terça-feira, 19 de junho de 2018

Omam-Biyik e Busunge

Com o nosso filho finalmente a dormir, depois de cozinharmos, darmos-lhe o jantar, banho e depois de ter contado a história do Nemo, a história da baleia e a história do pinguim (que o nosso filho exige religiosamente antes de dormir e sempre por esta ordem), eu e a C. conseguimos finalmente pousar no sofá e ver um episódio da série de documentários sobre os Mundiais. A C. escolheu o Itália 90 sabendo de antemão que era um erro. O Itália 90 está para mim como a histórias do Nemo, da baleia e do pinguim estão para o P.: sabemos aquilo de cor. Há várias coisas que eram importantes para a minha a vida académica e que são para a profissional que eu nunca consegui decorar e que sou obrigado a ir a uma cábula sempre que me deparo com elas. Há outras coisas, igualmente úteis, que nunca consigo lembrar-me ou que nunca chegam ao ponto de eu as saber para as poder esquecer em seguida. E estamos a falar de coisas mundanas, grandes: no outro dia tive que perguntar à minha mulher onde é que se guardava a tábua de engomar e descobri que era num sítio incrivelmente visível no T2 que habitamos há ano e meio. Mas estas coisas podiam ocupar espaço na minha cabeça e impedir-me de dizer Argentina 0 Camarões 1, golo de Omam-Biyik, após um salto impressionante e com notável colaboração do guarda-redes Pumpido, que depois se veio a lesionar (dando entrada Goycochea, um dos heróis daquele torneio). Foi neste território de domínio absoluto e quase tétrico que a C. assistiu ao documentário. Com a minha narração, com as minhas antecipações (das quais destaco a minha imitação da dança de Chris Waddle com a camisola da Bélgica após os oitavos de final antes do médio inglês aparecer no ecrã) e com os meus acrescentos (é inenarrável que um documentário sobre o Itália 90 não mostre Diego Armando Maradona a dizer “hijos de puta” durante os assobios italianos ao hino argentino na final). Foi o meu regresso ao meu Mundial, ao Mundial que me fez amar os Mundiais.



O Itália 90, que segundo os críticos foi um dos piores mundiais de sempre (talvez ajude uma final paupérrima e a pior média de golos por jogo) foi o meu primeiro. E o primeiro Mundial ou os Mundiais que vivemos entre os 6 e os 12-14 anos são inigualáveis. Em 1990 eu tinha só 6 anos, mas descobri, no dia 8 de Junho (esta fui ver à Wikipedia) que havia um país chamado Camarões. Como é que um miúdo não fica deslumbrado com um torneio onde aparece um país com nome de animal, com jogadores que dançavam na bandeirola de canto quando marcavam? Este tipo de emoção, esta sensação de primeira vez, ainda por cima associada a uma idade de realismo mágico e a uma era em que os jogos eram raros, é marcante. É como se fosse uma tatuagem na personalidade. Aquele torneio, que eu vi sozinho, sem escola, sem ter que contar as histórias do Nemo, da baleia e do pinguim, entrou-me pelos olhos e nunca mais saiu. Os empates e a violência das faltas não me afastaram, aliás, a hipótese de mais meia hora de jogo e da emoção dos penalties só me viciou mais.
O meu Maradona é aquele, já decadente. Gascoigne será sempre o das lágrimas e qualquer pessoa com o mínimo de decência estética admitirá que todos os equipamentos daquele Mundial são obras de arte.



Depois de 1990 veio o Mundial de 1994, de Baggio e Romário, que também devorei (os meus pais, premiando-me pelas boas notas, iam acordar-me para ver os jogos de madrugada). Em 1998, adolescente, fui jogar à bola depois dos penalties do Itália-França, mas também consigo dizer esse Mundial praticamente todo (beneficiando das férias de Verão e da minha total inaptidão social para querer sair à noite e fazer coisas que os miúdos de 14 anos costumam querer fazer). 2002 já me apanha a estudar para os exames nacionais, fazendo-me perder vários jogos. No Alemanha 2006 a época de exames também é um empecilho e, por exemplo, só vi o prolongamento do mítico Alemanha-Itália. A perda é inexorável e exponencial e em 2010 perco uma meia-final inteira por estar a trabalhar e é numa urgência completamente vazia que consigo ver o golo de Iniesta. Um estágio em Espanha em pleno 2014 tira-me alguns jogos na fase de grupos e tenho sérias dificuldades em lembrar-me, por exemplo, do primeiro jogo da Argentina (só me lembro do Irão e da Nigéria).


Não vos quero enganar, o Mundial continua a ser um marco fulcral na minha vida, um acontecimento que eu sigo com toda a atenção e entrega que consigo. O problema é que, entretanto, se meteu a vida – os estudos, o trabalho, obrigações familiares – e a atenção e a entrega que eu consigo são menores. Em 1990 eu não tinha obrigações nenhumas, como qualquer criança ocidental de classe média (lembrei-me, a Argentina jogou o primeiro jogo com a Bósnia em 2014). A minha vida foi devorar todos os jogos que a televisão portuguesa e espanhola (sim, nós tínhamos Canal Sur e TVE) deram, gravar a cassete com o programa resumo do Mundial da TVE e vê-la ao ponto de associar comentários em espanhol aos lances mais míticos. Hoje, em 2018, posso admitir-vos que perdi o penalty falhado de Messi contra a Islândia porque tive que montar móveis do IKEA, nomeadamente uma estante Belly para livros, uma cama Busunge onde foi colocado depois um colchão Nattsmyg, cuja fonética que me remeteu para Matts Magnusson e para o Suécia-Brasil de 1990, com 6 jogadores do Benfica. E é por isto que eu amo – e vou amar sempre – o Itália 90. Porque podia aprender países novos, descobrir equipamentos e apaixonar-me por jogadores. Porque tinha tempo para isso, porque a minha vida era isso. Nós não deixamos de amar os Mundiais, mas é como se as relações passassem a ser à distância e cada vez maior. O Rússia 2018 fará parte de mim também e vou associá-lo a esta fase da minha vida, a não conseguir ver os jogos porque estou a dar banho ao P. e a inventar diálogos entre os bonecos dele e estou certo que um dia também terei saudades dele porque me vou lembrar do meu filho pequeno e pensar que foi montar uma cama dele que me tirou a desilusão de ver o meu jogador preferido falhar um penalty no Mundial. O problema vai ser daqui a uns anos, quando me sentir um completo ignorante a ver o resumo deste Campeonato do Mundo, incapaz de dizer um jogador de Marrocos. Omam-Biyik vai estar sempre na minha memória, mas é provável que do Rússia 2018 eu me lembre sempre daquele médio islandês, o Busunge, que afinal era uma cama extensível de 160cm para 200cm.

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