos, Velhas Maneiras, Contra o futebol moderno!!

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  5. Aleluia!!! Aleluia!!!! Finalmente concordo plenamente consigo.
    Não consigo assistir a um jogo do meu Porto sem insultar os filhos da puta dos adversários, sejam eles de que equipa forem.
    Note-se que cá no Norte, a bela da caralhada, não tem a conotação negativa que os mouros do sul lhe atribuem, aliás até serve de cumprimento, "ao tempo que não te via, meu grande caralho" diz-se às pessoas que gostamos, fará ao nossos inimigos.
    Concluindo, o adepto de uma equipa deve durante o jogo, desejar a morte ao adversária, depois deste terminar, podemos ir juntos comer uma francesinha.
    Quem não entende isto, deve ver o jogo no sofá.
    Valdemar Martins

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  6. Artigo muito bem escrito, como sempre. E a extrema habilidade com que desviaste as atenções do que se passou no próprio jogo é notável.
    Com efeito, como explicarias que o treinador chunga, que não toma banho e cheira mal da boca, que ganhou 6 títulos em 2 anos à base de pura sorte, tenha dado um banho monumental de bola ao engatatao bem cheiroso, que podia ter saído da Luz vergado a uma goleada, não fosse a ineficácia dos avançados e quatro mãos de deus, mais uma falta dentro da área, que o VAR não sancionou?

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    1. E ainda há mais um factor a agravar o que se passou. Enquanto o Benfica desinvestiu no plantel, segundo dizem os entendidos, o Spitting fez o maior investimento de sempre e tem uma super-equipa...
      Enfim, são os desígnios insondáveis do futebol. Ou então não. Ou então, nem um é tão mau como o querem pintar, nem o outro é o supra-sumo da batata, como dizem a maioria dos especialistas...

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