Fomos convidados para comentar os 100 anos do primeiro Porto-benfica na TSF.
Podem ouvir aqui:
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Desporto/Interior.aspx?content_id=2445927
Obrigada por gostarem do nosso blog.
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
sábado, 28 de abril de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Benfica, Barça, Madrid e a melancolia
Falta pouco para se consumar o golpe definitivo numa época deprimente. Às vezes fico de olhos perdidos no sofá, a ignorar placidamente um jogo decisivo na liga inglesa ou italiana, recapitulando um a um os erros desta época. O método científico, que obriga a voltar atrás em todos os passos à procura do erro, aplicado ao Benfica é especialmente doloroso.
Meto, pela enésima vez, a "Sempre que o amor me quiser" pelos Linda Martini, e volto a ter vergonha da minha alegria depois daquele Benfica - Nacional e daquela jogada vertiginosa e suicida entre Aimar, Rodrigo e Gaitan.
Há uma melancolia tramada nas derrotas. Depois da frustração, das quase lágrimas nos olhos vermelhos e dos palavrões na garganta arranhada de gritar, uma pessoa dispersa. Encontramos livros, encontramos policiais. Aplicamo-nos no emprego. Eu volto à minha banda desenhada preferida (estou na 4ª leitura do 100 Bullets).
Entretenho-me, e muito, com o Barcelona - Madrid. Com a imprensa espanhola, com tudo o que este clássico mexe.
Imagino-me com a Catarina e com os nossos filhos quanto estivermos a ver o Europeu de 2032 e falaremos, pela enésima vez, do que significou na nossa época este Barça - Madrid. Falaremos destes jogos e do duelo Messi - Ronaldo e Mourinho - Guardiola como o meu Pai fala do penalty do Panenka.
Quando, em 2008, estudava para o exame da especialidade, tinha o costume de estudar de noite. Jantava, bebia um café e depois entretinha-me a decorar tabelas e frases daquele livro maldito até chegar a hora da natação nos Jogos Olímpicos de Pequim. Depois, acordava a minha mãe e víamos os dois o Phelps. Não que eu e a minha mãe sejamos fãs de natação (não vejo natação há... 4 anos) ou do Phelps. Mas era história que se ia fazer. História, com letras maiúsculas. E nós queríamos estar acordados e ver e sentir aquilo, essa grandiosidade. Esse privilégio de um dia podermos dizer: "Eu vi.".
Falámos disto com o HB, sportinguista, de 24 para 25 de Abril. Falaremos disto. Falaremos disto muitas horas, esmiuçaremos cada jogada, lembraremos este duelo sempre: a melhor equipa da história contra a mais cara. Como Anquetil e Poulidor.
Faz-me impressão que não se aprecie a história a acontecer à frente dos nossos olhos. Quando o Barça, com a maioria da equipa formada na sua cantera, com Guardiola no banco, se afogou naqueles jogadores do Chelsea, podemos ter assistido ao canto do cisne de uma equipa (quase?) perfeita, deliciosa nas suas tabelinhas, infantil na sua alegria. (Às horas a que escrevo, diz-se pela net que Guardiola não deve renovar).
O meu grande problema é que se este Barcelona - Madrid desaparecer, e quando digo este, refiro-me a Guardiola contra Mourinho, Messi contra Ronaldo e 937 milhões de euros investidos em Khedira, Benzema, Ozil, Xabi Alonso contra La Masia, com Iniesta e Xavi a trocarem a bola rente à relva e depressa, dizia eu, se este Barcelona - Madrid desaparecer, ser-me-à trágico. Trágico porque esta rivalidade, o nível futebolístico que se atingiu no 3-2 da Supertaça espanhola em Nou Camp, demorará anos a regressar. Este Barcelona - Madrid merecia uma final da Champions, com prolongamento, com polémica, com milhões colados ao ecrã a ver História e a poder dizer daqui a vários anos: "Eu vi.".
Mas não. Vai ser um Bayern - Chelsea. E sem distracções, volto ao Benfica. Suspiro. Vejo o Aimar lesionado no Benfica - Porto e é como se me observasse por fora do meu corpo, a gesticular, aflito. E depois a minha voz, gasta, rouca, a pedir o Matic e a tremer com o Rodrigo a acelerar lá do fundo.
A Catarina diz - e bem - que nas derrotas ela é mais raivosa, eu demasiado depressivo. São feitios e lamento se desiludo a secção vermelha que fala a minha língua e dos meus textos se espera encontrar aquelas palavras corajosas e audazes que animam qualquer um. Eu não sou assim. Fico profundamente triste e abatido. Não consigo imaginar o Marítimo a ganhar ao Porto porque não sou, simplesmente, assim. Eu sou um Benfiquista que não se entusiasmava com o Mantorras, portanto o problema é meu.
Um dia os meus filhos e da Catarina vão-me perguntar pelo Bayern - Chelsea e vou contar-lhes que foi uma pena o Ramires ("era um médio fabuloso, Eusébio" - direi eu ao nosso mais velho) não ter jogado, e logo de seguida uma enorme melancolia me invadirá. Vou-me perder a pensar no Barcelona de Guardiola e uma parte de mim tentará, ainda, adivinhar se teríamos ou não sido campeões se o Matic tivesse entrado pelo Aimar quando ganhávamos 2-1. Reescreverei 2011/2012 com um final feliz e sorrirei tristemente da minha melancolia pateta.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Sorri, José
Eu sou do FCPorto. E não conheço nenhum portista que não
tenha carinho por ti, mesmo que não o queira admitir. O que é o meu caso, a
maioria das vezes. Mas o que tu fizeste por cá, o que nós fizemos juntos, foi
único. E nós não nos esquecemos.
Há dias fáceis de recordar: o golo no último minuto em Manchester e a cidade
do Porto a tremer, como é óbvio. Mas há outros momentos que guardo como nossos,
meus e teus, de adepta e treinador a fazerem história. Foi em Alverca, faltavam
uns dias para o Natal. Um tempo horrível, uma viagem de camioneta interminável
e o Derlei lesionado. Um jogo mesmo mauzinho, ganhámos à rasca, de fato-macaco
vestido e foice na mão. No fim, estávamos todos cansados, a pensar que a cama
ainda estava tão longe e tu viraste-te para nós e sorriste, convencido que, se
até aqueles três pontos tínhamos conseguido, ninguém nos ia parar.
E assim foi. A Taça UEFA, a Champions, os campeonatos, as
outras taças. Não falhaste. Não falhámos. Foram anos bonitos, que ambos
sabíamos que tinham de terminar.
Como em qualquer relação vivida intensamente, a separação
não foi bonita. Não vou escondê-lo: foi fácil esquecer-te, mas foi muito difícil
superar-te. Ao longe, vi-te a levares a nossa alegria àqueles adeptos que mal
sabem o que é ganhar um título e senti sempre que não te mereciam, não aqueles
gajos que têm mais milhões do que campeões.
Depois saltaste para Itália e eu mal te pus a vista em cima.
Perdoem-me os defensores do Calcio, mas já não há pachorra para aquilo há muito
tempo. Ouvi dizer que criaste uma equipa de guerreiros e que voltaste ao topo
do futebol europeu, mas, sinceramente, acho que ambos já fizemos por esquecer
depressa aquele inter de 2010.
Fizeste bem em ir para Madrid. O real é um clube que te
assenta bem. Tem títulos, tem glória e tem muita necessidade de ganhar. Só não
contavas com este Barcelona. Na verdade, olhando para trás, nunca tinhas tido
um rival à altura. Nunca te tinha visto a ser humilhado como naquela noite da “manita”
ou em tantas outras que se seguiram. Guardiola trouxe-te um novo desafio: como
ser melhor do que os melhores de sempre. E a verdade é que tu conseguiste. Não
ser melhor, é um facto, mas pelo menos não ser pior. E ganhar.
Tu ganhaste-lhes. Quando ninguém esperava e quando meio
mundo torcia pela remontada do Barça neste campeonato. Conseguiste, já está,
vais ser campeão. No entanto, no fim, não estavas feliz. Agora, nunca estás.
Vejo-te sempre com ar de zangado, a responder mal aos jornalistas e sempre a
descarregar frustrações que normalmente não te atribuiria. Quando a tua equipa
está numa meia-final da Champions e precisa de ti, ajoelhas-te, resignas-te,
isolas-te com tristeza. O que te aconteceu pelo meio, José? Onde está aquele
Mourinho que eu vi correr sob o calor de Sevilha? Onde está o Mourinho que,
furioso, atirava casacos chiques para o chão? Onde está o Mourinho confiante
que iamos vencer à Grécia, de punho fechado e dentes cerrados?
Anima-te, homem! Volta a gostar de futebol, por favor. O real é dos maus, mas eu quero-te bem. Não
foste feito para ser o grande amor de um adepto, mas tenho a certeza que, se voltares a acreditar nos Derleis que por aí andam, ainda vais fazer muitas coisas bonitas. Esquece-te por momentos que ainda queres voltar a
treinar em Inglaterra, que queres ganhar a Champions pelo máximo de clubes
diferentes e que ainda tens muitas publicidades por gravar. Sê tu, o Mourinho
daquela noite de Alverca, e curte o momento. Tu mereces, vá.
domingo, 22 de abril de 2012
Até os comemos (sem tradução para catalão)
Sábado de clássico em Espanha é sábado de clássico em
Portugal. O país pára, os jornais destacam, o povo aprecia. Muito porque por cá
os ventos não sopram a favor da capital, é certo, mas sobretudo porque os
nossos dois grandes vizinhos são os melhores do mundo. Também eu me confesso:
adoro estes Barcelona-real madrid. Assim mesmo, um com maiúscula e o outro com
minúscula, porque nem tinha piada não estar a torcer por um dos lados da
barricada.
O Barcelona enche-me os olhos. Messi é de outro mundo. Xavi
e Iniesta fazem bem à bola. Guardiola é lindo de morrer. Nunca vi jogar assim,
mas o Barcelona é muito mais do que o tiki-taka. É uma região, uma identidade,
um símbolo de luta contra o poder central. É impossível não me identificar.
Mas fico-me por aqui. Quero que o Barça ganhe, gosto de os
ver, mas ontem nem sequer fiquei chateada. O real madrid foi melhor, Mourinho
deu baile, Ronaldo decidiu e ninguém fala do primeiro golo em fora-de-jogo
porque não foi ao contrário (também em Espanha, como cá, a arbitragem é pintada
como um grande monstro mau que faz os melhores ganharem títulos).
E é aqui que tudo se explica. O Barcelona não é o meu clube.
Se fosse, ontem tinha sido um dia muito difícil para mim. Tinha insultado o
Pep, batido no Tello e cuspido no namorado daquela manequim da Intimissimi que
não sabe falar inglês. Porra, nem quero imaginar. Nem conseguiria estar aqui a
escrever isto. Mas, felizmente, sou do Porto.
E o Porto, perdoem-me os tons de sobranceria, mas ontem não
tinha perdido aquele jogo. Num momento daqueles, com o rival ali em nossa casa,
mesmo ao nosso dispor, depois de terem estado com tamanha vantagem (conseguida
muito à custa de joguinhos com duas e três grandes penalidades por marcar), o
Porto não falharia. Os outros até tremiam só de pensar. Entrariam de cabeça
baixa, conformados, como que já à espera da natural humilhação que se iria
seguir.
Ao Barça, provavelmente a melhor equipa de sempre com
provavelmente o melhor jogador de sempre, faltou um “até os comemos” em
catalão. A classe que demonstraram em Madrid quando estavam a perder devia
ter-se transformado na garra que ontem deixaram em casa. Às vezes, mesmo sendo
uma equipa de meninos perfeitos patrocinada pela Unicef, é preciso ser-se um
grande filho da puta. E, ainda por cima, do outro lado estava alguém que sabe
transmitir isso como ninguém aos seus jogadores, mesmo que estes sejam idiotas,
burros e feios.
Nós, os adeptos do futebol, aplaudimos o campeonato vencido pelo real e esperamos pela final tão desejada da Champions. Mas nós, os portistas, ontem só sofremos com o FCPorto-beira-mar.
Jogo paciente, ligeiramente descontrolado na primeira parte e com os anormais
do costume a assobiarem. Por mim eram corridos todos a pontapé. Que vão torcer
pelo Barça, ou pelo real, ou por outro qualquer.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Obrigada, presidente
Tenho 25 anos. O Porto sem Pinto da Costa, para mim, não existe. Não vivi os tempos vis e cruéis de domínio dos clubes da capital, quando passar a ponte era uma ameaça temível e ganhar um campeonato em cada cinco era uma grande vitória. Desconheço os cinco violinos, nunca vi Eusébio jogar.
A minha avó fala de Pedroto com ternura, o meu avô ainda hoje diz que Cubillas foi o melhor jogador de sempre do Porto. A minha mãe festejou o primeiro campeonato com 19 anos, o meu pai esperou esse tempo todo para ver nas Antas o golo que mudou o futebol português.
FCPorto 1977/78 - golo de Ademir contra Benfica por blogdoblueboy
Admiro o portismo deles, mas não os invejo. Eu tive a sorte de crescer com os Aliados em festa, as buzinas a apitar toda a noite e a cidade sempre azul. Tinha seis meses e já andava a gritar golo do Madjer em Viena. Com 12 anos aprendi a palavra penta. Ainda menor, fui a Sevilha e Gelsenkirchen. Já mulher adulta e com responsabilidades, não podia perder Dublin.
Ser do FCPorto, para mim, não é só uma alegria e um enorme orgulho. É algo de óbvio, é o mais natural, é o que qualquer miúdo escolhe. Já não me surpreende ver portistas do Minho ao Algarve. Não estranho nada um adepto de azul com sotaque lisboeta. Quando viajo para qualquer parte do mundo, digo sempre de peito cheio que sou do Porto campeão europeu com Mourinho (e cuspo para o chão mentalmente quando me respondem que então sou do país do Ronaldo).
Para mim e para a FIFA, mas não para o Record e A Bola, o FCPorto é o melhor clube português, tem o melhor palmarés e um domínio como nunca se viu igual. O Porto mete medo aos outros, humilha-os, faz-lhes mal. O portista é o rei do local de trabalho, do café, da bancada. A conversa do maior de Portugal e da maior rivalidade se sentir na Segunda Circular já não faz sentido para ninguém com as suas faculdades mentais intactas (ou seja, excluindo o Record e A Bola). Cá em casa, eu sou a que ganha, o M. é o que sofre. E os nossos filhos terão todo o direito de escolher qual deles preferem.
É-me mesmo muito fácil amar este clube. Não só porque representa a minha cidade, a minha região, a minha gente, mas sobretudo porque me faz constantemente feliz. Com 25 anos, ser adepta do FCPorto é isso: é ser feliz. E devo-o a uma pessoa, que hoje completa 30 felizes anos ao leme desta nossa paixão.

Jorge Nuno Pinto da Costa.
De todos os portistas, os que conheceram Cubillas e Pedroto, os que estiveram 19 anos sem ganhar e que viram o golo do Ademir nas Antas, e os que, como eu, passaram a vida a comemorar títulos,
Muito, muito obrigada.
A minha avó fala de Pedroto com ternura, o meu avô ainda hoje diz que Cubillas foi o melhor jogador de sempre do Porto. A minha mãe festejou o primeiro campeonato com 19 anos, o meu pai esperou esse tempo todo para ver nas Antas o golo que mudou o futebol português.
FCPorto 1977/78 - golo de Ademir contra Benfica por blogdoblueboy
Admiro o portismo deles, mas não os invejo. Eu tive a sorte de crescer com os Aliados em festa, as buzinas a apitar toda a noite e a cidade sempre azul. Tinha seis meses e já andava a gritar golo do Madjer em Viena. Com 12 anos aprendi a palavra penta. Ainda menor, fui a Sevilha e Gelsenkirchen. Já mulher adulta e com responsabilidades, não podia perder Dublin.
Ser do FCPorto, para mim, não é só uma alegria e um enorme orgulho. É algo de óbvio, é o mais natural, é o que qualquer miúdo escolhe. Já não me surpreende ver portistas do Minho ao Algarve. Não estranho nada um adepto de azul com sotaque lisboeta. Quando viajo para qualquer parte do mundo, digo sempre de peito cheio que sou do Porto campeão europeu com Mourinho (e cuspo para o chão mentalmente quando me respondem que então sou do país do Ronaldo).
Para mim e para a FIFA, mas não para o Record e A Bola, o FCPorto é o melhor clube português, tem o melhor palmarés e um domínio como nunca se viu igual. O Porto mete medo aos outros, humilha-os, faz-lhes mal. O portista é o rei do local de trabalho, do café, da bancada. A conversa do maior de Portugal e da maior rivalidade se sentir na Segunda Circular já não faz sentido para ninguém com as suas faculdades mentais intactas (ou seja, excluindo o Record e A Bola). Cá em casa, eu sou a que ganha, o M. é o que sofre. E os nossos filhos terão todo o direito de escolher qual deles preferem.
É-me mesmo muito fácil amar este clube. Não só porque representa a minha cidade, a minha região, a minha gente, mas sobretudo porque me faz constantemente feliz. Com 25 anos, ser adepta do FCPorto é isso: é ser feliz. E devo-o a uma pessoa, que hoje completa 30 felizes anos ao leme desta nossa paixão.

Jorge Nuno Pinto da Costa.
De todos os portistas, os que conheceram Cubillas e Pedroto, os que estiveram 19 anos sem ganhar e que viram o golo do Ademir nas Antas, e os que, como eu, passaram a vida a comemorar títulos,
Muito, muito obrigada.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Benfica, um conto noir
Estava deitado no meu escritório de ressaca. Doía-me a cabeça e o corpo e o meu hálito ainda fedia a whisky. Ultimamente, com a falta de casos, andava a sair mais à noite para esquecer a crise: ser detective privado em tempos de austeridade não compensa. Foi aí que o telefone tocou (eu já não tinha casos há tanto tempo que nem me lembrava do toque do telefone). Quando atendi, a voz do outro lado soava preocupada.
"Detective M.?"
"Sim."
"Daqui é um adepto do Benfica. Vou precisar da sua ajuda."
"Farei o que puder."
"O Benfica desapareceu."
Ah, o Benfica. Acendi um cigarro e lembrei-me de 2009/2010, a última vez que beberamos um copo. Foi numa noite de chuva, na Luz, e acabámos a noite a dar um bom pontapé nos tomates do Porto. Foi uma boa noite, porque já não nos encontrávamos há uns bons anos. Tínhamos sido amigos desde sempre. Mas em 1995 o Benfica meteu-se com gente esquisita. Um tal de Artur Jorge, com a mania que era poeta, acabou por separá-lo de mim. De vez em quando telefonávamo-nos, mas desde aí senti que o Benfica tinha mudado. Um gajo não admite, mas sempre tive saudades dele e em 2009/2010 o reencontro foi mesmo bonito. Até fomos para os copos em Marselha. Mas os últimos dois anos foram esquisitos e o Benfica fez-me coisas que nem vos vou contar. Só que, apesar deste meu aspecto duro, sou um sentimentalão: eu tinha de aceitar o caso.
"Encontramo-nos na Luz daqui a uma hora."
Quando cheguei à Luz estava frio e chuviscava, como se Lisboa também sentisse falta do Benfica. Ao longe, cinco tipos bebiam cervejas numa roullote. Tive saudades de vir aqui com o Benfica. Acendi outro cigarro e estava a tentar não me arrepiar com recordações como Leverkusen quando o adepto me bateu no ombro.
"M.?"
"Muito prazer."
"Obrigado por ter aceite o caso."
"O que se passa? Quando foi a última vez que viu o Benfica?"
"Epá, o Benfica andava esquisito, mas animado, percebe? Um gajo via-o aí pelas ruas todo contente, como se tivesse o Mundo na mão e ninguém lhe quis dizer para ir trabalhar. O Benfica dizia que tinha tudo controlado e tal. E nós, os amigos mais chegados, acreditámos. Estávamos contentes de o ver assim, percebe? Depois de tudo o que o Benfica passou..."
"E o que é que aconteceu?"
"O Benfica foi para os copos em Guimarães e veio de lá um bocado marcado. A malta percebeu que a coisa já não ia tão bem. Depois foi a Coimbra e disse que tinha sido lá gamado e já andava a pedir guito à malta. Claro que para nós é difícil dizer que não..."
"Como assim?"
"Epá, é o Benfica."
"Mas não lhe disseram nada? Não era óbvio que as coisas andavam mal?"
"Eram, mas só quando tivemos aí uma noite má é que topámos. Estávamos todos aí na noite quando vimos o Porto a pontapear o Benfica no chão. Pontapés na cabeça, uma cena violenta, mesmo."
"Foda-se. Mas não sabem com quem é que o Benfica tem andado? Não há pistas."
"Epá, diz-se que o Benfica anda metido com um tipo da Amadora, o Jesus, não sei se já ouviste falar. Parece que o Jesus lhe prometeu trabalho e que ele ia ganhar o dobro, uma cena assim. Foi a última vez que soube do Benfica."
"Mete-te em casa, meu. O Jesus é um dos duros. Eu ligo-te quando tiver novidades."
Já tinha ouvido falar deste Jorge Jesus. Um tipo com fama de chico - esperto da Amadora. Cabelo esquisito, falar quase incompreensível. O tipo de gajo que tanto pode estar a beber um copo contigo como prestes a dar-te uma facada. Meti-me no carro e fui à Amadora.
Cheguei à Amadora e fui ter ao bar onde o Jesus costumava estar.
O ambiente era pesado. Motards da Amadora e muitos capangas. O Jesus era aquele tipo com a mania que é o rei da pista. Bebia a sua terceira Carlsberg cheio de si e a falar alto, contando histórias que pareciam inventadas sempre na primeira pessoa. Como é que o Benfica se tinha aproximado de um tipo assim? Cheguei-me ao pé do tipo e pedi um whisky.
"Sabes, Jesus, Carlsbergs qualquer um bebe. Podias era fazer-te homem e pedir um whisky."
O cabrão olhou para mim com aquele ar de marialva, desafiador, à espera que o bar todo o apoiasse se andássemos à porrada.
"Era mesme de um tipo come tu que eu estava à espera no sorteio para me animar o dia."
"Jesus, e se te deixasses de tangas e me dissesses onde é que está o Benfica?"
"Deves ter a mania, tu... O Benfica está muito bem d`sde ca começou a trabalhar pa mim e pó patrão. O Benfica é nosso, meu. E põe-te daqui pa fora."
Quem seria o patrão? A cara e o discurso do tipo estavam-me a irritar, mas o mais importante era desmascará-lo. Resolvi enervá-lo:
"Eu saio do bar, Jota. Não me quero meter com gajos que ficaram atrás do Nacional do Manuel Machado..."
O tipo enervou-se e sacou uma faca. Atirou-se todo para a frente contra mim. Só tive de me desviar e deixá-lo cair. Enchi-o de pontapés na cabeça. Não curto gajos que se acham superiores ao Benfica. Deixei o gajo cheio de sangue e o bar não fez nada. Afinal, muita gente não curtia o gajo.
Peguei-lhe na cabeça pelo cabelo pintado e disse-lhe ao ouvido: "O teu problema, Jesus... É que treinas mais o ataque do que a defesa.". Mas não valia a pena, o anormal já não respirava.
Acendi um cigarro fora do bar e enquanto matutava sobre quem seria o famoso patrão, um tipo argentino chegou-se a mim. Um Aimar.
"Mira: el jefe de Jesus es Vieira. Se echas a Vieira, recuperas el Benfica."
Vieira. Vieira. Só o nome pôs-me mal disposto. Esse tipo tinha uma fama do pior. Havia quem dissesse que ele era sócio do Porto. Só de me lembrar disso cuspi para o chão, enojado. Como é que o Benfica, o meu Benfica, tinha acabado misturado com esta gente? Com esta corja de aldrabões, de bandidos? O Vieira era conhecido como um escroque do pior: tráfico de jogadores em camiões, eleições muito duvidosas e um crescimento à custa de mentiras e jornalistas comprados.
Lembro-me vagamente do Benfica me ter falado nele. O cabrão prometeu ao Benfica ter uma super equipa a trabalhar com ele. Só portugueses (vão ser a tua espinha dorsal!, prometeu o bandido). Prometeu-lhe tudo: casa, finanças organizadas e uma vida do caraças. Na altura disse ao Benfica que a coisa me parecia suspeita (o tipo antes era amigo do Polvo), mas o Benfica estava a recuperar de uma fase difícil e deve ter acreditado.
Eu sei que o adepto é que mo tinha pedido, mas fazia-o mais por mim e pela minha ligação ao Benfica do que pelo caso em si. Verifiquei que o revólver tinha balas e mandei mensagem ao adepto para ir ter comigo à noite, ao meu escritório. Meti-me no carro e fui direito à mansão do Vieira.
A entrada estava bem guardada: aqueles guarda costas, o Delgado e o Gomes da Silva, tinham montado um bom esquema de segurança. Mas só contra os papalvos, porque as brechas eram demasiado evidentes. Saltei o muro d`"A Bola" e entrei calmamente.
Lá dentro a coisa tornou-se mais labiríntica. Tive que me esconder enquanto passavam cá para forma uma série de estrangeiros ilegais, claramente em tráfico: Zahovic, Pesaresi, Moretto, Marcel, Andrez Diaz e muitos outros pequenos bandidos há muito desaparecidos do submundo da Luz. Avancei por um longo corredor de revólver em punho e parei perto de uma porta entreaberta. Lá dentro, um homem conversava ao telefone: "...Está tratada a transferência para Zaragoza. Sim, sim. Depois falamos para Madrid outra vez. ... Não, não. Já te disse que este ano não. Depois do Sálvio e do Reyes dá muita cana.... Vá, um abraço, hombre"
Do Benfica nem sinal. Avancei em silêncio e encontrei a porta principal. Espreitei e lá estava o Benfica à mesa com o Vieira. Atrás dele, o emblema de 25 anos de sócio do Porto.
Entrei de repente, de pistola em punho.
"Anda, Benfica, vamos para casa."
"M.? Que é que fazes aqui?"
"Vim buscar-te. Há muita gente preocupada contigo. Larga este gajo, é um bandido, não te quer bem, só te quer usar."
O Benfica pareceu confuso, olhando para mim e para o Vieira alternadamente.
"Não sejas assim, M. Tu sabes que eu já estive pior. Lembras-te de quando eu me dava com o Vale?"
"Cala-te, caralho. E anda para casa. Nem Vales nem Vieiras. Caga neste gajo."
"Epá, M., tens de ter calma. O Sr. Vieira deu-me uma casa nova."
Peguei-lhe no braço e gritei-lhe: "Benfica: nos últimos onze anos, foste feliz? Diz-me, foste feliz? Saíste à rua, voaste pelo Marquês? Viajaste pela Europa, orgulhoso de ti? Diz-me, porra, diz-me!"
Mas, antes que o Benfica me respondesse, senti o ardor da primeira bala nas costas. Uma sensação quente e vazia ao mesmo tempo. Depois senti a segunda e a terceira bala nas costas e o sabor do sangue a vir-me à boca. Quando caí de joelhos, vi o adepto entrar, de arma na mão. Quando meus olhos começaram a ficar vermelhos, só tive tempo de o ver levar o Benfica outra vez para junto da secretária de Vieira. Tinha sido tramado e usado. Tinha matado o Jesus, mas o Benfica tinha ficado outra vez nas mãos de Vieira.
Caí desamparado, recordando aquela noite em Leverkusen, onde eu e o Benfica parecíamos unidos para sempre.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Chamem a polícia
Tive uma infância feliz. Nunca rachei a cabeça, gostava de ir à escola e não conhecia nenhum lagarto. Fui obrigada, portanto, a criar uma imagem do adepto do sportem à distância. Foram anos de estudos antropológicos através da Sporttv.
O lagarto, para a C. que não conhecia nenhum, era aquele gajo com um ar altivo, nobre, convencido até, que à primeira vista parece que está muito orgulhoso pelos feitos do seu clube, mas que afinal só acredita mesmo que nasceu com um sangue de cor diferente e que os genes valem mais do que as vitórias, porque essas, enfim, são uma miragem constante.
Imaginei sempre um adepto a tirar o cachecol muito bem arrumado da gaveta dos pólos e a colocá-lo aos ombros. Nunca percebi porquê, mas só os adeptos do sportem é que colocam o cachecol aos ombros, sem dobras ou nós ou essas coisas tão pouco fashion. E ele não cai! Se isto não é nobreza…
O cachecol está limpinho e é verde, uma cor horrível, ninguém se veste assim num dia normal. Mas lá vão eles, todos empertigados, para um dos estádios mais feios do mundo, cantar pela “equipa belíssima”. Belíssima? A sério? É mesmo assim que vocês gostam de adjectivar um grupo de 11 homens suados, valentões, machos à séria, como o José António Saraiva gosta? Adiante.
Entre mim e o sportem poderia ter nascido uma enorme indiferença nessa altura, mas não. Eu vi o que se passou em Campo Maior e percebi que tinha de odiar aquele clube. Vê-los a festejar o campeonato do Bruno Paixão (mas festejar à maluca, com alguns “bolas” e “poças” pelo meio, e o cachecol sempre sem cair dos ombros) gerou em mim uma animosidade tal que o lagarto desconhecido passou a ser realmente de uma elite, mas não de uma vanguarda cultural ou de uma minoria intelectual. Antes de uma elite parva, que acha que perder consecutivamente é ter uma oportunidade de mostrar ainda mais o seu amor, que sente a infelicidade como uma vantagem e que vai acabar a festejar quartos lugares. Ah, esperem, isso já aconteceu.
Esta elite acha-se um degrau acima de todos os outros adeptos, os que dizem asneiras e sujam os cachecóis, mas depois tem rapazes cocaínados a invadir relvados, comentadores aos gritos na televisão e pancadaria nas eleições. E, agora, tem um vice-presidente que pagou a um árbitro antes de um jogo. É bom demais para ser verdade.
Que me perdoem os verdadeiros adeptos do sportem que entretanto conheci. O J., que sofre como nós, que diz asneiras e que aposto que tem um cachecol sujo. O pequeno J., que chorou quando o Moutinho saiu e que me disse que não vê jogos do Porto e do benfica (o meu sonho é conseguir ter este deprezo pelos adversários). Também os há, é verdade, e espero que não leiam este meu desabafo dirigido a todos os lagartos que hoje viram a PJ encontrar um clube corrupto, com armadilhas sombrias e trapaceiros ao leme.
Muitos hão-de gritar e espernear que eu e o M. não temos moral nenhuma para vos atirar isto à cara. Pois não, não temos. Mas a partir de agora, finalmente, vocês também não.
O lagarto, para a C. que não conhecia nenhum, era aquele gajo com um ar altivo, nobre, convencido até, que à primeira vista parece que está muito orgulhoso pelos feitos do seu clube, mas que afinal só acredita mesmo que nasceu com um sangue de cor diferente e que os genes valem mais do que as vitórias, porque essas, enfim, são uma miragem constante.
Imaginei sempre um adepto a tirar o cachecol muito bem arrumado da gaveta dos pólos e a colocá-lo aos ombros. Nunca percebi porquê, mas só os adeptos do sportem é que colocam o cachecol aos ombros, sem dobras ou nós ou essas coisas tão pouco fashion. E ele não cai! Se isto não é nobreza…
O cachecol está limpinho e é verde, uma cor horrível, ninguém se veste assim num dia normal. Mas lá vão eles, todos empertigados, para um dos estádios mais feios do mundo, cantar pela “equipa belíssima”. Belíssima? A sério? É mesmo assim que vocês gostam de adjectivar um grupo de 11 homens suados, valentões, machos à séria, como o José António Saraiva gosta? Adiante.
Entre mim e o sportem poderia ter nascido uma enorme indiferença nessa altura, mas não. Eu vi o que se passou em Campo Maior e percebi que tinha de odiar aquele clube. Vê-los a festejar o campeonato do Bruno Paixão (mas festejar à maluca, com alguns “bolas” e “poças” pelo meio, e o cachecol sempre sem cair dos ombros) gerou em mim uma animosidade tal que o lagarto desconhecido passou a ser realmente de uma elite, mas não de uma vanguarda cultural ou de uma minoria intelectual. Antes de uma elite parva, que acha que perder consecutivamente é ter uma oportunidade de mostrar ainda mais o seu amor, que sente a infelicidade como uma vantagem e que vai acabar a festejar quartos lugares. Ah, esperem, isso já aconteceu.
Esta elite acha-se um degrau acima de todos os outros adeptos, os que dizem asneiras e sujam os cachecóis, mas depois tem rapazes cocaínados a invadir relvados, comentadores aos gritos na televisão e pancadaria nas eleições. E, agora, tem um vice-presidente que pagou a um árbitro antes de um jogo. É bom demais para ser verdade.
Que me perdoem os verdadeiros adeptos do sportem que entretanto conheci. O J., que sofre como nós, que diz asneiras e que aposto que tem um cachecol sujo. O pequeno J., que chorou quando o Moutinho saiu e que me disse que não vê jogos do Porto e do benfica (o meu sonho é conseguir ter este deprezo pelos adversários). Também os há, é verdade, e espero que não leiam este meu desabafo dirigido a todos os lagartos que hoje viram a PJ encontrar um clube corrupto, com armadilhas sombrias e trapaceiros ao leme.
Muitos hão-de gritar e espernear que eu e o M. não temos moral nenhuma para vos atirar isto à cara. Pois não, não temos. Mas a partir de agora, finalmente, vocês também não.
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