Com o nosso filho finalmente a dormir, depois de
cozinharmos, darmos-lhe o jantar, banho e depois de ter contado a história do
Nemo, a história da baleia e a história do pinguim (que o nosso filho exige
religiosamente antes de dormir e sempre por esta ordem), eu e a C. conseguimos
finalmente pousar no sofá e ver um episódio da série de documentários sobre os
Mundiais. A C. escolheu o Itália 90 sabendo de antemão que era um erro. O Itália
90 está para mim como a histórias do Nemo, da baleia e do pinguim estão para o
P.: sabemos aquilo de cor. Há várias coisas que eram importantes para a minha a
vida académica e que são para a profissional que eu nunca consegui decorar e
que sou obrigado a ir a uma cábula sempre que me deparo com elas. Há outras
coisas, igualmente úteis, que nunca consigo lembrar-me ou que nunca chegam ao
ponto de eu as saber para as poder esquecer em seguida. E estamos a falar de
coisas mundanas, grandes: no outro dia tive que perguntar à minha mulher onde é
que se guardava a tábua de engomar e descobri que era num sítio incrivelmente
visível no T2 que habitamos há ano e meio. Mas estas coisas podiam ocupar
espaço na minha cabeça e impedir-me de dizer Argentina 0 Camarões 1, golo de
Omam-Biyik, após um salto impressionante e com notável colaboração do
guarda-redes Pumpido, que depois se veio a lesionar (dando entrada Goycochea,
um dos heróis daquele torneio). Foi neste território de domínio absoluto e
quase tétrico que a C. assistiu ao documentário. Com a minha narração, com as
minhas antecipações (das quais destaco a minha imitação da dança de Chris
Waddle com a camisola da Bélgica após os oitavos de final antes do médio inglês
aparecer no ecrã) e com os meus acrescentos (é inenarrável que um documentário
sobre o Itália 90 não mostre Diego Armando Maradona a dizer “hijos de puta”
durante os assobios italianos ao hino argentino na final). Foi o meu regresso
ao meu Mundial, ao Mundial que me fez amar os Mundiais.
O Itália 90, que segundo os críticos foi um dos piores
mundiais de sempre (talvez ajude uma final paupérrima e a pior média de golos
por jogo) foi o meu primeiro. E o primeiro Mundial ou os Mundiais que vivemos
entre os 6 e os 12-14 anos são inigualáveis. Em 1990 eu tinha só 6 anos, mas
descobri, no dia 8 de Junho (esta fui ver à Wikipedia) que havia um país
chamado Camarões. Como é que um miúdo não fica deslumbrado com um torneio onde
aparece um país com nome de animal, com jogadores que dançavam na bandeirola de
canto quando marcavam? Este tipo de emoção, esta sensação de primeira vez,
ainda por cima associada a uma idade de realismo mágico e a uma era em que os
jogos eram raros, é marcante. É como se fosse uma tatuagem na personalidade. Aquele
torneio, que eu vi sozinho, sem escola, sem ter que contar as histórias do
Nemo, da baleia e do pinguim, entrou-me pelos olhos e nunca mais saiu. Os
empates e a violência das faltas não me afastaram, aliás, a hipótese de mais
meia hora de jogo e da emoção dos penalties só me viciou mais.
O meu Maradona é aquele, já decadente. Gascoigne será sempre
o das lágrimas e qualquer pessoa com o mínimo de decência estética admitirá que
todos os equipamentos daquele Mundial são obras de arte.
Depois de 1990 veio o Mundial de 1994, de Baggio e Romário,
que também devorei (os meus pais, premiando-me pelas boas notas, iam acordar-me
para ver os jogos de madrugada). Em 1998, adolescente, fui jogar à bola depois
dos penalties do Itália-França, mas também consigo dizer esse Mundial
praticamente todo (beneficiando das férias de Verão e da minha total inaptidão
social para querer sair à noite e fazer coisas que os miúdos de 14 anos
costumam querer fazer). 2002 já me apanha a estudar para os exames nacionais,
fazendo-me perder vários jogos. No Alemanha 2006 a época de exames também é um
empecilho e, por exemplo, só vi o prolongamento do mítico Alemanha-Itália. A
perda é inexorável e exponencial e em 2010 perco uma meia-final inteira por
estar a trabalhar e é numa urgência completamente vazia que consigo ver o golo
de Iniesta. Um estágio em Espanha em pleno 2014 tira-me alguns jogos na fase de
grupos e tenho sérias dificuldades em lembrar-me, por exemplo, do primeiro jogo
da Argentina (só me lembro do Irão e da Nigéria).
Não vos quero enganar, o Mundial continua a ser um marco
fulcral na minha vida, um acontecimento que eu sigo com toda a atenção e
entrega que consigo. O problema é que, entretanto, se meteu a vida – os estudos,
o trabalho, obrigações familiares – e a atenção e a entrega que eu consigo são
menores. Em 1990 eu não tinha obrigações nenhumas, como qualquer criança
ocidental de classe média (lembrei-me, a Argentina jogou o primeiro jogo com a
Bósnia em 2014). A minha vida foi devorar todos os jogos que a televisão
portuguesa e espanhola (sim, nós tínhamos Canal Sur e TVE) deram, gravar a cassete
com o programa resumo do Mundial da TVE e vê-la ao ponto de associar comentários
em espanhol aos lances mais míticos. Hoje, em 2018, posso admitir-vos que perdi o
penalty falhado de Messi contra a Islândia porque tive que montar móveis do
IKEA, nomeadamente uma estante Belly para livros, uma cama Busunge onde foi
colocado depois um colchão Nattsmyg, cuja fonética que me remeteu para Matts
Magnusson e para o Suécia-Brasil de 1990, com 6 jogadores do Benfica. E é por
isto que eu amo – e vou amar sempre – o Itália 90. Porque podia aprender países
novos, descobrir equipamentos e apaixonar-me por jogadores. Porque tinha tempo
para isso, porque a minha vida era isso. Nós não deixamos de amar os Mundiais, mas
é como se as relações passassem a ser à distância e cada vez maior. O Rússia
2018 fará parte de mim também e vou associá-lo a esta fase da minha vida, a não
conseguir ver os jogos porque estou a dar banho ao P. e a inventar diálogos
entre os bonecos dele e estou certo que um dia também terei saudades dele
porque me vou lembrar do meu filho pequeno e pensar que foi montar uma cama
dele que me tirou a desilusão de ver o meu jogador preferido falhar um penalty
no Mundial. O problema vai ser daqui a uns anos, quando me sentir um completo
ignorante a ver o resumo deste Campeonato do Mundo, incapaz de dizer um jogador
de Marrocos. Omam-Biyik vai estar sempre na minha memória, mas é provável que
do Rússia 2018 eu me lembre sempre daquele médio islandês,
o Busunge, que afinal era uma cama extensível de 160cm para 200cm.
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