quarta-feira, 4 de abril de 2018

O golo de Ronaldo não é só um espetáculo. É o fim

Antes de começarmos, quero que saibam que o que vão ler aqui tem muito pouco a ver com o pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo contra a Juventus. Foi um golaço, vamos vê-lo mil vezes e, daqui a muitos anos, vamos dizer onde estávamos e qual foi a nossa reação quando o vimos. Até aqui não temos nenhum problema, o futebol existe para nos dar momentos destes e ainda bem que hoje não se fala de outra coisa.

Portanto, estamos todos de acordo que o golo de Ronaldo foi um espetáculo. O salto, o gesto técnico, a força. Tudo perfeito. E logo nuns quartos de final da Liga dos Campeões, a melhor competição de clubes do mundo, vista por milhões em todo o planeta. É difícil imaginar melhor palco, melhor momento. Para ele, para a sua equipa, para os seus adeptos e para os amantes de futebol. A não ser que olhemos para tudo o que estava à volta e ao que nos levou até ali.

Não sei quantas vezes assisti num estádio a jogos da Liga dos Campeões, mas ainda hoje me arrepio com aquele hino. E não é propriamente por apreciar música clássica. O hino da Champions toca-me porque me diz: “Estás aqui, o teu clube está entre os melhores”. E, naquele momento, não penso em quantos milhões podem entrar no nosso cofre em caso de vitória. Nem quero saber dos patrocínios, dos likes no Facebook ou de quem está do outro lado. Seja o Schalke, o Real Madrid ou um surpreendente Carcavelinhos; seja um Ronaldo, um Messi ou o equivalente a um Marega no adversário. O que eu quero mesmo, mesmo, mesmo é ganhar. Seja de pontapé de bicicleta, com a mão ou com um golo na própria baliza.

Mas hoje, quando toca o hino da Liga dos Campeões, já sei o que nos espera. Lutamos muito na fase de grupos, chegamos aos oitavos e ficamos todos entusiasmados com o sorteio, porque vamos a um estádio lá fora cheio de público e vamos receber em nossa casa um Salah qualquer que nos habituamos a ver na televisão a marcar grandes golos. É uma sensação incrível, aquela de andar a ver voos baratos para acompanhar a nossa equipa na Liga dos Campeões. “Estás aqui, o teu clube está entre os melhores”. VAMOS A ELES! NÓS ACREDITAMOS! ESTAMOS JUNTOS!

Ora, o problema é que a Liga dos Campeões só nos quer até esse exato momento. Nós apenas servimos para ser eliminados por um Liverpool qualquer, quando temos a sorte de não nos calhar logo um dos serial killers. Agora, o que aquele hino nos está a dizer é: “Boa sorte para não seres goleado”. E lá ficamos de braços caídos quando tal acontece, ou saímos de cabeça erguida quando a Juventus só nos ganha a jogar com mais um. Uau, que grande prestação nossa! Que orgulho! Os nossos rivais nem nos podem gozar porque nunca chegariam até aqui! Somos incríveis! Coitados deles que nem puderam ver ao vivo aquela grande exibição do Dybala! Que privilégio!

E depois passamos a ver os jogos na televisão e, enquanto ouvimos o hino, vemos esses Liverpool ou Juventus alinhados, com o mesmo ar de nós contra eles: “Boa sorte para não seres goleado”. Surpresa das surpresas, normalmente são. A Liga dos Campeões precisa deles porque valem muitos milhões, mas as meias-finais estão já aí e Deus nos livre de não ter os melhores jogadores do mundo e as equipas que interessam lá. Real Madrid, Barcelona, Bayern. Agora o Manchester City, mas idealmente o PSG também, às vezes uma Juventus ou um Dortmund e de vez em quando um “pequeno” para isto parecer uma competição. Está feito, agora lutem entre vocês, digladiem-se lá os Ronaldos e os Messis, queremos ver escorrer o sangue das centenas de milhões de euros que valem os vossos plantéis, não interessam os 4x3x3 ou 4x4x2, se defendem bem ou pressionam em equipa, o que rende é sentirmos que estamos a ver o melhor futebol do mundo, quando na verdade estamos a ver o fim dele.

O golo de Ronaldo é um espetáculo, o efeito Messi no Barcelona é um espetáculo, o Manchester City de Guardiola é um espetáculo. Só que é só para alguns. É só para os clubes milionários, que já olham para os campeonatos nacionais como uma série de amigáveis entre os jogos da Liga dos Campeões e o mercado de transferências. E é só para os adeptos ricos, que têm dinheiro para ir ver os jogos a preços exorbitantes. Também nos chega a nós, que vemos aquele pontapé de bicicleta na televisão e comentamos para o lado: “Foda-se, que golaço”. E esse é o maior privilégio que nos deixam ter: vê-lo, partilhá-lo nas redes sociais. Mas dificilmente o poderemos viver.

A Liga dos Campeões tornou-se o recreio de três ou quatro equipas que nos deixam bater-lhes palmas ao longe. Ou então temos o azar de ser adeptos de um dos clubes que consegue chegar mais longe. E aí, se tivermos dinheiro para ir ao jogo, se os bilhetes não forem todos para patrocinadores, empresas e conhecidos, temos duas hipóteses: ou vemos Ronaldo marcar um golo de pontapé de bicicleta e nos esquecemos do que a nossa família nos ensinou o que é o nosso clube, de todas as picardias na escola e no trabalho com os adeptos de outros clubes, de tudo o que significa apoiar e sentir um clube todos os dias da nossa vida, e aí sim, levantamo-nos, batemos palmas e comentamos para o adepto ao lado, que está a chorar porque estamos a perder: “Foda-se, que golaço”. Ou então deixamos cair os braços, as lágrimas vêm-nos aos olhos porque a eliminatória está resolvida e ainda gritamos a pedir falta sobre o defesa devido à altura do pé. Porque o nosso clube está sempre à frente de qualquer golaço.

O que me custa é que os adeptos (?) da Juventus que optaram pela primeira hipótese hoje também seriam os adeptos (?) do FCPorto que aplaudiriam aquele golaço de Cristiano Ronaldo, ainda no Manchester United, contra nós. Por momentos, não só se esqueceriam de um fator essencial no futebol (há uns que jogam contra outros, de facto), como ainda iriam ficar contentes por ter lá estado naquele momento inesquecível. Porque querem o espetáculo, a ópera, um bom filme, em vez de ganhar. Ao contrário de outros, malucos como eu, que o iriam insultar e pedir falta no início da jogada (já nem me lembro bem, mas tenho a certeza que seria admissível).

Já não somos muitos, e temo que sejamos cada vez menos. Hoje vejo as nossas crianças a torcerem pelo Real Madrid como se tivessem nascido na capital espanhola, sabem o plantel e os números nas camisolas da mesma maneira que sabem quantos milhões custaram, ou quanto vale a cláusula de rescisão, ou quantos seguidores têm nas redes sociais. E eu adoro que haja futebol a toda a hora nas televisões, computadores ou tablets, adoro o acesso massificado a este desporto, mas torcer? Torcer a sério? Nem sabem o que significa. Ninguém lhes diz, mas na verdade não têm clube. Têm espetáculo. Não vão a Paços de Ferreira debaixo de um temporal porque a essa hora o Ronaldo pode estar a marcar um hattrick a uns coitados que têm o azar de ele estar a aquecer para a Liga dos Campeões. E sim, é muito mais provável que, ao ficarem em casa, possam ver um pontapé de bicicleta de um dos melhores jogadores do mundo, em vez de arriscarem esperar por um gesto técnico de excelência do Marega. Mas estão a perder o melhor.

Adoro futebol, mas amo o meu clube. Tenho imenso prazer ao ver Messi, mas só sofro com o meu FCPorto. Aprecio o golaço de Ronaldo, mas celebrarei com certeza mais um canto ganho na próxima jornada. Vou querer ver os melhores no Mundial, mas estarei mais atenta às transferências dos meus. Hoje vou falar muito do pontapé de bicicleta, mas ninguém vem ter comigo a dizer: “Viste aquele golaço?”. Não, já sei que vão perguntar-me se já recuperei do Restelo, ou gozar por já não estar em primeiro no campeonato. Aparentemente, eu não sirvo para comentar grandes lances de futebol, mas sou a amiga ou colega perfeita para desabafar sobre o FCPorto. E acreditem que fico muito orgulhosa com isto.

Portanto, resumindo, a Liga dos Campeões está a caminhar irremediavelmente para uma NBA, em que muitos querem participar, mas na verdade já sabemos que só dois ou três interessam, em que os anúncios já são tão ou mais importantes quanto o desporto, em que meia dúzia de Globetrotters fazem uns afundanços e o pessoal se levanta e dá gritinhos de excitação e em que os “adeptos” não são mais do que clientes que vão adquirir camisolas, pipocas e fotografias para as redes sociais. Não interessa se são do Real Madrid, da Juventus, turistas estrangeiros ou grandes empresários de marcas associadas à competição. O que interessa é que batam palmas quando o Cristiano Ronaldo resolver uma eliminatória sozinho com um pontapé de bicicleta e ainda vão contentes para casa porque lhes deram o que queriam: espetáculo, não paixão.

4 comentários:

  1. Lembro-me do Santiago Bernabeu aplaudir em pé o Ronaldinho depois de um jogo fabuloso que o Barça ganhou lá. Para o campeonato. Momentos únicos.
    Salvo essas excepções, celebro mais qualquer golo da Lenda Marega que do Cristianinho.

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  2. Excelente texto, como é hábito alias. Obrigado.

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  3. Em defesa da NBA, devo dizer uma coisa.

    Na NBA procura-se equilibrar as equipas.
    Por exemplo, no final do campeonato as equipas de fundo da tabela têm direito à primeira escolha nos drafts, ou seja, a escolherem em primeiro lugar os melhores jogadores que saem das universidades.
    Por outro lado, a equipa que vence o campeonato tem que obrigatoriamente libertar um par de jogadores que têm de ir para as equipas mais fracas.

    Ninguém vê por exemplo que um Sallah pudesse vir para um Astana.

    A Champions não é uma NBA. É pior.

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