quinta-feira, 21 de junho de 2018

Mulher, feminista e louca por futebol

"Não sou sexista, mas penso que as mulheres não deviam falar sobre futebol. Não estão aptas"
Sinisa Mihajlovic

(Não sei se a frase é verdadeira, mas é um bom ponto de partida para o que tenho para vos dizer.)



Já perdi a conta à quantidade de vezes que me perguntaram como é possível ter casado com um benfiquista doente. Mais do que um casal de clubes diferentes (porque, felizmente, há muitos), compreendo que, para quem nos lê, seja difícil entender como é que dois adeptos tão fanáticos conseguem conviver. Ao longo dos anos, temos dado várias respostas, mas, na verdade, só uma é exatamente fiel ao que se passa cá em casa: nós adoramos futebol, amamos os nossos clubes, mas isso nunca nos impediu de gostarmos um do outro. Porque o futebol, e os nossos clubes, até são capazes de nos definir em parte, mas as coisas que temos em comum além disso são muito mais importantes na nossa relação.

Por exemplo, eu não poderia casar com alguém que até simpatize com umas ideias do PNR, que não goste lá muito de negros, ciganos ou homossexuais, que vote para os pobres ficarem mais pobres, ou que ache que as mulheres não deviam falar sobre futebol. Nisto, eu e o M. estamos sempre do mesmo lado e é muito por causa disto que cá em casa está tudo tão bem, apesar de eu ser campeã nacional e ele estar prestes a jogar na segunda divisão. E, com isto, vejam que comecei um texto sobre as mulheres no futebol a falar do meu marido. Que cena de gaja.

Sim, somos ambos loucos por futebol. Há, no entanto, uma grande diferença entre nós: eu sou mulher. E, por muito que achem que estamos em 2018 e no nosso grupo de amigos até somos todos muito cool e tolerantes e pra frentex, só esse simples facto deixa-me em desvantagem várias vezes cá em casa: as mulheres portuguesas, por exemplo, ganham menos 17% do que os homens, gastam pelo menos o dobro do tempo em tarefas domésticas e ainda têm de aturar os homens que não percebem nada de futebol e lhes falam com aquele tom de voz paternalista, como se nos estivessem a ensinar alguma coisa só porque têm uma pilinha.

(Por outro lado, somos nós que ficamos grávidas e, por isso, apesar de a ausência do trabalho nos poder prejudicar a carreira, apesar de termos de sacrificar a nossa vida e o nosso corpo durante 9 meses mais todos os outros em que os bebés dependem tanto da mãe, apesar de NÃO PODERMOS BEBER ÁLCOOL NO CASAMENTO DA NOSSA MELHOR AMIGA, somos nós que podemos ficar em casa a ver todos os jogos do Mundial, por isso a vida deles não é assim tão perfeita.)

Eu e o M. escrevemos há muitos anos sobre futebol, que é um tema que suscita bastante inconsciência e alarvidade, portanto estamos habituados a lidar com comentários negativos, insultuosos, ofensivos. Curiosamente, há coisas que ele nunca teve de ouvir, como por exemplo que devia ir para a cozinha e que era melhor ir passar a ferro. O que é injusto, porque a mim ninguém me precisa de lembrar para ir para a cozinha ou passar a ferro e ao M. é preciso, várias vezes, informá-lo de que há algo para fazer cá em casa. Ou seja, se é para nos avisarem, e obrigada por isso, incluam-no também nesses alertas úteis. Além disso, como eu sou mulher, provavelmente consigo ir para a cozinha, passar a ferro e falar de futebol ao mesmo tempo, portanto estes conselhos acabam por não funcionar na mesma.

Entre as observações machistas de que nós, mulheres que se atrevem a gostar e falar sobre futebol, somos alvo, também estão precisamente as relacionadas com os nossos maridos. Por exemplo, a julgar pela quantidade de "o teu marido deve ser corno" que eu leio, parece que uma mulher que tenha uma opinião futebolística tem várias vezes maior probabilidade de trair o marido. Reparem: não é de ser traída, deixando-nos emocionalmente devastadas, porque o adultério, quando cometido pelo homem, é obviamente um sinal de grande machice. É de sermos nós as traidoras! Imaginem, o horror! Portanto, por momentos até parece que o M. é que é a vítima deste comentário, mas, na verdade, sou eu, mulher que tem uma opinião sobre futebol, que sou capaz de ser uma grande porcalhona, ao ponto de enganar o meu marido. Bem visto.

Outro dos meus comentários preferidos é "como é possível teres marido...". Porque, como se sabe, uma mulher que não seja casada ou não esteja emocionalmente envolvida com um homem é o buraco negro da nossa sociedade. Deus nos livre dessas solteironas vadias que andam aí a fazer o que bem lhes apetece, vivendo sozinhas, saindo à noite, bebendo álcool e podendo fazer tudo aquilo que um bom marido não nos permite! Que cenário dantesco. Por outro lado, é quase bonito ver a sensibilidade com que tratam o M. nesta análise, como uma espécie de palmadinha nas costas de admiração pelo que ele atura. Apesar de ele ter uma mulher que fala sobre futebol, ainda assim, fica com ela. Fogo, vocês homens podem ser de uma grandiosidade incrível!

Não me entendam mal: vocês têm todo o direito de me insultar. Eu escrevo coisas bastante provocadoras e, tal como estou no meu direito de o fazer, há bastante gente que pode e deve não gostar. O problema é que poucas vezes me insultam por ser portista, por ser portuense, por gostar mais do Marega do que do Ronaldo. Normalmente, insultam-me por ser mulher. E é aí que isso passa a não ter piada (aliás, até há piadas machistas que me fazem rir, o problema é que não são estas). E vocês, machistas, têm de perceber uma coisa: não nos metem medo. Aliás, um machista que tem necessidade de escrever isto numa rede social dificilmente é algo mais do que precisamente uma pessoa com medo. Sim, há muitos homens que têm medo das mulheres, mesmo em coisas tão básicas como o futebol. Sentem-se ameaçados, querem calar-nos e fazer xixi naquele território só deles. E podem, e devem, ser insultados por isso.

"Men are afraid that women will laugh at them. Women are afraid that men will kill them."
Margaret Atwood, autora de The Handmaid's Tale

Agora, a juntar a estes, já podemos ter a alegada citação do novo treinador do Sporting. Porque o que nos faltava era precisamente uma voz machista no futebol! Não bastava, por exemplo, os clubes praticamente não terem mulheres em altos cargos, a Federação e a Liga idem aspas, as jornalistas desportivas serem vistas como caras bonitas, as atletas serem desvalorizadas e as nossas opiniões estarem em minoria em todos os painéis. Faltava esta desculpa. Agora já posso ler que o Mihajlovic é que tinha razão. IUPIIIIIIIIIII!!!

É por isso que lamento ver pessoas inteligentes a desvalorizar a imagem machista que o treinador do Sporting trouxe. Sim, o que interessa são as suas competências técnicas, ele até pode achar que as mulheres deviam ser proibidas de entrar nos estádios (já agora, as mulheres iranianas passaram agora a poder fazê-lo, viva!) que isso não influencia nada o seu trabalho. Claro que não, só influencia estes trogloditas que o vão citar para nos atingir.

Começa sempre assim: surge um maluco (machista, racista, o que for), diz umas coisas disparatadas, nós rimo-nos e gozamos com ele, os meios de comunicação social ridicularizam-no e dão-lhe o tempo de antena que ele precisa e depois lá há um momento em que alguém se identifica e pumbas. Trump quer construir um muro na fronteira com o México? AH! AH! AH! Que estupidez! E lá começam a surgir milhares de comentários nas redes sociais sobre como, afinal de contas, até pode ser uma boa ideia. E, de repente, ele é presidente dos Estados Unidos.

Não quero, com isto, comparar o treinador do Sporting ao presidente norte-americano, até porque para isso já há o presidente (suspenso?) do mesmo clube. Nem quero, assim, reduzir este tema a um problema de um dos meus rivais. Mas sim, quero desde já declarar que não vou tolerar este tipo de atitude - seja de um protagonista do nosso futebol, seja de um anónimo com tempo demais para escrever comentários no Facebook - sem dar luta.

Chega! Chega de filmar as mulheres na bancada e dos comentários sobre o jogo estar, assim, mais bonito! Há milhares de mulheres que vão à bola só porque gostam de futebol e muitas delas até são feias. Chega de entrar em campo com mulheres semi-despidas ao lado dos árbitros e dos jogadores! Porra, às vezes está um frio do caraças! Chega de fazer sorteios com decotes e sorrisos! Só queremos ver com qual equipa calha a nossa e torcer para que os rivais se lixem!

E viva! Viva todas as mulheres que têm de os aturar! Viva as mulheres que gostam de futebol! Viva as mulheres que vão ao estádio! Viva a Helena Costa que sabe mais do que muitos comentadores juntos! Viva as poucas que trabalham nos clubes e nas organizações ligadas ao futebol! Viva as jornalistas desportivas! Viva as atletas, as treinadoras e as árbitras! Viva as mulheres que têm opinião desportiva! Viva a minha avó, que não pode ver os jogos mais importantes porque se enerva! Viva a minha mãe e as minhas tias, que qualquer dia não podem ver os jogos mais importantes porque se enervam! E viva a nossa futura filha, que será mulher, feminista e, se tudo correr bem, louca por futebol!


9 comentários:

  1. Viva! Quem fala assim não é gaga!

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  2. É mesmo isto. Concordo em pleno com o artigo e já em 2015 escrevi isto...
    https://www.publico.pt/2015/12/15/p3/cronica/mulheres-nas-bancadas-1824926

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  3. Silvestre

    Totalmente de acordo!

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  4. Interessante, Catarina! Sou portista (de Angola) e leio-te (permita-me tratar-te por "tu", só por hoje, já fazes parte da mobília de casa) ha muito tempo. Actualizo a página do Expresso com frequência depois dos jogos do "Brazão abençoado" para ver se já fizeste a tua divertida análise.
    Não se concebe que um desporto que se quer agregador, sirva de meio de preconceito! Continue a escrever sobre futebol e eu, pelo menos, lerei com entusiasmo. Saudações campeãs!

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  5. Viva... Amei o texto e identifiquei-me com cada parágrafo.
    Lá em casa quando alguém quer saber alguma coisa sobre futebol... pergunta à Cila... porque também eu sou uma apaixonada por futebol e pelo FC Porto em especial. Quando num jantar entre amigos eu digo para a televisão... caramba mister... tás a perder o meio campo pah... mete o Oli! E a seguir o treinador faz realmente o que eu disse e todos os homens da casa... ah... foi sorte.. e as mulheres... ficam preocupadas porque cruzes... o futebol é para os homens... LOL
    Ps. adoro ler este blog, continuem o bom trabalho.
    Cila Ferreira

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